sábado, 1 de abril de 2023

"Acorda, filho da p... Isso aqui não é Marapanim". Uma aventura com Palmério Dória nos ermos esquecidos de Canapi.

Palmério: morte num 31 de março, a data-referência da ditadura que ele sempre combageu 

A crônica abaixo, remetida ao blog pelo jornalista Paulo Silber, está publicada originalmente no livro Papai, você não tem amigos normais?
Narra uma aventura dele e Palmério, que, aliás, assina o prefácio do livro.
Palmério é o Palmério Dória, o jornalista paraense de Santarém que morreu neste 31 de março, em São Paulo, aos 74 anos.
Para ler a crônica que Silber escreveu após saber da morte do amigo, clique aqui.

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A FERRO E FOGO

Uma das pautas mais deliciosas que recebi foi justamente a que furou.
Fui mandado pela revista Interview, juntamente com o mestre Palmério Dória, para a pequena e nada pacata Canapi, no cu do sertão de Alagoas.
Nossa missão: apurar e revelar um suposto esquema de corrupção, comandado por Rosane Collor, na época mulher do então presidente da República, Fernando Collor de Mello. O embrião do esquema eram as unidades da legião Brasileira de Assistência no interior alagoano, onde mandava e desmandava a primeira-dama mais cafona da história do Brasil.
Depois de 6 horas de viagem por uma estrada com cheiro de rapadura, cruzando imensas plantações de cana, passamos um dia inteiro naquela cidade de poucas ruas e muita desconfiança, experimentando uma sucessão de frustrações e fracassos.
Ninguém nos recebeu. Ninguém falou conosco. Ninguém quis dar entrevista. Ninguém nos deu a menor importância. E não foi por falta de tentativa. A pauta furou, simplesmente. Acontece.
Aborrecido, mas experiente, Palmério se recolheu ao hotel com esperanças no dia seguinte. Inquieto, como convinha a alguém da minha idade (na época, uns 25), dei um rolezinho pela cidade, em busca de outras emoções, se é que você me entende.
Fui abordado na madrugada, no balcão de um bar de última frequentado por gente de penúltima categoria, por um estranho sujeito com chapéu de abas largas e bigode de mexicano em comédia pastelão.
Entre um conhaque e outro, o cara me contou todos os podres de Rosane Collor. Eram tantos, tão graves e tamanhos, que os desvios de dinheiro da LBA, que motivaram nossa pauta, comparados a essas revelações, davam até para beatificá-la.
Laércio Malta, o inconfidente, era irmão de Rosane, a quem não suportava. Ele era meu anjo revelador, eu o anjo ouvidor dele.
Banhado pelo meu primeiro São João da Barra, com os cotovelos apoiados no balcão, tentando decorar as palavras chaves do relato, já que estava desarmado de gravador, registrei na memória, na época eficiente, cada detalhe derramado pelo irmão cheio de mágoas. Histórias de falcatruas, traições e assassinatos. 
Passei o resto da noite eufórico. Ainda tentei catar uma pequena nativa que me sossegasse entre as coxas, mas sem sucesso. Voltei ao Hotel Sol Nascente – o Hilton de Canapi – e me deparei com as portas fechadas e ninguém disposto a abri-las. Resignado, enfiei-me no Gol alugado e adormeci. Deus gostava de mim e me enviara a solução num copo de São João da Barra. Reclamar do quê?
Acordei com o barulho de murros que ameaçavam varar o capô do carro. Era o Palmério, muito puto. Ele acordou no meio da noite, notou que eu não voltara ao hotel e ficou preocupado. Chamou a polícia, o prefeito, o presidente da Câmara. Se em Canapi houvesse SWAT, ele convocaria.
Fui procurado em cada uma das cinco ruas principais e das doze transversais na cidade que pariu Rosane Collor. Em cada esquina, bar, no único puteiro, o pelotão de emergência liderado por Palmério, acreditando que e fora morto ou abduzido, refez meu caminho até achar-me no sono profundo dos que adormecem sem culpa – mesmo sendo culpados.
Enquanto esmurrava o carro, Palmério dizia:
- Acorda, filho da puta! Eu te odeio!
Acordei assustado. Saí do carro pronto pra morrer fatiado.
- Que é isso, bicho?
- Onde você se meteu, cara? Tá querendo morrer de graça? Isso aqui não é Marapanim, porra!
Esperei um lapso de tempo, um momento em que ele puxaria a respiração para me escrotear por mais 300 horas, e nesse frame lhe contei. O mais rapidamente possível, minha porção de sorte. Era preciso ser breve e definitivo como uma boa manchete:
- Eu tenho a história...
Durou apenas um segundo e meio, no máximo dois segundos, a volta de Palmério ao que ele realmente é: o amigo generoso, carinhoso e inusitado de sempre. A frase “Eu tenho a história...” resolveu, com recorde de tempo-resposta, aquele inesperado princípio de incêndio. Num sopro. De Deus, com certeza.
Palmério sorriu como um bebê. Permitiu que os olhinhos azuis apertados faiscassem de amor e amizade. Dispensou a legião convocada para caçar-me (que ao lado do carro só esperava a ordem: “Cortem-lhe a cabeça”). E finalmente me abraçou, como nunca tinha me abraçado.
- Paulo Silber, eu te amo!
Corremos como se fôssemos uma dupla formada pelo Papa Léguas e Coelho Ricochete. Vazamos de Canapi para Maceió, inebriados pelo vapor de rapadura suspenso no caminho, rindo de qualquer coisa, como riem os maconheiros.
Tínhamos a história.
Em dois dias, checamos tudo e escrevemos a matéria bombástica no Pajuçara Hotel, em Maceió. Uma semana depois, com a primorosa edição de Mário Mendes, a Interview estampava na capa – quase um ano antes de Fernando Collor e sua gente serem defenestrados de Brasília: “Malta, uma família forjada a ferro e fogo”.

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