segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Puty fala. Mas fatos notórios dispensam provas.

Cláudio Puty (na foto), chefe da Casa Civil, pré-candidato a deputado federal pela DS (Democracia Socialista) e articulador político do governo Ana Júlia, deu uma entrevista ao Perereca da Vizinha, o blog da jornalista Ana Célia Pinheiro.
É uma boa entrevista.
Vale a pena comentar alguns pontos que, não sem coincidência, este blog tem abordado frequentemente.

1. Pergunta Ana Célia: “E por que essa fama de ser a pessoa que controla o governo nos bastidores?”
Reponde Puty: “Eu não sei. Isso quem tem de dizer é quem acusa; o ônus é do acusador. Mas, de qualquer maneira, talvez a atividade de articulação política esteja sempre, em alguma forma, associada à idéia da política enquanto uma arte manipulatória, o que é exatamente o contrário do que se pretende aqui. Tanto do projeto do governo, quanto do projeto de esquerda, enquanto tal, ele tem de ser esclarecedor. Tem de ser emancipatório, por assim dizer. Tem de ser o contrário da política vista simplesmente... Ou enquanto jogos de gabinete, jogos de palácios...”
Essa questão de a política ser associada à “arte manipulatória”, enquanto deveria ser “emancipatória”, é conceitual.
Na prática, acontece o seguinte: Puty é chefe da Casa Civil. Como chefe da Casa, é pré-candidato ao governo do Estado. Notoriamente, é pré-candidato. E continua como chefe da Casa Civil. E o chefe da Casa Civil tem, entre suas atribuições, a de ser o articulador político do governo.
Algum problema em Puty aspirar a um mandado eletivo?
Absolutamente nenhum.
Ele é petista. Tem a confiança da governadora. É um servidor que procura desempenhar bem o seu papel. Nada demais que se apresente como aspirante a um mandato eletivo.
Qual o problema, então?
O problema é que Puty, na condição de pré-candidato, continua como chefe da Casa e articulador político.
E o que acontece?
Acontece que tudo o que ele fizer – tudo, absolutamente tudo – como chefe da Casa Civil será automaticamente associado à sua condição de pré-candidato.
Por exemplo: Puty foi o articulador de dezenas de filiações ao PT e a partidos da base governista.
Alguma coisa demais nisso? Nada demais.
Nada demais, se ele não fosse pré-candidato.
Como é pré-candidato, ninguém – inclusive, sobretudo, principalmente e essencialmente os petistas – acreditará que sua atuação não está vinculada à tentativa de permitir-lhe acumular capital político, de ter maior visibilidade para fortalecer politicamente sua pré-candidatura.
O blog, sinceramente, não é capaz de dizer se a dupla condição de Puty – como chefe da Casa Civil e pré-candidato – é “arte manipulatória”, enquanto deveria ser “emancipatória”.
Mas, na prática, o que acontece é isto: a articulação política do governo, em sua qualidade, é muito afetada com a dupla condição de Puty.
Isso é notório.
O poster já teve oportunidade de conversar com Puty e reiterar o sentido das críticas que têm sido feitas aqui, nos últimos meses.
Uma conversa clara, objetiva, educada.
Sem ressentimentos.
Uma conversa, parece, que desfez a ideia de que críticas constantes soam como “perseguição”.
O pessoal é de paz.
Não persegue nada e ninguém.
As críticas continuam – e são feitas com alguma frequência - porque a situação perdura.
E não têm o sentido pessoal.
Podiam ser ao José, ao João, ao Jorge ou Arthur.
Mas são ao Cláudio porque ele é o chefe da Casa Civil do governo do Estado e, ao mesmo tempo, pré-candidato a deputado.
O que é notório, insista-se.

2. Diz Puty: “A DS, da forma como ela é expressa, é uma abstração, porque todo governo tem núcleo dirigente. Se você pegar, por exemplo, da prefeitura de Santana do Araguaia ao governo brasileiro, você tem o núcleo político dirigente desse governo. Associar isso – e o núcleo dirigente desse governo não é necessariamente o grupo associado à corrente Democracia Socialista do PT...”
Não. A DS, da forma como ela se expressa, não é uma abstração.
Decididamente, não é.
Um exemplo? A carta da professora Edilza Fontes, ao se desligar da DS.
Se a DS, situada naquele contexto, for uma abstração, imaginem então o que acontecerá quando a DS deixar de sê-lo.

3. Pergunta Ana Célia: “O senhor acha que é um preconceito contra a governadora?”
Puty responde: “Mas isso é outro departamento; existe um preconceito contra a governadora, sem dúvida nenhuma. Porém, mais do que preconceito, existe oposição à governadora. Então, quando falam que sou um Rasputin, eu realmente não me importo com isso, pessoalmente. Só me importo à medida que percebo que isso é uma tentativa de erosão da imagem do governo, da imagem da governadora.”
Pois é.
Mas a articulação política, do jeito em que está, com o chefe da Casa Civil na condição de pré-candidato ao governo do Estado, acaba por erodir politicamente o governo Ana Júlia.
E o mesmo aconteceria se o chefe da Casa Civil fosse o José, o João, o Arthur, o Jorge, seja lá quem for. Se o sujeito, além de chefe da Casa Civil, fosse também pré-candidato, evidentemente que a erosão política no governo ocorreria.
Como está ocorrendo agora.
Quem diz?
Oito entre dez petistas.
Dez entre dez deputados da base aliada.
Eles é que dizem.

4. Ana Célia: “Por que é tão difícil a convivência entre o PT e o PMDB?”
Puty: “Olha, não acho que seja difícil a convivência. Nós queremos o PMDB aliado, queremos que esteja na chapa de reeleição da Ana Júlia.”
É sim, secretário.
É sim.
“A convivência entre o PT e o PMDB” tem sido difícil, tumultuada, turbulenta, de desconfianças e insatisfações recíprocas.
Isso já foi para as manchetes de jornais.
E tem sido objeto declarações em blogs, inclusive neste.
Quem faz as declarações não fala por meias palavras, não.
Fala claramente. Cliquem aqui, aqui e aqui para ler algumas.
Apenas algumas.

5. Ana Célia: É verdade que o senhor vai ser candidato a deputado?
Puty: “Não tem nada certo quanto a isso.”
Está certo, sim.
Certo, não.
Certíssimo.
Como dois e dois são quatro.
Como o dr. Puty se chama Cláudio Puty.
Como o sol que desponta a cada manhã.
Amanhã pode mudar?
Pode.
Mas até agora, 12 de outubro de 2009, Puty é pré-candidato ao governo do Estado.
Isso é mais certo do que o fato de Ana Júlia ser a governadora do Pará.
E mais: há aquela velha máxima de que fatos notórios dispensam provas.
Pois é.
Não é preciso ninguém provar que o sol desponta a cada manhã.
Não é preciso ninguém provar que Puty é pré-candidato a deputado federal pela DS.
Porque fatos notórios dispensam provas.

6. Pergunta Ana Célia: “Mas a Bila (ex-secretária de Educação) caiu por causa dos kits escolares ou não?”
Responde Puty: “Não. Ela recebeu um convite de Brasília. Talvez o cargo de secretária de Educação do estado do Pará seja uma tarefa extremamente desgastante, né? Ela achou por bem aceitar esse convite do ministro Haddad, com quem ela tem uma ótima relação. E nós vamos defendê-la, defender a sua gestão, como a governadora, em todas as suas declarações públicas, tem feito. E o Ministério Público está avaliando essa questão dos kits e nós aguardamos o resultado com tranqüilidade.”
A secretária caiu, sim, por causa dos kits.
É claro que ela recebeu o convite do MEC. E tanto é assim que está em Brasília.
Mas Bila Gallo foi derrubada em decorrência do caso dos kits.
Ela, a professora Bila, diz que não.
A governadora disse que não.
Mas nem Bila acredita nela mesma quando diz isso.
E muito menos Ana Júlia.
E mais: ao contrário do que diz o secretário, o MP não está “avaliando essa questão...”
Já avaliou.
Quem avalia a situação é o Poder Judiciário.
A ação de improbidade já foi ajuizada.
E vários dos demandados estão com os bens bloqueados.

7. Ana Célia: “Mas por que o estado não fez uma licitação? Por que tratar os kits como propaganda? Foi a pressa de lançá-los antes do ano eleitoral de 2010?”
Puty responde: “Não, porque nós estávamos em 2008 ainda, não tinha pressa. Foi uma interpretação por parte da Secretaria de Educação, que avaliava que, a partir da licitação já feita - e eu não ouvi ninguém dizer que os kits tenham sido superfaturados..."
Secretário, quem disse que houve superfaturamento foi o Ministério Público.
Clique aqui para ler a declaração do procurador-chefe do Ministério Público Federal, José Augusto Potiguar.
Clique aqui para ler a íntegra da petição inicial.

8. Diz Puty: “Mas o mais importante é dizer o seguinte: a distribuição dos kits escolares, que muitos tentam negativar, nas nossas pesquisas de opinião sempre aparece, por parte da população, como algo extremamente positivo. As pessoas são muito gratas à política pública do governo.”
Não se discute o mérito da iniciativa.
Ela é meritória, sim.
Mas tangenciou a lei.
Desrespeitou-a.
Ignorou-a.
Tentou driblá-la.
E deu no que deu.

ATUALIZAÇÃO às 17H434:
Uma correção: O blog quis dizer que Cláudio Puty é pré-candidato a deputado federal, e não ao governo do Estado, como consta do item 1.
Desculpe, secretário.
Desculpem, leitores.

Um comentário:

Anônimo disse...

Quanto ao item 7: o kit escolar foi tratado como propaganda porque era disso mesmo que se tratava, de propaganda, ou seja, de propaganda eleitoral extemporânea, destinada a fixar no inconsciente coletivo a "marca" espatalhafatosa do govero Ana Júlia, candidata, desade que nasceu, à reeleição ou a qualquer outra coisa.