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segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Tu já viste um rei? Leia - sobretudo você, jornalista - "Tu já viste um rei?" para vê-lo.

Assista ao vídeo.

Se assistiu, saiba que eu recomendo.

Antonio Carlos Pimentel Pinto Júnior, o Tonga (para os amigos velhos e velhos amigos), é meu velho amigo (mas não amigo velho, hehe) e fechador de jornais.

Fechador de jornal, fique bem explicado, é quem fecha as edições diárias de um jornal, entenderam?

Varamos, por muitos anos, madrugadas a dentro nas redações, premidos pelos horários de fechamento, em tempos, vale dizer, em que ainda não tínhamos nem as edições on-line e muito menos as ferramentas que permitiam a e facilitavam sobremaneira as edições.

Neste livro, Tonga resume não apenas parte das lições que transmite em suas atividades acadêmicas, mas as experiências práticas que acumulou fartamente nos anos em que passou em redação de jornal. Inclusive os crivos, os critérios, as cautelas e os conhecimentos adotados para garantir que a notícia a ser impressa fosse sempre fiel ao fato que procurou descrever.

Publicação independente, o livro conta com o apoio do site Expedição Pará.

Os interessados em adquirir o produto físico - aquele que você pode riscar, dobrar as pontas para marcar a página que está lendo etc. etc. - pode depositar R$ 40,00 no Bradesco, agência 1505-9, conta corrente: 15195-5, em nome de Antonio Carlos Pimentel Pinto Júnior, CPF 219476352-04.

Se preferir, também pode depositar na Caixa (lotéricas), agência 3249, Op. 013, conta poupança 4198-4, em nome de Heloísa Maria Barros Pimentel Pinto, CPF 373274452-34.

Envie uma foto do comprovante de depósito pro WhatsApp dele (9114-7657) ou pelo e-mail tonga.carlos@gmail.com.

Mande o endereço com CEP para entrega que o livro chegará em sua casa, autografado e devidamente higienizado.

Porque são tempos - ainda são - de pandemia, né?

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Sou idiota, sim. Mas uma senhorinha de 91 anos me leva a crer que não sou propriamente um idiota.


Sou mesmo um idiota.

Por sê-lo, continuo em quarentena. Literalmente e completamente.

Por ser um idiota, só ponho os pés na rua em duas situações: quado compelido por imperiosos deveres profissionais e funcionais e para correr sozinho às 4h30 da madrugada (justamente para não encontrar ninguém), durante três vezes na semana.

Sou idiota porque, pra mim, a pandemia, agora, encontra-se no mesmo nível de quando começou - em fevereiro, março, por aí.

Sou idiota porque, na minha cabeça, a Covid-19 mata - já perdi dois cunhados, além de vários amigos e muitos conhecidos.

Sou idiota porque continuo apavorado, enquanto os outros estão em festa. Literalmente.

Sou idiota porque, na minha cabeça, não são 207,6 mil os infectados no Pará; são mais de 1,3 milhão, conforme inquérito epidemiológico da Uepa, acolhido como veraz, como digno de crédito pela própria Sespa.

Idiota, lembro-me da figura comovente do príncipe Liév Nikoláievitch Míchkin, o idiota de O Idiota, de Dostoiévski.

O idiota de O Idiota era, coitado, um ingênuo. Era ingênuo, bondoso, humanista, idealista, crente nos melhores ideais, capazes de identificar o ser humano com o melhor que se pode extrair da natureza humana.

O príncipe, no romance, é tão cheio de ingenuidades e inocências que chega, para muitos leitores como eu, a ser revoltante. Nas primeiras páginas do livro, não há quem não deixe de dizer de si para si: "Mas que idiota"!

Viviam chamando o príncipe, é claro, de idiota. Uma vez, em suas reflexões, ele indagou a si mesmo: "Mas que idiota sou agora, quando eu mesmo compreendo que me consideram um idiota?"


Que nem eu: quando vejo todo mundo na praia (espiem ao lado como estava Ipanema, no Rio, neste domingo), nos bares, nas ruas, quando vejo este novo normal que é igualzinho ao velho normal, "eu mesmo compreendo que me consideram um idiota", como o príncipe Míchkin.

Apesar de toda a minha idiotice, tenho razões para tentar iludir-me do contrário.

Leiam a nota lá em cima. Está na coluna de Ancelmo Gois, em O Globo desta segunda (7).

Essa senhorinha de 91 anos é a prova de que lucidez e sabedoria não têm idade.

Ela é o meu alento de que, apesar de me considerarem um idiota, eu ainda posso dizer: "Só que não".

domingo, 19 de abril de 2020

Leiam “Duluth”. Lá tem um pântano onde os insetos correriam de medo de Bolsonaro.

Duluth é um dos livros mais espetaculares de Gore Vidal, ainda que seja um dos menos conhecidos.
Meu exemplar já está meio encardido. Vejam a capa - bem castigada.
Leiam esse livro.
O título é referência a Duluth, uma cidade do estado de Minnesota (EUA).
Na Duluth de Gore Vidal, há de tudo.
Há corrupção das grossas. Na polícia, inclusive.
Há corruptos que acumulam poderes dos quais eles mesmos duvidam.
Há um prefeito corrupto, oportunista e demagogo.
Em Duluth, os medíocres são estrelas.
Há uma socialite que representa a quintessência da futilidade. Ela é uma imbecil rematada. Tem dificuldades até para ler uma palavra com três letras, como cat (gato, em inglês). Mas é tratada como uma celebridade e está até escrevendo um livro pelas mãos de um ghost writer.
Em Duluth, há uma imprensa vendida e rendida aos interesses políticos. E completamente parcial , indecorosamente parcial - como toda boa imprensa (hehe).
Há uma escritora, mentirosa compulsiva, que vende livros e histórias a rodo, todas elas adaptadas e furtadas de um banco de dados (que ela guarda no computador) com milhares de trabalhos originais.
E em toda a trama de Duluth, temos uma nave espacial que chegou à cidade – misteriosa, enigmática e amedrontadora, porque ninguém sabe de onde ela veio e quem está dentro dela.
A espaçonave muda de locais conforme uma tachinha é movimentada num mapa.
Em algum momento, ela vai parar dentro do pântano cheio de insetos. E o prefeito de Duluth vai lá, tentar um contato com os alienígenas.
Em contato com o prefeito, os insetos todos correm dele, como se o achassem repulsivo e repelente.
Lembrei-me, há pouco, de Duluth ao ver a performance de Bolsonaro na tarde deste domingo (19).
Ele foi a estrela maior de uma concentração que reuniu milhares de pessoas.
Os manifestantes defenderam escancaradamente, escandalosamente e criminosamente um golpe militar – com fechamento do Congresso, do Supremo e tudo o mais.
Bolsonaro saudou esses golpistas com o maior entusiasmo.
Se estivessem em Duluth e entrassem no seu pântano, fariam correr todos os insetos – inclusive os mais monstrutos, repelentes e letais.
Gore Vidal, se vivo ainda fosse e se os visse, ficaria inspirado, quem sabe, a escrever uma continuação de Duluth.
Seria uma espécie de Duluth 2. Desta vez, com o seu pântano em pânico, diante da possibilidade de ser invadido.
Por Bolsonaro e bolsonaristas.

sábado, 21 de março de 2020

Estamos em guerra. Não temos quem nos lidere. Temos quem nos envergonha. Bolsonaro é "a vergonha".


Tétrica está sendo essa pandemia.
Tétrico está sendo Jair Bolsonaro, dito presidente do Brasil.
Tétricas estão sendo as consequências dessa doença, que já matou quase 12 mil pessoas no mundo, até o presente momento em que escreve esta postagem.
Tétricos são a irresponsabilidade, o deboche, a inconsequência, a ausência mínima de irracionalidade e de capacidade objetiva do presidente da República para lidar com um momento como este em que o o País se encontra.
Vivemos, a rigor, a Terceira Guerra Mundial.
Uma guerra que ninguém, talvez, jamais imaginou.
É uma guerra - seguramente a primeira nos desvãos de tempos imemoriais - em que terráqueos não guerreiam entre eles mesmos, mas contra um inimigo.
Um inimigo invisível. Mas letal, se o deixarem disseminar-se sem que se lhe oponha o devido - e bom, e eficaz - combate.
Nas guerras, os lados buscam seus líderes, seguem suas orientações, suas determinações, seus exemplos.
Nas guerras, a bravura dos líderes não está em empunharem armas e se colocarem nas trincheiras.
Não.
Nas guerras - as grandes, sobretudo -, os líderes usam como armas sua inteligência, sua determinação, sua autoridade moral, sua capacidade de unir a nação, sua palavra convincente e a legitimidade institucional do cargo que ocupam para orientar seus compatriotas rumo a objetivos comuns que visem o objetivo maior - e final: derrotar o inimigo.
Leiam Tempos Muito Estranhos, a magistral biografia em que Doris Kearns Goodwin traça a atuação de Franklin Delano Roosevelt e sua mulher, Eleanor, durante a Segunda Gerra Mundial a partir do front da Casa Branca.
É uma biografia maravilhosa sobre o presidente que governou, ou melhor, que liderou os Estados Unidos e a aliança ocidental na Segunda Guerra Mundial.
No livro, que eu li há 26 anos, logo que foi lançado, há um trecho que me comoveu e me impressionou. E tanto é assim que fiz questão de marcá-lo, como faço nos livros que leio.
A imagem está acima.
Leiam: "...Os elmos ainda não tinham começado a desfolhar-se e, sob eles, os motoristas estacionaram os carros, pára-choques se tocando, e ligaram os rádios para ouvir Roosevelt. Abaixaram os vidros e deixaram as portas dos automóveis abertas. [...] Podia-se continuar caminhando sem perder uma só palavra. Era possível sentir-se ligado àqueles desconhecidos motoristas, homens e mulheres, fumando em silêncio seus cigarros, não apenas pelas palavras do presidente, mas também pelo tom firme e pela retidão com que eram pronunciadas, que inspiravam confiança".
Os americanos, atentos, paravam para escutar seu líder.
Buscavam retidão e confiança em suas palavras.
E as encontravam.
E nós, os brasileiros, o que fazemos quando o presidente da República fala?
Nós paramos, sim.
Mas paramos para desligar a TV.
Para desligar o rádio.
Para travar o vídeo que está no celular.
Paramos para colocar nossas máscaras, com as quais tentamos nos proteger do Covid-10 e das imundícies, idiotices, baboseiras, bactérias verbais e mentais que Bolsonaro despeja um minuto sim, outro minuto também.
Paramos porque precisamos absorver nossas vergonhas.
Nesta guerra que o mundo inteiro trava com seus aliados contra um inimigo comum, o Brasil não tem líder. Não tem quem o lidere. Não dispõe de quem esteja à frente do timão, encontrando o caminho menos inseguro para contornar as borrascas, as tormentas, as razias que o inimigo possa perpetrar contra nós.
O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, está se desempenhando com notórios bom senso e competência na condução dos encargos inerentes à sua função?
Está. Mas ele não é o líder. Ele é um ministro, subordinado a quem deveria ser o líder da Nação. Mandetta poderia fazer mais, muito mais, se seguisse as orientações de um líder nato, sensato, moderado, inteligente, com a noção segura de que patriotismo é um sentimento (de missão, inclusive) que não comporta deboches, voluntarismos, idiotices e maluquices de qualquer natureza.
Não é o que acontece entre nós, infelizmente.
Jair Messias Bolsonaro, confirmando conduta, temperamento, personalidade e caráter amplamente demonstrados desde que ingressou na vida pública e se elegeu presidente da República (ninguém diga, portanto, que não o conhecia), não se dá o respeito.
Por isso, não respeita a dignidade do cargo que ocupa.
Por isso, não respeita o decoro que se exige de quem exerce aquilo a que se chama de a mais alta magistratura do país.
Por isso, não respeita o bom senso.
Por isso, não respeita nem o senso de responsabilidade que a democracia impõe a governantes.
Por isso, os brasileiros não devem esperar nada de Bolsonaro num momento crucial, capital, inaudito e, por último mas não menos importante, aterrador como o que estamos vivendo.
Os brasileiros devem orientar-se pelo que dizem e o que estão fazendo os poderes constituídos em outras esferas de poder - estadual, municipal e até mesmo federal (mas fora, diretamente, da esfera direta de Bolsonaro, à exceção do Ministério da Saúde).
Os brasileiros devem orientar-se pelo que dizem e fazem os profissionais de Saúde, esses heróis que sempre os soubemos heróis, mas nunca, até aqui, os reconhecemos verdadeiramente como heróis.
Os brasileiros devem orientar-se pelo respeito à vida e adotar cautelas essenciais, como confinarem-se, isolarem-se, abrigarem-se ao máximo que puderem pelo menos durante os próximos dois ou três meses.
Todos devemos fazer isso.
E esquecer - simplesmente esquecer Jair Bolsonaro.
Aliás, quero saber sinceramente: quem é Jair Bolsonaro?

domingo, 13 de maio de 2018

Um livro superlativo sobre uma batalha superlativa

A mais mortal.
A mais sangrenta.
A que apresentou alguns dos erros táticos e de estratégia mais colossais.
A que testou mais profundamente os limites humanos - os melhores e os piores.
A que mostrou os elementos naturais - como chuva e frio, um frio polar - como alguns dos mais decisivos fatores para o seu desfecho.
A mais decisiva.
E, apesar de tudo isso, uma das mais desconhecidas, porque nem vencidos, nem vencedores fizeram questão de divulgá-la, tal a dimensão das perdas humanas.
A Batalha de Moscou, o enfrentamento dos exércitos alemão e soviético, sob os manetes de dois dos maiores tiranos da história da humanidade, Hitler e Stalin, é assim mesmo: superlativa. E superlativa aos extremos.
A Batalha de Moscou, do jornalista americano Andrew Nagorski, que por três décadas foi correspondente da Newsweek, também pode ser considerada, a juízo deste repórter, uma obra superlativa.
O livro é um dos mais chocantes já escritos sobre uma das batalhas mais decisivas, senão a mais decisiva da Segunda Guerra, que se desenrolou de setembro de 1941 a abril de 1942.
Números apresentados pelo autor dizem por si mesmos.
Pelo menos 2,5 milhões morreram, foram feitos prisioneiros, desapareceram em ação ou se feriram com gravidade suficiente para exigir hospitalização.
A maioria dos prisioneiros de guerra russos, segundo Nagorski, foi efetivamente condenada à morte. Outros 938.500 soviéticos foram hospitalizados, totalizando em 1.896.500 as perdas soviéticas. O numero correspondente de soldados alemães chegou a 615 mil.
Conversas com dezenas de pessoas que testemunharam fatos ou que ouviram relatos de parentes e amigos que participaram da batalha, além de revelações contidas em documentos que foram preservadas durante décadas com o selo de sigilosos ou secretos, permitiram a exposição de cenas chocantes.
As tropas nazistas chegaram a cerca de 40 km da capital soviética, uma distância menor do que de Belém a Mosqueiro ou de Belém a Castanhal, por exemplo.
O grande erro de Hitler: esperou demais para mobilizar suas tropas em direção a Moscou. Atrasando-se, os nazistas depararam-se com os tormentos do descomunalmente desumano inverno russo, com temperaturas que caíram a -40º e com chuvas que faziam atolar os tanques das divisões Panzers, dificultando o avanço da infantaria.
O frio era tanto que se produziu uma trágica bizarrice: soldados alemães roubavam roupas íntimas de mulheres das aldeias soviéticas para se aquecerem. Lançavam mão até de sutiãs para proteger as orelhas e evitar que fossem ulceradas pelas baixíssimas temperaturas.
O erro maior de Stálin: por meses e meses, ignorou-se evidências, avisos, informações e sinais fortíssimos, levantados inclusive por seus serviços de inteligência, de que Hitler invadiria a União Soviética.
Quando a invasão se consumou, o Exército Vermelho entrou em parafuso: soldados não tinham sequer armas para atirar. Recrutas que foram chamados para reforçar as linhas de defesa mal sabiam atirar.
No dia 16 de outubro de outubro de 1941, Moscou entrou em pânico, com saques, greves, alvoroço e fugas. Moscou, à época com pouco mais de 4 milhões de habitantes, foi reduzida a cerca de 2 milhões.
A própria cúpula do poder soviético precisou sair às pressas de Moscou para abrigar-se temporariamente em Kuibyshev. Até o mausoléu de Lênin precisou ser removido às pressas, e em segredo, para Tyumen, uma pequena cidade a 1.600 qkm a leste da capital. Mas Stalin permaneceu em Moscou.
Moscou só não caiu em poder de Hitler - e, se caísse, provavelmente o nazismo teria dado mais de meio passo para a conquista do continente inteiro, à exceção da Grã-Bretanha, que àquela altura ainda lutava sozinha - porque, para sorte de Stalin, o Japão preferiu não acabar a Rússia, o que permitiu ao ditador deslocar tropas do extremo leste do país para reforçar as linhas de defesa da capital soviética.
Como demonstra Nagorski, os erros de Stalin foram tantos e de tal monta, implicando perdas materiais e de vidas humanos em dimensões tão inacreditáveis, que a Batalha de Moscou foi praticamente apagada pela ditadura comunista.
Num discurso que pronunciou em 24 de maio de 1945, logo depois do final da Segunda Guerra Mundial, o próprio Stalin admitiu: "Nosso governo cometeu muitos erros. Tivemos alguns momentos de desespero em 1941-1942, quando nosso exército estava em retirada, forçado a abandonar nossas aldeias e cidades [...], abandonando-as porque não havia outra saída. Outra nação poderia ter dito para seus governantes: vocês não atenderam às nossas expectativas, vão embora, vamos montar outro governo, que há de concluir a paz com os alemães e garantir para nós a tranquilidade".
Se é certo que a história é sempre contada pela ótica dos vencidos, desta vez a ditadura comunista preferiu não contar a história de uma vitória.
Talvez porque não considerou que, a rigor, saiu vitoriosa na Batalha de Moscou.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

“Fogo e Fúria” exibe o Trump pervertido. Inclusive sexualmente.

Sério mesmo: quando comecei a ler Fogo e Fúria, ainda tinha uma certa dúvida se Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, não seria meio doido. Depois que li, tenho certeza de que ele é maluco. Só falta a carteirinha.
Sério mesmo: quando comecei a ler Fogo e Fúria, ainda alimentava alguma dúvida se a opção do eleitorado americano - que em tese personifica uma das mais sólidas democracias do planeta -, elegendo Trump, não teria sido um equívoco abissal. Depois que li, tenho certeza de que não foi apenas um equívoco, mas uma escolha absolutamente incompatível com uma sociedade que se inspira em ideais democráticos.
O livro do jornalista Michael Wolff é simplesmente devastador.
Mostra um governo descoordenado, desorientado, desnorteado.
Revela um governo conduzido por direitistas e reacionários raivosos, entretidos em picuinhas de bastidores e, o que é pior, alienados politicamente, ao ponto de não terem sequer contatos sólidos com lideranças do Congresso.
Revela Donald Trump como ele sempre foi, como a campanha eleitoral nos mostrou e como sua performance na presidência nos tem mostrado.
O Trump que emerge do livro do Wolff é falastrão, inconsequente, egocêntrico, machista, sem capacidade analítica para fazer as devidas conexões de causa e efeito sobre questões das mais graves em que é chamado a decidir.
O Trump exibido nua e cruamente por Fogo e Fúria pode ser tanto o “imbecil de merda”, conforme expressões de Rex Tillerson, até recentemente seu secretário de Estado, como o homem incapaz de concentrar-se na leitura de um simples memorando expositivo que poderia instruí-lo melhor a tomar uma decisão mais complexa.
O Trump que desfila no livro é um obcecado por aprovações e elogios, ao ponto de passar horas e horas, todo dia, grudado ao telefone chorando suas mágoas e contando vantagens para amigos, em vez de escorar-se em opiniões e avaliações abalizadas de assessores.
O presidente dos EUA, segundo Wolff, é aquele pervertido que vê nas próprias perversões – as sexuais, inclusive – uma confirmação de sua masculinidade. Leia-se um trecho do livro: “Trump gostava de dizer que uma das coisas que tornava a vida digna de ser vivida era levar as mulheres dos amigos para a cama. Para conquistar a mulher de um amigo, ele tentava persuadi-la de que o marido não era o que ela pensava. Para isso, mandava sua secretária chamar o amigo à sua sala e, quando este chegava, começava uma conversa que, para o amigo, era uma conversa trivial de conteúdo sexual. Você ainda gosta de fazer sexo com sua mulher? Com que frequência? Você deve ter tido uma trepada melhor do que com sua mulher? Me conta. Tenho umas garotas chegando de Los Angeles às três. Podemos subir e passar uma tarde bem agradável. Prometo... E a mulher do amigo estava ouvindo tudo pelo viva-voz”.
Esse é o presidente dos Estados Unidos da América. Se ele faz isso, por que se espantar com suas alocuções tresloucadas pelo Twitter, inclusive ameaçando desfechar chuva de mísseis “bacanas, novos e inteligentes” contra nações inimigas?
Para escrever o livro, Wolff conversou durante 18 meses com dezenas de pessoas, inclusive com Trump e com muita gente que trabalhou em sua campanha. Mas ler Fogo e Fúria exige que o leitor esteja minimamente atualizado em relação ao governo Trump e suas maluquices, sobretudo as que envolvem a interferência do governo russo nas eleições que o republicano venceu.
Sem dúvida, é um livro fundamental para que se entendam as dimensões do abismo em que os Estados Unidos se meteram, ao optar por Donald Trump para ocupar o Salão Oval.

sexta-feira, 30 de março de 2018

"Não vai acontecer aqui" alerta para a tentação das tiranias


Pessoas fuziladas em julgamentos sumários, às vezes ditados por uma pessoa só.
Opositores presos, quando não executados sem formação de culpa.
Judiciário primeiramente acuado e depois, praticamente eliminado.
O Legislativo finalizado.
Milícias paramilitares espalhando o medo, o terror, os justiçamentos.
Praticamente todas as áreas de entretenimento e lazer fortemente tributadas, tornando proibitivos os preços dos ingressos de qualquer diversão e forçando, com isso, a população ficar em casa.
Universidades com suas instalações confiscadas para se transformarem em campos de concentração.
Espiões em toda parte.
Imprensa completamente subjugada.
Um jornalista, Doremus Jessop, nos limites de sua impotência para denunciar atrocidades que fatalmente vão força-lo a trilhar caminhos de resistência que ele provavelmente nunca imaginaria ser capaz de trilhar.
Essa ditadura, essa tirania sanguinária, fundada por Buzz Windrip, um político vaidoso, falastrão, xenófobo, racista e demagogo compõe uma verdadeira fábula sobre os limites a que pode chegar a abulia de uma sociedade que se recusa a perceber e admitir que os instrumentos da democracia podem servir, perfeitamente, para que ditadores e tiranos sanguinários cresçam, apareçam e subvertam a democracia.
É por isso que Não vai acontecer aqui torna-se leitura obrigatória, nestes dias em que um Donald Trump, por exemplo, oferece fartas demonstrações de seus pendores autocráticos. E todo mundo, ou pelo menos a maioria dos americanos achava que isso não aconteceria lá, ou seja, que ele não seria presidente dos Estados Unidos.
Pois no livro que escreveu em 1935, antes mesmo que o mundo conhecesse os horrores do nazismo e do fascismo durante a Segunda Guerra Mundial, Sinclair Lewis, o primeiro escritor norte-americano a ganhar um Nobel de Literatura, mostra que ninguém acreditava que isto pudesse acontecer lá: uma figura como Buzz Windrip ganhar as eleições presidenciais e transformar a democracia numa ditadura.
Não vai acontecer aqui é imprescindível como advertência para que ninguém se iluda com as fragilidades inerentes ao regime democrático.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

As guerras deles têm horrores. As nossas guerras também.


Os dramas de refugiados - sírios, sobretudo - que nos últimos anos têm invadido países da Europa nem sempre merecem de nós, brasileiros, a atenção que exigem todos os eventos expressivos da degradação humana.
E talvez não mereçam de nós essa atenção por dois motivos básicos: porque, felizmente, estamos distantes das guerras travadas em outros continentes e porque já temos as nossas guerras por aqui.
Nas nossas guerras diárias, crianças são arrastadas por quilômetros na rabeira de veículos dirigidos por bandidos, crianças são mortas por balas perdidas em suas próprias escolas e o crime organizado faz centenas de vítimas, diariamente, em todo o País.
Nas guerras travadas longe de nós, os horrores fazem com que pais desconheçam a certeza da morte representada pela fuga em botes infláveis e exponham a eles próprios e seus filhos aos riscos de um fim trágico, como é o caso do garotinho sírio que morreu no mar e foi dar a uma praia da Turquia, em setembro de 2015, como registrado numa das imagens mais chocantes, pungentes, trágicas e dolorosas já captadas pelas lentes de um fotógrafo desde o fim da Segunda Grande Guerra.
Nas nossas guerras, o cidadão que acorda numa manhã qualquer e sai à rua pode ser assaltado e perder a vida na porta de casa.
Nas guerras deles, o cidadão pode acordar de manhã, sair à porta de casa, vislumbrar as cerejeiras ainda em flor, os carros passando lentamente e um cachorro esquelético levando na boca uma cabeça.
Sim, um cachorro levando na boca uma cabeça - humana, de gente. Uma cabeça seccionada do corpo de alguém.
"Temos que partir, rápido". Quando acabou de ver a cena tétrica do cachorro com uma cabeça humana na boca, foi a essa a reação imediata do professor Joude Jassouma, anunciando à esposa, Aya, que tinham de fugir de Alepo com a filhinha Zaine.
A descrição dessa aventura está no livro Eu Venho de Alepo (Editora Vestígio), um relato emocionante sobre a fuga, para a liberdade, de uma família compelida a abandonar sua terra natal, seus parentes e amigos por não suportar mais tanto horror, tanta crueldade, tanta violência produzidos pelos confrontos entre o exército de Bashar al-Assad e as forças rebeldes lideradas pelos jihadistas da Frente al-Nusra e do Estado Islâmico.
No livro, Jassouma descreve seus esforços para estudar, para formar uma família, para lecionar francês e, quando não mais foi mais possível viver em seu país, seus esforços para fugir de Alepo e procurar a paz.
E mais: em meio ao drama de atravessar o Mar Egeu com a mulher e a filha de colo, Joude Jassouma ainda teve que enfrentar as tensões antes de ser acolhido na França e os desafios de demonstrar, com suas condutas, que refugiados de países islâmicos não podem e nem devem ser vítimas de estigmas e preconceitos odiosos.
"Gostaria ainda que este livro fornecesse uma imagem diferente dos refugiados. Compreendo os temores dos franceses, os traumas provocados pelos atentados de Charlie Hebdo, do supermercado Hyper Cacher, do Bataclan, de Nice... Gostaria de dizer para não terem de nós: estão vendo, somos como vocês", diz Joude Jassouma.
Leiam Eu Venho de Alepo.

Inclusive para constarem que as guerras deles, em muitos aspectos, não estão muito distantes das nossas guerras.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

"O Fim do Homem Soviético" é um testemunho chocante da história

A história não é bem compreendida apenas quando se ingressa, a fundo, nas motivações, ideologias e em outras condições quaisquer - econômicas, inclusive - que interferem diretamente para mudanças em curso.
A história se faz ainda melhor compreendida quando se conhece um pouco das condições humanas, essencialmente humanas, que levam o cidadão, qualquer um, a mover-se em meio às novas realidades que se estabelecem, inclusive as criadas por eventos revolucionários.
O Fim do Homem Soviético, da escritora Svetlana Aleksiévitch, ganhadora do Nobel de Literatura em 2015, é um desses livros essenciais, absolutamente essenciais para que se possa conhecer a fundo a guinada que ocorreu no início dos anos 1990, portanto, no final do Século XX, quando a Perestroika e as Glasnost começaram a decretar o início do fim do império soviético.
O livro reúne uma sucessão de testemunhos de gente - ou de gentes - que viveram literalmente na pele a selvageria stalinista e ainda tiveram condições de presenciar o que seria a alvorada do capitalismo, por muitos tido como a redenção dos povos soviéticos, então submetidos àquela máxima do a cada um segundo a sua necessidade - a mais estrita necessidade, vale dizer.
Os testemunhos dos personagens selecionados por Svetlana Aleksiévitch são chocantes, pavorosos e elucidativos para que o leitor perceba como uma nova realidade impactou o homem soviético.
Há histórias de todo tipo.
Dos que ainda idolatram o stalinismo até hoje.
Dos que o abjetam.
Dos que sonham com a sua volta.
Dos que jamais se acostumaram a viver numa sociedade movida pelo lucro e pelo dinheiro.
Dos que não acreditam que a democracia e o capitalismo permitam ao ser humano projetar  o melhor de suas potencialidades.
Dos que não veem na liberdade o valor mais relevante num regime democrático.
Dos que acham que o capitalismo, se bem não fez, fez muito menos mal do que o regime socialista.
Dos que, mesmo vivendo sob o terror da repressão imposta por mais de sete décadas pelo regime de Moscou, acham que, sim, o russo só age sob regimes autoritários.
Dos que simplesmente riem, ridicularizam os mais velhos que viveram sob regimes opressores.
Dos que, como é o caso dos mais jovens, não dão a mínima para a história de seus ancestrais que viveram sob os horrores do stalinismo e depois dele.
Há histórias de prisões, de mortes, torturas, de amores, de esperanças e desilusões, de vínculos partidos para sempre, de privações e de tentativas repetidas de alcançar um bem-estar que confira mais dignidade à vida.
Leiam O Fim do Homem Soviético.

Vale muito a pena.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Dez lançamentos neste mês de julho para integrar sua estante

Espiem só.
O excelente site Listas Literárias aponta dez lançamentos neste mês de julho que precisam integrar sua estante.
Confiram abaixo:

1 - Ninguém Nasce Herói, de Eric Novello: Num futuro em que o Brasil é liderado por um fundamentalista religioso, o Escolhido, o simples ato de distribuir livros na rua é visto como rebeldia. Esse foi o jeito que Chuvisco encontrou para resistir e tentar mudar a sua realidade, um pouquinho que seja: ele e os amigos entregam exemplares proibidos pelo governo a quem passa pela praça Roosevelt, no centro de São Paulo.

2 - Dunkirk - a história real por trás do filme, de Joshua Levine: Em 1940, no porto francês da cidade de Dunkirk, mais de 300 mil tropas Aliadas foram salvas da destruição pelas mãos da Alemanha Nazista em uma extraordinária evacuação pelo mar. Esta é a verdadeira história de soldados, marinheiros, pilotos e civis envolvidos no resgate de 90 dias que se tornou uma lenda.

3 - Breve História de Sete Assassinatos, de Marlom James: Em 3 de dezembro de 1976, às vésperas das eleições na Jamaica e dois dias antes de Bob Marley realizar o show Smile Jamaica para aliviar as tensões políticas em Kingston, sete homens não identificados invadiram a casa do cantor com metralhadoras em punho. O ataque feriu Marley, a esposa e o empresário, entre várias outras pessoas.

4 - Os Últimos Dias da Noite, de Graham Moore: A história recria de maneira extraordinária a disputa que em fins do século XIX opôs o cientista sérvio Nikola Tesla e o americano Thomas Edison, inventor da lâmpada, dois dos maiores gênios da história. A briga, no entanto, não envolve apenas ciência.

5 - Coisas Inatingíveis, de Danilo Leonardi: Quatro histórias se entrelaçam numa trama de tirar o fôlego e que fará você repensar sua vida. Cristina, Raí, Bianca e Bernardo. Jovens com diferentes visões, diferentes caminhos, mas com um único anseio: aproveitar cada dia como se fosse o último.

6 - A Sociedade dos Sonhadores Involuntários, de José Eduardo Agualusa: fábula política, satírica e divertida em torno dos sonhos, criada por um dos mais premiados autores lusos contemporâneos.

7 - Amor & Gelato, de Jenna Evans Welch: Um verão na Itália, uma antiga história de amor e um segredo de família. Depois da morte da mãe, Lina fica com a missão de realizar um último pedido: ir até a Itália para conhecer o pai. Do dia para a noite, ela se vê na famosa paisagem da Toscana, morando em uma casa localizada no mesmo terreno de um cemitério memorial de soldados americanos da Segunda Guerra Mundial, com um homem que nunca tinha ouvido falar. Apesar das belezas arquitetônicas, da história da cidade e das comidas maravilhosas, o que Lina mais quer é ir embora correndo dali. 

 8 - Perigosa Amizade, de Gisela Bacelar: Para fãs de Gossip Girl, o volume zero da elogiada série independente Perigosa amizade, que conquistou mais de 40 mil seguidores no Instagram Roberta é uma adolescente intensa. Ela é decidida, prática e sabe o que quer.

9 - Príncipe Partido, de Erin Watt: Reed vê seu mundo desmoronar e toda a esperança de viver um romance com Ella desaparece. A garota dos sonhos de Reed não quer mais saber dele, porque sabe que se ficarem juntos, isso vai destruí-los. Ella pode estar certa.


10 -Sempre Vivemos no Castelo, de Shirley Jackson: Merricat Blackwood vive com a irmã Constance e o tio Julian. Há algum tempo existiam sete membros na família Blackwood, até que uma dose fatal de arsênico colocada no pote de açúcar matou quase todos. Acusada e posteriormente inocentada pelas mortes, Constance volta para a casa da família, onde Merricat a protege da hostilidade dos habitantes da cidade.

quarta-feira, 29 de março de 2017

O triunfo e a tragédia de Israel numa obra essencial


Com definir "Minha Terra Prometida - O Triunfo e a Tragédia de Israel" em uma só palavra?
Dizer que é fantástico é muito pouco, porque os livros que nos marcam sempre nos são fantásticos.
Talvez melhor seria defini-lo como um divisor de águas da vasta literatura que aborda o sionismo, o Estado de Israel e o conflito israelense-palestino. Já li livros bastantes sobre esses temas. Mas nenhum como "Minha Terra Prometida", que passa a ter lugar cativo e de destaque nas estantes do Espaço Aberto (veja na imagem).
Nas páginas que escreveu, o jornalista Ari Shavit, ele mesmo um israelense - ou sabra, como se diz dos que nascem em Israel -, faz um registro triunfal à aventura única que terá sido a criação de um Estado como Israel e, ao mesmo tempo, expõe uma condenação - duríssima, apaixonada e implacável - da desconexão entre os sonhos que inspiraram os sionistas a buscar um lar para um povo historicamente renegado no curso dos tempos e a realidade que levou Israel a cometer atrocidades inacreditáveis, tangendo como gado imprestável milhares de palestinos que ocupavam e ainda ocupam aquelas por tempos imemoriais.
"Israel é a única nação do Ocidente que mantém outro povo sob ocupação. Por outro lado, é a única nação do Ocidente cuja existência está ameaçada. Intimidação e ocupação se tornaram os dois pilares de nossa condição", escreve Shavit.
Pacifista convicto, ele não se atém a lugares-comuns e nem usa de escapismos sobre as encruzilhadas - moral, política, geográfica e estratégica - em que o Estado judeu se encontra desde a sua fundação. E nem usa de meias palavras para minimizar o estarrecimento diante de violências institucionalizadas.
Sobre sua experiência quando serviu como carcereiro no Campo de Detenção do Litoral de Gaza, ele conta: "A uns oitenta metros do refeitório em que tento comer, há pessoas gritando. E gritam porque outras pessoas, trajadas com uniforme igual ao meu, as fazem gritar. Gritam porque o meu Estado judeu as faz gritar. De uma forma metódica, ordeira e absolutamente legal, minha amada Israel democrática as faz gritar".
Em outro trecho, diz Shavit: "Assim, o que realmente temos nesta terra é uma contínua aventura. Uma odisseia. O Estado judeu não se assemelha a nenhuma outra nação. O que esta nação tem a oferecer não é segurança, bem-estar ou paz de espírito. O que esta nação tem a oferecer é a intensidade da vida no limite. A descarga de adrenalina de viver perigosamente, viver voluptuosamente, viver ao extremo. Se um vulcão como o Vesúvio entrasse em erupção hoje à noite e acabasse com nossa Pompeia, é isto o que petrificaria: gente cheia de vida".
"Minha Terra Prometida" é uma grande reportagem. Que trata de gentes, de horrores, de triunfos e fracassos, de êxitos e tragédias, de conflitos, de medos no presente e hesitações sobre o futuro, de prosperidade econômica e de misérias.
"Minha Terra Prometida" é o Estado Israel por inteiro, desnudado inteiramente em sua curta, mas complexa história.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

A crueldade sufoca nossa humanidade. Somos homens?


Em Niterói (RJ), morreu na sexta-feira (22) Michelle Ferreira. Ela passou meses internada após ter sofrido espancamentos ao reagir a uma cantada.
Thaysa Vilas Boas, 22 anos, continua internada em estado gravíssimo em Umuarama (PR). Grávida de sete meses, ela levou um tiro na cabeça no dia 11 de julho. O bebê morreu três dias depois.
Em Saint-Etienne-du-Rouvray, na Normandia, o padre Jacques Hamel, 84 anos, foi degolado após dois homens armados com uma faca ao invadirem a paróquia em que trabalhava, nesta terça-feira (26).
Em Bagdá, capital do Iraque, mas de 120 pessoas morreram quando um caminhão-bomba explodiu perto de um local de grande concentração.
Na região central do Rio, Cristiane de Souza Andrade foi morta na frente da filha de sete anos com  duas facadas no pescoço, após dizer ao bandido que não tinha dinheiro.
Em Nice, mais de 80 pessoas foram atropeladas e mortas por um caminhão, em atentado ocorrido no dia 4 de julho.
Em Mosqueiro, distrito de Belém, o assessor parlamentar Fábio Wellington Pereira Pires foi executado durante assalto à sua casa de veraneio, na sexta-feira (22). Havia três famílias na residência - cerca de 10 pessoas, entre adultos e crianças. Quando estavam saindo, eles atiraram no dono da casa, que foi atingido na cabeça e morreu na hora.
Abram a internet. Leiam aleatoriamente. E fartem-se com atrocidades sem fim, com horrores que ceifam vidas individualmente ou coletivamente, em atentados terroristas ou não.
Abram a internet. Leiam aleatoriamente. Descubram ocorrências em Belém, no Brasil, na França, no mundo inteiro. Todo dia, o dia todo.
É isto um homem? - você deve se perguntar.
Quem faz isso é humano?
Leio tudo isso. Aleatoriamente.
Lembro-me de Primo Levi (ao lado), o escritor italiano que logrou escapar com vida do campo de concentração de Auschwitz, na Polônia.
Ele escreveu obras fantásticas - ora depoimentos, ora ensaios sobre os horrores da guerra.
Uma de suas obras, talvez a mais pungente, pulsante, densa, inquietante e trágica tem, justamente, o título de "É isto um homem?".
Levi narra atrocidades inacreditáveis que ele viveu, que ele viu, sentiu e testemunhou quando era um häftlinge em Auschwitz.
Primo Levi expõe a degradação do ser humano.
Revela os limites - não se sabe se mais baixos ou mais altos - a que pode chegar a bestialidade humana.
O livro é curto. O que o repórter leu está aí na imagem.
Quando cheguei à metade, comecei a perguntar-me: homens são capazes de fazer isso?
"Os personagens destas páginas", responde Primo Levi, "não são homens. A sua humanidade ficou sufocada. Ou eles mesmos a sufocaram, sob a ofensa padecida ou infligida a outros. Os SS maus e brutos, os Kapos (feitores, comandantes dos campos), os políticos, os criminosos, o 'proeminentes' grande e pequenos, até os Häftlinge indiscriminados e escravos, todos os degraus da hierarquia insensata determinada pelos alemães estão, paradoxalmente, juntos numa única íntima desolação."
Isso foi durante a II Guerra.
Voltemos ao agora.
Voltemos a Niterói, ao centro do Rio, a Bagdá, a Mosqueiro, a Belém, às francesas Saint-Etienne-du-Rouvray e Nice.
Voltemos a essas barbáries cotidianas.
Os personagens destas histórias com que nos deparamos todo dia, o dia todo parecem ter perdido a condição de humanos. Nossa humanidade parece estar cada vez mais sufocada. Assassinos cruéis nos coisificam. É possível que nós próprios nos vejamos como meros objetos da crueldade, como os häftlinge pareciam sentir-se diante dos kapos que os castigavam e os deixavam morrer em meio a vômitos, a fezes e ao desprezo, todos desfigurados, descarnados, escalpelados em sua honra.
É isto um homem? - perguntava Primo Levi naqueles anos 1940.
É isto um homem? perguntamos ainda agora, quase 80 anos depois.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Mitos e horrores. O maoísmo revelado numa obra-prima.

Ler “Mao - A história desconhecida” (Companhia das Letras, 816 páginas) não é apenas tomar contato com um dos personagens mais mitológicos e enigmáticos da história no Século XX, ainda que seja um dos mais conhecidos.
Ler essa obra magistral, talvez a mais completa já escrita nas últimas décadas sobre o líder chinês, é também conhecer aquilo que o subtítulo do livro indica: mergulhar em sua “histórica desconhecida” e conhecer os horrores, as coisas horrendas, os mitos, as mentiras, as invenções e ficções que se criaram em torno do maoísmo.
Foram 70 milhões de mortes. Repita-se: 70 milhões, o equivalente a pouco mais de um terço da população brasileira.
Foram 70 milhões de almas sacrificadas pela violência – brutal, cruel, selvagem – da tal Revolução Cultural, alçada à condição de instrumento de purificação ideológica e inspiradora de julgamentos públicos, de justiçamentos humilhantes, degradantes, feitos em praças públicas.
Foram 70 milhões de homens, mulheres e crianças mortos pela fome, pelo denuncismo frenético, por baixezas e vilanias as mais terríveis. E foram tão terríveis que ficamos nós, os leitores apresentados a essas realidades cruéis, sem saber ao certo como foi possível um regime como o maoísmo enganar, fora de suas fronteiras, tanta gente ao mesmo tempo.
E isso foi possível porque a China de Mao, distribuindo dinheiro a rodo para seduzir satélites não perfeitamente alinhados à Rússia de Stálin e desperdiçando energias humanas e mecânicas para atender à pretensão de seu timoneiro, de ser o maior e inconteste líder de todo o planeta, essa China, portanto, conseguiu transmitir a impressão de representava uma via alternativa de socialismo e seguia o idealismo e o espírito de aventura heróica que dominaram a Longa Marcha, prenúncio dos horrores que viriam a seguir, quando o regime nacionalista de Chiang Kai-shek foi suplantado pelo comunismo implantado por Mao.
Bobagem. Mito. Mentira. Puramente isso.

Abjeções e repulsas
Com uma narrativa objetiva, Jung Chang e seu marido, o historiador britânico Jon Halliday, estão longe de ser os observadores distantes, que se exibem com aquele ar blasé de apenas reportarem-se a fatos, indiferentes às suas repercussões e conseqüências sobre a vida das pessoas e o destino da humanidade. Não.
Eles deixam claro que também se enojam, que abjetam, que sentem repulsa aos fatos que colheram e fizeram questão de compartilhar com os leitores. Deixam claro que têm nojo ao extermínio de famílias, à imposição de que até grampos de cabelos das mulheres fossem requisitados para ajudar na construção da indústria metalúrgica chinesa. Expressam seu nojo ao confisco de alimentos que levou milhões (milhões, meus caros) de chineses à morte por inanição – literalmente.
Deixam claro suas simpatias por alguns poucos – pouquíssimos - integrantes do stablishment maoísta que ou se rebelaram contra o regime e tentaram derrubá-lo, como foi o caso do vice-presidente Lin Biao e do comandante do Exército, Liu Shiao-chi, ou então tiveram um pouco mais de habilidade política, mas não menos ousadia e coragem, para contrastar o poder único de Mao e levar o regime para direções menos selvagens, como foi o caso de Deng Xiao Ping.
Para escrever essa obra fundamental, Jung Chang e Jon Halliday entrevistaram centenas de pessoas, entre eles familiares e parentes de Mao, velhos amigos e colegas, secretários, intérpretes, guarda-costas, criados e médicos, além de testemunhas-chave de eventos históricos.
Os fatos apresentados no livro também se sustentam com base em documentos consultados em arquivos em vários países, entre eles Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Itália, Japão e Rússia.
 “Mao - A história desconhecida” é fundamental para que se compreenda a China. Inclusive a de hoje.
O Espaço Aberto recomenda.

sexta-feira, 14 de março de 2014

A máquina estatal de moer reputações

Comprem.
Comprem logo, meus caros.
Comprem e leiam.
Lendo, contenham-se para não se assustar.
Porque é assustador o que se lê em Assassinato de Reputações - Um Crime de Estado (Editora Topbooks, 560 páginas).
É assustador ver o aparato estatal servir de instrumento para saciar insaciáveis pretensões de moer a honra de personagens escolhidos a dedos.
É assustador ler o que não é propriamente um relato, mas um depoimento, um testemunho de quem, tendo feito parte das engrenagens do poder, acabou tendo a sua reputação moída, por força não apenas de circunstâncias, mas em decorrência de deliberados posicionamentos colidentes com o sentido com que se movimentavam os trituradores do Planalto.
O depoimento, o testemunho é de Romeu Tuma Junior, que conta histórias de assustar.
Com uma longa trajetória na polícia e com passagem pela política, ele foi parar na Secretaria Nacional de Justiça.
Ali, na condição de policial de carreira, de político e de gestor ocupando episodicamente uma função de relevância no coração do poder do governo Lula, ele viu - e conta em detalhes - como os dossiês são formados.
Relata, fartando-se de expor fatos, o modus operandi de uma polícia que frequentemente se subordinou aos interesses não do Estado, mas de um governo, de um partido e de poucas pessoas, todas elas expressando as preferências e deliberação da cúpula.
Tuma Junior fala de Lula, o Barba, codinome pelo qual era conhecido o então sindicalista Lula, depois presidente Luís Inácio Lula da Silva, informante e camarada de Romeu Tuma, o falecido senador que antes de despontar na política fez-se nacionalmente conhecido como o xerife da Polícia Federal.
"Na ditadura, Lula foi um dos mais importantes informantes do Dops capitaneado pelo meu pai", diz Tuma Junior sem rebuços. "Lula combinava as greves com empresários e avisava o Dops", reforça. "Alguém há de perguntar: Lula recebia dinheiro por essa colaboração com meu pai? Não. Contudo, até as crianças sabem que informação é poder, e ele era o mestre no escambo de informação em troca de poder, sob os militares. Mas regalias e deferências que dinheiro nenhum compra, isso nunca lhe faltou", revela o autor.
Tem muito mais.
Tuma Júnior diz que caiu em desgraça e acabou sendo fisgado pela Operação Trovão e suas ilegalidades porque, entre coisas, arrostou as tentativas de tornar a SNJ parte da engrenagem que, conforme ilustrou em várias passagens do livro, tinha como objeto da investigação não o crime, mas o criminoso.
Mesmo sem ter sido indiciado e ainda que não tenham sido coletadas provas capazes de incriminá-lo ou enredá-lo por suposto envolvimento com aquilo a que chamaram de máfia chinesa do contrabando, Tuma Junior viu-se alcançado pelos tentáculos da máquina de moer reputações porque deu seguimento a providências que, se concluídas, poderiam esclarecer se uma conta numerada no exterior pertencia ao ex-ministro José Dirceu e, em consequência, seria a conta-mãe do mensalão.
Também atribui a perseguição e as perfídias de que foi alvo a uma deliberação indeclinável sua de atuar para que fossem bloqueados, no exterior, recursos do Opportunity, banco do empresário Daniel Dantas, que logo depois, "generosamente, doou ou foi instado a doar, nas eleições daquele ano, um milhão e meio de reais para o diretório nacional do PT".
"Não era e não sou ladrão: nunca fui indiciado, denunciado ou, obviamente, condenado. Meu nome e tradição, herdados do meu pai, seguem maciçamente incólumes", arremata Tuma Junior.
Comprem.
Comprem e leiam.
E contenham-se para não se assustar.
Ah, sim.
Com esse tsunami investigatório que toma conta da Câmara dos Deputados, após o deflagrar da crise entre PMDB-PT que deve levar dez ministros do governo ao Legislativo para apresentar explicações sobre vários temas, o delegado Romeu Tuma Junior também teve aprovado um convite para que conte um pouco do muito que sabe.
E mesmo se contar um pouquinho do que sabe, estará espalhando no augusto recinto do Congresso nitroglicerina pura.
Das mais puras.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Um esforço gigante para preservar a memória do futebol


Paraense é fissurado por futebol. É fato. Se não o fosse, Remo e Paysandu talvez não passassem de meras lembranças, diante das performances vexatórias nos últimos anos.
Fissurado por futebol, o paraense ainda não se deu conta de sua enorme relevância cultural e da quase nenhuma preocupação em preservar sua memória histórica. É outro fato.
O jornalista Ferreira da Costa, que se encaminha para os 50 anos de atuação na área esportiva - sempre e somente na área esportiva - tem revelado, há quase três décadas, uma aguçada capacidade de perceber que o futebol, mais do que despertar paixões, é uma fonte inesgotável de histórias que ajudam a identificar o paraense como apaixonado por seus clubes e pelo futebol de um modo geral.
Ferreira impôs o trabalho - quase uma missão - de sistematizar, de forma tenaz, persistente, paciente e metódica, histórias e fatos relacionados ao futebol paraense que, de outra forma, ficariam sujeitos à memória oral, que é preciosa, mas acaba se esvaindo pelo ralo dos tempos e das vidas que, natural e inexoravelmente, vão se consumindo.
O livro Gigantes do Futebol Paraense, já anunciado como o primeiro de uma série, é um repositório de personagens que estão na memória de qualquer pessoa que acompanha futebol no Pará e precisavam ter seus nomes incluídos em galerias que se apresentam como o canal para imortalizar os talentos que os tornaram eternos nas lembranças do torcedor.
Aqui vão contadas as história de um China, maior craque da Tuna; de Quarentinha, maior craque do Papão; de Alcino, maior ídolo do Clube do Remo, com a relação de seus gols sendo desvendada; e de Marituba, maior craque do União Esportiva, que jogou por um quarto de século", diz Ferreira, na apresentação do livro, referindo-se especialmente aos quatro jogadores caricaturados na capa por J. Bosco.
No livro, as novas gerações poderão conhecer ainda as histórias de Cuca - o belterrense que fez história no São Francisco de Santarém e foi um dos maiores laterais do Remo; de Aderson, o volante que trocou o futebol pela medicina e foi parar no Flamengo; de Guimarães, o Cerebral, um dos maiores que já passaram pelo Paysandu; de Jango, o Cegonha, autor de uma façanha até hoje não superada no futebol paraense; de João Tavares - o "zagueiro que não tinha medo de cara feia -, que o poster viu jogar pela primeira vez na década de 70, no estádio Elinaldo Barbosa, em Santarém, juntamente com Bené, o Tanque da Curuzu, também biografado do livro; e muitos, muitos outros.
Ninguém se agaste porque outros trocentos gigantes estão fora da obra. Ferreira, na mesma apresentação, antecipa-se aos questionamentos que por certo serão feitos, de que "Beltrano não jogou nada e está no livro".
"Sustento essas indicações e escolha do cem primeiros nomes pelas observações que fiz durante mais de 40 anos de pesquisas, que me possibilitaram lançar até aqui 16 livros, que resgaram a história do futebol do Pará", diz o jornalista.
Gigantes do Futebol Paraense é obra que não pode faltar em sua estante, por sua relevância história e por revelar-se como um esforço gigante de preservá-la.
O livro começa a chegar às bancas de revista de Belém e de outras cidades do Estado, ao preço de R$ 25,00.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Laurentino Gomes fala sobre "1889", seu novo livro


O jornalista Laurentino Gomes lançou seu novo livro, 1889, que fecha uma trilogia iniciada com 1808, sobre a fuga da corte portuguesa de Dom João para Rio de Janeiro, e continuada com 1822, sobre a Independência do Brasil.
Na última segunda-feira, a Livraria Cultura, onde ele lançou o livro, promoveu um hangout (chat com transmissão ao vivo pelo Google) em que Laurentino responder a perguntas e oferece informações interessantes sobre o novo livro e seu ofício de escritor.
Confirma o vídeo.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Frida por inteiro. Com dores e amores.

Frida de todos as cores.
Frida de todas as dores.
Frida de todos os amores.
Frida que enfrentou horrores.
Que viveu terrores.
Que mesmo assim não se quedou e nem emudeceu.
E nem deixou de amar.
Apesar das dores.
E apesar dos seus amores.
Frida usou suas dores para expressar em cores um mundo que pode ter sido até só seu, mas também expressou um México orgulhoso de suas tradições, de seus mitos, de suas crenças, de sua cultura, de sua gente.
Frida - A Biografia (Editora Globo, 624 páginas) não é, de fato, uma biografia.
É A Biografia.
Hayden Herrera, a autora, não disseca apenas a vida da pintora mexicana Frida Khalo e sua relação intensa, tumultuada, extremada, extática (com x mesmo), catártica com seu marido Diego Rivera, o ícone do muralismo.
O texto se estrutura com comentários estéticos que, muito embora atendam ao rigor que se espera de quem se propõe a oferecer juízos técnicos sobre obras de arte, situam perfeitamente o leitor sobre a vinculação - íntima, uterina, carnal - entre as telas de Frida Khalo e os momentos terrivelmente dramáticos que ela enfrentou na vida.
Frida sofreu um acidente num fim de tarde, em 17 de setembro de 1925. O ônibus - de madeira - em que ela ia colidiu com um bonde no trajeto entre a Cidade do México e a cidadezinha de Couyoacán, onde a pintora nasceu e então residia.

VEJA AQUI MAIS DICAS DE LIVROS NO ESPAÇO ABERTO

"Frida teve a coluna quebrada em três lugares na região lombar. Quebrou a clavícula, fraturou a terceira e a quarta vértebras, teve onze fraturas no pé direito (o atrofiado), que foi esmagado; sofreu luxação do cotovelo esquerdo; a pélvis se quebrou em três lugares. A barra de aço [do ônibus] tinha literalmente entrado pelo quadril esquerdo e saído pela vagina, rasgando o lábio esquerdo. 'Perdi minha virgindade'. ela disse", conta o livro.
A partir daí, Frida submeteu-se a pelo menos 15 cirurgias, para corrigir ou amenizar os efeitos desse acidente.
Se somados, os meses em que passou de cama ascendem a anos. Foi numa cama, aliás, que a pintora foi a uma de suas últimas exposições na Cidade do México, pouco antes de morrer.
Era na cama que ela assustava amigos que a visitavam. Eles iam à sua casa ou as hospitais para instilar-lhe otimismo, mas acabam não tendo forças para isso, quando se deparavam com os padecimentos que a pintora enfrentava. Frida é que, ao contrário, transmitia otimismo, bom humor e fortaleza - sempre irreverente, sempre sem medo de se mostrar por inteira, muito embora estropiada pelas dores.
Frida - A Biografia é um passeio por uma vida que revelou, nas suas tragédias, os caminhos que conduzem à glorificação do talento e à persistência de viver.
Apesar das dores.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Ditaduras horrorosas. De esquerda e de direita.

Ditaduras são horríveis.
Horrorosas.
Repugnantes.
Mas as preferências ideológicas, vocês sabem, são seletivas.
E selecionaram como boas - ou menos pecaminosas, ou menos inofensivas, ou mais edificantes - as ditaduras de esquerda.
Ou de direita.
Ninguém se iluda com essas preferências, com essa seletividade odiosa. Sob pena de escolhermos a letalidade de alguns crimes - como os que massacram as liberdades - de acordo com quem os pratica e com a simpatia ou antipatia que criminosos despertam, e não conforme os valores imanentes a condutas reprováveis, inclusive as condutas políticas.
"Não há nada que se pareça mais com uma ditadura de direita do que uma ditadura de esquerda, não há nada mais parecido com o fascismo do que o comunismo, nada mais parecido com o hitlerismo do que o stalinismo. Para o cidadão comum, as ditaduras são todas iguais. Para aquele que aguarda o interrogatório em uma célula da segurança do Estado, dá na mesma se seu torturador é de esquerda ou de direita, se é religioso ou ateu, se acredita no comunismo ou na segurança nacional, se leva no cinto uma Kalashnikov ou uma Luger, se foi formado na antiga Bucareste ou em uma sala de aula da antiga Escola das Américas do Panamá", diz um dos trechos de Nossos Anos Verde-Oliva, de Roberto Ampuero.
O autor não fala com base com base em teorias, em cartilhas, em manuais.
Num excelente romance autobiográfico, ele relata experiências que enfrentou em duas ditaduras. Uma de direita, a de Pinochet. A outra de esquerda, a de Fidel Castro, em Cuba.
Nascido em Valparaiso, no Chile, em 1953, Ampuero, ainda jovem, encheu-se de esperanças e encantos com o governo socialista da Salvador Allende.
Até que veio o golpe de Pinochet, que instaurou uma ditadura das mais sangrentas, mais cruéis da América Latina.
Ampuero deu no pé. Exilou-se na Alemanha Oriental.
Depois, radicou-se em Cuba.
Pois foi em Cuba que suas esperanças e encantos se esvaneceram.
Esvaneceram-se após ele conhecer um ambiente em que as liberdades foram pisoteadas, as individualidades extirpadas, as delações alçadas à condição de passaporte para privilégios odiosos, o racionamento de alimentos e de bens funcionando como o espelho de uma economia paralisada.
Tudo em nome da Revolução.
Tudo em nome do comandante-em-chefe.
Enquanto isso, conta Ampuero, uma casta, a nomenklatura cubana refestelava-se com farturas, com benesses, vivendo em mansões, comendo do bom e do melhor, manipulando seus próprios poderes não em favor dos mais carentes, do povo - em nome de quem a Revolução foi feita -, mas em benefício pessoal.
Nossos Anos Verde-Oliva é para ser lido sem prevenções, sem preconceitos.
É para ser lido com os olhos e com o espírito de quem só precisa cultivar o humanismo como um valor que está acima de tudo.
Inclusive da ideologias e das ditaduras odiosas.
De esquerda.
Ou de direita.