domingo, 20 de janeiro de 2008

Crise vocacional nos acadêmicos de direito


O MEC anunciou esta semana compromisso para a melhoria dos cursos de Direito de instituições privadas no país. Entre as medidas negociadas com a OAB, 29 universidades particulares do país deverão reduzir cerca de 7.000 vagas nos próximos 12 meses.
A notícia retrata a proliferação desordenada das faculdades de Direito, estimulada, entre outros fatores, pelo modismo da carreira jurídica. Entre as causas desse modismo está a ilusão de que basta ter um diploma de Direito para se ganhar dinheiro fácil. A crença é reforçada pela febre de concursos na área jurídica. Na prática, contudo, o aluno de Direito, após se deparar com as primeiras agruras da realidade, termina por ser vítima de crise vocacional.
O primeiro fator de desestímulo à carreira vem da linguagem, tanto a presente nos livros, quanto a do dia-a-dia profissional. Em curto espaço de tempo, o recém-ingressado na faculdade se vê cercado por datas venias, a priori, ad causam etc.
No que concerne aos livros, para ultrapassar essa fase de recurso freqüente aos dicionários, é preciso saber que existe muita coisa interessante no Direito, além dos brocardos latinos ou da verborragia sem sentido, não se devendo dar tanta importância à linguagem jurídica pomposa, a ponto de transformá-la em uma barreira para o aprendizado logo no início do curso.
A tendência alentadora é a de simplificação dos textos jurídicos mais atuais. Com o tempo, poucos serão os autores que insistirão nas citações em latim ou na escrita de difícil compreensão. Não se pode, contudo, ignorar alguns dos textos clássicos, base do pensamento atual, de leitura mais pesada.
Neste passo, necessário reconhecer que, para gostar de Direito, é preciso gostar de ler. A dica para superar a barreira é começar pelas leituras mais fáceis de digerir, de forma a se adquirir o hábito. Livros de introdução como "O Caso dos Exploradores de Caverna", de Lon Fuller, é leitura estimulante ao aluno iniciante. Com a aquisição do hábito pela leitura, os clássicos se tornarão mais palatáveis.
Em relação à linguagem utilizada no cotidiano profissional, mostra-se, ainda, muito intimidadora e formal. Não é necessário, contudo, se assustar com esse tipo de coisa. É natural que ainda existam profissionais que supervalorizem esse formalismo, resultado de cultura antiga e arraigada no meio.
Essa mentalidade, contudo, tem se modificado. Exemplo disso, na Justiça Federal, é retratado pela instalação dos Juizados Especiais Federais, no ano de 2001. A partir de então incrementou-se a cultura de dar relevo ao conteúdo, consistente, na hipótese, na busca pela maior presteza da prestação jurisdicional, em detrimento do formalismo estéril, representado, no caso, pela desgastada imagem de encastelamento do Judiciário. Cabe aos futuros profissionais aprimorar essa realidade.
Outro fator de crise vocacional é a idéia que acomete o estudante de direito, principalmente a partir do segundo ano de faculdade, de que não se sabe nada. É preciso identificar a causa do problema. Se for ausência de dedicação aos estudos, se está no caminho para um profissional frustrado que, por não ter se dedicado a conhecer, não aprendeu a gostar do Direito. Se a sensação vem após dedicação honesta, é preciso ter calma, pois se está no caminho correto. O conhecimento jurídico é vasto e a angústia trazida pela suposta ignorância se transformará em um saudável e socrático sentimento de "só sei que nada sei", marco inicial da real sabedoria.
Referida angústia, ademais, tem entre suas origens a tendência cada vez maior na procura por estágios precoces, com o objetivo de se adquirir "bagagem profissional". Não adianta, contudo, pensar em estágio logo no primeiro ano do curso, situação que se revela frustrante ao acadêmico, que se verá envolto em trabalhos meramente burocráticos. Tão ou mais importante que a prática é a bagagem teórica que se pode adquirir ao longo do curso, oportunidade que não merece ser desperdiçada. Somente a partir de uma certa base teórica é que se torna aconselhável partir para a saudável mescla entre a prática e a teoria, jamais, contudo, se olvidando aquela última.
Por fim, retomando o abordado de início, quem ingressa no curso de Direito com objetivo apenas de ganhar dinheiro fácil será o ultimo a ter sucesso profissional, pois esbarrará no crivo da realidade.
O diferencial para o bom profissional é o amor pelo Direito, que só é possível através do seu conhecimento. E só é possível adquirir conhecimento pelo estudo e convívio diário. Se depois de estudar, conhecer e conviver com o Direito não se adquire o gosto, então se está na profissão errada.
O bom profissional, ademais, será sempre o idealista, o que acredita no Direito como um elemento de mudança social, um meio de se construir uma sociedade mais justa e fraterna, objetivo, aliás, previsto no art. 3º, I do nosso Texto Constitucional. Na manutenção acesa da chama desse idealismo é que se encontra o segredo para acreditar que se está na carreira correta e que o sucesso estará garantido ao profissional da área jurídica que adotar esse nobre ideal como missão de vida.
Arthur Pinheiro Chaves é juiz federal substituto da 1ª Vara da Seção Judiciária do Pará

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