Tétrica está sendo essa pandemia.
Tétrico está sendo Jair Bolsonaro, dito presidente do Brasil.
Tétricas estão sendo as consequências dessa doença, que já matou quase 12 mil pessoas no mundo, até o presente momento em que escreve esta postagem.
Tétricos são a irresponsabilidade, o deboche, a inconsequência, a ausência mínima de irracionalidade e de capacidade objetiva do presidente da República para lidar com um momento como este em que o o País se encontra.
Vivemos, a rigor, a Terceira Guerra Mundial.
Uma guerra que ninguém, talvez, jamais imaginou.
É uma guerra - seguramente a primeira nos desvãos de tempos imemoriais - em que terráqueos não guerreiam entre eles mesmos, mas contra um inimigo.
Um inimigo invisível. Mas letal, se o deixarem disseminar-se sem que se lhe oponha o devido - e bom, e eficaz - combate.
Nas guerras, os lados buscam seus líderes, seguem suas orientações, suas determinações, seus exemplos.
Nas guerras, a bravura dos líderes não está em empunharem armas e se colocarem nas trincheiras.
Não.
Nas guerras - as grandes, sobretudo -, os líderes usam como armas sua inteligência, sua determinação, sua autoridade moral, sua capacidade de unir a nação, sua palavra convincente e a legitimidade institucional do cargo que ocupam para orientar seus compatriotas rumo a objetivos comuns que visem o objetivo maior - e final: derrotar o inimigo.
Leiam
Tempos Muito Estranhos, a magistral biografia em que Doris Kearns Goodwin traça a atuação de Franklin Delano Roosevelt e sua mulher, Eleanor, durante a Segunda Gerra Mundial a partir do
front da Casa Branca.
É uma biografia maravilhosa sobre o presidente que governou, ou melhor, que liderou os Estados Unidos e a aliança ocidental na Segunda Guerra Mundial.
No livro, que eu li há 26 anos, logo que foi lançado, há um trecho que me comoveu e me impressionou. E tanto é assim que fiz questão de marcá-lo, como faço nos livros que leio.
A imagem está acima.
Leiam:
"...Os elmos ainda não tinham começado a desfolhar-se e, sob eles, os motoristas estacionaram os carros, pára-choques se tocando, e ligaram os rádios para ouvir Roosevelt. Abaixaram os vidros e deixaram as portas dos automóveis abertas. [...] Podia-se continuar caminhando sem perder uma só palavra. Era possível sentir-se ligado àqueles desconhecidos motoristas, homens e mulheres, fumando em silêncio seus cigarros, não apenas pelas palavras do presidente, mas também pelo tom firme e pela retidão com que eram pronunciadas, que inspiravam confiança".
Os americanos, atentos, paravam para escutar seu líder.
Buscavam retidão e confiança em suas palavras.
E as encontravam.
E nós, os brasileiros, o que fazemos quando o presidente da República fala?
Nós paramos, sim.
Mas paramos para desligar a TV.
Para desligar o rádio.
Para travar o vídeo que está no celular.
Paramos para colocar nossas máscaras, com as quais tentamos nos proteger do Covid-10 e das imundícies, idiotices, baboseiras, bactérias verbais e mentais que Bolsonaro despeja um minuto sim, outro minuto também.
Paramos porque precisamos absorver nossas vergonhas.
Nesta guerra que o mundo inteiro trava com seus aliados contra um inimigo comum, o Brasil não tem líder. Não tem quem o lidere. Não dispõe de quem esteja à frente do timão, encontrando o caminho menos inseguro para contornar as borrascas, as tormentas, as razias que o inimigo possa perpetrar contra nós.
O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, está se desempenhando com notórios bom senso e competência na condução dos encargos inerentes à sua função?
Está. Mas ele não é
o líder. Ele é um ministro, subordinado a quem deveria ser o líder da Nação. Mandetta poderia fazer mais, muito mais, se seguisse as orientações de um líder nato, sensato, moderado, inteligente, com a noção segura de que patriotismo é um sentimento (de missão, inclusive) que não comporta deboches, voluntarismos, idiotices e maluquices de qualquer natureza.
Não é o que acontece entre nós, infelizmente.
Jair Messias Bolsonaro, confirmando conduta, temperamento, personalidade e caráter amplamente demonstrados desde que ingressou na vida pública e se elegeu presidente da República (ninguém diga, portanto, que não o conhecia), não se dá o respeito.
Por isso, não respeita a dignidade do cargo que ocupa.
Por isso, não respeita o decoro que se exige de quem exerce aquilo a que se chama de
a mais alta magistratura do país.
Por isso, não respeita o bom senso.
Por isso, não respeita nem o senso de responsabilidade que a democracia impõe a governantes.
Por isso, os brasileiros não devem esperar nada de Bolsonaro num momento crucial, capital, inaudito e, por último mas não menos importante, aterrador como o que estamos vivendo.
Os brasileiros devem orientar-se pelo que dizem e o que estão fazendo os poderes constituídos em outras esferas de poder - estadual, municipal e até mesmo federal (mas fora, diretamente, da esfera direta de Bolsonaro, à exceção do Ministério da Saúde).
Os brasileiros devem orientar-se pelo que dizem e fazem os profissionais de Saúde, esses heróis que sempre os soubemos heróis, mas nunca, até aqui, os reconhecemos verdadeiramente como heróis.
Os brasileiros devem orientar-se pelo respeito à vida e adotar cautelas essenciais, como confinarem-se, isolarem-se, abrigarem-se ao máximo que puderem pelo menos durante os próximos dois ou três meses.
Todos devemos fazer isso.
E esquecer - simplesmente esquecer Jair Bolsonaro.
Aliás, quero saber sinceramente: quem é Jair Bolsonaro?