Lula, no momomento da declaração sobre a "armação" de Moro: a primeira consequência é desacreditar o trabalho da PF, elogiado inclusive por um ministro do governo Lula.
O presidente Lula tem todos os motivos, tem todas as razões do mundo para alimentar profundas e, talvez, insuperáveis rejeições pessoais a Sergio Moro, ex-juiz e atualmente senador.
O presidente Lula precisa, no entanto, discernir até que ponto suas reações ou suas demonstrações inequívocas de repulsa ao ex-juiz que o condenou poderão chegar a um ponto de desacreditar o próprio governo Lula.
Durante a era fascista de Bolsonaro, aqui se escreveu em várias oportunidades que o maior inimigo do governo Bolsonaro era o próprio Bolsonaro, um maluco mal diagnosticado, que comandou um dos governos mais corruptos e desumanos da história do Brasil.
Deploravelmente, convém reconhecer que Lula está sendo o maior inimigo do governo Lula.
Há uns dez dias, o presidente, acertadamente, reuniu se ministério e deu, publicamente, um puxão de orelha em todos os seus ministros. Basicamente, proibiu-lhes de ter protagonismo individual e exigiu que as iniciativas de cada um sejam, obrigatoriamente, combinadas com o próprio governo, por meio da Casa Civil, antes que sejam divulgadas.
Ou seja: Lula estava exigindo que o governo esteja em sintonia com o próprio governo. Do contrário, é o desgoverno. Mas, ao que tudo indica, o presidente não está seguindo o que ele mesmo cobrou.
"Eu não vou falar porque eu acho que [a ameaça da organização criminosa] é mais uma armação do Moro. Mas eu quero ser cauteloso, eu vou descobrir o que aconteceu. É visível que é uma armação do Moro. Mas eu vou pesquisar, eu vou saber o porquê da sentença".
"Fico espantado com o nível de mau-caratismo de quem tenta politizar uma investigação séria, que é tão séria que foi feita em defesa da vida e da integridade de um senador que é oposição ao nosso governo".
Ao fulanizar a operação da PF, centrando-a apenas na figura de Moro, Lula prestou quatro grandes desserviços ao seu próprio governo:
Primeiro, levantou a bola para os lavajatistas matarem no peito, arriarem no terreno e fazerem um gol de placa, resgatando o ex-juiz Sergio Moro para o patamar dos heróis.
Segundo, desacreditou o trabalho da Polícia Federal, cujas investigações, juntamente com o Ministério Público, carrearam para os autos do processo toneladas de provas - vídeos, fotos, interceptação de conversas e outros documentos.
Terceiro, descredenciou seu próprio ministro da Justiça, que classificou de "investigação séria" o trabalho da PF.
Quarto, levantou uma suspeita gravíssima sem dispor de qualquer prova, a mesma postura de Bolsonaro, o mentiroso, o debochado e o despeitado compulsivo. Quem disse que Lula levantou uma suspeita sem prova? O próprio Lula, nesta declaração: "Mas isso, a gente vai esperar. Eu não vou ficar atacando ninguém sem ter prova. Eu acho que é mais uma armação, e se for mais uma armação ele vai ficar mais desmascarado ainda".
Eis aí, configurado, um caso emblemático de uma situação em que os rancores pessoais de Lula não podem contaminar e muito menos desacreditar seu próprio governo.
Bolsonaro, no vídeo em que pede "desculpas" às venezuelanas. Reparem na cara de Michelle, a Imperatriz da Sororidade. Essa cara é de quem está acreditando no Impoluto?
O mais divertido do governo Bolsonaro é o próprio Bolsonaro.
O mais bizarro do governo Bolsonaro é Bolsonaro.
O mais repugnante do governo Bolsonaro é Bolsonaro.
O mais debochado do governo Bolsonaro é Bolsonaro.
O mais insano do governo Bolsonaro é Bolsonaro.
Então, ora bolas, o maior inimigo do governo Bolsonaro é, claro, Bolsonaro.
Primeiro, resolveu fazer uma live inédita, literalmente nas caladas da madrugada, para dizer que realmente disse o que disse, mas que não disse com a mesma conotação que disseram que ele disse. Entenderam? (eu não, vou logo confessando).
Mas, parece, a live da madrugada não surtiu muito efeito.
E também não deu certo o envio das embaixatrizes da temperança e da sororidade, Michelle Bolsonaro e Damares Silva, à casa das venezuelanas "bonitas" e "arrumadinhas" (by Jair Messias Bolsonaro), para convencê-las a gravar um vídeo dizendo, provavelmente, que o Capitão é uma espécie de vestal de todas as vestais.
Ricardo Salles, um fanático devastador bolsonarista, e André Janones, um neopetista tresloucado e inconsequente, em momento de edificante e civilizado contraditório.
Estou à procura, ansiosamente, de alguém escolado em campanhas eleitorais que possa me explicar, de forma convincente, como é que alguém pode escolher um tresloucado e inconsequente para funcionar como influenciador digital.
Também gostaria muitíssimo de saber quem foi o iluminado ou quem foram os iluminados da campanha de Lula que alçaram, à condição de expoente máximo das redes digitais, um tresloucado e inconsequente.
No caso, o tresloucado e inconsequente é André Janones, deputado federal do Avante, que desistiu de ser candidato a presidente e ingressou de cabeça, tronco e membros na campanha de Lula.
Foi recebido por companheiros e companheiras como um popstar do mundo digital, área em que os petistas, de fato, mostram-se carentes de bons quadros para confrontar a artilharia digital dos minions.
Janones, realmente, tem um bom número de seguidores. Só no Instragram são 2,1 milhões, além de quase 300 mil no Twitter.
O problema está no próprio.
Janones posa como uma espécie de general comandando uma tropa digital com armas na mão, no caso, computadores e celulares.
Mas ele é o único general da face da Terra, ou melhor, é o único general da história da humanidade que revela publicamente, portanto para os adversários e inimigos, quais são as suas estratégias.
Janones diz mais ou menos assim: Olha, galera, eu vou dizer agora que o Bolsonaro é um vagabundo. Então, eles (no caso os bolsonaristas) vão me atacar. Enquanto isso, vão se esquecer de Lulinha, que seguirá tranquilamente fazendo sua campanha.
É mais ou menos como se um general com sua tropa fosse invadir Belém e desse a ordem pelo Twitter: Soldados, agora eu vou dizer pra todo mundo que nós vamos invadir de barco, pelo Guamá. Então, quando todos os inimigos estiverem vigiando os portos, a gente entra pela BR. Preparem-se!
Entenderam?
Janones é a vergonha alheia.
É ridículo.
Mais ridículo ainda é vê-lo difundindo um de seus principais basilares como autoproclamado influenciado digital: contra o inimigo, você joga com as mesmíssas armas que ele joga contra você.
Sendo assim, Janones responde ao ódio com ódio, às fake news com fake news, a um palavrão com outro palavrão, a uma ameaça com outra ameça e a um processo com outro processo.
Sua última performance foi no debate de domingo passado, quando enfrentou e quase foi aos tapas com três ou quatro bolsonaristas, entre eles o ex-ministro Ricardo Passar a Boiada Salles.
Sabem o que acontece? Muita gente está passando a identificar Janones como alguém chancelado pelo núcleo de campanha próximo a Lula, num estágio em que o candidato do PT procura mostrar-se como moderado, sóbrio, sereno, conciliador e agregador.
Ao contrário de Janones, que começa o dia convidando a tropa para quebrar o pau e termina o dia dizendo assim: grande dia!
Escreve a jornalista: "Janones, que apoia a candidatura do ex-presidente Lula (PT), não acredita que o embate [com bolsonaristas] vá prejudicar a imagem da campanha. E desmentiu que o partido queira afastá-lo. 'Nunca houve afastamento ou qualquer tipo de ciúme ou de racha interno.'"
Então, pronto!
Aos petistas, bom proveito com Janones.
Mas, depois, não se arrependam das loucuras que ele está cometendo em nome de vocês.
O presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Marcelo Xavier, retirou-se de um evento em Madri, na manhã desta quinta-feira (21), sob xingamentos proferidos pelo indigenista Ricardo Rao, que o chamava, aos gritos, de "miliciano", "amigo de um governo golpista", "assassino" e "bandido". O próprio Rao postou um vídeo sobre esse momento em seu perfil no Twitter (vejam acima).
O incidente ocorreu durante evento do Fundo de Desenvolvimento dos Povos Indígenas (Filac), promovido pela Organização das Nações Unidas (ONU) e realizado na capital espanhola. Rao, que estava na plateia, levantou-se ao final de uma apresentação e começou a se dirigir aos presentes na plateia, enquanto apontava para Xavier, que também assistia à apresentação.
"Irmãos indígenas, eu venho denunciar esse assassino, Marcelo Xavier, como inimigo de vocês. O companheiro da Colômbia disse sobre as mortes dos indígenas pelas milícias (em referência à apresentação que acabou de ocorrer). Esse homem (apontando para Xavier) é um miliciano. Esse homem, Marcelo Xavier, não representa a Fundação Nacional do Índio. É um assassino. É um miliciano, é amigo de um governo golpista que está ameaçando a democracia no Brasil", gritava.
Rao continua as críticas, que alcançam inclusive o Ministério das Relações Exteriores. “Este homem não pertence a isso aqui. Não é digno de estar entre vocês. E o Itamaraty é uma vergonha. O Itamaraty está sendo babá de miliciano. Marcelo Xavier é um miliciano. Esse homem é um assassino. Esse homem é responsável pela morte de Bruno Pereira (indigenista assassinado na Amazônia). Esse homem é responsável pela morte de (Dom) Phillips (jornalista também morto no Vale do Javari). Você é um miliciano, bandido. Vai embora mesmo. Vai para fora. Desculpem", continua, enquanto Marcelo Xavier se retira do local. Depois disso, uma pessoa ainda grita "fora, Bolsonaro".
O capitão Bruce Bairnsfather, que depois de participar da I Guerra Mundial virou cartunista: no Natal de 1914, pausa para celebrar a paz com inimigos, todos imersos na lama das trincheiras
Bolsonaro, nos últimos dias de 2021, anda de jet ski e se exibe para fanáticos, enquanto a Bahia conta seus mortos e milhares de desabrigados por enchentes: humano só na forma, não no conteúdo
Desde 1º de janeiro de 2019, entra ano, sai ano, e o Brasil - como nos versos cantados por Elis - não conhece o Brasil.
Desde 1º de janeiro de 2019, entra ano, sai ano, avançam a crueldade, a insensatez, a insensibilidade, o fanatismo e a compulsão em destruir o Brasil - ou acabar de destruí-lo.
Desde 1º de janeiro de 2019, entra ano, sai ano, e o Brasil - aquele que não conhece o próprio Brasil - chega a duvidar que este país, cantado em prosa e verso como um oásis de concórdia e de bonomia, como um país apenas do samba e do futebol, seria transformado num laboratório de sandices, em que o mais imbecil dos imbecis foi elevado, vejam só, ao status de mito.
Nos últimos dias de 2021, o emblema de tudo isso - a personificação em carne e osso, a mais perfeita tradução da crueldade, da insensatez, insensibilidade, do fanatismo e da compulsão em destruir o Brasil - protagonizou um show de horrores sob aplausos gerais de fanáticos.
Bolsonaro tirou férias, foi a Santa Catarina, andou de jet ski, dançou funk machista, deu cavalo de pau e externou uma declaração despudorada por dia.
Em meio a essa diversão dantesca, a Bahia contava seus desabrigados em decorrência de uma das maiores tragédias de sua história: até agora, 24 pessoas morreram, 53,9 mil ficaram desalojadas e 629 mil foram afetadas de alguma forma em consequência das enchentes causadas pelas chuvas.
Em meio ao seu exibicionismo de horrores, Bolsonaro recusou ajuda da Argentina e sequer dignou-se suspender um dia de suas traquinagens amalucadas para ir à Bahia para, pelo menos, apertar a mão de um dos sobreviventes.
É um elemento como esse que desgoverna o Brasil. É um sujeito como esse que infelicita o País. É um personagem dessa espécie que se abriga nos esconderijos indecorosos que a História reserva àqueles que, com todo o respeito, são humanos apenas na forma, mas não no conteúdo.
E tanto é assim que esse cidadão mostra-se cada vez mais infértil a mínimos sentimentos de humanidade, como os que ainda perduraram, intactos, até mesmo entre inimigos que travaram batalhas cruentas nas piores guerras a que a humanidade já assistiu.
Inimigos confraternizam nas trincheiras - Em sua maravilhosa coluna publicada em O Globo deste domingo (2), Dorrit Harazim lembra uma história comovente pinçada do livro de memórias de Bruce Bairnsfather, o capitão britânico na Grande Guerra de 1914-1918 que mais tarde se tornaria um celebrado cartunista europeu.
O Natal de 1914 era o primeiro daquele conflito que ceifou mais de 21 milhões de vidas. Bairnsfather e e seus companheiros do Primeiro Regimento Real tiritavam de frio numa trincheira enlameada da Bélgica. Por volta das 22h do dia 24 de dezembro, Bairnsfather percebeu um ruído novo no campo de batalha de Ploegsteert, vindo dos boches (como os Aliados chamavam os inimigos alemães).
Escreve Harazim:
"[Bairnsfather] Afinou o ouvido e percebeu, em meio a sombras noturnas, um murmurar de vozes. Seus companheiros também estranharam. Perceberam então tratar-se de cantorias - os temidos soldados do Exército alemão, também entrincheirados e invisíveis, entoavam canções de Natal! Os britânicos decidiram cantar de volta. E subitamente ouviram alguém do lado inimigo gritando algo confuso, em inglês carregado de sotaque germânico. “Venham para cá”, dizia o boche. Um dos sargentos britânicos respondeu: 'Nos encontramos a meio do caminho'. E assim foi. Feito catadores de caranguejos saindo dos manguezais do Delta do Parnaíba, recrutas encharcados dos dois lados começaram a emergir de suas trincheiras e a se olhar como o que eram: apenas homens, homens jovens longe de casa mandados para a guerra. Houve apertos de mão, oferecimento de tabaco e vinho (as provisões dos alemães eram bem melhores que as dos Aliados), e as cantorias bilíngues se estenderam noite adentro. Em troca de cigarros, os ingleses cortavam o cabelo dos alemães. 'Naquele dia não disparamos um só tiro, parecia um sonho.'"
Leram bem?
Isso ocorreu numa guerra mundial, em que mais de 20 milhões de pessoas foram mortas.
Isso aconteceu entre inimigos.
Aconteceu numa trincheira, um reduto bélico em que vale tudo - ou quase tudo, inclusive, claro, matar e morrer.
Aconteceu no Natal de 1914.
Pois é a mesma Dorrit Harazim quem conclui em seu artigo.
"O Brasil já teve um leque bastante improvável de chefes de nação - inclusive a galeria militar cujo programa de manutenção no poder incluiu matar seus adversários políticos. Ainda assim, Jair Bolsonaro consegue ser único - seu ostensivo desprezo pelo povo que governa, pela dor do outro, é maníaco. E lugar de maníaco é no manicômio, não na Presidência da República. Que venha 2022."
É sim: lugar de maníaco é no manicômio, não na Presidência da República.
É uma bolsonanarice que seria cômica, se não fosse trágica.
Porque é uma verdadeira tragédia vermos o presidente da República descer, rebaixar-se, degradar sua própria figura - que deveria encarnar a de um dos guardiões das garantias e dos direitos constitucionais -, exibindo-se como um fanático negacionista que não vê fronteiras, nem limites, nem impedimentos (legais e constitucionais, inclusive) para gestar medidas verdadeiramente hediondas contra a população.
Bolsonaro anuncia medidas esdrúxulas, perversas, cruéis e autoritárias como essa apenas para satifaszer a sanha e o ódio de suas falanges negacionistas. Porque, de concreto mesmo, ele sabe que essa insanidade será facilmente derrubada em qualquer instância do Poder Judiciário. Qualquer uma.
É quase inacreditável que Bolsonaro defenda que os cidadãos assinem um termo de responsabilidade para preservar a própria vida, mas não tenha, ele próprio, assinado qualquer termo de responsabilidade quando saiu pelas ruas, sem máscaras, encatarrando as próprias mãos para depois cumprimentar simpatizantes.
Bolsonaro sabe quantas pessoas não poderá ter infectado com essa irresponsabilidade?
Sabe quantas não poderá ter contaminado com essa conduta afrontosa - à higiene, à cautela e ao respeito que deveria ter pelo ser humano?
Sabe o mal que poderá ter causado a outras pessoas?
Sabe a extensão, as dimensões nocivas de um gesto pernóstico como o que protagonizou, para espanto do país inteiro e até mesmo do mundo?
Pois é.
Bolsonaro ignorou tudo isso. Ele põe a vida de todo mundo em risco, mas nunca assinou qualquer termo de responsabilidade.
Por que, então, nós, que insistimos em preservar nossa própria vida de um vírus como o Covid-19 e das consequências de sandices como as de Bolsonaro, por que nós precisaremos assinar um termo de responsabilidade para tomar uma vacina que esteja devidamente aprovada pelos órgãos competentes do Brasil e de outros países?
Começamos a assistir ao que podemos chamar de espetáculo dispersão.
Por dispersão, entenda-se o que devem ser neste segundo turno, em Belém, os apoios individuais de pessoas, e não propriamente de partidos, a candidatos. Sobretudo ao candidato-surpresa desta temporada eleitoral, o Delegado Federal Eguchi, que passou para o segundo turno contra Priante.
Vejam aí.
Nesse vídeo, que rola no Instagram, o deputado federal Joaquim Passarinho apoia enfaticamente Eguchi, "o seu prefeito, o meu prefeito", como diz o parlamentar.
Joaquim é do PSD, que teve como candidato a prefeito Gustavo Sefer.
O PSD de Sefer é um: aliado do governo Helder Barbalho (MDB).
O PSD do deputado federal Eder Mauro é outro: inimigo do governo Helder Barbalho e apoiador fanático de Bolsonaro. No primeiro turno, o parlamentar fez campanha para Thiago Araújo (Cidadania).
O PSD de Sefer dificilmente vai se mover, neste segundo turno, sem o aval de Helder. Portanto, dificilmente apoiará Eguchi, que Helder também não quer ver eleito.
Já o PSD de Joaquim Passarinho, que não é nem barbalhista, nem fanaticamente bolsonarista, já se decidiu por Eguchi.
A inauguração da primeira etapa do Projeto Belém Porto Futuro, na manhã desta quinta-feira (13), foi verdadeiramente um espetáculo.
Vamos e convenhamos, foi um show.
Um show armado por Bolsonaro, para êxtase de bolsonaristas.
Um espetáculo, um show que serviu como uma espécie de acerto de contas (ainda bem que apenas verbal) entre os diversos atores presentes à solenidade. O maior ator foi Bolsonaro, é of course.
Confiram a íntegra da solenidade - ou do show - no vídeo acima.
Houve vaias. Elas voltaram-se exclusivamente contra o governador Helder Barbalho, alvo de hostilidades de bolsonaristas não é de hoje. No vídeo acima, os apupos não são plenamente audíveis, ao contrário de outros vídeos que circulam em profusão nas redes sociais e fazem ecoar os protestos contra o governador.
Houve vaias. Elas voltaram-se também contra Bolsonaro, no momento em que ele começou a falar. Emanaram de antifascistas, que não suportam a presença, em Belém, de um homem com viés francamente autoritário, que já prestou homenagens públicas a torturadores e que, muito embora pose de amante da democracia, não engana ninguém sobre suas reais intenções autoritárias.
Houve um momento extático - isso mesmo, extático com x-, em que o prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho, deve ter sentido os arrepios do êxtase num pronunciamento que não durou nem 1 minuto. Durou cerca de uns 50 segundos. Mas esse tempo foi suficiente para o tucano não citar Helder nominalmente e para enfatizar que Belém e o Pará agradeciam a Bolsonaro os insumos e os equipamentos recebidos para fazer frente à pandemia. Foi um recado explícito ao governador, que durante a fase crítica da pandemia procurou colar em Zenaldo a pecha de gestor ineficiente nas ações de combate à doença, enquanto arrogava-se para si próprio, Helder, a iniciativa de atuar até no âmbito do município de Belém para minorar os impactos da crise. Bolsonaristas (também eles extáticos) aplaudiram, e aplaudiram intensamente, o recado-relâmpago, mas certeiro, de Zenaldo.
Houve uma grande surpresa. Helder citou nominalmente Zenaldo e lhe agradeceu por não ter criado embaraços para a construção do Porto Futuro.
Houve ficção. Rogério Marinho classificou a "resiliência, foco, determinação e espírito público", exatamente nessa ordem, como qualidades de Bolsonaro. Resiliência, vá lá - porque o Capitão, o pior presidente do Brasil em 500 anos de história, não deveria mais ter nem 1% do apoio popular. Mas ainda tem em torno de 30%. Já falar em "foco, determinação e espírito público" num homem que não acredita na ciência, que estimulou o descumprimento de todas as etiquetas de cautela recomendadas contra o Covid-19, que não articulou políticas com os estados e municípios para enfrentar a pandemia, que até agora considera essa pandemia como uma gripezinha (muito embora evite repetir isso em público) e que já teve três ministros da Saúde (o atual deles na interinidade há quase três meses), um governante que protagoniza uma cenário desses, portanto, pode ter tudo, inclusive Covid-19, mas não tem, desculpem, nem foco, nem determinação, nem espírito público.
Houve números citados com ardor. "Nós destinamos só ao estado do Pará, para ações de combate ao Covid-19, mais de 2 bilhões de reais. Entre os outros estados, proporcionalmente foi o mais atendido no combate ao vírus", vociferou Bolsonaro.
Houve mal-estar e exibições de negacionismo e de macheza explícitas. No palco, o deputado federal Éder Mauro (PSD), aspirante a prefeito de Belém, era o único sem máscara. E estava sentado a 1 metro e meio, se tanto, de Helder, seu novo inimigo político.
Houve aplausos. Como o show era um evento de bolsonarista para bolsonaristas, os bolsonaristas bateram palmas até para arrotos. Desde que tenham provindos das entranhas de bolsonaristas, é claro.
Houve uma manipulação concertada, combinada, sintonizada nos discursos relativos ao empreendimento. Ninguém disse por que as obras estão sendo inauguradas com apenas um terço do previsto no projeto.
Houve uma certeza, depois desse show de malabarismos verbais, encenações e ficções a céu aberto: shows como esse jamais deveriam continuar, mas vão continuar, é claro, sobretudo à medida que se aproximarem as eleições de novembro.
Um parque: essa é a parte mais visível do Projeto Belém Porto Futuro. Inauguração está marcada para esta quinta (13), com a presença de Bolsonaro, que não é citado uma vez sequer no texto do governo do estado sobre o evento (Foto Agência Pará)
Pessoas muito próximas ao núcleo de poder do governo Helder Barbalho vivem um misto de tensão e repulsa, horas antes da anunciada chegada a Belém do presidente Jair Bolsonaro, que comandará amanhã a solenidade de inauguração do Projeto Porto Futuro.
O empreendimento, um local de lazer situado na orla de Belém, foi idealizado pelo governador Helder Barbalho quando ainda era ministro da Integração Nacional. As verbas, portanto, são federais. Bolsonaro, segundo se informa, aproveitará a solenidade para transferir a gestão da área ao governo do estado. E aí é que moram as armadilhas.
Segmentos do governo do estado não descartam a possibilidade de que os bolsonaristas acorram às centenas ao local da cerimônia para constranger Helder. Eis o motivo da tensão. E também há pessoas próximas ao governador que se mostram convictas de que Bolsonaro vem inaugurar o empreendimento num momento inoportuno, inclusive porque as obras concluídas alcançam, no máximo, um terço do previsto no projeto. Eis o motivo da repulsa.
A investida dos bolsonaristas para constranger Helder, segundo o Espaço Aberto apurou, poderá incluir a presença do deputado federal Éder Mauro (PSD) no palanque da inauguração. Se tal acontecer, dizem fontes próximas ao governador, será interpretado como uma provocação por Helder, que tem merecido do parlamentar um tratamento de inimigo figadal, desde que a Auditoria Geral do Estado mandou a polícia apreender documentos na Secretaria de Justiça e Direitos Humanos, logo depois que Rogério Barra, filho de Éder Mauro, deixou o órgão.
O distanciamento entre o governo federal e o governo do estado são visíveis. No início da tarde de hoje, o Espaço Aberto confirmou diretamente e oficialmente com a Secretaria de Comunicação do governo Helder Barbalho que toda a programação de inauguração do Projeto Belém Porto Futuro foi organizada pelo governo federal.
Além disso, a notícia sobre a solenidade de amanhã foi publicada na Agência Pará exatamente às 18h50 e posteriormente atualizada às 19h07. A notícia é seca, sucinta, objetiva. Pelo menos até este momento, o texto não não foi mais alterado e não cita uma vez sequer que Bolsonaro estará na solenidade, algo inusitado em se tratando de solenidade à qual estará presente ninguém menos que o presidente da República. E não informa sequer a hora e o local exato da solenidade.
Uma fonte diz não ter qualquer dúvida de que a verdadeira intenção de Bolsonaro, marcando para inaugurar uma obra inconclusa, tem o objetivo apenas de constranger o governador e fazer afagos nos bolsonaristas paraenses, que desde o início da pandemia têm atacado de forma intensa e permanente o governo do estado.
O ex-governador Simão Jatene (PSDB) anunciou na última terça-feira (21), em reunião realizada no escritório do PSB, que não será candidato a prefeito de Belém nas eleições de novembro. O prefeito tucano Zenaldo Coutinho esteve presente ao encontro, juntamente com o deputado federal Cássio Andrade (PSB), o deputado estadual Thiago Araújo (Cidadania) e o presidente da Câmara Municipal, vereador Mauro Freitas (PSDB), apontados como os três nomes que poderão concorrer à prefeitura numa composição que deve envolver em torno de dez legendas.
No encontro, Jatene, que vinha sendo alvo das pressões de alguns segmentos para ser candidato, justificou sua desistência alegando que, além de sua longa trajetória política - na qual desponta o fato de ter sido o único político paraense eleito governador do estado por três vezes, pelo voto direto -, ele mesmo deixou o governo do Pará há apenas um ano e meio, daí achar que a hora é de renovação.
O ex-governador reforçou que uma candidatura jovem é muito mais relevante na atual conjuntura e tem melhores condições de disputar a Prefeitura de Belém. Mas adiantou que vai ter presença ativa no apoio ao candidato que vier a ser escolhido, comprometendo-se, inclusive, a participar da elaboração do programa de governo. Para tanto, Jatene deverá debruçar-se inicialmente no levantamento de números que forneçam um panorama da situação em que a Capital se encontra em vários setores, para alicerçar as propostas que deverão ser defendidas pelo candidato durante a campanha eleitoral.
O Espaço Aberto apurou que, na reunião, não chegou a se definir quem será o candidato. Mas é quase certo que essa escolha recairá entre Cássio Andrade ou Thiago Araújo, uma vez que o vereador Mauro Freitas deverá mesmo disputar a reeleição para a Câmara Municipal.
Decisão de Jatene reforça muitas dúvidas e poucas certezas
A decisão de Jatene representa novas perspectivas eleitorais que se esboçam daqui para a frente, ao mesmo tempo em que começa a expor com mais clareza várias alternativas e possibilidades sobre as forças políticas que aos poucos haverão de se amoldar às conveniências, interesses e circunstâncias inerentes e naturais em qualquer processo eleitoral.
Uma das questões que a decisão de Jatene suscita é bem clara: além do deputado federal Edmilson Rodrigues (PSOL), definido e proclamado como pré-candidato, numa aliança que inclui o PT, PDT, PCdoB e outras legendas, que outros nomes estarão nos palanques pleiteando o cargo de prefeito da Capital? Para que essa conjunção de forças se exiba claramente, ainda estão em curso negociações de bastidores que por enquanto oferecem muitas dúvidas e poucas certezas.
No momento, por exemplo, é certo que o PSD terá um candidato a prefeito. Mas ninguém sabe se será o deputado federal Éder Mauro ou o estadual Gustavo Sefer. Interlocutor qualificado garantiu ao Espaço Aberto que Éder Mauro fez gestões pessoalmente, junto ao presidente Jair Bolsonaro, em busca de apoio para ser confirmado candidato.
Bolsonaro falou com o presidente nacional do partido, Gilberto Kassab. Mas a conversa teria resultado em pouca coisa - ou mesmo em nada - de proveitoso em favor de Éder Mauro, porque Kassab lembrou que até mesmo já fez publicamente o anúncio de seu apoio à candidatura de Gustavo Seffer, durante visita do deputado a São Paulo, em outubro do ano passado, na companhia do presidente do PSD no Pará, Helenilson Pontes (veja o vídeo abaixo).
Outra quase certeza: o deputado federal Vavá Martins será candidato a prefeito de Belém, mas também não se sabe até que ponto o partido dele, o Republicanos, será capaz de aglutinar apoios de substância para torná-lo competitivo. No exercício de seu primeiro mandato legislativo, o deputado, gaúcho de Pelotas, é pastor da Igreja Universal e elegeu-se na onda do bolsonarismo.
Helder é o quarterback que está com a bola na mão para fazer o passe
E o MDB? E o governador Helder Barbalho, um grande eleitor no pleito de novembro, até mesmo pela relevância do cargo que ocupa, o que fará? Não é sempre, mas às vezes o repórter assiste às partidas da NFL. E quem as assiste pode lembrar-se de Helder. Nesse cenário pré-eleitoral, ele é uma espécie de quarterback, aquele jogador que, no seu time, desempenha a função mais importante: cabe-lhe fazer o passe decisivo que pode descobrir um companheiro em posição mais privilegiada para marcar um ponto.
Helder, como o quarterback, está com a bola na mão e pronto para fazer o passe. Para tanto, espera os adversários se movimentarem mais, até que se ofereça uma oportunidade para definir o lance. Enquanto não o faz, o governador acaba numa situação em que até seus silêncios soam como um grito.
Esse silêncio, como já mostrou o Espaço Aberto em postagem nesta sexta-feira (25), tem incomodado segmentos majoritários do MDB, que não apenas defendem cada vez mais intensamente a candidatura do deputado federal José Priante, em detrimento da candidatura do vice-prefeito Orlando Reis, como acham que esperar muito por essa definição é arriscado, porque poderia comprometer a mobilização das bases partidárias para trabalhar em favor do nome eventualmente escolhido.
Mas, independentemente do nome que o governador escolher como candidato de seu próprio partido, convém avaliar sua interferência - ou reflexos dela - na correlação das forças que vão se enfrentar em novembro. E aí surge a indagação: mesmo quando o candidato do MDB for conhecido, será esse o nome que Helder, in pectore - intimamente, lá no fundo do coração, da alma e dos seus mais recônditos pensamentos -, gostará de ver eleito prefeito de Belém? Pode até ser. Mas pode também não ser. Algumas evidências demonstram isso.
O governador, por exemplo, pode ter o maior interesse em que Edmilson Rodrigues seja o sucessor de Zenaldo Coutinho. Por quê? Por várias razões.
Primeiro: partidos que integram a base de apoio de Helder - como o PDT, o PT e o PCdoB - estão fechados com Edmilson. Segundo: a petista Ivanise Gasparim será vice na chapa de Edmilson. Terceiro: Beto Faro, o presidente estadual do PT, é apontado hoje como o mais barbalhista entre os petistas. "Tu acreditas que todas essas negociações para a indicação da vice do Edmilson se processaram e foram definidas sem que o Helder fosse ouvido?", perguntou há pouco um interlocutor com quem o blog conversou.
Temos ainda a já mencionada disputa no PSD, entre Éder Mauro e Gustavo Sefer. O partido também integra a base de apoio do governador. Rogério Barra, um filho de Éder Mauro, chegou a ocupar a Secretaria de Justiça e Direitos Humanos do governo Helder até maio deste ano. Mas quando ele pediu exoneração da Sejudh e depois que a secretaria foi alvo de uma busca e apreensão inédita - com aparato policial e tudo - ordenada administrativamente pela própria Auditoria Geral do Estado, a coisa desandou. E Éder Mauro passou a figurar como um dos mais estrepitosos, vociferantes e radicalmete empedernidos inimigos políticos de Helder.
O governador ficará à margem dessa disputa interna no PSD, correndo o risco de ver confirmada a candidatura de Éder Mauro, seu novo inimigo político? Ou fará, por baixo dos panos, gestões para que Gustavo Sefer concorra e atue como uma espécie de candidatura auxiliar do governador nas eleições de novembro? Eis outra questão que apenas o tempo dirá. E esse tempo urge, vale ressaltar.
Pesquisas mostravam Úrsula como quase imbatível para ser a primeira prefeita de Belém
Um fonte ouvida neste sábado, pelo Espaço Aberto, confirma ter visto pesquisas qualitativas - as mais profundas e abrangentes, que aferem opiniões, impressões, expectativas e avaliações mais subjetivas do eleitor em relação a determinado candidato - indicando que Úrsula Vidal, até anunciar sua desistência, era a melhor colocada, a mais competitiva para disputar a Prefeitura de Belém. E seus números apontavam que a secretária ostentava uma grande, para não dizer uma enorme chance de tornar-se a primeira prefeita de Belém em quatro séculos de história da cidade.
Esse fato, conforme a fonte do Espaço Aberto, torna ainda mais intrigante a desistência da secretária. "Tudo indica que ela deixou passar o dia 4 de junho e esperou um movimento mais concreto, mais percptível do governador no sentido de apoiar sua eventual candidatura a prefeita. Mas isso acabou não acontecendo. E a secretária, parece, preferiu não trocar o certo pelo duvidoso, ou seja, preferiu ficar na Secult a aventurar-se numa candidatura que poderia ser impugnada legalmente, por estar em desacordo com as regras eleitorais", especulou a fonte.
E quem Helder escolherá no MDB, já que irreversivelmente terá de escolher alguém? Observadores com quem o blog conversou neste sábado apostam que, muito embora seja evidente a preferência dos próprios emedebistas por Priante, não se descarta que o escolhido seja Orlando Reis.
Por esse raciocínio, a candidatura de Priante poderia não ser a preferida do governador em decorrência de laços familiares, uma vez o deputado é primo do senador Jader Barbalho, pai de Helder. Com isso, o governador estaria adotando excessivas cautelas para evitar que seu apoio venha a ser confundido como uma estratégia para ampliar a influência política de sua família nos destinos do estado, tendo em vista o peso político representado pela figura do prefeito de Belém. Caberia, então, o nome de Orlando Reis. Mas há quem diga que, da mesma forma que ocorreu com Úrsula, Helder até agora não deu demonstrações explícitas de que vai apoiá-lo.
Como se vê, esse jogo preliminar, que antecede a definição das candidaturas para novembro à Prefeitura de Belém, só vai mesmo acabar quando terminar.
E tudo que indica que só terminará à undécima hora.
Pau que bate em Witzel bate em Allan Santos, Luciano
Hang et caterva.
Nesta terça (26), falanges de bolsonaristas
fanáticos acordaram em êxtase ao saber de operação da Polícia Federal
determinada pelo STJ, que teve como alvo o governador do Rio, Wilson Witzel,
agora inimigo de Bolsonaro e investigado por supostas – e grossas –
irregularidades na compra de respiradores.
Na manhã desta quarta (27), falanges de bolsonaristas
fanáticos viram-se surpreendidas, já no café da manhã, com operação da Polícia Federal
determinada pelo Supremo.
Os alvos da investigação são o ex-deputado
federal Roberto Jefferson (condenado no mensalão), o empresário Luciano Hang,
dono da Havan, o blogueiros Allan dos Santos e Winston Lima, coordenador do
Movimenta Brasil. Todos são aliados de Jair Bolsonaro e investigados pela
disseminação de fake news.
A PF que caça antibolsonaristas é a mesma que
caça integrantes das falanges de Bolsonaro.
Tem mais.
No início de maio, em sua conta no Twitter,
Roberto Jefferson exibiu-se com uma arma nas mãos.
Nos tuítes, ele afirmou: “Bolsonaro, para
atender o povo e tomar as rédeas do governo, precisa de duas atitudes
inadiáveis: demitir e substituir os 11 ministros do STF, herança maldita.
Precisa cassar, agora, todas as concessões de rádio e TV das empresas
concessionárias GLOBO. Se não fizer, cai.”
Em seguida, escreveu:
“Estou me preparando para combater o bom combate. Contra o comunismo, contra a
ditadura, contra a tirania, contra os traidores, contra os vendilhões da Pátria.”
A arma de Roberto Jefferson ainda estará à mão?
Agora,
na condição de investigado pela prática de um crime (outro crime, além do que
já cometeu na época do mensalão), vai fazer mesmo o quê com essa arma?
Tétrica está sendo essa pandemia.
Tétrico está sendo Jair Bolsonaro, dito presidente do Brasil.
Tétricas estão sendo as consequências dessa doença, que já matou quase 12 mil pessoas no mundo, até o presente momento em que escreve esta postagem.
Tétricos são a irresponsabilidade, o deboche, a inconsequência, a ausência mínima de irracionalidade e de capacidade objetiva do presidente da República para lidar com um momento como este em que o o País se encontra.
Vivemos, a rigor, a Terceira Guerra Mundial.
Uma guerra que ninguém, talvez, jamais imaginou.
É uma guerra - seguramente a primeira nos desvãos de tempos imemoriais - em que terráqueos não guerreiam entre eles mesmos, mas contra um inimigo.
Um inimigo invisível. Mas letal, se o deixarem disseminar-se sem que se lhe oponha o devido - e bom, e eficaz - combate.
Nas guerras, os lados buscam seus líderes, seguem suas orientações, suas determinações, seus exemplos.
Nas guerras, a bravura dos líderes não está em empunharem armas e se colocarem nas trincheiras.
Não.
Nas guerras - as grandes, sobretudo -, os líderes usam como armas sua inteligência, sua determinação, sua autoridade moral, sua capacidade de unir a nação, sua palavra convincente e a legitimidade institucional do cargo que ocupam para orientar seus compatriotas rumo a objetivos comuns que visem o objetivo maior - e final: derrotar o inimigo.
Leiam Tempos Muito Estranhos, a magistral biografia em que Doris Kearns Goodwin traça a atuação de Franklin Delano Roosevelt e sua mulher, Eleanor, durante a Segunda Gerra Mundial a partir do front da Casa Branca.
É uma biografia maravilhosa sobre o presidente que governou, ou melhor, que liderou os Estados Unidos e a aliança ocidental na Segunda Guerra Mundial.
No livro, que eu li há 26 anos, logo que foi lançado, há um trecho que me comoveu e me impressionou. E tanto é assim que fiz questão de marcá-lo, como faço nos livros que leio. A imagem está acima.
Leiam: "...Os elmos ainda não tinham começado a desfolhar-se e, sob eles, os motoristas estacionaram os carros, pára-choques se tocando, e ligaram os rádios para ouvir Roosevelt. Abaixaram os vidros e deixaram as portas dos automóveis abertas. [...] Podia-se continuar caminhando sem perder uma só palavra. Era possível sentir-se ligado àqueles desconhecidos motoristas, homens e mulheres, fumando em silêncio seus cigarros, não apenas pelas palavras do presidente, mas também pelo tom firme e pela retidão com que eram pronunciadas, que inspiravam confiança".
Os americanos, atentos, paravam para escutar seu líder.
Buscavam retidão e confiança em suas palavras.
E as encontravam.
E nós, os brasileiros, o que fazemos quando o presidente da República fala?
Nós paramos, sim.
Mas paramos para desligar a TV.
Para desligar o rádio.
Para travar o vídeo que está no celular.
Paramos para colocar nossas máscaras, com as quais tentamos nos proteger do Covid-10 e das imundícies, idiotices, baboseiras, bactérias verbais e mentais que Bolsonaro despeja um minuto sim, outro minuto também.
Paramos porque precisamos absorver nossas vergonhas.
Nesta guerra que o mundo inteiro trava com seus aliados contra um inimigo comum, o Brasil não tem líder. Não tem quem o lidere. Não dispõe de quem esteja à frente do timão, encontrando o caminho menos inseguro para contornar as borrascas, as tormentas, as razias que o inimigo possa perpetrar contra nós.
O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, está se desempenhando com notórios bom senso e competência na condução dos encargos inerentes à sua função?
Está. Mas ele não é o líder. Ele é um ministro, subordinado a quem deveria ser o líder da Nação. Mandetta poderia fazer mais, muito mais, se seguisse as orientações de um líder nato, sensato, moderado, inteligente, com a noção segura de que patriotismo é um sentimento (de missão, inclusive) que não comporta deboches, voluntarismos, idiotices e maluquices de qualquer natureza.
Não é o que acontece entre nós, infelizmente.
Jair Messias Bolsonaro, confirmando conduta, temperamento, personalidade e caráter amplamente demonstrados desde que ingressou na vida pública e se elegeu presidente da República (ninguém diga, portanto, que não o conhecia), não se dá o respeito.
Por isso, não respeita a dignidade do cargo que ocupa.
Por isso, não respeita o decoro que se exige de quem exerce aquilo a que se chama de a mais alta magistratura do país.
Por isso, não respeita o bom senso.
Por isso, não respeita nem o senso de responsabilidade que a democracia impõe a governantes.
Por isso, os brasileiros não devem esperar nada de Bolsonaro num momento crucial, capital, inaudito e, por último mas não menos importante, aterrador como o que estamos vivendo.
Os brasileiros devem orientar-se pelo que dizem e o que estão fazendo os poderes constituídos em outras esferas de poder - estadual, municipal e até mesmo federal (mas fora, diretamente, da esfera direta de Bolsonaro, à exceção do Ministério da Saúde).
Os brasileiros devem orientar-se pelo que dizem e fazem os profissionais de Saúde, esses heróis que sempre os soubemos heróis, mas nunca, até aqui, os reconhecemos verdadeiramente como heróis.
Os brasileiros devem orientar-se pelo respeito à vida e adotar cautelas essenciais, como confinarem-se, isolarem-se, abrigarem-se ao máximo que puderem pelo menos durante os próximos dois ou três meses.
Todos devemos fazer isso.
E esquecer - simplesmente esquecer Jair Bolsonaro.
Aliás, quero saber sinceramente: quem é Jair Bolsonaro?
Fora da cadeia, o que fará Lula?
A estratégia do ex-presidente, ao que se diz desde ontem, depois que o STF acabou com a possibilidade de condenados em segunda-feira ficarem presos, é clara.
Ele não quer bater boca com Bolsonaro, não pretende adotar um discurso que deslegitime a eleição do presidente e já programa sair em nova caravana pelo País, projetando-se como a grande liderança da oposição e contando com o desgaste dos bolsonaristas.
A rigor, e em tese, a estratégia de Lula é correta.
Porque, melhor do que atacar bolsonaristas, é deixar que eles se estraçalhassem a céu aberto, na arena que criaram desde 1º de janeiro e na qual já fizeram várias vítimas - Bebiano, generais e parte expressiva do PSL, entre tantos outros.
Aliás, na prática, bolsonaristas estão brigando entre si há 11 meses. Por isso, não resta dúvida: como já se disse aqui no blog e os fatos estão demonstrando amplamente, o maior inimigo do governo Bolsonaro é o governo Bolsonaro.
Agora, à parte a estratégia de Lula, é preciso ver como os bolsonaristas vão reagir à libertação do ex-presidente.
Isso porque a tropa de Bolsonaro (com o próprio à frente), quando está calma, sob efeitos de hectolitros de chá de camomila, já se estraçalha em campo aberto.
O grande mistério, então, é como esses meninos e meninas (claro que vestidos de azul e rosa, respectivamente) vão reagir encontrando-se estressados e com o coração espumando de ódio diante de Lula livre.
Aguardemos, pois.
Nessa usina de crises que é o governo do
Capitão, o maior produtor de crises é, ora bolas, o próprio Capitão.
O presidente parece um dependente de crises: se
não tiver uma só, todo dia, ele se sente mal e acaba sendo obrigado a tomar um
Melhoral Infantil pra melhorar.
Pois agora, de graça, Bolsonaro faz mais uma
maluquice que acaba por indispô-lo com o maior eleitorado do País, o de São
Paulo.
Simplesmente porque o presidente disse haver 99%
chance de o Rio sediar a Fórmula 1, a partir de 2021. E ainda tirou uma
foto com o governador do Rio, Wilson Witzel, com o executivo Chase Carey e o
senador Flávio Bolsonaro, durante evento no Palácio do Planalto.
Resultado: o governador de São Paulo, João
Doria, um dos maiores apoiadores do Capitão entre os governadores, rebateu a
afirmação presidencial e condenou a infraestrutura do Rio para sediar o evento.
E os fluminenses?
Witzel e o prefeito do Rio, Marcelo Crivella, que
estavam desavindos, selaram a paz durante um almoço, inspirados e
excitadíssimos pelo desejo de ambos de trazer a Fórmula 1 para o Rio.
Bolsonaro não é presidente de São Paulo, do Rio,
do Pará ou do Rio Grande do Sul.
Ele é presidente do Brasil.
Por que não ficou equidistante nessa disputa,
que é meramente comercial?
Por que não deixou que São Paulo e Rio se
estapeassem à vontade?
Por que tomou partido pelo Rio?
Poroque, ora bolas, nessa usina de crises que é
o governo do Capitão, o maior produtor de crises é o próprio Capitão.
Eu durmo, acordo, durmo, acordo e vivo me
perguntando.
Mas por que, afinal de contas, o Capitão dorme,
acorda, dorme e acorda achando que as investigações do MP sobre seu filho, o
senador Flávio Zero 01 Bolsonaro, não
passam de perseguição política a ele próprio, o Capitão, e a seu governo?
Mas o Capitão, esse puro, esse imaculado, esse primus
inter pares da incorruptibilidade ética, esse defensor incorruptível das
investigações da Lava Jato que levaram seu arqui-inimigo Lula para a cadeia,
enfim, esse Capitão não deveria encontrar-se em estado de êxtase com essa
demonstração de transparência e ótimo funcionamento das instituições incumbidas
de apurar suspeitas de transgressões éticas, sejam lá quem forem seus autores?
O Capitão, esse puro, não deveria estar
inclusive estimulando essas investigações, para demonstrar que, muito embora
tenha convicção de que seu filho é também um imaculado, deseja que a verdade
venha à tona?
Então, por que essa vitimização que Bolsonaro
encena? Por que achar que essas investigações fazem parte da tal teoria da
conspiração, que vislumbra conspiração até quando passarinhos pipilam nos
lugares mais bucólicos do Brasil?
Aliás, e por falar no Zero 01, ele é mesmo um
fenômeno.
Num passar d’olhos, o Ministério Público já
descobriu que o rapaz fez pelo menos 19 grandes negócios imobiliários em Copacabana,
Barra da Tijuca, Botafogo e Laranjeiras, bairros do Rio, entre 2010 e 2017.
Num dos grandes negócios, por exemplo, o Zero 01
pagou no ano de 2016 R$ 1,7 milhão por um imóvel em Laranjeiras. Vendeu em oito
meses, por R$ 2,4 milhões. Em 2017, a desvalorização média de imóveis nesse
bairro chegou a 3,34%. Mas o senador lucrou 36,89%. Levou para casa abolada de
R $700 mil.
Quando bolsonaristas – de primeira, segunda,
terceira ou quarta hora – choramingam ou bradam irresignados contra supostas conspirações, é sinal de que
precisam parar uns dois ou três segundos para olhar no entorno.
Se olharem no entorno e despirem-se, também por
dois ou três segundos que sejam, de suas desvairadas paixões, vão descobrir
que, ora pois, o maior inimigo do governo do Capitão é, sim, o governo do
Capitão.
Espiem agora.
O maior, senão o único, articulador político do
governo tem sido o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).
À ausência e à falta de operatividade das ditas
lideranças governistas no Congresso, é Maia quem vendo sugerindo caminhos,
advertindo sobre desacertos e amenizando os efeitos corrosivos que a desarticulação progressiva da base alidada está causando ao governo.
Pois qual é a retribuição do governo Bolsonaro?
É sentar a pua no Congresso. Simplesmente isso.
"Vocês sabem que as pressões são enormes
porque a velha política parece que quer nos puxar para fazer o que eles faziam
antes. Nós não pretendemos fazer isso", disse o Capitão há uma semana.
E
a reação de Maia?
"Eu acho engraçado. Quando dizem que o
Parlamento quer indicar alguém no governo é toma lá da cá. Quando eles querem
indicar relator aqui e interferir no processo legislativo não é toma la da
cá?", afirmou, nesta quarta-feira (20), o presidente da Câmara.
Entenderam?
O maior inimigo do governo Bolsonaro não são
comunistas de foice e martelo, não é a mídia golpista (hehe), não é a velha
política (credo!).
Não.
O maior inimigo do governo Bolsonaro é o governo
Bolsonaro!