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quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Coisas de um menino pobre



Menino, vai até o mercado comprar peixe. Quero um peixe grande e barato. Traz o troco direito. A voz da minha mãe impunha respeito, pra não dizer muito medo mesmo, afinal de contas não tínhamos muita coisa em comum, exceto aquele antigo cordão. Corri para o mercado de Vigia por volta de cinco da tarde. Idade? Oito anos.
Não foi difícil arrumar a encomenda. Chegando à salgadeira, como chamávamos o piso de madeira onde de noite montanhas de peixes eram salgados, avistei uma espécime única. Peixão. – Quanto custa, senhor? perguntei, sem indagar mais nada. – Custa tanto, respondeu o homem, levando-me a calcular rapidamente o troco que levaria pra casa. – Eu quero! Paguei, e comecei o caminho de volta, árduo caminho, pois o peixe era tão grande que eu não conseguia carregá-lo com facilidade.
Bastava seguir uma reta. A rua que saía do mercado chegava à casa da mamãe, exatamente no ponto extremo. Lá vou eu, feliz da vida, arrastando o peixe. Mas a felicidade de pobre dura pouco, sempre ouvia esse agouro. E não deu outra. Entrei pela cozinha para não estragar a surpresa. Quando mamãe avistou o peixe, ficou possuída de todos os ódios: – Não quero esse peixe! O que tu compraste, pequeno? Por que compraste esse cará-açu? Completamente transtornada de raiva, ela arrancou o peixe da minha mão e jogou o bicho pela janela da sala, alcançando a beira da vala do outro lado.
Corri rápido para recuperar a encomenda, sacudi a terra do peixe e comecei o caminho de volta. Estava morrendo de medo, mas a ordem era desfazer a compra. Fui buscar reforço. Andei mais uns quarteirões e compartilhei o drama com a minha avó materna, que, solidariamente, foi comigo até o mercado. Agora eram dois carregando o enorme peixe. Com um pedaço de cabo de vassoura atravessando a cabeça daquele jantar rejeitado, lá íamos nós torcendo para encontrar o peixeiro. Que peixeiro, que nada! O homem já devia estar de boa em casa. O jeito foi pegar a reta de novo.
Minha tia Branca, que, sentada à porta de casa, vira-me passar da primeira vez, ficou agora encabulada: “Meu Deus! O que o Rui faz com esse peixe do mercado, se ele acabou de passar aqui? E a mamãe... o que ela tá fazendo agora com ele?” Bem, uma parada para explicar tudo e prosseguir. A noite estava chegado quando, enfim, chegamos de volta. A presença da vovó evitou-me mais danos, porém, não acalmou a mamãe furiosa. Ela não queria o peixe de jeito maneira, pois, segundo ela, o bicho tem a carne doce. Meu Deus, que desespero! Daqui a pouco, o peixe ia estragar. Caso sem solução.
Mas Deus vela pelos pequeninos. Apareceu uma alma bondosa. Não sei o nome, só o apelido. Era chamado de Bacurau, o qual, vendo toda a cena que a mamãe fazia, resolveu revelar seus apetites: eis o peixe preferido do Bacurau. Graças a Deus! Bacurau comprou o peixe e eu me livrei do pior.
A pobreza tem seus gracejos. Lembro das várias ocasiões em que em casa nem peixe doce nem salgado. Fome. Jejum total. Pra completar, eu estudava no horário intermediário, entrando cerca de onze e saindo às duas da tarde. Azul de fome. Meus colegas vigienses desfilavam o cardápio: “Hoje, vou comer carne!”, dizia um. “Eu vou comer dourada frita”, respondia outro, até que a pergunta chegava a mim. “Eu vou comer gurijuba com feijão”, mentia eu, falando do meu prato favorito. Em casa, nem farinha. Graças a Deus havia água. Bebia tanto que acho ter ultrapassado essa média dos três quartos.
Nesse tempo, até papagaio me perturbava. Morando com um casal de velhinhos em Macapá, por questão de saúde os dois viajaram. Fiquei só com um papagaio. Não almocei. Não jantei. Pela manhã, acordei morto de fome. Café nem sinal. Nada. Apenas a velha e boa água. Eu estava assim lamentando a sorte na cozinha quando o velho papagaio falou tudo que sabia falar de manhã cedo: “Café! Café! Café!”. Bem, agora fui eu quem ficou irado. “Cala a boca, papagaio! Não tem café pra ninguém”. “Café! Café! Café!”, insistia a ave resmungadora. Foi a gota d’água. Peguei uma vassoura e parti para o ataque. Eu estava descontrolado. Eu tinha quinze anos de fome, mas sempre sobrevivi, agora não dava para ouvir um louro me encher o saco.
O papagaio ficou muito assustado que ganhou o quintal dos vizinhos. Foi difícil recuperar. Tive que pular a cerca. Uma. Duas. Três ou mais vezes. Até que recuperei a confiança daquela ave zombeteira. Voltamos pra casa os dois para lamentar a nossa sorte. Não tinha café. E papagaio tem a carne dura.

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quarta-feira, 26 de agosto de 2015

O acusado político



Ao ver a mídia nacional dar ampla cobertura à denúncia contra o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, fui despertado para essa situação sui generis de que usufrui a figura dos políticos quando acusados.
Em matéria criminal, todo acusado comum tem nos autos do processo o meio para exercer a sua defesa. Porém, com políticos não é assim. Depois de sofrerem alguma acusação séria e, como no caso de Cunha, serem mesmo processados, políticos ocupam a vitrine para negar a acusação e até tentar ridicularizar o Ministério Público e o Judiciário. Independentemente de culpa ou inocência, é esse espaço que chama a minha atenção.
Ouvimos constantemente políticos afirmarem que as instituições precisam ser respeitadas. Isto nos faz pensar que raramente o Ministério Público iria denunciar alguém graciosamente. Sabemos que é crime imputar conduta criminosa a alguém quando se sabe que essa pessoa é inocente. O Ministério Público, assim como o Judiciário e todo o ordenamento jurídico, está assentado no fundamento da verdade.
A acusação faz parte da democracia. Sua outra face é a defesa. Trata-se de um processo democrático mesmo, onde uma pessoa só é declarada culpada depois de uma sentença irrecorrível. Portanto, a acusação é apenas o começo da trilha, devendo ser recebida com a seriedade que as instituições merecem. Se, ao fim do processo, o Judiciário arquivar ou inocentar, ninguém tem juridicamente o direito de apontar o dedo. É inocente.
Agora, interessante essa vitrine. Não bastasse a possibilidade da existência do ilícito, o fato ainda é utilizado para denegrir a imagem das instituições processantes e de pessoas que estejam na outra ponta dessa relação processual. A ideia depreciativa dessas instituições é um grande mal ao avanço da democracia. Sim, porque se um parlamentar federal vem a público dizer que a Procuradoria Geral da República e o STF não são órgãos sérios, o que nós, simples mortais, teremos de pensar dessas instituições?
Acredito que deveríamos avançar mais em âmbito de direito eleitoral. Avançar em termos processuais para coibir esse estado de coisas. Talvez para resguardar a verdade, nosso ordenamento precisasse dizer que, em sendo instaurada uma ação, ficaria vedado qualquer tipo de comentário, fosse da parte do acusado, fosse do órgão processante. Isto evitaria tantos juízos de valor. Evitaria muitos danos. E pouparia a população.
O foro privilegiado dos políticos não lhes confere a prerrogativa de usar a mídia para fins de defesa. Não é este o fórum. A defesa acontece nos autos. Então, seria salutar que não se antecipassem discursos apologéticos, muito menos discursos condenatórios das instituições e autoridades envolvidas.
Alguém poderia pensar que esta ideia de silêncio seria atentatória contra a democracia. Acredito que não. Hoje, é muito desigual a abordagem dos agentes. Não recordo de ter visto a Procuradoria da República estar a todo tempo acenando com uma denúncia. Não recordo nem mesmo de alguma entrevista coletiva onde anunciasse a sua decisão de fazer isso, etc. Pode ter havido algum barulho, mas nada comparado ao que nos vem depois de protocolizada a denúncia e de ser instaurada de fato a ação. A desproporção está aí. A desigualdade. A conduta nada democrática, pois o que o Ministério Público diz está escrito nos autos.
Como observa Anelise de Nazaré, em certo trabalho, em se tratando de matéria eleitoral, é de suma importância lembrar que o cargo político não constitui, em si, um privilégio, mas um encargo. Um encargo conferido por aqueles que depositaram confiança no indivíduo ou na sua legenda partidária, com o intuito de construir e defender o Estado e a democracia. E o Estado, ente figurado, é composto pelos Três Poderes: o Legislativo, o Executivo e o Judiciário; pelas Funções Essenciais à Justiça, como o Ministério Público e a Defensoria Pública; por princípios e, o essencial, pelos seus cidadãos.
Criticar a legitimidade de um destes é deslegitimar toda uma estrutura construída a partir de profundas reflexões acerca de direitos, que foram suprimidos durante o regime ditatorial e resgatados na redemocratização. De certo modo, a postura do presidente da Câmara diante das investigações consolida a visão de que, ao exercerem o mandato político, os parlamentares organizam-se em uma roda diante da “fogueira da vaidade” e as Casas Legislativas são o céu, que é pequeno para tantas estrelas. Não ameace apagar o fogo ou ofuscar o brilhantismo de um, mesmo se for em defesa do Estado e da Democracia.

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quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Eles querem o despojo



Reconhecemos que atravessamos uma tempestuosa crise, mas não dá para acreditar que a saída da Dilma mudaria isso. Não a simples saída. Dilma não está só. Com ela estão os partidos políticos. Com ela estão milhares de pessoas que tiram proveito desse caos. Vivemos este tempo: quando as aves de rapina descem ao Planalto morrendo de fome. Não estão interessadas na salvação do País, porém, tudo farão para conquistar um pedaço do despojo. Se a veia de ouro foi arrancada da Petrobras, interessa-lhes agora lavar toda essa areia suja e garimpar o que ninguém vê.
Nós já passamos por um impeachment. Não foi uma experiência boa. O Collor voltou. E agora nos deparamos com um quadro muito pior, o que prova que a questão não se resolve com um impeachment pontual. Não. Nosso problema é muito mais sério. Tem a ver com falta de formação política. Votamos mal. Sofremos de amnésia política crônica. A geração do mundo virtual me parece mais desconectada que o bloco dos caras-pintadas. Parece que não é conosco. Tirar a Dilma pra quê? Vamos quebrar de vez o Brasil. Por que há alguns fazendo campanha por isso na mídia nacional? Todos são patriotas? Alguns deles não estão chateados porque ficaram fora da partilha do despojo? Ah, santa paciência! No Brasil ainda tem gente que pensa.
A política federal é a maior empresa do País. Uma indústria de gente. É com esse povo que o governo gasta grande parte dos recursos públicos, isso em tempos de paz. Agora, quando a guerra estourou de vez, esse bando de aves de rapina se apresenta feroz querendo dividir o que sobrou. Não adianta tirar a Dilma. Teríamos de tirar dezenas, centenas, milhares até. Renovar o Congresso. Mudar a forma de nomeação do STF e do MP. Passar a régua. Implantar valores morais e éticos. Difícil. Muito difícil.
Eu estou indignado com o estado do Brasil. Mas sei que a saída da Dilma não basta. Minha indignação aumenta quando vejo a Presidente aumentar o poder nas mãos de alguns. Indignado pela provável dança das cadeiras. Indignado porque muito poder tem de ser dado para que ela não saia. Indignado com essas aves de rapina, que enriquecem ainda mais com a nossa desgraça.
Acreditaríamos numa política séria se a Dilma pudesse retomar as rédeas do Brasil usando para isso apenas o poder que recebeu das mãos do povo. Mas não pode. Não no Brasil. Ela não pode dar um passo. As aves de rapina estão à sua volta. Querem o despojo. É essa gente que nos governará em caso de impeachment. Sai a Dilma, permanece a máquina envenenada. Brasil natimorto. Nada muda este País. Nem política nem igrejas. País católico, país politicamente pagão. País evangélico, país ímpio. Desculpem-me, mas, se mudança há, isso deve obra para as próximas gerações.
Gostaríamos de ver a democracia se firmar no Brasil. Gostaríamos de ver corruptos fora do governo. Um Congresso decente. Judiciário imparcial. Ministério Público livre. Igrejas cumprindo o seu papel de luz e sal desta terra brasileira. Estamos a anos-luz deste ideal. Assistimos hoje a uma corrida pela partilha. Partilha da nossa desgraça. Do resto, que mesmo sendo resto, não chegou às mãos do povo. Eles querem o despojo.
Acredito que somente uma conscientização política mudará esse quadro. Mas temos uma relação de causa-efeito. Não temos educação, como teremos formação política? Universidades paralisam meses, como podemos falar de estudo sério? Estados ainda se negam a pagar o piso salarial de professores: como acreditar nessa cidadania? Resta voltar nossa atenção para a sociedade organizada, mas onde está essa vontade? A má política é um câncer. Metástase por todos os ramos. Quase todo mundo quer uma parte do despojo. Ninguém liga se tem criança na rua. Essa questão do amor ao próximo é conversa pra boi dormir. Excelente argumento de igreja. Aqui, do lado de fora, cada qual por si e Deus contra todos.

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quarta-feira, 8 de julho de 2015

A redução da maioridade do Estado



Aparentemente, a discussão é sobre a maioridade penal. Para mim, o que está em pauta mesmo é a redução da maioridade do Estado brasileiro. Para mim, reduzir a idade para punir é confessar a falência do nosso sistema político-social.
O Brasil agoniza num mar de sangue. Nossa população carcerária passa de setecentos mil presos. Uma grande cidade vive atrás das grades. Uma cidade que não produz, não regenera e que custa muito caro para os que estão do lado de fora. E agora alguns querem aumentar o contingente recluso, quem sabe sonhando que a população carcerária chegue rapidamente a um milhão de almas.
Enquanto o Brasil vive esse estado de guerra, faltam políticas públicas sérias para reduzir a criminalidade. O Estado gasta horrores com autopublicidade. Gasta horrores com os apadrinhados. Perde horrores pela corrupção. E não vemos um programa sério que a médio prazo mude a cara do Brasil.
Reduzir a maioridade para punir é a máxima confissão de falência. Significa dizer: “Eu deveria formar cidadãos e promover a paz social. Como não faço isso através da educação e de apoio psicossocial às famílias, então vou reduzir a maioridade penal, a fim de que encerre adolescentes atrás das grades.” Na verdade, o Estado brasileiro é que está reduzindo a sua maioridade. Confessando sua inércia. Admitindo seu fracasso enquanto administrador do dinheiro público.
Nações desenvolvidas lutam para diminuir a face tenebrosa das prisões. Fecham presídios. Adotam medidas alternativas, que poupem pessoas e o Estado desse tipo de coisas e trabalhem a efetiva ressocialização. Republiquetas pregam o terror das prisões, quando sabemos que estas não resolvem a questão da criminalidade. A leitura que o Estado deveria fazer é esta: se o crime está descendo à faixa etária da sua população é porque não existe eficácia nas ações públicas. O Estado deveria reconhecer que perdeu a maioridade e deveria ser punido de alguma forma por isso.
Embora saibamos que segmentos governamentais nem sempre apoiam a redução da maioridade penal, em linhas gerais, é o Estado quem está buscando isso por meio do Parlamento. É triste vermos apologistas despreparados no Congresso festejando a aprovação da maioridade pela Câmara. É triste que uma matéria como esta tenha sido votada no silêncio da madrugada. É triste que até pastores parlamentares defendam a redução da maioridade penal quando deveriam trabalhar para a efetiva mudança da sociedade. Nosso parlamento precisa estudar com os mestres da criminologia. Precisa ler um pouco de ciência humana. Precisa pelo menos visitar as cadeias uma vez por ano.
Ora, reduzir a idade penal é colocar o lixo debaixo do tapete. Escamotear. Apresentar a mentira como verdade. A questão é bem mais profunda. Tem a ver com as mazelas sociais desta nação. Estrutural. Conjuntural. Tem a ver com a desagregação dos valores da família e do trabalho. Mandar adolescentes para a cadeia implica fomentar ainda mais isso. Abandoná-los. Tirar-lhes de vez a chance de frequentarem uma escola e deixá-los à mercê do crime organizado instalado nas penitenciárias. Para tratar a questão da criminalidade abaixo dos dezoito anos temos o Estatuto da Criança e do Adolescente, uma lei avançada, que precisa ser aprimorada cientificamente de acordo com a nossa realidade brasileira.
Resta provado que o sistema prisional é algo falido. Setecentas mil pessoas atrás das grades. Milhões e milhões expostos diariamente a toda sorte de delito aqui do lado de fora. A maior prova dessa falência está agora nessa tentativa de arrastão do Estado. Arrastão de adolescentes para encerrá-los atrás das grades. Se definitivamente a redução da maioridade penal for estabelecida no Brasil, resta claro para mim que o Estado brasileiro perdeu mais uma vez a maturidade.

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quarta-feira, 10 de junho de 2015

Os humildes começos da Assembleia de Deus



A Assembleia de Deus completará 104 anos de fundação no próximo dia 18. Nasceu aqui, sabemos. Hoje, quero refletir com você sobre aqueles humildes começos dessa que se tornou a maior igreja evangélica brasileira e, em termos de movimento protestante moderno, a maior igreja do mundo.
Era uma tarde quente de verão quando o navio “Clement” aportou em águas belenenses. 1910. Dia da Bandeira. No meio da tripulação, dois jovens suecos solteiros: Daniel Berg e Gunnar Vingren (na imagem). Procediam dos Estados Unidos, onde trabalhavam há alguns anos para sobreviver à crise financeira que assolava a Escandinávia. De berço batista, estavam bastante tocados por um movimento de avivamento espiritual que varria a América e parte da Europa, com ênfase na vida consagrada a Deus pela oração e pelo recebimento de dons. Reacendia-se, assim, a chama pentecostal das missões transculturais.
Foi muito difícil para os missionários. Dependiam da Providência para tudo. Não tinham dinheiro para as passagens do Clement. Não sabiam falar português. Viajaram no porão suportando calor, barulho e o vômito que se misturava à serragem lançada no chão para mitigar o desconforto. Durante catorze dias, receberam um prato de sopa. A mala de roupas ficara retida em Nova Iorque por causa de uma greve na alfândega. Portanto, usavam as mesmas vestes pesadas do embarque friorento na América.
Em Belém, ninguém os esperava. Gastaram as penúltimas moedas numa modesta pensão da Rua João Alfredo, até que o bondinho que os levaria à Primeira Igreja Batista na manhã seguinte limpasse-lhes o bolso. Era o dia 20 de novembro de 1910. Foi nesta data que Vingren e Berg foram recebidos e hospedados por um baixo aluguel no porão daquele templo, situado na Rua João Balby, antigo número 406. Foi um apoio importantíssimo, um gesto fraternal louvável pela coragem de receber dois estrangeiros, mas sabemos que esse apoio findou na noite de 13 de junho de 1911, quando alguns anfitriões não puderam mais conviver com a mensagem entusiasta dos jovens missionários e os “desligaram” da congregação.
Naquela noite, Daniel Berg e Gunnar Vingren perderam aparentemente toda base. De uma vez, estavam sem igreja e sem ter onde morar. Sob o céu de Belém, ali na calçada da igreja, alguns irmãos foram se solidarizar com os missionários, tendo o casal Henrique e Celina Albuquerque oferecido um abrigo na casa da família, situada na Rua Siqueira Mendes. Foi ali, ao lado da Catedral da Sé, que Daniel Berg e Gunnar Vingren e mais dezenove irmãos egressos da Primeira Igreja Batista fundaram a “Missão da Fé Apostólica” no domingo de 18 de junho. Mas, as lutas só estavam começando.
Grande foi a perseguição religiosa contra a Assembleia de Deus. Batismos em águas tinham de ser realizados de noite. Em Mosqueiro, moradores tentaram queimar a casa onde Gunnar Vingren repousava muito doente. Para não morrer, ardendo de febre, o missionário saiu rastejando no igapó em plena madrugada. Mesmo assim foi perseguido e caçado com uso de cães. Escapou, mas teve o corpo dilacerado por espinhos. Em Quatipuru, toda a igreja foi presa depois de um culto e, na manhã seguinte, Daniel Berg e os irmãos, sem dormir e com fome, obrigados pelas autoridades a capinar o cemitério da cidade, só concluindo a tarefa cerca do meio-dia.
Perigos de todos os lados. Naufrágios no Marajó. Cobras. Jacarés. Onça. Mas nada se comparava à perseguição humana. No Amapá, foram saqueados os pertences do missionário Clímaco Bueno Aza e suas Bíblias foram queimadas em praça pública. Fome. Enquanto Daniel Berg enfrentava os perigos no interior, em Belém, a família de Gunnar Vingren padecia necessidade. “Ó, Frida, o que temos hoje para comer?”, perguntava o primeiro pastor da Assembleia de Deus à esposa. “Bucho, só bucho, nada mais”. Esta era uma cena comum, relatada a mim por uma pioneira que ainda vive, cuja mãe ajudava os missionários na época do nascimento do filho Ivar Vingren.
Em 1911, pouquinhos crentes. O pouco dinheiro doado empregava-se principalmente para socorrer pobres e doentes. Em 1914, quando a Assembleia se mudou para o seu primeiro templo, na Nove de Janeiro, a congregação não chegava a cem pessoas. A renda era mínima. Samuel Nyström, segundo pastor, vivia num quarto pobre e utilizava caixotes como móveis. Tudo era mesmo muito difícil naqueles humildes começos. Cultos eram interrompidos pelas pedradas. O sangue descia, mas a fé se fortalecia. A mão que atirava a pedra mais tarde seguraria a Bíblia, trocando o ódio pela doce “Paz do Senhor!”.

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quarta-feira, 3 de junho de 2015

Assédio nos ônibus urbanos



Acredito que grande parte da população brasileira não saiba que o transporte urbano é um serviço público. E, por essa falta de consciência, muita gente sofre calada os piores tipos de abuso no interior dos ônibus que rodam nas cidades. Gostaria, hoje, de conversar com você sobre esse importante serviço e sobre o quanto ele se tornou um meio constrangedor, para não dizer perigoso. Gostaria que empresários, profissionais da área, parlamentares e gestores públicos lessem este artigo e fizessem alguma coisa para restaurar o direito da população.
Andar de ônibus no Brasil é uma das piores aventuras. Durante todo o trajeto, inúmeras pessoas não passageiras são admitidas para vender um variado mundo de coisas. Outras simplesmente pedem algum tipo de ajuda material. Nada contra o estado de penúria do nosso semelhante. Nada contra ajudar quem precisa, porém, é preciso dar ao passageiro o direito de ir e vir sem ser molestado.
Quando entramos numa condução urbana, acabamos de realizar um negócio jurídico municipal. Celebramos um contrato que nos garante um transporte seguro até o nosso destino. Esse contrato é firmado através da tarifa que pagamos. Veja que as empresas de ônibus não podem reajustar o preço das passagens. Podem sugerir. Não podem reajustar porque somente o prefeito da cidade tem autoridade para realizar esse ato. Então, cada passageiro é um usuário desse serviço público. As empresas exploram os itinerários criados pelo Estado. Não podem criar novas linhas. Não podem suprimi-las. Cabe ao governo abrir licitações sob a modalidade de concessão. O transporte urbano é um serviço público.
Agora, veja a qualidade do serviço que a nossa população está recebendo. Você entra num ônibus neste Brasil, e não tem mais sossego, principalmente em algumas linhas. Até supostos ex-presidiários aparecem para constranger o passageiro. Depois de contar toda uma história, o sujeito pode sair-se com esta pérola: “Olha, gente, eu sei roubar, mas preferi entrar aqui para pedir...”. Valha-me, Deus, isso é um absurdo, algo intolerável.
É impressionante que algumas cidades tenham tirado os fumadores de cigarro dos ônibus mas permitido que a população vivesse hoje uma situação tão constrangedora com vendedores e pedintes. É preciso fazer alguma coisa para que as pessoas tenham paz no interior dos coletivos. A realidade do mercado informal existe. A mazela social campeia. Mas, vamos dar ao passageiro o direito de ir e vir em paz porque ele está pagando por esse serviço público.
O transporte urbano está submetido às regras do direito do consumidor. O Estado é submisso a essa lei toda vez que presta um serviço. O passageiro do transporte urbano também é um consumidor, um consumidor que deve ser respeitado dentro dessa relação concessionário-usuário. Ele paga a tarifa imposta pelo Estado para receber a contraprestação de um serviço digno. Comparando, um exemplo contrário mostraria um consumidor da empresa de energia elétrica pagando direitinho suas contas para no final ter um serviço medíocre. Não. Pagamos água para termos água. Luz, para termos luz. Passagem urbana, para termos um transporte, não uma feira, não um assédio a cada parada, não um constrangimento de ouvir o que não pagamos para ouvir.
Eu quero hoje fazer um apelo aos nossos administradores públicos. Um apelo aos profissionais. Um apelo aos nossos parlamentares: vamos olhar essa situação. É vergonhoso o que acontece no interior do transporte coletivo de algumas cidades brasileiras. Eu sei que algum trabalho deve ter sido feito. Eu imagino que sindicatos de empresas de ônibus devem bater nessa tecla, assim quanto bons profissionais zelam pelo recinto do seu ambiente de trabalho. Mas é forçoso reconhecer que é preciso mais.
O cidadão precisa ser respeitado enquanto passageiro e consumidor. O ônibus não pode ser um espaço de constrangimento. As pessoas têm o direito à paz enquanto se deslocam. Aproveitar esse intervalo para outras finalidades estranhas é tratar os passageiros sem o respeito que merecem.

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quarta-feira, 22 de abril de 2015

Nosso único modelo



Temos um único modelo para investigar céus e terra. Embora concordemos que os mundos materiais e espirituais sejam incomensuráveis, não temos como os investigar além do nosso modelo isolado. Sim, o nosso único modelo parte de nós mesmos, do nosso corpo, da nossa vida, da nossa percepção limitada dos cinco sentidos.
Comecemos pela nossa concepção de vida: ela existe a partir do mesmo ensaio do qual resultamos. No máximo, a ciência adota padrões aceitáveis para declarar a possibilidade de vida noutros lugares além da Terra. Ouvimos hoje falar muito sobre zonas habitáveis dentro e fora do Sistema Solar. Essa classificação implica a mantença das mínimas condições conforme a nossa ótica. Existem alguns materiais e algumas condições que, ausentes, deixam a ciência cega para acreditar em vida fora dos nossos modelos.
Até agora, o máximo que conseguimos na produção cinematográfica foi deformar o nosso modelo. ETs representam sempre figuras bizarras. O homem tenta casar esses protótipos com um grande salto sobre a inteligência humana. ETs são horripilantes – note quanto estou apegado ao único modelo –, todavia, possuem faculdades extrassensoriais que os afastam de nós anos-luz.
Não estamos preparados para encontrar outras formas de vida, caso existam. Toda a nossa ciência acontece debaixo do nosso telhado. Ainda não abrimos a porta do conhecimento e, ao que tudo indica, jamais pisaremos o terreno do desconhecido. Não pisaremos porque não sabemos onde fica. Não pisaremos porque isso poderia implicar, cognitivamente, um desmonte de toda a nossa civilização.
É impressionante que ainda não tenhamos um modelo definido de Universo. Para alguns, o Universo é finito, algo pulsátil, que vai chegar a uma barreira de contenção em seu constante afastamento em relação ao seu centro e ser empurrado de volta para o ponto inicial. Para outros, as estrelas seguirão a marcha da morte, irão afastar-se indefinidamente até que se apague a última luz. Então o Universo não tem fim, não tem algum campo de contenção, jogando por terra a teoria do Big Bang. O mais impressionante, contudo, é que, mesmo nesta marcha indefinida das estrelas, alguns cientistas trabalham com a possibilidade de existência de universos paralelos, sistemas outros além do próprio Cosmos. A dificuldade está na nossa base experimental, pois o modelo é único.
Ninguém em sã consciência pode negar a existência de Deus. Ora, se o nosso leque de conhecimento sideral ainda não foi aberto, o que dizer de valores espirituais, que estão em outro campo do conhecimento e que não seguem às leis físicas do Universo? Aqui, o melhor é duvidar. A dúvida, neste caso, é a melhor sabedoria e prudência que todo homem pode ter. Se o nosso único modelo não nos permitir afirmar a existência de um supramundo, muito mais difícil será negá-lo, pois negar a existência de algo implica ter limpado o armário e nada ter encontrado. E ainda não saímos do lugar.
Quando lemos as Escrituras, imediatamente o nosso único modelo entra em evidência. Anjos, demônios e o próprio Deus adquirem atributos humanos. Descrições do Céu e do Inferno são representativas da vida na Terra. Têm água e fogo. Ruas. Praça. Rios. Árvores. Prêmios. Tribunais. Choro. Alegria. Aí entendemos que a própria Divindade utiliza o nosso único modelo para falar conosco. E, nós outros, utilizamos esse protótipo para compreender o que deve existir além das estrelas.
Alguém já me perguntou se, sendo cristão, acredito em vida extraterrestre. “Claro!”, respondo. “Deus não é deste mundo, nem Jesus, conforme ele bem frisou”. O primeiro mundo extraterrestre em que acredito é o próprio Reino espiritual de Deus. Depois, quem sou eu para afirmar que não existem outros mundos habitáveis. Costumo responder que não me meto em assuntos do Criador, mas apenas em assuntos da criatura. Minha fé sobre a existência ou não desse mundos é completamente ineficaz. Nula. Aliás, esse assunto não está contido no bojo do que me é reservado a crer em matéria de Evangelho, é outra pauta.
Incomodados, alguns objetam que, em havendo outros mundos, Jesus precisaria fazer uma escala de morte e ressurreição em cada um deles. Ah! Como o nosso pensamento está restrito a este único modelo.

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sexta-feira, 17 de abril de 2015

Égua, Dilma



Égua, Dilma! Nós, paraenses, estamos indignados com a situação do Brasil. E, para deixar isso bem claro, vou me dirigir à Vossa Excelência em nosso dialeto próprio, o paraensês, precisamente no seu subdialeto equino.
Égua. É isso mesmo. A égua é um dos bichos mais citados pelos paraenses. Acho que durante o dia cada um de nós lembramos da égua dezenas de vezes. Muito raro acabarmos uma jornada sem alguma eguice. Impossível. Em nosso dialeto, a égua tem valor de interjeição, mas é de uma riqueza linguística encantadora. Nas ruas de Belém, eu nunca encontrei uma égua andando – difícil escrever isto – , mas acho todo dia mil situações que me remetem à égua. Entendeu, Presidente? Bem, vou falar para a senhora sobre os três tipos de governo que existem, segundo os paraenses: o governo égua, o governo pai d’égua e o governo filho de uma égua. Isto é o Pará.
Dilma, um governo égua é um governo que não diz a que veio. Estanca. Dá coice. Teima. A gente, aqui no Pará, quando vê um governo assim, além de adjetivá-lo de égua todos os dias, grita constantemente contra ele: “Égua! Égua desse governo!” Os paraenses são ótimos para medir o nível de eguice dos  seus governantes. Nem precisava Vossa Excelência gastar com institutos de pesquisas em terras paraenses, bastava instalar egômetros em nossas ruas. No final do dia, os decibéis iriam lhe dizer com certeza se o seu governo é ou não um governo égua.
E um governo pai d’égua? Ah, Presidente, quando o paraense invoca o pai da égua é porque a coisa tá boa mesmo. A gente diz assim: “Que tacacá pai d’égua!”, “Que sanduba pai d’égua!”, “Férias pai d’égua!”, e assim vai. Usamos a figura do pai desse bicho até para gente. Veja este exemplo máximo: “Olha!.. Gostei do teu pai! O teu pai é pai d’égua!”. Por favor, não tente entender essa genealogia, Presidente, só para os iniciados. Então, o que é mesmo um governo pai d’égua?
Dilma, um governo pai d’égua é um governo que nos surpreende positivamente. Aqui no Pará, já tivemos alguns, desde o tempo do memorável Antônio Lemos. Mas houve outros: o Papudinho foi um governo pai d’égua. O Almir Gabriel, também. Dizem que o primeiro mandato do Edmilson foi muuuito, muito pai d’égua. Veja, portanto, que todo mundo pode ser pai d’égua, independentemente do partido.
O que a gente quer é isso: que o Brasil tenha um governo pai d’égua. Um governo que coloque o País no rumo que ele merece. Muita gente achava o governo Lula pai d’égua. Égua, o camarada não sossegava. Um dia a empregada de casa, vendo um avião passar, me disse: “Olhe só: lá vai o Lula!”. Perguntei como sabia, e respondeu que tinha lido “PT” escrito na asa. “Égua! – disse pra ela – tu achas que isso é partido?”. Coitadinha, era uma empregada pai d’égua, mas vítima de uma educação filha de uma égua. Opa! Escapuliu. Ainda não queria dizer isto, mas acho que está mesmo na hora.
“É-gu-a!”, berra o paraense quando a medida transborda. “Governo filho de uma égua!”. É, Dilma, agora a coisa ficou feia. Quando a gente deixa a égua e o seu paizinho quietos, e, de uma arrancada só, recorre à cria da égua – macho ou fêmea, não importa –, o sangue cabano ferveu.
Dilma, um governo filho de uma égua é um governo que não atende mais às aspirações do nosso povo. O paraense anda muito indignado. O custo de vida é alto aqui. Altíssimo. Vamos comprar açaí, e gritamos: “Égua! Trinta reais o grosso! Governo filho de uma égua!” No Pará é assim, Dilma. E os escândalos? Presidente, alguns andam tão indignados que,por causa disso, esquartejaram a égua em três pedaços e a invocam pausadamente, assim: É–GU–A!! Aqui, o ritmo é diferente do parágrafo de cima. Mais lento. E, no Pará, quanto mais lenta a égua, pior. Cuidado. Pense na sugestão do egômetro.
“Filhos de uma égua!”, gritam os paraenses contra os escândalos. “Como é que a Presidente nunca sabe de nada, se ela passa o tempo todo dizendo “no meu governo”?”, surtam de vez parauaras na eguice. Os paraenses não aguentam mais ouvir falar nesse assunto, mas precisam ouvir porque acontece mesmo. Égua! A gente queria abrir os jornais e ler coisas boas, do tipo: “Brasil aumenta o orçamento para a educação”, “Brasil resgata meninos de rua”, “Brasil é o líder na transparência”, etc., etc. Ah, sim, teríamos então um país pai d’égua, com melhor distribuição de renda, menos violência, mais lazer. Um país sério, que cuidasse dos seus filhos do nascimento até a morte, como faz a Suécia, por exemplo.
Dilma, assim classificamos os governos no Pará. Tá na boca do povo. Resta saber se o seu governo é um governo égua, pai d’égua ou filho de uma égua. Um egômetro resolve.

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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Jorra o sangue brasileiro


Semana passada atrevi-me a olhar outros mortos. Quase sempre olhamos as vítimas inocentes das emboscadas, dos latrocínios e das mortes acidentais. Eu quis olhar o outro lado. Olhei detidamente corpos de assassinos, de “monstros” e de tantos que sucumbiram transgredindo a nossa lei. E confesso que fiquei chocado. São dois, são cem, são mil. Inertes jovens no solo, detidos por um projétil certeiro no coração. Semblante de alguém que veio e foi e não sabe por quê. Matou e terminou morto. Não matou, mas morreu também.
A nossa visão de violência pode estar prejudicada. Não morrem apenas mocinhos. Bandidos morrem também. E quando morrem, espalha-se o mesmo germe, pois a lei de talião continua em pleno vigor aqui. Precisamos olhar o contexto. Não morrem só delinquentes nem cidadãos comuns do bem. Morrem também os que trabalham contra a morte. Policiais. Agentes.
Não podemos tratar a violência como algo reativo. Não podemos seguir ignorando o outro lado. A defesa de uma sociedade está em sua harmonia. Não adianta sair matando quem nos mata. Não adianta apenas revidar. Leis, penas e prisões: eis algo paliativo, intimida, mas não cura. Esconde a realidade atrás das grades. A situação brasileira é gravíssima, mas isso é contextual.
Jorra o sangue brasileiro. E sangue não tem antecedentes. Fora do corpo significa morte. Morte significa perda. O Brasil está perdendo os seus filhos. Perde aqueles que conseguiram escapar do crime. Perde precocemente outros, classificados como agentes delituosos. Isto é causa e efeito. Ação e reação. Omissão principalmente.
Nenhum estudioso de criminologia pode ignorar o massacre brasileiro. Jorra o nosso sangue, vejam alguns sangue do bem, vejam outros sangue do mal. Classificações tolas e vãs. O sangue é bom por si mesmo. No corpo é vida. Fora dele, morte. É o sangue do nosso povo que está sendo oferecido diariamente nesse altar satânico. Uma sede insaciável. Eu não posso aceitar.
Um milhão e tantos mil mortos em apenas trinta anos neste Brasil. Uma nação perdeu a vida. Quem morreu? A nossa sociedade, de todas as classes e ocupações. Bandido mata bandido. Polícia mata bandido. Bandido mata a polícia. Isto é o nosso sangue, sangue verde e amarelo. Sangue católico, espírita e crente. Jorra o sangue brasileiro, esta é única leitura.
Fico impressionado com a postura do governo brasileiro. Li recente que o Brasil economiza em segurança, mas escancara os cofres à Copa. Que desgraça esse troféu! Que loucura não começar com urgência um plano de segurança nacional. Estamos vivendo um caos. Sangue para todo lado. A insegurança domina a nação. Por que não se chama o saber acadêmico para um grande debate? O que adianta termos tantos doutores em direito se o crime é uma banalidade no Brasil? Cadê os nossos sociólogos que o Brasil não valoriza? Cadê as grandes inteligências desta nação, que a bandeira partidária mantém enjauladas em laboratórios, quando a morte está solta em nossas ruas? Eu fico indignado.
A situação brasileira é tão grave que os governos precisam criar algum mecanismo de reversão. A sociedade precisa ser chamada à consciência de seu estado de morte. Quem detém conhecimento de defesa precisa repassar isto para as pessoas. É preciso levar o debate para as comunidades e para cada sala de aula. É um plano de emergência e ao mesmo tempo uma necessidade de trabalhar essa questão a médio e longo prazo. É o sangue brasileiro que está jorrando. Não são estrangeiros que matam e morrem: é o nosso povo, sem importar se agente ou vítima, eis a leitura precisa.
Eu gostaria de poder contribuir de alguma forma na qualidade de pastor que sou. Posso utilizar os canais de mídia para isso. Tenho um programa diário de rádio e quero cooperar. Posso usar a internet. Estou utilizando este espaço no jornal. Faço isso porque, ao procurar viver a vida religiosa com profundidade, sinto-me despertado por Deus a contextualizar a situação brasileira. Em nossa igreja, tivemos dois pastores assassinados, um na famosa “saidinha” e outro ao deixar o templo. Outro jovem foi morto por causa de um celular pertinho da igreja. A violência não tem religião. Não posso me trancar numa igreja e pregar um sermão que ignore a mortandade do lado de fora. Nunca esquecerei que no primeiro culto que dirigi sendo pastor uma pessoa foi assassinada na porta da igreja ouvindo o sermão que eu pregava.
Não faço tantas classificações. Para mim, jorra o sangue brasileiro.

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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Um dia do avesso


Sou uma pessoa fascinada pela fisiologia do corpo humano. E não só pelas suas funções: para mim, o corpo é um dos itens mais importantes da nossa existência. Na verdade, toda referência que temos neste mundo provém do corpo. Mesmo o nosso conhecimento mais transcendental tem como base e receptor o sistema corporal. Hoje, quero pensar com você mais profundamente sobre isto. Para alguns, pode parecer bobagem, mas não é. Nossa ficção é provada pelo próprio corpo que empregamos agora para ler este texto.
Um dia do avesso mudaria radicalmente a nossa forma de pensar e viver. A pele é o tecido mais enigmático que existe. Sob ela, permanece um mundo praticamente desconhecido. É verdade que fazemos exames disto e daquilo, porém, as imagens do nosso corpo chegam às nossas mãos como algo ainda exterior. Imagine o impacto que teríamos se em determinado dia todos nós andássemos do avesso.
Nesse dia, morreria o nosso padrão de beleza. Mulheres esculturais caminhariam ao lado de outras hoje desprezadas, mas ninguém notaria diferença. De um relance, a gente veria a vida como ela realmente é. O corpo feminino, tão valorizado do lado de fora, de repente seria sangue, músculos e gordura. Não sei se alguém conseguiria imaginar o lado direito feminino. Tem gente para tudo. Não sei se teríamos “estômago” para isso.
A gordura deixaria de ser tratada como um mito. Acabaria toda ideia de acreditar ou não acreditar que realmente podemos estar gordos ou engordando. A gordura deixaria de ser uma questão de fé. A gordura estaria brilhando diante dos nossos olhos, únicos que não mudariam nesta ficção. Imagine os grandes ajuntamentos públicos nas ruas, shoppings, praias, estádios. De uma vez por todas a gente seria convencido a fazer dieta.
Fico pensando na hora da alimentação e em todo o processo digestivo. Qual seria a nossa reação se pudéssemos enxergar a comida caindo em tempo real dentro do nosso estômago? Imagine a cena quando, depois de misturar tanta coisa, a gente ainda derramasse bastante água, refrigerante e outros líquidos sobre o bolo alimentar. Que cena! De perder o apetite, não?. Nesse dia, íamos ser mais seletivos na hora de comer.
Penso muito nos fumantes que conseguissem enxergar a desgraça que o cigarro causa. Imagine ver fumaça e fuligem enchendo a cavidade pulmonar. Imagine quantos pulmões enegrecidos seriam expostos pelas ruas. Tão sujos dessa fuligem como se estivessem untados de piche ou coisa parecida. Meu Deus, que cena terrível: ver a mucosa rósea de pulmões jovens ser baforada pela fumaça do cigarro, encobrindo veias, artérias e toda essa fragilidade da vida. O mesmo ensaio vale para o álcool e outras drogas.
Você já deve ter notado que não precisaríamos de roupa. No dia do avesso a indústria da moda entraria em colapso. Nada de saias, calças e blusas. Nada de cinto nem cinta. Seríamos exatamente o que somos. Sem truque, jeitinho ou coisa parecida. Fim da ostentação, de se achar superior ao seu semelhante.
Acredito que além dos benefícios para o próprio corpo, o maior ganho seria mesmo social. Um dia do avesso nos tornaria mais iguais. Na verdade, ainda não sei como nos reconheceríamos. Afora largura e estatura, todo mundo seria bastante parecido: coração, rins, pulmões, fígado, cérebro, tripas... Portanto, muitas das nossas vaidades cairiam por terra. Pobres e ricos seriam iguais. Irreconhecíveis. Também não sei como seria a nossa identificação. Talvez pela taxa de gordura, sei lá. Não seria pelo tom da pele, com certeza. A nossa própria idade ficaria oculta. Como identificar um corpo jovem do avesso?
E as nossas exigências “indispensáveis” como ficariam: como usar o carro? Precisaria ser mesmo automático? E os voos, podíamos viajar na segunda classe nesse dia? Como reconhecer mesmo um rico no dia do avesso? Onde guardar o dinheiro e o celular de última geração? Pense aí. Olha, seria uma revolução esse dia do avesso.
Este tipo de ensaio serve para nos ajudar a refletir sobre o que de fato somos no mundo. É fruto da imaginação, claro. Porém, é bastante real. Apesar de estarmos encobertos pela pele, somos assim mesmo agora. Estamos também sempre do avesso para o que de fato importa. É desse lado que existimos, embora façamos tantas classificações e conceitos a partir do lado de fora.

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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

1981, uma história de fé em O LIBERAL


Hoje, quero repartir com você uma das histórias mais tocantes que ouvi nos últimos anos. É a história de um menino que comprou uma casa com parte do lucro que obtinha com a venda deste jornal. É uma história de fé, persistência e muita disciplina. O personagem desta história real é Henrique Mesquita, atualmente pastor e professor de língua estrangeira em Belém.
Na década de oitenta, Henrique era um menino pobre de dez anos de idade. Sua família passava muitas necessidades, vivendo num casebre paupérrimo alugado. Para ajudar, o garoto começou a vender jornais por volta de sete anos. Ainda bem cedinho, Henrique dirigia-se ao ponto de distribuição do jornal para receber a sua cota do Seu Sérgio, antigo baderneiro, assim chamada no meio jornalístico a pessoa encarregada da distribuição.
Com essa tenra idade, Henrique propôs secretamente no seu coração comprar uma casa para a família. Semanalmente, ele separava o lucro de dez jornais que vendia diariamente e entregava para o baderneiro guardar. Entregava-lhe suas poucas economias, que deveriam ser depositadas em caderneta de poupança para o objetivo pretendido. Assim Henrique fez durante três anos.
Em 1981, o sonho da casa começou a ganhar forma: um imóvel foi posto à venda perto de onde Henrique morava. A mãe dele levou a notícia para a família, apenas a notícia mesmo, pois ela não tinha a mínima chance de comprar a casa. Foi nessa hora que, ouvindo os lamentos de sua genitora, o menino anunciou para a sua mãezinha que ele mesmo iria comprar o imóvel. Henrique correu para o velho baderneiro, pessoa tida por outros como desorganizada e esbanjadora. E lá veio o segundo milagre: Seu Sérgio trouxe o extrato bancário e todo o valor guardado.
Henrique esperava agora alegrar o coração sofrido de sua mãe e de seus irmãozinhos. Mas, para tristeza do menino, o efeito foi justamente o contrário: a proposta foi recebida com ira e muita desconfiança, até porque, na véspera, querendo apressar o negócio, Henrique fora conversar com a vendedora.
Não foi nada fácil, Henrique precisava agora de toda a habilidade para convencer sua mãe que ele tinha mesmo o dinheiro e que este era lícito. O valor da casa era 30 mil cruzeiros. Desconfiada, a mulher armou-se do cinto mais firme que achou e deu uma surra no menino, pois eram pobres, é verdade, todavia, ninguém fora acusado de mexer a coisa alheia. Que situação! Um menino de dez anos de idade precisava agora comprovar urgentemente que tinha economizado dinheiro durante três anos. O baderneiro confirmou a história.
Mas as economias de Henrique somavam apenas 25 mil cruzeiros. Comovidos, outros jornaleiros se uniram e conseguiram mais mil, porém, ainda insuficiente. O burburinho chegou até a redação do jornal e aos ouvidos do seu proprietário, o jornalista Rômulo Maiorana. Comovido, Rômulo Maiorana chamou Henrique até a sua sala na antiga redação da rua Gaspar Viana e disse-lhe: “Eu tenho aqui cerca de mil cruzeiros que alguns jornaleiros me trouxeram. Você sabe de quem é esse dinheiro?”. Henrique respondeu, convicto: “É meu”, ao que retrucou Rômulo, brincando: “Não, não é. Tudo o que tem aqui é meu: o jornal, os carros..., e agora este dinheiro”. Em seguida, disse ao garoto: “Este dinheiro trocado agora é meu, mas o seu agora é este!”. E, abrindo a sua gaveta, Rômulo Maiorana entregou ao menino os cinco mil de que precisava para comprar a casa de sua mãe. Foi uma cena comovente. O jornalista confessou-se surpreso com a iniciativa do garoto e o parabenizou.
Esta surpreendente história eu contei no livro de reflexões diárias “Meu Dia com Deus” na quarta-feira passada, dia 22. Domingo último, estive na igreja que o Henrique Mesquita pastoreia aqui em Belém. De repente, um fato extraordinário chamou minha atenção. O Henrique testemunhou ali que quarta-feira passada, quando dirigia, ele sofreu a abordagem de seis adolescentes fortemente armados, saindo incólume do cenário de crime. Eu não me contive: enquanto ele citava o dia desse episódio, eu fui conferir a data da leitura anual em que ficou registrado o seu testemunho de vida: era exatamente o dia 22 de janeiro! Não, não fora coincidência mesmo o título da história que agora escrevo: “Deus Honrará sua Fé”. Ainda estou impressionado com todo esse fato: com a disciplina de um menino de sete anos que comprou uma casa para a sua família, com a honestidade do baderneiro, com a sensibilidade do jornalista Rômulo Maiorana e, agora, com a palavra profética do Devocional diário.

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quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Internet, sonhos e pesadelos


Esta semana, um alto executivo da Google falou da obrigação que teriam os governos de países emergentes de favorecer a chamada inclusão digital, isto é, o acesso popular à internet. Aqui na Amazônia, por exemplo, a rede mundial de computadores ainda é um sonho de muitos. O Amapá não tem banda larga. Porém, onde a navegação ocorre em mar aberto, a facilidade também revela um lado sombrio. Muitos naufrágios. Mas comecemos pelos sonhos.
A internet é um pequeno passo para o homem, mas uma estrada sideral para a humanidade, parafraseando Neil Armstrong. De repente, podemos resolver muita coisa. Conectados com o mundo, ruem as muralhas políticas, com alguma exceção, claro. Há três dias, por exemplo, enviei um convite anexo para um amigo na China, que foi vetado pelo regime. Mas é a exceção mesmo.
Qualquer comunidade recôndita do mundo pode figurar no topo das notícias globais em questão de segundo e promover uma reviravolta. Os cães náufragos do Marajó ainda flutuam em mentes e corações que não suportam maus tratos contra os animais. Eu sou o primeiro da lista. Os recentes movimentos de rua no Brasil nasceram com senha de login. Uma postagem boba pode virar sucesso, dependendo do gosto dos fregueses virtuais. E não falta gente para se aproveitar disso. Mas, falemos primeiro dos sonhos mesmo.
Saúde, bancos, estudos, achados e perdidos humanos, reclamação, voto, lazer... Bem, é infindável a lista de coisas boas e úteis que a internet pode propiciar. Ninguém duvidaria disto em sã consciência. Com um click, eu passeio diariamente pelas páginas do New York Times. Outro toque do indicador, e lá estou na França, lendo o Le Monde, como se estivesse num dos românticos cafés da Cidade Luz. Mais duas braçadas, e abre-se o resto do mundo, onde posso aportar e desatracar rapidamente ou, quando me cansar, apenas sobrevoar o globo através de mapas e imagens de satélite capazes de me tornar meio-onipresente. Mas nem tudo é sonho nessas águas.
O Brasil orgulha-se da liderança mundial de acesso a redes sociais. Todavia, há de se perguntar: o que o nosso povo está buscando nesse mar de tubarões? Que segurança têm as nossas crianças, adolescentes e jovens? O que os nossos velhos entendem desse tipo de aventura? Não acredito que o simples acesso à internet equivale à inclusão digital, assim quanto não acredito que ensinar desenhar o nome não é alfabetizar. Vou contar a história de um amigo.
Precisando muito de uma pessoa para auxiliar os serviços domésticos, esse amigo procurou uma jovem do interior. Interior do interior. Brenha, como diz o caboclo. Ele imaginava que ali estava a saída. Endereço da candidata: margem esquerda do furo das comadres, passando a terceira curva do igarapé das almas perdidas, alto da ribanceira do vai-quem-quer e não muito longe da comunidade fica-se-quiser-e-não-me-aborrece. Bem, era mais ou menos este o endereço da menina, moça pura, idealizada como a última fronteira do Éden.
Quando a candidata desembarcou no Terminal Rodoviário, a internet saiu primeiro. As postagens corriam soltas no Face e as chamadas pipocavam sem parar. Nada de mais! Quem sabe, o citadino não era um velho preconceituoso perante uma alma tão pura, com aquela minissaia que já dizia tudo. Mas, vamos lá. “Cuidado!”, disse a irmã mais velha, guardiã, que lhe arrumara a encomenda. “Essa menina nunca saiu de casa. É a primeira vez que vem pra cidade!”, adoestou. Quanta pureza!
Segundo o meu conhecido, aquele computador de bolso nunca, nunquinha parou. Passou o resto da manhã tocando. Tirou a fome da moça. Foi a tarde, e a manhã, no dizer bíblico, e a pequena se virando e revirando nos trinta e nos sessenta, sabe lá quantos torpedos, mensagens, postagens e raio que os parta! Chegou a noite. Casa suja, louça suja, o celular era o seu tímpano e a sua retina. Nove da noite, hora de conversar, para ver como fica e assinar a carteira. A jovem diz que não fica. Era “muito complicada”, confessa. E, abandonando o barco, foi parar num hotel meia-noite para acordar cedo e voltar pro mato. Que perdição social!
O pesadelo da internet provém da falta de preparo para seu uso. É uma excelente ferramenta, mas os nossos jovens precisam ser educados a respeito dela. A internet salva e condena. Inclui e exclui. O governo precisa mesmo investir na educação. Formar e capacitar professores e técnicos. Remunerá-los bem. Construir boas escolas. O computador não pode substituir a formação humana do magistério. A internet é um mar que pode nos levar a bons destinos. Porém, sem uma boa educação, pode ceifar muitos nas suas águas coloridas.

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sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A Terra geme de violência


A violência chegou a cada palmo do planeta. A Terra geme. Geme porque ela existe em função da vida. Geme porque se recorda de um tempo em que, por causa disso, foi devastada. A Antiguidade narra a epopeia de Gilgamesh, identificado como o Noé bíblico. A Terra enchera-se de violência. Então, foi destruída. Agora, não precisará desse juízo divino: vivemos a autodestruição.
O que houve na Síria recente é um mal presságio para o mundo. Dói na alma ver o rostinho de tantos inocentes, ao que tudo indica, vítimas de uma temida arma invisível. Mortas pelo ar, respirando gases letais quando seus pulmõezinhos pediam oxigênio. Oh, Deus! Isto, sim, dói bastante. Foi difícil postar esta notícia em nossa página pessoal na internet. Chorei e ainda choro.
A Terra geme de violência. Geme pela vaidade de loucos que assumem o poder. Tiranos. Ímpios. Perversos. Dignos de todo o fogo do Inferno. Assim tem sido na Síria da lendária Damasco. Foi ali em sua estrada que o apóstolo Paulo teve um encontro com Deus. Foi ali que ouviu uma voz celestial convocá-lo para o santo Evangelho. Agora, o clamor veio do chão, lençol agonizante de dezenas de crianças ainda em seus primeiro passos. Mais de mil foram ceifadas. Dormiram escutando o gemido da Terra, aumentando esse triste canto de morte
O Egito convive com a praga da violência. Há milênios, Moisés descansa. Porém, ali a morte tem persistido, e não apenas de primogênitos. Morrem crianças, jovens e velhos. Enquanto, a ditadura sai da cadeia vestida de branco e óculos escuros, a terra do Egito geme de violência. Nenhum faraó retomou sua pirâmide, mas novos semideuses massacram o povo. Ísis. Osíris. Gente que se sente menos gente e muito deus. Gente que há muito deveria trazer alívio a quem deseja apenas a vida.
E o que dizer do Brasil? Ah! aqui a morte é coisa banal. Cinquenta mil tombam a cada ano assassinados. Estamos acostumados com essa cultura de morte. Morram dez ou mil, e não notamos a diferença. O Brasil vende a desgraça. O sensacionalismo da imprensa estampa o sangue sem dó. Vende o sangue, o osso, a pele. Vende tudo em cotação alta. E o povo segue assistindo, não sabendo que assiste ao réquiem da Ordem e Progresso. Réquiem verde-amarelo. É a morte do nosso povo. A Terra geme forte no Brasil.
O caso da família Pesseghini não foge à regra. Independente da autoria do crime, o gemido de São Paulo não nos deixa dormir. Na hipótese de terceira autoria, persiste a violência endêmica. Agora, se o adolescente fez tudo isso, não sabemos se choramos ou rimos. Se choramos para querer entender por que um filho é capaz de tal coisa, ou se sorrimos de felicidade pelos que foram poupados. Sim, pois se Marcelo Pesseghini matou pai, mãe e avós, foi normalmente à aula e depois suicidou-se, estamos ante um grande livramento. Com arma e destreza, poderia não ter sobrado ninguém na sua escola.
O que houve mesmo em São Paulo? Explique a Psiquiatria. Por favor, nos convença de grave anormalidade. Doença suficiente para tamanha brutalidade. Se não nos convencer, precisamos de mais interrogações. A Terra geme de violência, mas precisamos diagnosticar o seu choro.
Hoje, dormimos e acordamos com as notícias da violência. O gemido da Terra dá ibope, como dissemos. Porém, é um fato de causa e efeito. Seria “livre” a classificação dessa matéria de São Paulo? Para mim, não deveria ser. Violência gera violência. Eis o seu gás, sua energia. Na loucura do tempo que vivemos, com tantos modelos duvidosos sendo copiados aos montões pelos rebentos, um perigo abrir o manual do crime para os menores. Temos muito a pensar. A Terra geme de violência. Geme o planeta. Geme cada ser vivente.
Junto com essa violência física, massacra a violência moral. Governos brincam de segurança pública, mais preocupados com suas campanhas. O Brasil político também mata. Que diga Marina Silva, e sua luta para ser uma voz. Quem detém o poder, detém a força. Às vezes, separamos muito as coisas, porém, em alguns casos, união umbilical. Ação e o omissão equivalem-se quando falta ética e compromisso social.
A Terra geme de violência. O digagnóstico é algo complexo. O que você pensa sobre isto? Concorda com este pensador?

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sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Caldo de turu


Aparências enganam. Quem vê e não prova, não sabe o que diz: caldo de turu é uma das melhores iguarias paraenses. Praticamente despercebido, o molusco segue sua vida discreta, submersa e escondida. Porém, quando sobe à mesa não tem nada pra ninguém. Ostra passa de longe. Escargô corre apressado. Turu. Eis um dos últimos segredos da culinária amazônica, capaz de ganhar o mundo, se a gente deixar a pavulagem.
O turu é um molusco esquisito, parece uma minhoca comprida, mas tem dente amolado. O turu mora na árvore, mas nada de subir os galhos. Ele mora dentro do caule e não precisa do governo. Sua casa é a sua vida. O turu entende bem da arte. Constrói seu lar no dente, roendo, furando, chamado cupim das águas.
O turu vive no mangue. Alimenta-se da natureza. Ele pode colonizar extensas florestas, mas não dispensa uma canoa desavisada. Mestre calafate, entre em ação! A canoa vai ser puxada. Em terra, em seco, passe fogo no casco doente. Calafete bem as goteiras. Passe breu quentinho para matar o turu. Caladinho, já deve ter chegado. E, se deixar, o barquinho irá a pique, furado que nem velhas tábuas de pirulito.
Quem quiser comprar turu, acorde cedo e veja o money. Não é barato, vou avisando. Turu é um bicho pavlo, grã-fino como ele só. Não é vendido em quilo, em cento ou na cambada. Turu é vendido em litro. Um litro de coisa boa. Ah! que vontade me dá! Vigia é a sua terrinha nata, dele, turu, minha. Foi lá que me apresentaram o bicho. Foi lá que eu fui logo pescado. Ainda hoje, é igualzinho: quem quiser comprar turu, corra pra Vigia cedinho. Existem duas latas cheinhas deles. Acaba logo, tá avisado. Se chegar nove, não tem mais nada.
Turu é rico em cálcio. Tem ferro de admirar carajás. O bicho é todo leitoso. No prato, destila leite. Tem gosto de barro vivo. Não sei como, mas é gostoso. Quando como, revivo o Éden, pois de barro também eu sou. Turu. Pode ser comido cozido ou cru. E cru é a preferência máxima. Basta abrir o bichinho com uma agulha, tirar o barro cinzento e lavar só um pouquinho. Basta tirar a cabeça fora para não engasgar. Aí, põem-se limão e sal. Alho, se preferir. Tá pronto, coma! Natureza viva em folha, em galho, em árvore, em rio.
Tem gente que gosta de fogo. Então, põe o turu na panela. Ah, amigos, o caldo fica mais forte, de arrepiar paladares. Remédio, dizem os mais velhos, seja cozido ou cru. Cura até mesmo a tísica, stress ou doença qualquer. Turu. O que dizem os sábios da China e do Japão? Hum... não sei se já tururaram, porém, quando descobrirem, haja turu de exportação. “Made in Vigia, Pará, Brasil”.
Se quiser saber se turu dá mesmo certo, dê uma passadinha por lá: Vigia, a Pérola do Salgado. Ali,  a terceira idade é coisa mesmo do passado. Chega-se fácil à quarta. E alguns já adentraram a quinta. Longevidade do turu. Velhinhos bebem o leite do mangue. Parece que vão, mas ficam. Mais um, mais, cinco, mais dez. Oitenta anos é fichinha, juventude amadurecida. Noventa não é difícil. Um século se  acha brincando. Centenário do turu.
Não se impressione mesmo com a aparência. O bicho é feio mas é bom. Comprido, esbelto e light. Gostoso e sadio até o fim. Quem comeu, não desaprova. Mas, por favor, sem essa de estragar o manjar: fritar o turu? Nem pense. Aproveite bem a natureza. Quer minha opinião? Não leve o turu ao fogo. O bichinho já vive assustado. Escapou do calafate, mas caiu na sua mão. Coma o turu in natura. Sinta o gosto da terra, do ferro, do cálcio, da vida. O turu nasceu no Éden. Iguaria especial de Adão. Exigência da primeira Eva, quando enfastiada do Jardim.
Se não quiser comer turu, experimente o caldo quentinho. Esprema alho e limão, ponha sal e pimenta. Pimenta-de-cheiro, é o que eu digo. Malagueta também vale. E esqueça o dia que nasceu. Turu tem gosto e sustança. Despache logo o armador. O turu matou a morte. Ate a sua rede e cante: “Eu ia morrer, mas não vou mais. Só bebo caldo de turu!”.

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sexta-feira, 12 de julho de 2013

Não à importação de médicos


A proposta presidencial de importar médicos deve ser esquadrinhada. Não se convoca mão de obra estrangeira em massa para uma nação sem que este assunto passe pelo crivo da crítica. Esse tipo de medida tem alcances significativos, indo bem além de alguma necessidade imediata.
Em plano internacional, a importação de médicos equivale à confissão de autofalência estatal. Na ausência de estados de calamidade, esse tipo de medida faz o Brasil parecer uma republiqueta, onde o saber científico nacional perde seu devido status. Não estamos em guerra. Não há epidemia, exceto da doença moral corruptível que parece ter contaminado todos os membros deste corpo pátrio. Então, a importação de médicos empobrece o Brasil perante seus pares. O Brasil passa a ser visto como um país sem planejamento, pois a implantação do curso de Medicina no País data de 1808.
Embora saibamos que há déficit de médicos no Brasil, é preciso questionar por que isso se deve. Depois de duzentos e cinco anos desde que D.João VI autorizou o curso médico, não há justificativa que se sustente em condições normais. O governo deve ser demandado a repensar sua conduta, respeitando essa categoria profissional bicentenária.
Depois, por que alguns médicos rejeitariam ir para o interior? Seria capricho, estrelismo? Não creio. Embora se apregoe que o salário desses profissionais poderia chegar a R$ 8.000,00, isso deve ser estudado mais amplamente. Não sou médico, mas enxergo outras vertentes. Ainda que um médico tenha um salário desse nível, é preciso pesar os prós e os contras. Indo para o interior, o médico terá de viver uma exclusividade, pois quem o contratará além? Apesar de ter uma jornada de algumas horas, terá de ficar em parte ocioso, longe dos centros de formação e com muitas despesas.
Essa realidade médica é bem diferente, por exemplo, do que acontece com a magistratura e com o Ministério Público. Ambos têm um plano de carreira e o mínimo de estrutura para trabalhar fora dos grandes centros. No Amapá, o Ministério Público do Estado padronizou todas as residências oficiais dos promotores. O imóvel é idêntico do Oiapoque ao Jari. A casa tem a mesma mobília, os mesmos utensílios de cozinha, a mesma roupa de cama etc. Em qualquer comarca, o promotor amapaense sente-se “em casa”. Dependendo da área de trabalho, tem ainda carro, motorista, lancha, e assim vai. E os médicos preteridos pelo governo, o que têm?
Sabemos da realidade médica brasileira sem precisarmos pôr o pé fora da cidade. Vá agora mesmo ao posto de saúde de sua comunidade e veja como as coisas estão? Faltam leitos, medicamentos, instrumentais. Falta vergonha na cara de alguns administradores, içados pelo cabide político, muitas vezes sem o mínimo conhecimento da área. Sem o mínimo amor à atividade mais importante para todos nós.
Sabemos que o Planalto já desistiu de importar médicos cubanos. Eles viriam para cá em contêineres da família Castro. Seria um negócio entre estados, um tipo de compra moderna de escravos, onde o governo comunista ficaria com uma grande fatia do comércio. Todavia, Dilma insiste em contratar espanhóis e portugueses. Insiste em recebê-los sem validação de diploma, muito embora os nossos profissionais sofram para trabalhar naqueles países. Coisa absurda. Intragável. Anátema.
Para mim, a importação de médicos ressuscita o velho exército de reserva marxista. É coisa do capitalismo. Depois de remunerar mal e não implementar boas condições de trabalho, o Estado ameaça o acuado exército interno. Não devemos aceitar esse tipo de coisas. O governo tem de conversar com a sociedade. Sem essa de ameaça de substituição. Sem essa de que os nacionais terão preferência. Os brasileiros são capazes de gerir sua própria nação. Deem-se-lhe condições, e o nosso povo – conhecido em todo o mundo pela sua hospitalidade e calor humano – responderá positivamente, indo aos rincões mais longínquos. Os promotores vão. Os juízes vão. Por que médicos não iriam? Irão, sim, pois eles igualmente buscam valorização profissional.
É impressionante que o governo busque o caminho da transculturação. Importar médicos – nestas circunstâncias – é uma medida preconceituosa e etnocêntrica. Faz o estrangeiro parecer mais brasileiro que os profissionais que o País forma há dois séculos. Vamos ampliar os laboratórios das faculdades públicas e privadas. Vamos investir nos cursos de medicina e dobrar o número de vagas. Vamos remunerar melhor  os professores e médicos e aparelhar postos e hospitais: um mutirão pela saúde pública. Em poucos anos, a realidade mudará.

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RUI RAIOL é escritor
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sexta-feira, 5 de julho de 2013

Duas décadas contra Dilma


A ciência política cochilou no Planalto. Inebriados pelo berço esplêndido, assessores especiais de Dilma abandonaram o sismógrafo popular. De repente, acharam que tinham o controle total do epicentro. Brasília, menina criada com gritos e vaias, era o observatório único. Se tudo seguia normal no sonho de Juscelino, pesadelos não passavam mesmo de quimera.
Engano. Puro engano. O Brasil tem vivido ciclos de manifestações populares a cada década. De 1983 para cá, a marcha tem cadência e ritmo. Tem prazo estabelecido. Naquele ano, nasceu o Diretas Já. Quase dez anos depois, e os cara-pintadas pintaram e bordaram contra o Collor. Impeachement em 1992. 2003 passou incólume. Agora, em 2013, duas décadas contra Dilma.
Uma geração inteira saiu às ruas. Para os nascidos perto de 1993, o tempo é de gritar e ser ouvido. Todo mundo tem vez. Cinquentões de hoje já protestaram. Eles trouxeram a eleição bem direta. Outros tantos tiraram o primeiro presidente eleito, sim porque Sarney era mesmo vice. O imprevisível aconteceu. Junho ardeu em chamas, chamuscando velhos torrões partidários. Mexeu com tudo e com todos. Reinventem a fórmula porque os ingredientes se misturaram. Duas décadas contra Dilma.
O advento da internet mudou os rumos do mundo. Ninguém governa mais como antes. Antigas fonias “subversivas” agora estão em todo canto. Ipad, Iphone, Twitter. Orkut, Face, Messenger: a reinvenção do correio. Ninguém segura o povo. Enquanto dormimos, milhões conversam de tudo. Política também é papo. Transporte, saúde, abusos. Cuidado, Dilma, o povo não dorme mais, madruga.
As manifestações atuais têm algo diverso. Não nasceram da UNE e da Ubes. Não ergueram bandeiras vermelhas. Nasceram da base mais base. De jovens que gostam de bola, mas sabem quanto custa a passagem. De gente que sabe fazer conta diferente. Sem nada de provas e noves. Conta que o celular resolve rápido, traduz, faz câmbio. Quarenta bilhões na Copa? Peraí... esse negócio não tá certo. Circo sobretaxado. Não dá, Dilma! Vamos às ruas. Muita gente já ganhou a Copa. Hexacampeões por toda parte. Corruptos, corruptíveis.
O governo devia estar avisado, atento, vigilante. Não dá para governar assim isolado. A democracia pressupõe diálogo. Não tem essa de “no meu governo”. O governo é do povo e quem entender isto vencerá. Tem de ouvir o Legislativo. Tem de ouvir o Judiciário. Tem de ouvir as bases. Por que invadir seara alheia e alterar a equação montesquiana? Por que o Planalto não incluiu no orçamento os estudos financeiros do Supremo? Agora, aguenta: duas décadas contra Dilma.
É impressionante o poder de duas décadas acumuladas. Ganha a Quina e a Sena, resolve tudo muito rápido. Rapidinho, o governo veio falar com o povo: promessas, propostas e mais promessas. O que não der para hoje, sairá amanhã. O governo quer ouvir a plebe. Mas será que os jovens querem isso? Milhões num plebiscito arriscado? Por que não ouvir a plebe lá nas urnas? Vamos medir bem a ressonância. Vamos ver se é vigília ou sonambulismo. Ninguém deve votar emprestando a faixa, querendo saber qual é a pauta.
Constituinte? Meu Deus, que ideia afobada! “Barbeiragem”, diria o Lula, rompendo o silêncio de suas polpudas aulas africanas. Nem pensar mexer nisso agora. Prefiro essa colcha de retalhos a perdermos até o artigo quinto. Cláusula pétrea, é bem verdade, bem mais segura longe de marretadas loucas para gravar os seus nomes na Carta.
Mas os ganhos de junho são notórios. Planalto, Congresso e Supremo querem limpar a mesa. Reveja-se isto e aquilo, ministérios podem ruir. Até a causa gay entrou em pauta, ou melhor, querem tirá-la de vez: negue-se a cura definitivamente! O Congresso não quer um título homofóbico. Pobre Feliciano, vão apagar os holofotes. Volte a pregar, mano! Até o Supremo mandou prender político. Duas décadas contra Dilma. Duas décadas contra todos.
O desenho eleitoral está confuso. Ninguém garante nada. Vantagem virou dúvida. Azar agora é sorte. Quem vestirá a faixa no parlatório do Planalto? Dilma, Lula, Marina? Teremos rede, petistas ou tucanos? O que teremos? Não sei. Hoje só sei que temos duas décadas nas ruas. Duas décadas contra Dilma.

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quarta-feira, 19 de junho de 2013

Cento e dois anos de jornada feliz


Parece que foi ontem, podemos imaginar perfeito a cena: 19 de novembro de 1910, uma tarde acalorada de sábado na capital morena. O velho navio Clement, proveniente dos Estados Unidos, atraca no porto da cidade. Para ser preciso, fica fundeado “lá fora” porque não havia lugar no ancoradouro. Não era recenseamento nesta Belém, porém, todas as hospedagens do cais estavam ocupadas. Navios. Bandeiras de várias partes do mundo carregavam a nossa borracha, o nosso cacau, a nossa madeira.
Agora, botes seguem em direção do gigante. Precisam auxiliar famílias inteiras que moram sobre o Atlântico há duas semanas. Não existem as nossas prioridades. O capitalismo organiza o desembarque: primeiro, a primeira classe. Quem viveu em camarotes, precisa rápido de conforto. Quem sobreviveu nos porões, pode esperar mais um pouco. O motor está bem fraquinho, diminuindo calor e barulho no estranho subsolo. O escuro já não é tão negro. O odor de vômitos na serragem passa despercebido. Apesar de tudo, uma jornada feliz vai começar daqui a pouco.
De pé e saltitantes, dois jovens suecos espiam curiosos a cena. A cidade lhes parece linda. Não tem selva nem índios armados. Um postal digno da Europa, assim pensam. Agora, sentados nessa lâmina de árvore que desafia as águas, sentem a maresia arrastá-los ao Ver-o-Peso. Mas não é ali o esperado desembarque. A jornada começará na Escadinha, antecipando meio século de Armstrong: um pequeno passo para o homem, um gigantesco salto para a fé.
Então, Berg e Vingren tocam o solo parauara. Primeiros passos da feliz jornada. E vão alegres subindo a 15 de Agosto, pois Vargas ainda não era governo. Caminho feliz até a Praça da República, lugar de orar e degustar mangas, que logo encherão seus bolsos em tempos da Belle Époque. Monumentos impressionantes de mármore. O Teatro está aberto, derramando suntuosidade por suas janelas e portas. É mesmo uma jornada de paz. Tem arte, tem manga, tem fé. Pousada humilde na João Alfredo, onde as últimas moedinhas garantem o descanso desses heróis em nosso meio.
Pela manhã bem cedo, a jornada recomeça. Estrada sem fim e desconhecida. A ordem divina só disse: “Pará”. Um bondinho se apresenta para apressar a carreira. E lá vão os jovens com a Bíblia em punho, abrindo caminho com a espada de Deus. Uma parada na João Balby, um antigo templo batista. Aqui, ficarão hospedados até junho que vem. Semi-hospedados, é bem verdade, pois logo estarão no Marajó. Jornada feliz sobre águas. Tajapuru. Soure. Anajás. Açaí. Camarão. Pupunha. Jornada feliz em tantos igarapés e furos. Aventura de felicidade nas travessias da baía em plenas águas de verão.
Logo, a jornada pegará os trilhos. Santa Izabel, Vila São Luiz, Capanema. Bragança, onde as pegadas chegaram de noite e esperaram o sino bater na alvorada. Jornada feliz em Quatipuru, onde toda a igreja, presa de noite, foi obrigada a capinar o cemitério até o ocaso seguinte. Feliz, em marcha triunfante pelas ruas. Em cultos apedrejados. Na fuga de Vingren em Mosqueiro. Jornada com os caranguejos do igapó, que testemunharam o fracasso da emboscada e viram cães desolados passarem ao lado do missionário. Feliz porque cumpriam o plano de Deus.
Não demorou muito, e a jornada ganhou toda a Nação. Viveremos um pentecostes caboclo. Belém está cheia de estrangeiros, trabalhadores da borracha e empresários do ouro branco. Banco de Boston, Banco da França e Casas portuguesas enchem a XV de Novembro, onde desfila Wall Street. Ergue-se a bolsa de valores. Mas, no topo é mais arriscada a queda, então não suportamos a Ásia: o capitalismo não respeita a si mesmo. A concorrência acorda o sonho equatorial.
E, quando isto acontecer, a jornada descerá o país. A mão-de-obra humana ganha farda celestial. Cada crente, uma semente de fogo. Logo alcançará o Nordeste: Ceará, Paraíba, Pernambuco, cada qual receberá um filho seu. Logo chegará ao ponto extremo: Amapá, Amazonas, Rio Grande do Sul. Cruzará o Atlântico para agradecer Cabral. Missões por todos os lados. Está fundada por Deus a Assembleia.
Exatamente hoje, a Assembleia de Deus completa 102 anos de existência, pois sua organização só aconteceu em 18 de junho seguinte ao desembarque. Agora, são milhões e milhões de passos, a instituição brasileira de maior penetração no território nacional. Algo assim que deve encher todos os paraenses de orgulho. 102 Anos de Jornada Feliz. Vamos todos ao Centro de Convenções festejar hoje, 19 horas, ali na Augusto Montenegro. Parabéns recíprocos!

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quinta-feira, 13 de junho de 2013

O dia da nomeação


Foi uma experiência interessante. No início deste ano, minha esposa fez-me uma pergunta humanamente sem resposta. Estávamos na hora do jantar quando ela, aprovada num concurso público federal há quase dois anos, virou-se para mim e perguntou: “Rui, você, que é um homem de Deus, me diga: quando eu serei nomeada?” No mesmo ímpeto de sua pergunta, respondi: “Você será nomeada no dia 13 de maio!”.
Os meses passaram. Minha esposa estava plenamente confiante naquela palavra, afinal de contas, esse tipo de fato é algo rotineiro em nossa casa. Quando maio chegou, ela permanecia firme. Vez ou outra, renovava sua fé lembrando-me a data anunciada, que, ao modo do começo do ano, eu confirmava. Os meses passaram, e quanta alegria tivemos ao ver aquela palavra se cumprir. Pois, exatamente no último dia 13 de maio, o Diário Oficial da União publicou a nomeação anunciada. Para alguns, uma grande coincidência. Para outros, um blefe, refutado facilmente através de um vídeo produzido durante uma palestra que fiz no dia 19 de abril. Para nós, um tipo de comunicação especial, que venho discutir hoje.
Estamos plenamente convictos da existência de outra dimensão de vida, o Reino de Deus, que vez ou outra interage conosco. Enquanto o homem procura vida análoga aos nossos padrões na vastidão do Universo, relatos de todos os cantos da Terra apontam para uma comunicação superior. Apontam para um nível de comunicação muito além dos modernos satélites e das estações espaciais.
Como determinar o dia da nomeação de um candidato aprovado em concurso público? Matemáticos poderiam apontar uma remotíssima chance de acerto aleatório. O ato de nomeação era algo completamente alheio a qualquer tipo de ingerência, era uma decisão exclusiva da presidência do Tribunal Regional Federal da Primeira Região, cuja sede está em Brasília. Como prever isso? A resposta pode estar na seguinte afirmação: fatos impossíveis aos homens constituem o domínio absoluto da Divindade. Comunicação superior. Agilíssima. Eficaz. Infalível.
Eu precisaria escrever exaustivos artigos para contar minhas experiências diárias sobre a existência desse tipo de “ponte aérea” entre o Céu e a Terra. Precisaria retroceder à minha infância até 2013. Falaria de visões, predições, sonhos, audições, curas e um sem-número de vezes que tenho testemunhado essa maravilhosa interação. Mas basta o dia de hoje.
O segmento cristão acredita na existência de anjos. Segundo as Escrituras, esses seres são mensageiros de Deus a serviço dos futuros habitantes das regiões celestiais. Eles podem se mover mais rápido do que a luz. Podem assumir formas diversas. Podem falar e ministrar algum tipo de poder sobre as pessoas. Essa foi a experiência de mulheres e homens do Antigo Testamento. Experiência de Maria, Pedro, Paulo, João e de milhares de pessoas ao longo dos séculos. E, certamente, não sofreu interrupção em nosso tempo, nós é que endeusamos demais o passado. Assim farão os homens do século XXII a nosso respeito. A morte alheia parece ter o poder de nos fazer enxergar o que não vemos em nossa vida.
Quantos anjos devem estar na Terra agora? Considerando que somos sete bilhões de almas, pelo menos deve existir idêntico número. Porém, as Escrituras falam de legiões, um número militar de soldados, que no Império Romano podiam estar reunidos em grupos de cinquenta, cem, mil e até maior número. Quem sabe, então, existam mais anjos do que homens sobre a face da Terra. Assim, imaginemos uma magnífica rede de comunicação, um tipo de escada de Jacó, por onde essas criaturas angelicais sobem e descem incessantemente. Embora este tipo de assunto possa ser reputado como fic- ção, não podemos desconsiderar que grande parte da humanidade acredita nele como verdade.
O que os anjos podem fazer? Tudo quanto necessário para nos garantir uma existência livre de embaraços em nossa caminhada. Segundo a Bíblia, não podemos nos dirigir diretamente aos anjos. Eles são servos de Deus. Este é quem dá ordens para eles em nosso favor. Então, experimente pedir que Deus envie um anjo em determinadas situações. Experimente isso quando o trânsito parar. Nas filas de bancos. Nas audiências judiciais. Nas salas de cirurgias. Quando perder um objeto em casa. E sempre que estiver em iminente aflição. Grite: “Deus, por favor, envie o seu anjo agora!”. Depois me conte.
Hoje [terça-feira] é um dia muito feliz em casa. Hoje é o dia da posse de minha esposa. O presidente do Tribunal e demais autoridades de Brasília estão em Belém para cumprir a nomeação do dia 13 de maio. Solenidade às 17 horas.

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sexta-feira, 7 de junho de 2013

Ponto de mutação das diferenças


Sem dúvida, vivemos um tempo de mudanças. Nossa história de liberdade é recente. Independência, Lei Áurea e República não têm duzentos anos. Direitos e garantias individuais farão jubileu de prata neste 2013. Religião, sexualidade e economia são itens em franco debate. O tecido social brasileiro está sendo formado. Com efeito, somos ainda um país de diferenças.
Gostaria de conversar com você sobre esse fenômeno brasileiro. Para isso, conto com sua sensibilidade, pois o objetivo aqui é apenas de reflexão mesmo. Individualmente ou em grupos, devemos ser respeitados. Abusos e crimes não podem ser tolerados. Porém, acredito que diferenças sociais atingem um ápice, a partir do qual podem sofrer mutação. Comecemos com a questão racial.
Sendo o Brasil uma nação de passado escravagista, é normal que o segmento negro receba proteção legal. Historicamente, essa grande parcela da população foi despedida do sistema produtivo brasileiro. Despedida sem dinheiro, formação e vínculos genealógicos com a América. Sofreu todo tipo de preconceito: racial, financeiro, religioso etc. Contudo, se a proteção ao negro virar protecionismo, atingiremos o vértice da pirâmide, a partir do qual o benefício atribuído a esse grupo implicará prejuízo de outros.
A questão da cota racial para ingresso em universidades públicas não está livre de críticas. E não está, primeiramente, porque o nosso povo não tem identidade racial. Salvo raras exceções familiares, somos um mix de culturas. Em nossas veias corre sangue de muitos povos. Europeus, asiáticos e africanos povoaram e povoam a terra milenar de milhões de índios. Enquanto algumas comunidades meridionais constituem ainda verdadeiras colônias de europeus-brasileiros, temos partes significativas de nosso território ocupadas por outros povos. Aqui no Pará, temos a nipônica Tomé-Açu, enquanto toda a Amazônia não passa de uma grande aldeia, com forte presença indígena na fisionomia e na cultura.
Quer ver uma coisa irritante? É a cor oficial da pele predominante em muitas regiões: parda. Já tentei de muitas formas saber exatamente a fórmula desse matiz, todavia, o máximo que consegui está relacionado à coprologia. É. Afora o governo, que insiste em classificar muita gente de “parda”, o registro mais próximo desse tom de pele encontra-se nas consultas médicas, quando nos perguntam a coloração das fezes. Ninguém merece essa comparação, porém, é assim que o governo consegue enxergar a cor da pele de um grande contingente populacional, principalmente na Amazônia, onde a gente não é branco nem preto.
À medida que o tempo passar, a questão das cotas raciais para afrodescendentes vai se tornar mais complicada no Brasil. E será assim porque o debate acima será aprofundado. E será porque o tempo, por si só, concorrerá para nivelar diferenças. Sim, pois hoje mesmo nem sempre é fácil concluir que a cor da pele é o grande vilão da injustiça social para alguns beneficiários das cotas. A título de exemplo, citemos as oportunidades iguais nos esportes, com a lembrança do lendário Pelé. E o que dizer de nosso atual presidente do STF? No futuro, a reserva de cotas poderá constituir medida injusta contra descendentes indígenas - quase toda a Amazônia -  e contra muitos outros brasileiros pardos, apenas pardos. Ponto de mutação das diferenças.
O que dizer da debatidíssima causa homoafetiva? Tenho a impressão que o mundo parece empurrar a heterossexualidade para o abismo. Todos vocês sabem o que penso acerca do respeito pelas pessoas, que não mudamos uma sociedade senão pela sua base. Agora, não vejo por que aptidões sexuais devem virar carnaval. Não vejo por que ministros do governo desfilam nesses blocos. Sexo não é coisa para avenida. Ninguém precisa sair pelas ruas gritando que é heterossexual. Ninguém precisa sair pelas ruas gritando que é homossexual. Sexo é vida privada. E, ainda que cometamos todos direitos à causa homoafetiva, somos todos filhos da heterossexualidade. Por isso, uma exagerada ênfase a questões sexuais de determinado grupo pode reverter em prejuízo para quem está fora dele. É preciso cuidado para que proteção a diferenças não sofram mutação nociva a toda a coletividade.

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RUI RAIOL é escritor
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