quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Eles querem o despojo



Reconhecemos que atravessamos uma tempestuosa crise, mas não dá para acreditar que a saída da Dilma mudaria isso. Não a simples saída. Dilma não está só. Com ela estão os partidos políticos. Com ela estão milhares de pessoas que tiram proveito desse caos. Vivemos este tempo: quando as aves de rapina descem ao Planalto morrendo de fome. Não estão interessadas na salvação do País, porém, tudo farão para conquistar um pedaço do despojo. Se a veia de ouro foi arrancada da Petrobras, interessa-lhes agora lavar toda essa areia suja e garimpar o que ninguém vê.
Nós já passamos por um impeachment. Não foi uma experiência boa. O Collor voltou. E agora nos deparamos com um quadro muito pior, o que prova que a questão não se resolve com um impeachment pontual. Não. Nosso problema é muito mais sério. Tem a ver com falta de formação política. Votamos mal. Sofremos de amnésia política crônica. A geração do mundo virtual me parece mais desconectada que o bloco dos caras-pintadas. Parece que não é conosco. Tirar a Dilma pra quê? Vamos quebrar de vez o Brasil. Por que há alguns fazendo campanha por isso na mídia nacional? Todos são patriotas? Alguns deles não estão chateados porque ficaram fora da partilha do despojo? Ah, santa paciência! No Brasil ainda tem gente que pensa.
A política federal é a maior empresa do País. Uma indústria de gente. É com esse povo que o governo gasta grande parte dos recursos públicos, isso em tempos de paz. Agora, quando a guerra estourou de vez, esse bando de aves de rapina se apresenta feroz querendo dividir o que sobrou. Não adianta tirar a Dilma. Teríamos de tirar dezenas, centenas, milhares até. Renovar o Congresso. Mudar a forma de nomeação do STF e do MP. Passar a régua. Implantar valores morais e éticos. Difícil. Muito difícil.
Eu estou indignado com o estado do Brasil. Mas sei que a saída da Dilma não basta. Minha indignação aumenta quando vejo a Presidente aumentar o poder nas mãos de alguns. Indignado pela provável dança das cadeiras. Indignado porque muito poder tem de ser dado para que ela não saia. Indignado com essas aves de rapina, que enriquecem ainda mais com a nossa desgraça.
Acreditaríamos numa política séria se a Dilma pudesse retomar as rédeas do Brasil usando para isso apenas o poder que recebeu das mãos do povo. Mas não pode. Não no Brasil. Ela não pode dar um passo. As aves de rapina estão à sua volta. Querem o despojo. É essa gente que nos governará em caso de impeachment. Sai a Dilma, permanece a máquina envenenada. Brasil natimorto. Nada muda este País. Nem política nem igrejas. País católico, país politicamente pagão. País evangélico, país ímpio. Desculpem-me, mas, se mudança há, isso deve obra para as próximas gerações.
Gostaríamos de ver a democracia se firmar no Brasil. Gostaríamos de ver corruptos fora do governo. Um Congresso decente. Judiciário imparcial. Ministério Público livre. Igrejas cumprindo o seu papel de luz e sal desta terra brasileira. Estamos a anos-luz deste ideal. Assistimos hoje a uma corrida pela partilha. Partilha da nossa desgraça. Do resto, que mesmo sendo resto, não chegou às mãos do povo. Eles querem o despojo.
Acredito que somente uma conscientização política mudará esse quadro. Mas temos uma relação de causa-efeito. Não temos educação, como teremos formação política? Universidades paralisam meses, como podemos falar de estudo sério? Estados ainda se negam a pagar o piso salarial de professores: como acreditar nessa cidadania? Resta voltar nossa atenção para a sociedade organizada, mas onde está essa vontade? A má política é um câncer. Metástase por todos os ramos. Quase todo mundo quer uma parte do despojo. Ninguém liga se tem criança na rua. Essa questão do amor ao próximo é conversa pra boi dormir. Excelente argumento de igreja. Aqui, do lado de fora, cada qual por si e Deus contra todos.

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RUI RAIOL é escritor
www.ruiraiol.com.br

2 comentários:

Anônimo disse...

Boa análise.
kenneth

Generino Silva disse...

Na ditadura, CACIQUES militares escolhiam os candidatos para o povo votar (na ditadura se votava, sim!). Hoje, na democracia, CACIQUES políticos escolhem os candidatos para o povo votar. Ou seja, só idiotas acreditam que votando estão escolhendo alguma coisa!