quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Em 2018, Helder acolheu de braços abertos seu agora adversário Zequinha "Rachid" Marinho. A política, realmente, é uma nuvem.

Atribui-se a Magalhães Pinto (1909-1996), a velha e sábia raposa mineira, a máxima de que política é que nem nuvem; numa hora, você olha e ela está aqui; no minuto seguinte, já mudou de posição.
É mesmo.
Espiem essa nota ao lado.
Está no Repórter Diário desta quinta (27).
É mais uma fustigada do governador Helder Barbalho no seu aliado de até pouco tempo atrás, o senador Zequinha Marinho, o Moro da direita paraense.
Leiam a nota com atenção e observem a cronologia dos fatos. Vejam como as nuvens da política mudam - às vezes em poucos anos, às vezes em meses, outras vezes em minutos.
É quem em 2011, conforme diz a própria nota, Zequinha Marinho já mostrava um certo, digamos assim, jeito Flávio Bolsonaro de ser. Em resumo, já era chegado a um rachid.
Àquela altura, quando o escândalo estourou, Zequinha Moro Marinho exercia seu terceiro mandato de deputado federal pelo PSC.
Veio 2014 e ele foi eleito vice-governador na chapa do tucano Simão Jatene.
Veio 2018. Zequinha rompeu com Jatene e elegeu-se senador numa aliança com o MDB de Helder, que também chegou ao governo do estado.
Até então, vejam bem, Zequinha já "carregava nas costas a marca de um escândalo de rachadinhas", para usar exatamente a expressão usada na segunda nota.
Mesmo assim, essa marca, essa mancha, essa mácula nada importava ao MDB, aliado do senador.
Mas eis que, a partir de 2020, contaminado e fanatizado pelos delírios bolsonaristas, Zequinha Marinho primeiro distanciou-se de Helder e depois rompeu mesmo com ele, tanto que hoje é uma das lideranças, no Pará, do PL de Bolsonaro e de Valdemar Mensalão Costa Neto.
Agora, como adversário de Helder, Zequinha Marinho é fustigado pelo mesmo escândalo das rachadinhas, a mancha que o senador já carregava nas costas em 2018, quando se aliou ao MDB, que então se manteve em compungindo e respeitoso silêncio em relação ao escândalo que envolvida o aliado.
É, meus caros.
Política, realmente, é que nem nuvem.
Ou, na versão parauara dessa máxima, em política até boi avua, como dizia o saudoso deputado cametaense Gerson Peres.
E como avua.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Números da Sespa sobre a Covid são completamente irreais. E estão pelo menos 17 vezes defasados em relação apenas a Belém.


É absurda e inacreditável, para dizer o mínimo, a inconsistência dos números de casos da Covid divulgados pela Secretaria de Saúde do Pará (Sespa) e disponíveis nas redes sociais do governo do estado.

Vejam a imagem do alto.

Os dados mais recentes, divulgados pela Sespa na noite desta terça (25), apontavam o registro de 398 novos casos nos últimos sete dias.

Agora, vejam a imagem acima.

Ali estão os dados divulgados pela Prefeitura de Belém também ontem à noite . Nos últimos sete dias, tivemos nada mais, nada menos do que 6.717 positivos para a Covid. E apenas em Belém, vale dizer. Vocês imaginem, então, em todo o território paraense.

Na comparação dos dois dados, apenas Belém teria quase 17 vezes mais casos de Covid em relação a todo o Pará.

É um disparate total.

Um disparate que se mostra mais assustador quando nos voltamos para a declaração estapafúrdia do secretário de Saúde do Pará, Romulo Rodovalho, que na última sexta-feira afirmou, durante entrevista coletiva (aquele ambiente onde jornalistas normalmente fazem perguntas burocráticas e ouvem também respostas burocráticas), que o estado não registrara, até aquela altura, nem um caso da variante ômicron.

Conviria que a Sespa explicasse a razão dessa abissal defasagem de dados que se observa até o presente momento. A explicação mais provável pode ser a de que ainda estão ocorrendo instabilidades nos sistema de alimentação de dados na plataforma do Ministério da Saúde.

Mas então que essa explicação seja dada.

Enquanto ninguém souber o que está acontecendo, mais sensato seria a Sespa suspender temporariamente a divulgação de seus números sobre a pandemia no estado. Como fez, aliás, a Prefeitura de Belém, durante cerca de duas semanas, período em que houve problemas na alimentação de dados.

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Estão matando o Tapajós, que também está matando as pessoas. A tragédia de agora não é de ontem. É de cinco décadas.


A repercussão nacional que o crime ambiental perpetrado contra o Rio Tapajós, cujas águas, normalmente claras, límpidas e cristalinas, apresentam coloração barrenta, talvez esteja sendo maior somente agora porque uma imagem, como vocês sabem, vale mais do que mil palavras.
E são, de fato, chocantes e impactantes, como também revoltantes, as imagens aéreas colhidas nos últimos dias, mostrando o Tapajós, sobretudo em sua margem direita, com uma coloração amarelada, com uma cor de barro, que se estende numa larga extensão em direção à sua foz, já na altura de Alter do Chão, em Santarém.
Mas, convenhamos, não é de hoje que o Tapajós vem sendo castigado. Não é de hoje que vem sendo agredido criminosamente. Não é de hoje que o colossal volume d'água ostentado por aquele que é o maior afluente do Amazonas em sua margem direita vem sofrendo os efeitos diretos, como também nefastos e destrutivos, de atividades criminosamente ilegais desenvolvidas em suas nascentes, diante da complacência de órgãos de controle.
Cinco décadas de agressão - Essa agressão, que começou ainda nos anos 70 do século passado, quando a atividade garimpeira no Alto Tapajós, em regiões acima de Itaituba, portanto bem próximo às nascentes do rio, atingiu um nível de contaminação de tal ordem que muitos dos contaminados apresentaram sequelas terríveis, comparáveis aos dos atingido pela tragédia de Minamata, no Japão, em abril de 1956.
Muitos de meus ancestrais têm raízes no Alto Tapajós, sobretudo em Itaituba. Um tio - saudoso e querido - do meu pai foi um dos que primeiros contraíram doença decorrente da contaminação de mercúrio e apresentou severos sintomas, em boa parte agravados porque, àquela altura, ainda era grande o desconhecimento sobre como tratar desse tipo de contaminação em altíssimo grau.
A crônica de uma tragédia - Isso ocorreu, como dito, há cerca de cinco décadas. E melhorou? Não melhorou. Em março de 2019, matérias já mostravam o avanço assustador da garimpagem no Alto Tapajós. Nada mais contundente, todavia, como o documentário acima, produzido em 2017 e disponível no YouTube, com mais de 14 mil visualizações. É a história de Cássio Freire Beda, um paulista que expõe, dolorosa mas corajosamente, todo o processo que o levou a desenvolver os sintomas da doença de Minamata, resultante da intoxicação por mercúrio no Rio Tapajós.
Seus depoimentos são comoventes. Intoxicado por metilmercúrio através do consumo de peixe, ele contraiu a chamada Doença de Minamata ou Síndrome de Hunter-Russel, que compromete o sistema nervoso, porque atinge principalmente o cerebelo e o córtex visual, reduzindo as capacidades motora, auditiva, visual e somestésica (relacionada às sensações que se originam em diferentes partes do organismo).
A contaminação sofrida por Beda foi detectada por volta de 2016. Portanto, é recente, o que demonstra que, em cinco décadas, o Rio Tapajós vem sendo se tornando a parte mais visível, como também mais impressionante, de uma tragédia que se agrava progressivamente, chegando ao nível atual, em que novos recursos de coleta de imagens, sobretudo por meio de drones, oferecem as dimensões de uma tragédia ambiental que vai desfigurando o Tapajós.
Além de desfigurar o rio, essa tragédia pode matá-lo, no sentido de torná-lo inservível e fazer com que o Tapajós - acolhedor, lindo, majestoso e fonte de de alimentação para milhares de pessoas - seja de alguma forma associado a doenças e, quem sabe, a mortes que podem infelicitar a enorme sua população ribeirinha. Mortes como a do próprio Cássio Beda, infelizmente ocorrida em abril do ano passado.
MapBiomas confirma crimes ambientais - Não há qualquer dúvida de que a atividade garimpeira, escancarada pelo governo criminoso de Jair Bolsonaro, é a grande responsável por tudo isso, como demonstra nota técnica (veja aqui a íntegra) divulgada neste domingo (24) pelo Projeto de Mapeamento Anual do Uso e Cobertura da Terra no Brasil (MapBiomas).
"A alteração da turbidez do rio Tapajós pode ser resultado da atuação conjunta de, ao menos, duas fontes sedimentares distintas, uma localizada mais a jusante (canais que conectam ao rio Amazonas) e outra mais a montante (atividade garimpeira do médio e alto Tapajós)", afirmam os oito signatários da nota técnica.
Eles lembram que, desde meados da década de 70, já se verifica atividade garimpeira na região, mas ressaltam que a área de garimpos na bacia do rio Tapajós saltou de 21.437 ha em 2010 para 68.351 ha em 2020, uma expansão de 46.914 hectares (equivalente ao tamanho de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul). "A área de garimpos detectados para o ano de 2020 é o recorde histórico da série de dados, que conta com 36 anos de imagens de satélite", acrescenta a nota.
Está tudo aí. Ainda é hora de salvar o Rio Tapajós. Mas, para isso, talvez seja necessário que o poder estatal, em todas as suas esferas e instâncias, reprima vigorosa e firmemente atividades ilícitas que vêm engordando os cofres de quadrilhas e extasiando os ecocidas e suas alucinações ideológicas, sempre tendentes a considerar que a necessidade de preservar o meio ambiente e de fazer uso sustentável de suas riquezas naturais não passa de mimimi.
Não. Não é mimimi. Está aí o Tapajós, que está sendo dizimado. Estão aí os contaminados, testemunhas de experiências tenebrosas provocadas pela poluição por mercúrio e muitos deles morrendo por causa disso. Como Cássio Beda.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Governo do estado e Prefeitura de Belém administram o caos na ponte. E precisam explicar claramente por que o pilar desabou.

Desde o início da manhã de 17 de janeiro passado, quando um pilar da ponte de Outeiro veio abaixo, o governo do estado e a Prefeitura de Belém estão administrando o caos, a desorientação, a bagunça e a confusão. É preciso que se diga isso claramente, para evitar que declarações - sejam de autoridades, sejam de cidadãos anônimos -, pinçadas aqui e ali, transmitam a impressão de que, apesar dos pesares, tudo vai bem no reino da Dinamarca. Não. Não vai.

Ressalte-se logo que o caos, a desorientação, bagunça e confusão que sobrevieram ao desabamento do pilar e à consequente interdição da ponte seriam, em quaisquer circunstâncias, absolutamente previsíveis. Até porque, nem a Prefeitura de Belém, nem o governo do Pará, nem o governo da Suíça seriam capazes de, num átimo, num abrir e piscar d'olhos, estabelecer providências imunes a críticas para reorientar as rotinas de estimadas 80 mil pessoas, como as que residem na Ilha de Caratateua e têm na ponte um equipamento público essencial para se locomover.

Portanto, repita-se, o caos era plenamente prevísivel e cabe aos poderes públicos resolvê-los, cada um no âmbito de suas responsabilidades. O que se apresenta como inadmissível é a tentativa de criar-se um cenário enganoso, ilusório, fantasioso que poderia transmitir a impressão de que, mesmo sem ponte, milhares de pessoas já estão indo e vindo felizes da vida - em lanchas, ferry boats, canoas, transatlânticos e sabe-se lá o que mais.

Afinal, por que o pilar desabou? - À tentativa de produzirem-se cenários enganosos, acrescente-se o fundamental: faz-se necessário que o governo do estado venha a público para divulgar clara e enfaticamente os resultados do laudo pericial que indicará se, afinal de contas, o pilar foi atingido por uma balsa ou se simplesmente ruiu.

Essa questão não é, como se diz, de somenos. Não é uma questão menor. Não é uma questão lateral, secundária. E por que não é?

No dia 19 de janeiro passado, uma quarta-feira, na postagem intitulada Nem balsa, nem ônibus, mas o carro do pipoqueiro é que derrubou o pilar da Ponte de Outeiro. É isso?, o Espaço Aberto observou que, se for confirmado que não houve colisão alguma, isso será indício de que o desmoronamento sinaliza que a ponte pode estar seriamente comprometida. "Com isso, será necessária uma prospecção 40 vezes mais apurada, para se avaliar se, em vez de apenas repor um pilar, não será necessário reforçar a estrutura da ponte inteira, que tem 360 metros e exerce uma inegável importância social, eis que liga a Ilha de Outeiro a Belém, no continente", escreveu o blog.

Sem colisão - Neste domingo (24), em seu portal Ver-o-Fato, o jornalista Carlos Mendes assina matéria (leiam aqui a íntegra) informando, com base em fontes confiáveis, que não houve colisão alguma. "A pergunta, afinal, é a seguinte: se a balsa investigada não bateu na ponte, no último dia 17, por qual motivo o pilar caiu e foi tragado pelo rio Maguari? O pilar caiu sozinho? Uma autoridade no assunto, cujo nome o Ver-o-Fato não revelará para evitar perseguições e ameaças, explica que o problema todo originou-se nos 'blocos de coroamento' da ponte", afirma a matéria. Blocos de coroamento são aquelas peças de concreto que fazem ligação entre as estacas que estão cravadas no subsolo e os pilares.

Nos últimos oito anos, lembra Carlos Mendes, "pelo menos cinco abalroamentos, alguns extremamente violentos, atingiram os pilares da ponte. E sempre durante a madrugada ou começo da manhã, quando a fiscalização não existe, a exemplo do restante do dia. Como não houve nenhum reparo, durante todo esse tempo, o nível de saturação a choques nos blocos de coroamento chegou ao limite."

As dúvidas que pairam sobre se houve ou não uma colisão foram confirmadas pelo próprio delegado Daniel Castro, da Polícia Civil, conforme declarações que constam de matéria divulgada na Agência Pará (leia aqui) informou na coletiva que prosseguem as investigações para localizar os responsáveis  pelo sinistro. "Pode (o sinistro) ser um  empurrador específico ou sucessivos choques de várias embarcações. Estamos fazendo perícias e em breve vamos divulgar a dinâmica: se foi uma embarcação que provocou a queda ou sucessivos choques de diversas embarcações", informou Castro, conforme a Agência Pará.

Viram aí? Sucessivos choques de várias embarcações é uma expressão do delegado que corrobora a apuração do portal Ver-o-Fato, de que os vários abalroamentos ocorridos nos últimos anos podem ter concorrido, juntamente com a falta de manutenção adequada, para que os pilares estejam ficando naturalmente fragilizados e propensos a desabar, sem que para isso tenha sido alvos de uma colisão.

Quanto ao anúncio do governo do estado, de que vai reconstruir a ponte em sete meses, convém evitar que a urgência exigida pela restauração completa de uma estrutura de imprescindível e inegável valor social, como a ponte de Outeiro, leve à eventual inobservância de procedimentos legais inafastáveis. Daí ter sido acertada a convocação tanto do Ministério Público como do Tribunal de Contas do Estado, para acompanharem todo o processo de contratação da empresa que realizará as obras na ponte.

É que gato escaldado, vocês sabem, tem um pavor de água fria.

sábado, 22 de janeiro de 2022

O Pará sem ômicron: esse é um fenômeno que a Ciência ainda precisa desvendar


Jornalistas, com e sem diploma, aprendem pelo senso comum que o conceito de notícia (às vezes meio discutível, admitamos) é aquele ilustrado pela velha máxima: notícia é quando a pessoa morde o cachorro; se o cachorro morde a pessoa, aí já não é notícia.
Jornais, blogs, portais, enfim, as mídias sociais paraenses (mas nem todas, vale registrar) destacaram, em suas manchetes, a declaração do governo do estado de que o Pará vive a terceira onda de Covid.
Com todo o respeito, mas isso aí é o cachorro mordendo a pessoa. É aquela novidade que, a esta altura do campeonato, não é mais novidade alguma, porque é visível, é patente, indiscutível e escandaloso o fato de que a terceira onda se instalou no Pará há duas ou três semanas.
A declaração do governo do estado, nesse sentido, é aquilo que a gente também pode chamar de segredo de polichinelo, um segredo que todo mundo já sabe.
Mas a declaração do governo do estado trouxe consigo a verdadeira novidade para a qual ninguém deu a menor bola: em meio à terceira onda - reconhecida, admitida e declarada, não esqueçam, pelo próprio governo do estado -, no território paraense ainda não foi registrado, até o presente momento, nenhum caso da variante ômicron da Covid.
Eis aí a pessoa mordendo o cachorro. Essa é a notícia, meus caros.
Quem apresentou ao público essa novidade, ou melhor, esse fenômeno? Ninguém menos que o secretário de Saúde do estado, Romulo Rodovalho, conforme notícia veiculada na página 2 (veja na imagem acima) do Diário do Pará deste sábado (22).
"Toda semana a gente encaminha 200 coletas para a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e até agora nenhum caso foi confirmado", diz Rodovalho, segundo se pode ver (e ler) na matéria.
A revelação do secretário faz do Pará a única coletividade, em todo o mundo, ainda imune à ômicron. No mínimo, esse fenômeno precisa ser urgentemente apurado e depurado pelas mais abalizadas instâncias científicas, aqui mesmo do Brasil e d'além-mar.
Nem a propósito, na última quinta-feira (20), a CNN Brasil disponibilizou em seu site a informação de que a variante ômicron já responde por 97% dos casos de Covid-19 no Brasil e alcança um percentual superior a 90% em 13 estados, incluindo os três mais populosos do país: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Além deles, o Pará está na lista.
Os dados são de um estudo conjunto das redes Vírus e Corona-ômica BR, vinculadas ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), e leva em conta casos confirmados até a primeira semana de janeiro.
A matéria é acompanhada de uma tabela (veja ao lado) em que o Pará aparece com 68,2% de casos positivos para a Covid. E isso, observem bem, é até a primeira semana de janeiro, que já está entrando praticamente em sua quarta semana.
Pelo sim, pelo não, e enquanto a ciência não desvendar as particularidades genéticas que fazem dos paraenses os únicos a não terem contraído a ômicron, conforme revela a Sespa, convém manter as etiquetas, como uso de máscara e distanciamento físico. Ah, sim: e vacinar-se, para os que ainda não estão vacinados ou ainda não completaram as doses.
Porque a terceira onda está aí mesmo, diz o governo do estado.
Mas sem ômicron, também diz o governo do estado.
Hehe.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Uma quarta-feira cheia de "canalhas" e militâncias "encanalhadas"

Não sei, não.
Vejo por aí, a cada minuto, muita gente se dizendo preocupadíssima com o nível de virulência, ou melhor, de violência que as eleições de 2022 prenunciam.
Sinceramente, já tive essa mesma preocupação recentemente.
Mas começo a mudar de opinião.
Acho que, mesmo virulenta, ou violenta, a campanha eleitoral começa animadíssima.
Digo que a campanha eleitoral começa - e não que ainda vai começar - porque, ora bolas, a campanha eleitoral já começou. Simples assim.
E começou, como dito, animadíssima.
Esta quarta-feira (19), por exemplo, está cheia de "canalhas".
É o que se depreende depois de declarações de Lula e Moro.
Numa entrevista, pela manhã, Lula abriu o verbo (veja lá em cima) e se referiu ao ex-juiz, pré-candidato do Podemos ao Planalto, como "o canalha que foi o Moro no julgamento dos meus processos".
Logo depois, o assim nominado "canalha" Sérgio Moro foi à sua tribuna no Twitter (veja no alto) e devolveu o tiro: "Canalha é quem roubou o povo brasileiro durante anos e quem usou o nosso dinheiro para financiar ditaduras".
Nas redes sociais, militâncias encanalhadas, e com o dedo nos teclados (ou seria no gatilho?), se encarregam de atiçar ainda mais as labaredas que seus preferidos iniciaram.
Hehe.
E vocês acham que a campanha eleitoral ainda não começou?

Nem balsa, nem ônibus, mas o carro do pipoqueiro é que derrubou o pilar da Ponte de Outeiro. É isso?

Sabem aquela história do agora me deu medo?

Pois é, agora me deu medo saber que, vejam só, não foi uma balsa que abalroou um pilar da Ponte de Outeiro e, logo depois, o pior desabou.

O DOL acaba de informar que não houve colisão alguma. E que o pilar simplesmente desmoronou logo após a passagem um ônibus pela ponte. A informação se respalda no depoimento de um marítimo de 40 anos de idade que teria sido ouvido pela equipe da Delegacia de Polícia Fluvial.

Agora me deu medo, repito.

É que a informação do marítimo confirma depoimentos anteriores, dos tripulantes de uma balsa apreendida cerca de 48 horas após o desabamento do pilar. Eles disseram à polícia que não houve qualquer colisão, acrescentando que tal fato poderá ser corroborado por imagens de uma câmara disponível na embarcação.

Por que essa versão, se confirmada, é de dar medo?

Porque sinalizará que, muito mais do que a avaria num dos pilares, o desmoronamento ocorrido é indício de que toda a estrutura da ponte poderá estar seriamente comprometida. Com isso, será necessária uma prospecção 40 vezes mais apurada, para se avaliar se, em vez de apenas repor um pilar, não será necessário reforçar a estrutura da ponte inteira, que tem 360 metros e exerce uma inegável importância social, eis que liga a Ilha de Outeiro a Belém, no continente.

Diante das discrepâncias entre a suposição inicialmente apontada - de que o pilar veio abaixo porque fora atingido por uma balsa - e o estágio atual da apuração - indicando não ter havido o abalroamento e que o pilar caiu após a passagem de um ônibus -, é fundamental que seja dada ampla, para não dizer amplíssima divulgação no resultado de perícia feita na estrutura da ponte, cujo laudo tem previsão de sair em até dez dias.

Pelo sim, pelo não, e para que nas próximas eleições os caçadores de votos não venham, na caradura, tentar salvar suas aparências com demagogias barata, convém que a Prefeitura de Belém, em parceria ou não com o governo do estado, trate de implementar com urgência uma alternativa que poupe de maiores sacrifícios e atropelos milhares de pessoas que diariamente precisam se deslocar naquela área.

Enquanto isso, acompanhemos as investigações.

E não nos surpreendamos se o próximo lance apontar que nem uma balsa, nem um ônibus, mas uma bicicleta - ou o carro do pipoqueiro - é que derrubou o pilar da ponte.

Zequinha Marinho virou uma espécie de Moro do Pará. Até os direitistas o repelem.

Zequinha Marinho: quase escorraçado de reunião no sul do Pará, ele está a ponto de
acordar de manhã, olhar-se no espelho e sentenciar: "Oh, vida: nem eu gosto de mim"

Zequinha Marinho, o senador que recentemente ingressou no Partido Liberal, depois de debandar do PSC, é uma espécie de Sérgio Moro da direita paraense: ninguém gosta dele e todos duvidam dele, porque todos o consideram um traidor (entre outras coisas).

A rejeição ao senador embica pra cima (mais do que os estratosféricos índices da ômicron) de tal forma que, se bobearem, Sua Excecelência está correndo o risco de, num dia qualquer, acordar de manhã, mirar-se no espelho e sentenciar, desolado: "Oh, vida: nem eu mesmo gosto de mim".

Trajetória de rompimentos - Marinho, quando era vice-governador do Pará no governo Jatene, rompeu com o governador porque não foi escolhido para ser o candidato oficial ao governo do Estado, nas eleições de 2018.

Depois disso, lançou-se ao senado, aliou-se ao MDB de Helder Barbalho, foi eleito e, ora bolas, também rompeu com Helder, que agora usa seu jornal e o de sua família para meter o sarrafo em Marinho, pintado como o emblema da fina-flor do bolsonarismo mais retrógrado (se é que existe algum viés bolsonarista que não o seja).

Em sua nova fase, o senador ingressou no PL depois que o partido arreganhou suas portas para abrigar Bolsonaro e a escória do fanatismo bolsonarista. O Partido Liberal, vocês sabem, é aquele que tem como sua mais alta liderança o nobre, impoluto, honrado e honroso Valdemar Costa Neto, exemplar de pureza ética que foi condenado por participar da roubalheira no Mensalão. Mas isso, é claro, não se deve levar em conta, porque, admitamos, a carne é fraca e todo mundo pode errar, né? (hehehe)

Uma vez em sua nova casa, o PL, Zequinha Marinho começa a alimentar fortes aspirações de ser candidato ao governo do estado, seu sonho que, como dito, foi sepultado em 2018 por Jatene, que preferiu o então deputado estadual Márcio Miranda.

Na condição de pré-candidato, Marinho tem levado ferro pelas ventas. Um ferro acionado, vejam, pela nata dos segmentos reacionários.

Quase escorraçado - Uma das histórias que revelam a rejeição de Marinho entre representantes dos próprios segmentos que ele diz representar indica que, na semana retrasada, o senador quase foi escorraçado (veja a história em detalhes aqui, no blog da jornalista Franssinete Florenzano) de uma reunião em Redenção, no sul do Pará, presentes cerca de 80 fazendeiros locais e de Conceição do Araguaia, Pau D'Arco, Rio Maria, Xinguara, São Félix do Xingu.

Tem mais. Na quinta-feira passada, dia 13, o Partido Liberal no Pará empossou oficialmente sua nova comissão num ato que aconteceu na Churrascaria Boi de Ouro, na Avenida Augusto Montenegro.

A atual diretoria vai coordenar a legenda no pleito de 2022, liderada por Zequinha Marinho e pelo advogado Rogério Barra, filho do deputado federal Delegado Éder Mauro. O objetivo dessa galera, conforme informação enviada pela Assessoria de Imprensa do PL, é "unir legendas que defendam as bandeiras de direita e conservadoras para fortalecer o movimento nas eleições deste ano no Pará."

Não se sabe como será essa união, uma vez que Marinho está sendo repelido até mesmo por segmentos direitistas, como o do agronegócio, que ele tanto defende. Como também está sendo repelido por tucanos (pelo menos aqueles que ainda são fiéis a Jatene), barbalhistas, petistas, comunistas (ainda tem?) e quantos outros istas existam.

Viva Zequinho Marinho!

Se você não gosta dele, junte-se a ele!

Justiça Federal condena vice-prefeito que liderou protesto violento em Jacareacanga

A Justiça Federal condenou (veja a sentença) a quatro anos e um mês de reclusão o vice-prefeito de Jacareacanga (PA), Valmar Kaba Munduruku, por ele ter sido um dos líderes de um protesto violento contra operação realizada em maio de 2021 para combate à mineração ilegal no município.

Na manifestação, garimpeiros ilegais invadiram a base da operação e atiraram rojões, pedras e pedaços de pau na direção dos agentes públicos e dos helicópteros utilizados pelas forças de segurança, deixando dois policiais feridos.

A operação, batizada de Mundurukânia, objetivou o combate ao garimpo ilegal na Terra Indígena Munduruku. Foi realizada por decisão judicial em processo iniciado por ação do Ministério Público Federal (MPF) e também fez parte de medida determinadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) para a expulsão de invasores de terras indígenas.

Penas - O regime inicial de cumprimento da pena do vice-prefeito é o semiaberto, estabeleceu a Justiça Federal. Ele também deve perder o cargo público quando a sentença transitar em julgado, ou seja, quando não houver mais possibilidade de apresentar recursos.

Outros dois líderes dos protestos também foram condenados. Allan Everson Dias Carneiro e José Tiago Correia Pacheco foram sentenciados, cada um, a quatro anos e três meses de reclusão em regime inicial semiaberto.

A sentença foi proferida em 15 de dezembro do ano passado. Na semana passada o MPF, autor da denúncia contra os três condenados, requereu à Justiça a análise e pronunciamento sobre a aplicação da pena de perda do cargo público. A aplicação da pena foi confirmada pela Justiça.

Fonte: Ascom do MPF do Pará

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Casos de Covid crescem de forma avassaladora em Belém e contrariam dados da Sespa e da Sesma



Os casos de pacientes contaminados pela variante ômicron da Covid-19 estão crescendo de forma avassaladora em Belém. Com o índice crescente de contaminação, as estatísticas oficiais que vêm divulgadas tanto pela Secretaria de Saúde do Estado do Pará (Sespa) como pela Sesma, a Secretaria de Saúde do Município (Sesma) de Belém, não expressam mais, nas duas últimas semanas, a real situação do estágio em que a doença se encontra, tanto na Capital como em todo o território paraense.
Ouvida há pouco pelo Espaço Aberto, uma médica com larga experiência no atendimento de contaminados pela Covid, já que está na linha de frente desde que a pandemia foi declarada, em março de 2020, contou que apenas neste domingo (16), durante o seu plantão, atendeu nada menos do que 15 pacientes que testaram positivo para a ômicron. Das 15 pessoas, três, que disseram estar vacinadas, precisaram ser internadas por precaução, porque corriam o risco de os sintomas se agravarem.
"Eu fique abismada, porque na semana passada eu não atendi nenhum paciente acometido de Covid. Então, você imagina: nós éramos cinco no plantão, e apenas eu atendi 15 com o vírus. Se os outros quatro colegas atenderam, em média, 10 pessoas na mesma situação, nós tivemos mais de 50 que testaram positivo. Eu nunca tinha visto isso, durante toda esta pandemia", contou a médica ao blog.
Esses números revelados pela profissional de saúde confirmam que as estatísticas oficiais estão muito distantes da realidade. Os dados mais recentes, divulgados pela Sespa às 18h deste domingo (veja na imagem do alto) indicavam que nos últimos sete dias, em todo o estado do Pará, apenas 31 pacientes testaram positivo para Covid. Já os dados da Sesma apontam, de acordo com o último boletim, de 6 de janeiro (imagem acima), que nos sete dias anteriores foram confirmados 19 casos de Covid na Capital.
A diferença estratosférica, em Belém e no Pará, entre os dados oficiais e os dados indicados pelas subnotificações, revela a mesma situação que já está sendo detectada em escala nacional. Em sua edição deste domingo, a Folha de S.Paulo informou (imagem ao lado) que, conforme pesquisa por telefone feita pelo Datafolha nos dias 12 e 13 de janeiro, um em cada quatro brasileiros com 16 anos ou mais, ou seja, 42 milhões de pessoas, afirmaram ter testado positivo para Covid. O índice é quase o dobro dos 22,8 milhões de casos registrados oficialmente. Especialistas disseram ao jornal que a defasagem é decorrente de problemas na sistematização dos dados.
O aumento avassalador do número de contaminados pela ômicron reforça a necessidade de que a população mantenha todas as cautelas indicadas pelas autoridades sanitárias para evitar a Covid. E as cautelas valem tanto para os que já estão vacinados (com a dose completa ou não) como para os que ainda não estão imunizados. "Precisamos seguir todas as cautelas - usar máscara, evitar aglomerações, lavar as mãos e manter o distanciamento físico. Precisamos agir como se estivéssemos no início da pandemia. Porque está começando tudo de novo", recomenda a médica ouvida pelo blog.

sábado, 15 de janeiro de 2022

As paixões políticas, os noivos, o oficialismo, as artes. A História na vitrine, em 200 anos de jornalismo no Pará.




Jornais, de larga ou diminuta circulação, de longa ou curta existência, não se tornam vitrines da História apenas porque publicam ocorrências de grande repercussão e que afetam, por isso, coletividades inteiras. Eles se tornam vitrines da História porque também veiculam hábitos, costumes, práticas, aspirações e expressões artísticas e culturais das sociedades, externadas nas individualidades, nas rotinas, no dia a dia dos cidadãos comuns.
Os jornais que circularam em Belém nos séculos XIX e XX (alguns deles circulando até agora), demonstram bem isso, seja quando festejavam a vitória eleitoral do líder político que apoiavam, seja quando publicavam em suas páginas - inclusive na primeira - anúncios de noivados que uniriam pessoas de "famílias gradas", seja quando anunciavam espetáculos apresentados em seus teatros ou advertiam que, nas festas de Carnaval, só seria permitido o ingresso de pessoas "decentemente" trajadas.
Constata-se isso - os jornais como expressões vivas de suas épocas - quando se visita, como eu visitei neste sábado (15), a 3ª edição da exposição “Belém Viva Belém”, projeto desenvolvido pelo Castanheira Shopping para homenagear Belém no mês de seu aniversário.
Sob a curadoria da doutora e professora de História da Arte Rosa Arraes, foi aberta na última quarta-feira (12), no 2º e 3º pisos do shopping, exposição que tem como tema as “Memórias do Nosso Jornalismo Impresso” ao longo de 200 anos, que mostra a primeira edição de vinte dos mais duradouros jornais impressos de Belém, a começar pelo “O Paraense”, de 1822 - primeiro jornal impresso no Pará.
Homenageados - Um dos homenageados da mostra é o jornalista e empresário Romulo Maiorana, que faria 100 anos em 2022 e fez de seu O LIBERAL o primeiro jornal do Pará e um do primeiros do Brasil a imprimir em offset, a partir de maio de 1972.
O outro homenageado é o jornalista Paulo Maranhão, que completaria 150
anos neste 2022 e viveu até os 94 anos escrevendo para a Folha do Norte, que funcionava na Gaspar Vianna, na sede que posteriormente foi de O LIBERAL, até este jornal transferir-se para a Avenida Romulo Maiorana, no bairro do Marco.
Maranhão foi considerado o jornalista mais antigo do mundo em atuação. Humberto de Campos, o excelente escritor maranhense que chegou a integrar a Academia Brasileira de Letras e integrou o quadro de redatores de "A Província do Pará", descreveu assim a paixão de Paulo Maranhão por seu jornal: “Folha do Norte, por ela vivia, por ela morria”.
Oficialismo e paixão - Na exposição, salta aos olhos a orientação editorial dos jornais, que ora eram oficialistas aos extremos, ora projetavam-se como defensores de causas ou de projetos políticos que faziam de suas páginas estopins para a explosão de emoções desabridas, que não raro desembocaram em atentados e mortes, como a de Paulo Eleutério, que foi morto a tiros dentro da redação de O LIBERAL, em maio de 1950.
Ressaltem-se dois exemplos emblemáticos.
Em seu Treze de Maio, que circulou de 1840 a 1862, Honório José dos Santos avisa logo que não admitiria a publicação de qualquer comentário que envolvesse a vida particular de alguém. E em relação ao Poder Público? Também não, a menos que a autoridade permitisse. Escreveu o jornalista: Repelimos qualquer correspondência, ou polêmica, que tenha por objeto a vida particular de alguém, ou por fim a oposição aos atos de qualquer Autoridade que seja, exceto se da Autoridade competente tivermos, por nossa salvaguarda, permissão para o fazer.
Já O LIBERAL, em seu primeiro número, demarca claramente seu território: defender com unhas e dentes o governo de Magalhães Barata, que na época enfrentava severa oposição da Folha do Norte, de Paulo Maranhão. Dizia editorial publicado na primeira página: Saberemos revidar as afrontas, destruir e pulverizar as infâmias de nossos detratores, mas sempre prevenidos higienicamente, tomando as necessárias precauções todas as vezes que tenhamos de intervir de bisturi em punho nas purulências morais dos nossos conhecidos inimigos.
Omissões - Exposições como a do Castanheira, que pretendem enfrentar um tema que compreende nada menos do que dois séculos, acabam, incontornavelmente, omitindo informações. Essas omissões, ressalte-se, nem sempre decorrem da falta de critérios escolhidos pela curadoria para exibir as peças que entende essenciais, mas decorrem de vários outros fatores, até mesmo da indisponibilidade do espaço físico para abrigar tudo o que seria importante e imprescindível.
Chama atenção, de qualquer forma, não ter sido feita qualquer referência a veículos que marcaram época na história dos jornais do Pará, como é o caso do Resistência, o principal veículo de comunicação da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos desde 1978, que foi alvo até mesmo de empastelamentos pela ditadura militar. Ainda hoje o jornal sobrevive, e recentemente abriu um versão on-line, ainda incipiente.
Neste sábado (15), na coluna que assina no Diário do Pará, o jornalista Raymundo Mário Sobral reclama que o seu PQP - Um Jornal Pra Quem Pode foi sido esquecido pela mostra do Castanheira. "As pessoas podem alegar que PQP - Um Jornal Pra Quem Pode foi alienado, insano, indiferente às magnas questões que assolavam a Nação. Concordo. Em parte. Ocorre que mesmo assim, como todos os senões, 'PQP' existiu e fez parte, queiram ou não queiram, de um ciclo de 23 anos da Imprensa de nossa terra natal", escreve sobral, num texto que intitulou de "O 'sequestro' do PQP".
As omissões nesse tipo de exposição, como já dito, são inevitáveis. Mesmo assim, ressalte-se a relevância da mostra em exibição no Castanheira, sobretudo por destacar a enorme influência que os jornais exerciam em sociedades que ainda não contavam com meios eletrônicos, como emissoras de rádio e televisão, mas que tinham nos veículos impressos poderosos, para não dizer poderosíssimos instrumentos de interação social

Serviço: A exposição “Belém Viva Belém - Memórias do Nosso Jornalismo Impresso” foi aberta dia 12 de janeiro e continua no 2º e 3º pisos do Castanheira Shopping (BR-316 – Km 01 -S/N). Visitação aberta ao público de segunda a sábado, das 10h às 22h, e aos domingos, das 14h às 22h, até 31 de janeiro.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Petistas paraenses, alguns em posições de liderança, resistem a Alckmin como vice de Lula

Alckmin e Lula: petistas ainda não engoliram - e parece que nem vão engolir - a
possibilidade de um ex-tucano ser companheiro de chapa da maior liderança nacional do PT

Vozes do PT do Pará, algumas em posições de liderança, evitam a todo custo externar publicamente sua opinião sobre os movimentos de Lula para encaixar o tucano Geraldo Alckmin como seu companheiro de chapa nas eleições presidenciais de outubro.
Mas, se compelidas pelas circunstâncias políticas a se manifestar, essas vozes não hesitarão em passar a mão no trombone para proclamar, solene e claramente, que a estratégia lulista pode custar caríssimo ao PT.
Nada contra Alckmin pessoalmente, explicam os antitucanos ao Espaço Aberto. Tudo tem a ver com os vínculos do ex-governador paulista e ex-candidato a presidente da República, que se projetou na vida pública justamente pelo PSDB.
O partido tucano, lembram os opositores da escolha de Alckmin como candidato a vice, notabilizou-se como o grande adversário petista nas últimas três décadas. Acrescentam ainda que, desde a eclosão do escândalo do mensalão, o PSDB tentou reforçar sua marca de pureza ética, para isso contrapondo-se aos petistas, que passaram a ser apontados como os decaídos, incapazes de resistir às tentações do poder. Tentações que posteriormente desaguariam em outro escândalo ainda maior que o do Mensalão, o da Lava Jato, que acabaria por tragar o próprio Lula para a cadeia, onde permaneceu por 580 dias.
Os petistas daqui, fiéis àquela máxima de quem quem apanha nunca esquece, acham que, muito embora a Lava Jato também tenha respingado entre o tucanato e algumas de suas lideranças (entre as quais Aécio Neves, que chegou a ser alvo de um pedido de prisão preventiva formulado pela PGR), convidar um ex-tucano da estirpe de Alckmin para compor com Lula poderia transmitir a parte do eleitorado a sensação de que Lula, para ganhar a eleição, é capaz de se aliar a qualquer, mesmo aos que já o chamaram de bandido no passado.
Alckmin, é claro, jamais chegou a esse nível de contundência verbal, mas muitos tucanos, sim. E são esses que os petistas paraenses não perdoam. Pelo menos por enquanto.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Justiça obriga ICMBio a reabrir, para pessoas com deficiência, prazo de inscrições em concurso

A Justiça Federal obrigou o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) a reabrir, para pessoas com deficiência, o prazo de inscrições do concurso para analistas e técnicos ambientais. A decisão foi assinada na última segunda-feira (10) pela juíza federal Hind Kayath, que atua em Belém (PA). A determinação tem abrangência nacional.

O ICMBio também terá que simplificar a documentação exigida na inscrição como comprovante da deficiência e, se necessário, ampliar o prazo para pagamento de inscrições.

O edital estabelecia que na inscrição as pessoas com deficiência deviam apresentar atestado da deficiência emitido por equipe multiprofissional e interdisciplinar. A Justiça determinou que basta a apresentação de laudo médico simples.

O processo seletivo tem provas previstas para 6 de fevereiro e oferece 171 vagas em seis estados que compõem a Amazônia Legal (Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Pará e Rondônia).

Exigência ilegal - Segundo o Ministério Público Federal (MPF), que ajuizou a ação, a exigência da apresentação de parecer emitido por equipe multiprofissional e interdisciplinar não pode ser feita no ato da inscrição, para não dificultar ou até impedir que pessoas com deficiência possam concorrer às vagas oferecidas.

A legislação e o edital preveem que, durante o processo seletivo, as pessoas com deficiência serão avaliadas por equipe multiprofissional e interdisciplinar, e por isso não há motivo para que esses candidatos tenham que providenciar essa avaliação por si próprios para poderem se inscrever no concurso, destaca o MPF.

Essa exigência só leva as pessoas com deficiência a terem mais custos e a enfrentarem mais burocracia, registra a ação da Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão no Pará, órgão do MPF. Além disso, outra dificuldade para obtenção do parecer médico multidisciplinar é que o Sistema Único de Saúde (SUS) está sobrecarregado pelo novo aumento de número de casos de covid-19 e pelo surto de gripe, destaca o MPF.

Fonte: Ascom/MPF Pará

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Em uma semana, "sistemas de saúde deverão entrar em colapso no Brasil"

Pelo ritmo que estamos vendo, em uma semana os sistemas de saúde deverão entrar em colapso no Brasil. O número de infecções aumentará mais ainda nos ambulatórios e provavelmente faltarão mais profissionais da saúde no combate. A maioria dos médicos e enfermeiros foi imunizada com duas doses da CoronaVac e reforço da Pfizer. A CoronaVac foi importantíssima no início, frente à inexistência de outras. Mas ela não protege como as outras em relação a novas variantes. Muitos de nós seremos infectados. De uma forma mais branda em relação ao que se viu há um ano, quando não havia imunizantes no Brasil. Mesmo assim, seremos afastados. Só na minha área do Hospital das Clínicas, de São Paulo, por exemplo, temos 56 profissionais afastados.

Essa aí, ipsis literis, é uma opinião pavorosa, tenebrosa, amedrontadora.

Sua autora não é qualquer uma. Não é uma qualquer.

Trata-se da intensivista e cardiologista Ludhmila Hajjar uma das médicas mais experientes no tratamento da doença no país.

Intensivista e professora de cardiologia do Hospital das Clínicas, em São Paulo, e médica da Rede D'Or, atendeu mais de mil infectados em todos os estágios da doença, entre eles nomes como Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados, Dias Toffoli, ministro do STF e Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, cargo para o qual foi chamada por Jair Bolsonaro em março de 2021 e recusou.

As projeções - tenebrosas, vale repetir - da dra. Ludhimila estão em entrevista publicada na edição de O Globo desta quarta-feira (12).

Como ela, outros profissionais, sobretudo infectologistas e virologistas, vêm alertando há mais de duas semanas que as medidas adotadas até agora no Brasil, para pelo menos minimizar os efeitos da altamente transmissível cepa ômicron, ainda são muito tímidas.

E são tímidas porque o número de infectados, a cada dia, bate recorde sobre recorde. A questão central é que, como a eficácia da vacinação tem se mostrado decisiva - uma vez que reduz substancialmente a ocorrência de casos graves e tem evitado o avanço das mortes -, poucos estão encarando a nova fase da pandemia como perigosa.

Mas é perigosa, sim. E muito perigosa.

Projeções como a de Ludhimila Hajjar que o digam.

Vejam como era Belém. Mas vamos conter nossas nostalgias.

Não sejamos nostálgicos apenas para alimentar aquele romantismo lacrimoso, em que choramos tsunamis de lágrimas quando voltamos nossos olhares para o passado. E nem precisa ser um passado distante.
Isso é horrível; eu acho, pelo menos (mas há quem adore esse esporte).
No caso de Belém, a cada 12 de janeiro somos tentados a olhar para o dia anterior, 11 de janeiro, e concluir, por mera compulsão nostálgica, de achar que foi um dia melhor. Apenas porque foi ontem.
Nem sempre, meus caros.
Nestes 406 anos da Cidade, pincei as fotos abaixo do excelente Nostalgia Belém, o perfil no Instagram que brinda seus seguidores com imagens da Belém de ontem - muitas vezes, de muito, muito ontem.
As imagens são emblemáticas, porque mostram cenários, situações, contextos e ângulos que não imaginávamos terem existido.
Mas existiram, ora.
A Belém dos tempos das fotos era melhor ou pior do que a deste 12 de janeiro de 2022?
Sabe-se lá.
Isso aí, apenas o sentimento e o sentido de nostalgia, muito particular de cada um, serão capazes de responder.
No mais, viva Belém!

Avenida Independência, hoje Magalhães Barata, em perímetro não identificado. Década de 40.

Boulevard Castilhos França (a foto registra o que é hoje a Praça do Pescador). Anos 30.

Imagem da Fábrica Palmeira, localizada no Comércio. Hoje funciona
no local o Espaço Palmeira.

Lateral do Theatro da Paz e o paisagismo impecável. Década de 30.

Avenida Presidente Vargas, quando ainda tinha mão dupla. Ano de 1960.

Governador José Malcher com Generalíssimo. Nesse quarteirão, alguns casarões
ainda estão sendo preservados.

Theatro da Paz na década de 60.

O Bosque Rodrigues Alves, que em agosto do ano passado completou 138 anos.


terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Um gigante do jornalismo deixa um legado inestimável. Que deveria ser uma bússola para todos os jornalistas.

Andrew Jennings: em mais de 50 anos de profissão, lições edificantes de jornalismo

Jogo Sujo, o mundo secreto da Fifa
deveria constar dentre os livros de cabeceira de qualquer jornalista, inclusive os que não suportam futebol e, por não suportarem, não fazem a menor questão de distinguir uma bola de um pé de alface.
É que Jogo Sujo não trata de futebol. Trata de bandidos, de gângsteres, de corrupção, ganância, fraudes, manipulação de resultados, de enriquecimentos ilícitos, de bilhões e bilhões de dólares trafegando no submundo das tramoias, das maquinações e traquinagens mais nauseantes.
E por que Jogo Sujo deveria estar sempre ao alcance da mão de qualquer estudante de jornalismo ou de qualquer jornalista? Porque é jornalismo puro - nas técnicas de investigação, na capacidade de superar obstáculos opostos por quadrilhas dispostas a não ter seus podres revelados, no destemor, na precisão dos dados colhidos e, por último mas não menos importante, no desvendamento de questões que interessam a toda a sociedade.
Mantenho Jogo Sujo bem abrigado nas minhas estantes (veja ao lado) desde que o li, há trocentos anos. E acabo de folheá-lo agora (deplorando a poeira que denuncia o curso dos tempos), logo depois de tomar conhecimento da morte de seu autor, o jornalista escocês Andrew Jennings, aos 78 anos, vítima de uma "doença repentina".
Jennings foi o repórter por excelência. Sua atuação na BBC confirmou isso. Ganhou notoriedade mundial em décadas de trabalho quando passou a denunciar casos de corrupção em alguns dos principais órgãos do esporte mundial, como a Fifa e o Comitê Olímpico Internacional (COI).
Sua maior premiação, como também o maior atestado de que sempre subordinou seu ofício de jornalista ao interesse público, foi o fato de que suas matérias investigativas, como também seus livros, continham conteúdo de tal forma contundente, como também verdadeiro e incontestável, que ele passou a ser barrado nas entrevistas coletivas que a Fifa concedia.
Por várias vezes, em matérias jornalísticas que assinou, em entrevistas que concedeu e nos seus livros que escreveu, Jennings costumava dizer que os negócios da Fifa fariam corar a Máfia italiana.
Leiam Andrew Jennings - sobretudo jornalistas e estudantes de jornalismo - para comprovarem a veracidade do que ele diz.
Menos mal que a inexorabilidade da morte de personagens como Andrew Jennings não impede que fiquem, como legado, trabalhos de notória excelência, que haverão de servir como bússsolas, como holofotes e referências para gerações vindouras.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Mudança na presidência do Banpará apanhou muitos de surpresa, menos o presidente. Primeira mulher a comandar o banco tem conhecimento de excelência do sistema financeiro.

Braselino Assunção: primeiros "recados" de que seria substituído começaram no ano passado

A substituição do presidente do Banpará, Braselino Assunção, que deve ser consumada na reunião do Conselho de Administração marcada para esta quarta-feira (12), pegou de surpresa muita gente, menos o próprio Braselino, a cúpula do banco estadual e segmentos políticos com acesso mais amplo aos bastidores do governo Helder Barbalho.
O Espaço Aberto apurou que desde o início do segundo semestre do ano passado, por volta de julho/agosto, Braselino começou a ser destinatário de indicações - informais, evidentemente - de que Helder estaria propenso a mudar o presidente. Os sinais chegaram aos ouvidos de Braselino por meio, inclusive, de deputados da base aliada. As motivações, todavia, nunca foram explicitadas.
Como estava se aproximando o final do ano de 2021 e as supostas mudanças não se confirmavam, Braselino, segundo fontes ouvidas pelo blog, achou que continuaria no cargo, uma vez que, intimamente, estava convicto de que estava fazendo uma boa gestão, pautada em conceitos técnicos.
Governo bem atendido - Além disso, estava convencido de que, politicamente, jamais fora empecilho a Helder ou a membros de sua entourage. "Ele [Braselino] sempre empenhou-se em atender tudo o que o governo queria. Nunca foi obstáculo para nada. Ao contrário, todas as vezes em que foi demandado, moveu céus e terras para atender o governo da melhor forma possível", conta um interlocutor ao Espaço Aberto.
Mas as percepções políticas do presidente do Banpará, ao que parece, colidiram com a realidade quando ele foi chamado há poucos dias à Casa Civil e comunicado de que seria substituído pela atual diretora Financeira, Ruth Pimentel Méllo. Tão ou mais impactante do que o fato de ser substituído por motivações ainda não propriamente claras, a forma como lhe foi comunicada a mudança deixou Braselino bastante abalado, considerando-se que, como foi convidado pessoalmente por Helder para assumir a direção do Banpará, ele esperava ser informado também pelo próprio governador sobre sua substituição.
Outras fontes ouvidas pelo blog admitem que motivações políticas tenham custado a presidência a Braselino, mas não acreditam que, nesse contexto, o peso maior tenha sido exercido por eventuais excessos de interferência de grupos ligados ao ex-vice-governador Lúcio Vale, que renunciou ao cargo para ocupar um cargo de conselheiro no Tribunal de Contas dos Municípios (TCM), onde foi empossado em abril do ano passado.
"O Braselino assumiu a presidência do Banpará sem ter sido o responsável pela indicação de nenhum dos cinco diretores. E, na diretoria, o único realmente indicado pelo Lúcio Vale é o atual diretor de Administração. Sem dúvida, a Diretoria de Administração é muito importante, eis que é responsável por 2.500 empregados do banco e cuida dos contratos. Mesmo assim, não acredito que esse fato, por si só, demonstraria tanta influência da família Vale, a ponto de justificar a mudança do presidente", avalia interlocutor do Espaço Espaço.
Escolha oportuna - Independentemente, todavia, das razões que levaram Helder a mudar a presidência do Banpará, a escolha de Ruth Méllo para sucedê-lo tem sido apontada como das mais oportunas. Ela entra para a história da instituição como a primeira mulher a dirigi-la e, além disso, sua performance como funcionária de carreira, exercendo funções no escalão médio, e posteriormente na Diretoria Financeira e de Produtos e Serviços Comerciais, que ocupa até agora, confere a Ruth condições propícias para ocupar a presidência.
Fontes garantem ao Espaço Aberto que a futura presidente é uma grande conhecedora do sistema financeiro do Banpará, dispõe de um conhecimento minucioso sobre as oportunidades de negócios que interessam ao banco nos 144 municípios paraenses e sempre demonstrou uma notável energia para exercer suas funções. "Ela sempre foi um trator pra trabalhar", garantiu outra fonte que conhece Ruth Méllo não é de hoje.
Quanto a Braselino, sua nova trajetória terá seguimento na área de auditoria do banco, onde sempre atuou. Em mais de 40 anos, ele já foi chefe de Auditoria, superintendente de Controles e Gerenciamento de Riscos e diretor de Controladoria, Planejamento e Relações com Investidores.

domingo, 9 de janeiro de 2022

Bolsonaro, o tarado


Bolsonaro nos agride.
Agride-nos não em nossa consciência de cidadãos, mas em nossa condição de humanos. Porque Bolsonaro, em suas atitudes, nem parece humano.
Compará-lo a nós, humanos, é um insulto à condição de quem tem raciocínio, de quem deve agir com racionalidade e, por essas e outras particularidades, distingue-se da irracionalidade animalesca das espécies mais selvagens que existem.
Tarado por mentiras, tarado pelo negacionismo, tarado por propagar imbecilidades, tarado por necropolíticas tenebrosas, tarado por cruéis e suas crueldades, Bolsonaro chama de tarados os que acreditam em vacinas e defendem a imunização de crianças na faixa dos 5 aos 11 anos, conforme aprovado cientificamente, tecnicamente pela Anvisa e conforme já vem sendo feito em vários outros países.
Sim, eu sou tarado por vacinas.
Já tomei três doses. Estou à espera de vacinar-me com mais 30, se isso for necessário para preservar a minha vida, dos mais próximos que me cercam e, enfim, de toda a coletividade.
Minha postura não é isolada, tenho certeza. É a mesma postura deve ser seguida por quase 145 milhões de brasileiros que já tomaram a segunda dose de imunizantes contra Covid-19.
Vendo Bolsonaro escabujar, debater-se no lodaçal de suas crenças mais obscuras, enquanto propaga crueldades, evoco artigo que o documentarista João Moreira Salles fez publicar na edição da revista Piauí, em julho de 2020. Em A morte e a morte - Jair Bolsonaro entre o gozo e o tédio, Salles escreve assim, num certo trecho do artigo:

A princípio, pode causar espanto a indiferença de Bolsonaro pelos mortos da pandemia, por brasileiros que, em boa parte, morreram em decorrência da forma catastrófica com que ele escolheu enfrentar a crise. Fez vítimas, portanto. A frieza se torna mais compreensível quando se observa o que lhe acelera o coração. Bolsonaro não se comove com a natureza, a arte lhe é estranha, a religião não passa de um adereço político, a ciência o ofende. Até o luxo parece deixá-lo indiferente. A violência, não. É quando fala nela que parece mais vivo e potente.

É isso.
Bolsonaro não se comove com nada, a não ser com aquilo que provém da realidade paralela em que vivem - ele e outros fanáticos.
Nada de crueldade que venha dele, portanto, deveria nos assustar.
Mas, convém reconhecer, ainda nos assusta.
E nos indigna muitíssimo.
Porque somos humanos.
Já Bolsonaro...

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Jovem Pan News, o trombone do jornalismo de direita, torna-se pó no fosso do descrédito e vira traço no Ibope

Sou apaixonado por rádio.
Já disse isso aqui várias vezes, mas não canso de repetir.
Ouvir rádio evoca-me nostalgias inapagáveis, já expressas em postagens como a que intitulei Um jogo, um título, um rádio. Não dá pra esquecer. Nunca.
Meu hábito de ouvir rádio é tão forte que, muito frequentemente, quando assisto a jogos pela TV, desligo o áudio do televisor e aumento o do rádio. E assim fico durante os 90 minutos, mesmo quando há - e sempre há - um delay entre o som do rádio e a imagem que a TV mostra.
Digo tudo isso para registrar que há muito tempo a Rádio Jovem Pan foi uma das minhas referências em termos de programas jornalísticos.
O Jornal da Manhã era, insubstituivelmente, a minha primeira fonte de informações confiáveis e de opiniões fundamentadas e plurais. Lembro dos tempos de Joseval Peixoto, a voz da serenidade, da sobriedade e lucidez, conforme também externei aqui, em uma postagem.
Quem não se lembra do “Vambora, Vambora, olha a hora, vambora, vambora”, versos da “Sinfonia Paulista”, de Billy Blanco, que foi tema do Jornal da Manhã até 2017?
Pois é.
Mas eis que chegou 2019. Com ele, o jornalismo da Jovem Pan começou a sofrer uma corrosão progressiva e intensa em sua credibilidade até transformar-se, digamos assim, no alter ego de um punhado de fanáticos que ali encontram seu palco para disseminar, inclusive, o mais pavoroso negacionismo.
Mais recentemente, passamos a ter a Jovem Pan News, a TV da emissora que usa uma linguagem híbrida no conteúdo e na forma - ora como rádio, ora como televisão, ora como ambas e outra ora como coisa nenhuma.
A Jovem Pan News é a nossa versão da Fox News americana, que dá voz à direita e deixa em êxtase aquela banda podre do conservadorismo, que de conservador mesmo nada tem, porque as práticas de seus militantes traduzem o extremismo, o radicalismo e o fanatismo mais daninhos possíveis, capazes de infectar perigosamente a convivência democrática, como se viu na invasão do Capitólio, em 2020.
Quando se diz que, de 2019 para cá, o jornalismo da Jovem Pan passou a chafurdar no mais deplorável descrédito, isso não é uma impressão aleatória. Ao contrário, é uma constatação aferível em números.
Nesta quarta-feira (5), O Antagonista informa que a audiência da Jovem Pan News caiu de 0,04 para 0,03 entre os meses de novembro e dezembro e no momento está à frente apenas da Band News (0,02), de acordo com levantamento da Kantar Ibope Media.
É uma pena que seja assim. Mas esse é o preço que o jornalismo da Jovem Pan está pagando por alinhar-se ao obscurantismo, que não consegue ser disfarçado, muito embora, aqui e ali, a emissora empenhe-se em atribuir um verniz supostamente plural na veiculação de matérias e opiniões em seus programas jornalísticos.

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Bolsonaristas inundam redes sociais com ameaças de pegar em armas para impedir que suas crianças sejam vacinadas


Redes sociais estão sendo invadidas, nas duas últimas semanas, por postagens de bolsonaristas que se dizem dispostos a, literalmente, pegar em armas para resistir, se necessário até com derramamento de sangue, contra qualquer medida coercitiva que pretenda compeli-los a permitir que crianças sob sua guarda sejam vacinadas contra a Covid-19.
As postagens foram intensificadas depois que a Anvisa aprovou, no dia 16 de dezembro do ano passado, o uso da vacina produzida pelo consórcio Pfizer-BioNTech, a Comirnaty, contra a Covid-19 em crianças com idade de 5 a 11 anos. A aprovação foi anunciada  após avaliação técnica da agência, sobre o pedido apresentado pela farmacêutica em novembro, indicando o uso da vacina para este público.
As postagens atestam, evidentemente, um negacionismo repulsivo. Em consequência, os recalques ideológicos acabam se confundindo com a idiotice. Isso porque, na esmagadora maioria das postagens, seus autores ignoram estudos e avaliações técnicas e abalizadas, como os que respaldaram a aprovação da Anvisa, e acabam se bandeando para idiotices inacreditáveis, que associam a vacinação a um suposto experimento em crianças relegadas à condição de cobaias.
Mais espantoso do que isso é vermos entre os bolsonaristas fanáticos até mesmo médicos, aqueles a quem nós, cidadãos comuns, confiamos nossa saúde porque vemos nesses profissionais repositórios de conhecimentos que a ciência certifica como eficazes para garantir nossa higidez. Mas tantos desses profissionais, contraditoriamente, negam a própria ciência ao atribuir à vacinação em crianças o status de um experimento.
É obrigatório ou não? - À parte, todavia, os intentos de rebelião armada anunciada por bolsonaristas com as mãos no gatilho, à espreita para queimar vacinadores, a vacinação em crianças é tema que inevitavelmente vai chegar ao Poder Judiciário, instância à qual caberá dizer se a imunização de menores na faixa etária prevista na aprovação da Anvisa é obrigatória ou não.
E deve chegar ao Judiciário porque vários juristas entendem que a aprovação da Anvisa é suficiente para configurar a obrigatoriedade prevista em dispositivo do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Outros, no entanto, acham que a obrigatoriedade só é legalmente possível se a vacinação for incluída no Plano Nacional de Imunizações (PNI) e no calendário vacinal pelo Ministério da Saúde.
O PNI determina algumas vacinas como obrigatórias para crianças e adolescentes, como a BGC (contra a tuberculose, aplicada ainda na maternidade), a tríplice viral, a tetravalente, a vacina contra a paralisia infantil, entre outras.
Assim estabelece o artigo 14:

Art. 14. O Sistema Único de Saúde promoverá programas de assistência médica e odontológica para a prevenção das enfermidades que ordinariamente afetam a população infantil, e campanhas de educação sanitária para pais, educadores e alunos.
§ 1º É obrigatória a vacinação das crianças nos casos recomendados pelas autoridades sanitárias.

Caso os pais se recusem a aplicar alguma das vacinas listadas e dispostas como obrigatórias, eles estão sujeitos a uma multa prevista no artigo 249 do ECA, que prevê o seguinte:

Descumprir, dolosa ou culposamente, os deveres inerentes ao pátrio poder poder familiar ou decorrente de tutela ou guarda, bem assim determinação da autoridade judiciária ou Conselho Tutelar: (Expressão substituída pela Lei nº 12.010, de 2009) Vigência Pena - multa de três a vinte salários de referência, aplicando-se o dobro em caso de reincidência.

O artigo do ECA é especialmente voltado aos pais e determina que a vacinação impõe-se além de crenças pessoais dos responsáveis legais pela criança. Juristas lembram que, ao determinar a obrigatoriedade da vacinação, o ECA prescreve uma imposição para pais e mães. Portanto, não importa se a pessoa que tem a tutela ou a guarda do menor é vegano ou se acha que vacina não deve ser aplicada em crianças. Pais e mães estão obrigados a vacinar seus filhos, nos termos da recomendação das autoridades sanitárias.
Em dezembro de 2020, inclusive, o Supremo Tribunal Federal (STF) apreciou um caso em que os pais veganos de uma criança de cinco anos alegavam que sua decisão de não vacinar o filho com nenhum dos imunizantes obrigatórios se dava por considerar o procedimento “invasivo”. O TJ de São Paulo determinou a vacinação da criança e os pais recorreram.
O ministro Luís Roberto Barroso, relator da ação, entendeu que a obrigatoriedade da imunização é constitucional e “não se caracteriza violação à liberdade de consciência e de convicção filosófica dos pais ou responsáveis, nem tampouco ao poder familiar”.
Estabelecidos esses balizamentos, precisamos aguardar agora o que ocorrerá quando, efetivamente, começar a vacinação das crianças. Enquanto isso não aconteceu, fanáticos bolsonaristas mantêm-se com as mãos no gatilho.
Que horror!

Vejam os números de Belém sobre a Covid. Mas fungar um na cara do outro, isso ainda é um sonho distante!

Há vários dias, a Secretaria de Saúde de Belém tem divulgado informações indicando que o número de ocupação de leitos clínicos e de UTI por pacientes acometido de Covid-19 é zero. Está zerado. E apenas 12 casos teriam - repito, teriam - sido registrados nos últimos sete dias. A última informação (veja na imagem) foi feita no final da noite desta segunda-feira (3), no Twitter da Prefeitura.

Essa é, sem dúvida, uma notícia alentadora. Mas, de outro lado, é desalentador não dispormos - os órgãos oficiais de Saúde do município e do estado e, em decorrência, nós, o distinto público - de informações verazes, confiáveis e precisas sobre a quantas andam os índices de testagem para o coronavírus em Belém e no Pará, depois do advento da ômicron, a cepa altamente transmissível que há poucos dias há chegou a infectar, em apenas 24 horas, mais de 2 milhões de pessoas no mundo inteiro.

A indisponibilidade dos dados de testagem é dado relevante - muito embora esteja passando despercebido por aqui - porque a Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma) já detectou um aumento assustador, avassalador de testagens positivas para Covid nos últimos 14 dias, em comparação com período equivalente anterior.

No dia 22 de dezembro, 3.090 dos 22.126 testes realizados deram positivo, o equivalente a 14% do total. Já na quarta-feira (29/12), 5.334 dos 25.998 testes realizados, cerca de 20,5% do total, foram positivos. O número se aproxima do recorde de 27% de exames positivos, registrado em março deste ano. Esses números abrangem 3 mil farmácias em todo o País, mas não sabe quantas em território paraense.

Além dessa incerteza, some-se a precariedade na fiscalização do passaporte vacinal, que se tornou obrigatório no estado a partir da edição do Decreto nº 2044/2021, em vigor a partir de 6 de dezembro do ano passado.

O passaporte é obrigatório em shows, casas noturnas e boates; cinemas, teatros, clubes, bares e afins; academia de ginástica; cultos religiosos; todos os equipamentos turísticos do Estado; eventos esportivos, amadores e profissionais; assim como em reuniões, eventos e festas, realizadas em espaços públicos ou privados. A presença de pessoas não vacinadas só poderá ser possível desde que seja comprovado, por atestado médico, a impossibilidade de administração de quaisquer das vacinas dispensadas.

Todos os estabelecimentos mencionados estão respeitando estritamente as exigências que o decreto estadual prescreve?

Ninguém sabe. E mesmo que ninguém saiba, a ômicron está aí mesmo. A influenza está aí mesmo. E o desgoverno Bolsonaro está aí mesmo, mais uma vez postergando e dando uma de Mané para iniciar a vacinação de crianças na faixa etária dos 5 aos 11 anos.

O cenário que vivemos hoje, felizmente, é muito, mas muito menos doloroso, trágico e caótico do que o visto, por exemplo, até março e abril do ano passado. Mas estamos ainda longe, muito longe, de tirarmos a máscara e começarmos a fungar livremente, sem medo e sem culpa, um na cara do outro, como fazíamos nos tempos - oh, que saudosos tempos! - pré-pandemia.