domingo, 13 de abril de 2008

King Kong

Esse é o título do artigo de João Pereira Coutinho, colunista da Folha, e que pode você pode ler na íntegra aí embaixo.

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Sou amigo de negros. Sou amigo de homossexuais. Sou amigo de lésbicas. Não sou amigo de negros politicamente corretos, homossexuais politicamente corretos, lésbicas politicamente corretas. Pessoas que se deixam infantilizar pela cartilha das patrulhas não entram na minha lista pessoal.
Porque esse é o problema central do pensamento politicamente correto: ele vê o demónio em toda a parte e acredita que é necessário proteger quem não pediu para ser protegido. É assim que a pessoa X ou Y, que tem nome, rosto e identidade singular, deixa de ser a pessoa X ou Y. Passa a pertencer a um grupo geral - os negros, os homossexuais, as lésbicas - uma forma sinistra de dissolução identitária. Lamento. As pessoas valem como pessoas. Não valem como parte de uma manada.
Basta olhar para o que sucedeu recentemente com a revista "Vogue". Pela primeira vez em 116 anos de história, a revista resolveu colocar um negro na capa. A honra coube a LeBron James, uma estrela de basketball dos Estados Unidos. Mas LeBron não está sozinho: a brasileira Gisele Bündchen está ao seu lado, segurada pela cintura. Gisele sorri. LeBron simula um grito de guerra, ao mesmo tempo que tem uma bola de basket na outra mão.
Quando vi a capa, senti o que qualquer homem pode sentir: uma imensa inveja de LeBron James. Mas as patrulhas não vêem as coisas da mesma forma: especialistas vários, confrontados com a capa, criticaram de imediato a "Vogue" por reproduzir estereótipos racistas.
Para a maioria, a capa evoca diretamente King Kong, o macaco gigante que segurava Fay Wray no filme de 1933. Ou seja, LeBron foi reduzido à condição de símio.
Para outros, a perversidade da "Vogue" não se ficou pela redução animalesca: LeBron é um macaco e, pior, um macaco violador, apesar do sorriso generoso que Gisele ostenta nos seus braços. No fundo, o velho cliché do negro que deseja uma branca para brincar.
Uma vez mais, o pensamento politicamente correto não perdeu um minuto para fazer o óbvio: perguntar ao próprio LeBron James - uma pessoa com nome, rosto e identidade singular - o que pensava ele de tudo isso. Para as patrulhas, um negro não pensa; pensam elas por ele.
Azar. O próprio LeBron, comentando os comentários, considerou-os absurdos e ridículos. E acrescentou, para que não restassem dúvidas, que lhe era indiferente o que os outros pensavam.
Não, LeBron não seria apenas meu amigo pessoal. Mais do que isso, ele já é meu ídolo pessoal: quando temos Gisele Bündchen nas mãos, chamarem-nos King Kong é o menor dos problemas.

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