terça-feira, 17 de abril de 2012

O aborto e os números

Do leitor Artur Dias, sobre a postagem Que venha o debate!:

É mentira que se façam 200 mil abortos por ano no Brasil.

A resposta do jornalista Paulo Silber:

Infelizmente, Artur Dias, não é mentira. São números oficiais, de instituições acreditadas. Se não são precisos, não é por adição, mas falta. O problema é ainda pior, considerando que as estimativas não incluem os abortos cometidos em pretensas clínicas que se assemelham a açougues, muito fáceis de localizar em qualquer cidade, inclusive Belém.
No Planeta, estima-se que 46 milhões de gravidezes são encerradas por aborto. Por ano. Quase a metade (44%), nessas “clínicas” clandestinas. Já que você me julga mentiroso, consulte a Organização Mundial de Saúde. A conta é da OMS, e quem sabe perceba que peneiras não são feitas para tapar o Sol.
Se a OMS também lhe parecer mentirosa, veja os dados reunidos pelo Instituto Alan Guttmacher. Indicam que a América Latina e o Caribe são responsáveis por 4 milhões de abortos clandestinos por ano.
Sem considerar um detalhe importante, como vem advertindo o Ministério da Saúde, em seguidas Notas Técnicas, desde 2004: “Os casos de mortes por abortamento podem ter sido maiores, já que muitas vezes as complicações decorrentes do aborto são registradas como hemorragias e infecções, o que pode camuflar as estatísticas do abortamento”.
Se ainda assim você tiver dúvidas, consulte o documento “Aborto e Saúde Pública: 20 anos de Pesquisas no Brasil”, relatório produzido pela Universidade de Brasília (UnB) e pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), considerado o mais confiável trabalho já editado sobre o assunto no País.
Talvez você se impressione ao saber que, somente em 2005, mais de 1 milhão de gestações foram interrompidas por aborto e cerca de 200 mil mulheres deram entrada em hospitais conveniados com o Sistema Único de Saúde, por conta de tentativas de aborto.
Se mesmo assim você preferir desconfiar em vez de refletir, seja feliz.

9 comentários:

Victor Picanço disse...

Tenho que concordar com o leitor Artur Dias. Esse número é absolutamente fantasioso.

O Reinaldo Azevedo demonstrou logicamente porque este número é equivocado: http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/a-grande-mentira-sobre-as-200-mil-mulheres-que-morreriam-em-decorrencia-do-aborto-pior-o-governo-brasileiro-ajuda-a-espalhar-a-falacia/

Em suma, os dados mostram que: em 2010, segundo o IBGE, morreram cerca de 440 mil mulheres no Brasil. Tirando-se as mortes decorrentes de violência, doenças do coração, infecções, câncer etc., que são as principais causas (todos dados do IBGE, ao contrário desse chute de 200 mil mortes), chega-se ao número de 185 mil mulheres mortas (já abaixo do número de 200 mil). Ou seja, mesmo que se considere que todas as outras 185 mil mortes foram decorrentes de aborto, nem assim se chega ao número de 200 mil mortes.

De outro modo, pode-se provar que esse número é falso a partir da análise do número de gestações no Brasil."Nascem, por ano, no país, mais ou menos 3 milhões de crianças. Acompanhem. Estima-se que pelo menos 25% das concepções resultem em abortos espontâneos. Não houvesse, pois, um só provocado, aqueles 3 milhões de bebês seriam apenas 75% do total original de concepções — 4 milhões. Segundo os abortistas, pois, o número de abortos provocados seria igual ao de abortos espontâneos. Mais: das cinco milhões de mulheres que engravidariam por ano, nada menos de 20% decidiriam interromper a gravidez. Nem na Roma pré-cristã ou na China pós-Mao…"

Anônimo disse...

É mentira sim. É só comparar com os dados oficiais do IBGE sobre o número de óbitos, coletados no Censo 2010. O Reinaldo Azevedo analisou tudo e simplesmente destroi essa idéia: http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/a-grande-mentira-sobre-as-200-mil-mulheres-que-morreriam-em-decorrencia-do-aborto-pior-o-governo-brasileiro-ajuda-a-espalhar-a-falacia/

A primeira vez que eu escutei essa história de 200 mil abortos foi em 2002. Estranho que, dez anos depois, o número continua exatamente o mesmo.

Anônimo disse...

Aos Paulos, beleza pelas postagens.
... O aborto para menina rica pode. Mas para menina pobre é crime. Tá na hora de parar com essas hipocrisias. Está na hora do Congresso Nacional fazer uma lei que busque parar com essa sangria. O aborto, quase sempre, é uma decisão da mulher. Mas esta mulher é primeiramente abandonada pelo "seu" homem, que "pula fora", e em seguida pela sua própria família (quando a tem). Esta é a dura realidade do desamparo, principalmente da mulher jovem.

Artur Dias disse...

É uma questão de atenção e boa vontade: como não foi você quem produziu esses números, não pode tomar minha afirmação como uma acusação direta; mas tão somente entender que tais números são uma mentira vendida por grupos políticos, cuja matriz ideológica tem como pressuposto a desqualificação da vida como um valor em si. Foi por isso que, para complementá-la, eu disse depois que era uma “mentira, aliás, cultivada com o adubo daquela outra, segundo a qual ‘o homem é um ser historicamente determinado’”. Ou seja, na matriz marxista, não existiriam valores absolutos, tais como a Vida, ou a Justiça; estes seriam produtos de sua época. Esse relativismo cai como uma luva para os intelectuais modernosos que acharam graça quando mais de mil inocentes morreram nos atentados de 11 de setembro de 2001, por exemplo. A culpa não seria dos radicais islâmicos, mas dos Estados Unidos, ainda que sendo a maior democracia do planeta, mas também a potência capitalista a ser destruída.
Outra frente de ataque aos valores é no plano individual: Se a vida não tem valor em si, é permitido livrar-se de um ser humano em formação. Dada a sólida barreira moral, felizmente erigida pela sociedade humana com valiosa contribuição das religiões, os abortistas procuram desqualificar a condição do feto humano, já que sua linha de raciocínio obviamente leva à justificação da eugenia, da eliminação de todos os potenciais “estorvos”: velhos, deficientes e -por que não? Inimigos. Assim, eles recorrem ao “argumento técnico”- e aqui chego ao ponto de nossa discussão- inflacionando os números e criando demandas irreais. O médico americano Bernard N. Nathanson, ex-fundador da Associação Nacional para a Revogação das Leis de Aborto, tendo abandonado esse grupo, contou que eles falsificavam estatísticas para chamar a atenção, e que também atacavam a Igreja Católica, como forma de conquistar apoio entre os mais “progressistas”.
Ainda que agora você desfaça a sua afirmação anterior, segundo a qual 200 mil mulheres morriam abortando no Brasil, o fato é que pelos números do IBGE, de agosto de 2009 a julho de 2010, 42,8% dos óbitos no país foram de mulheres, num total de 443.166; excluindo dessa conta as mortes por doenças circulatórias, câncer, acidentes de trânsito, doenças respiratórias, infecciosas, parasitárias e outras mais, sobram 185.999, bem abaixo dos 200 mil. Distribuindo essa conta por idade das falecidas, ainda com dados do IBGE, as idosas mortas foram 194.549, e as meninas mortas com menos de um ano, 15.067, sobrando 233.550. O alegado número de 200 mil mortes de mulheres por aborto então não teria como se encaixar nessa sobra, pois uma epidemia assim não passaria despercebida. Da mesma forma, estima-se que nasçam por ano no Brasil 3 milhões de crianças,correspondentes a 75% das gestações. 25% terminam em abortos espontâneos. Quer dizer, então seriam necessários 5 milhões de gestações para que fossem reais os números dos abortistas, e mais, que 20% das mulheres decidissem interromper a gravidez.
Essa discussão nada tem de pessoal. Remete apenas ao necessário cuidado em preservar a vida humana, derrubando as trapaças do pensamento totalitário, escondido sob a máscara sorridente do “progressismo”.

Fátima Duarte Gonçalves disse...

É Paulo Silber, é preciso refletir.
O aborto ilegal existe e muita gente lucra com isso. Não dá para tapar o sol com a peneira. O problema é de saúde pública e não se trata de ser a favor. O aborto com certeza deve deixar feridas emocionais. O ideal era que se evitasse chegar a tanto. O problema precisa ser debatido.

Poster disse...

O jornalista Paulo Silberto mandou o comentário abaixo:
"O debate está aberto. Isso me deixa contente.
Mas é lamentável que a reflexão, aqui, tenha tomado o rumo de uma fatoração de números.
Os números do IBGE não são mais valiosos do que os da ONU ou os da pesquisa precisa da USP. Quem tenta desacreditá-los cabelo em ovo. São diferentes, porque, como se sabe, a não ser que não se queira saber, o IBGE não trata deste assunto com estimativas, mas com números absolutos, fruto de situações mensuradas. Misturar alhos com bugalhos também não leva o debate adiante - apenas é a evidente prova do mal-estar que o assunto provoca. Como bem di\ a Fátima no seu comentário, a questão não é ser contra ou a favor, pelo prisma moral ou dogmático. A questão é encarar o problema, debatê-lo sem falácias e buscar soluções. Negar que o problema existe tentando desqualificar instituições acreditadas é quase uma leviandade. Quase uma burrice, para não dizer cara-de-pau. Em tempo: não desfiz nenhum dos argumentos que usei. Eu os expus e fundamentei, acredite você ou não, meu caro Artur. Os textos estão aí para você reler, caso não tenha visto direito. Se quiser, eu desenho. Desdenhar do problema, pela negação, isso sim é uma agressão à vida. Ou uma tola pretensão dos que se julgam tão donos da verdade, que se coçam diante dos fatos. São como eunucos, que têm vontade de ser garanhão. Isso não cola. O verdadeiro debate sobre o assunto é encarar o problema do aborto como um caso de saúde pública e buscar soluções para isso."

Artur Dias disse...

Olhem só o recurso para parecer aberto e na realidade só admitir que possam falar os que lhe derem razão: Paulo Silber, sem me conhecer, me chama de burro e de cínico, além de, bem à moda da geral de estádio de futebol, questionar a minha "macheza", como diria o Menino Maluquinho. Pois bem, se o debate está aberto com um debatedor usando um tacape numa mão, e o órgão reprodutor na outra, então já podemos voltar à era pré-histórica, cancelando debates, diplomas de comunicação etc. Mas essa histeria não vai provar que é verdade a suposta morte de 200 mil mulheres por aborto no país, por ano, quando todas as evidências indicam ser essa uma causa mortis bem inferior, estatisticamente, a doenças circulatórias, câncer, acidentes de trânsito, doenças respiratórias, infecciosas, parasitárias e outras mais. Deve ser porque a Igreja Católica, numa conspiração insidiosa, hipnotizou os pesquisadores do IBGE, sei lá, fez uma lavagem cerebral neles, talvez.
A verdade é que vivemos uma época em que militâncias raivosas procuram espalhar algum tipo de catastrofismo, seja ele ambiental, étnico, sexual ou qualquer outro, para impor à sociedade sua percepção particular e minoritária ao resto da sociedade. Curiosamente, beneficiados pelo avanço da democracia, essas minorias buscam minar o próprio sistema que os trouxe à arena política. Contrariadas, expõem sua verdadeira vocação para o espancamento dos contrários.

Poster disse...

Comentário mandado pelo jornalista Paulo Silber:

"Artur,
Agradeço mas dispenso sua admiração pelos meus genitais, trazidos para cá sem minha permissão. Você perde a oportunidade de refletir, porque é mais afeito ao atalho da intransigência, e bate na mesma tecla pela falta de argumentos. Eu lhe indiquei quatro fontes para avaliar melhor o assunto antes de reproduzir com pouca verve o discurso dos outros. E até mandaria a você a principal delas, o mais confiável relatório de pesquisa produzido no Brasil sobre o tema, se não tivesse certeza de que o documento seria jogado numa fogueira, como faziam no passado os seus precursores, os intolerantes que queimavam livros por temer o conhecimento. Então, eu o deixo sossegado no estranho conforto da intolerância e mantenho os genitais devidamente protegidos por aqui mesmo, antes que algum aventureiro lance mão. Como disse antes: se é esa a sua escolha, seja feliz com ela."

Artur Dias disse...

É realmente lamentável que alguém seja capaz de querer encerrar um debate através de baixezas, tais como as que já se prenunciavam desde a primeira réplica de Paulo Silber. Os debatedores, em sua concepção, são divididos em "eunucos" e em "garanhões". Desta forma, Silber usa como critério para medir a inteligência a quantidade de fêmeas que se fertiliza por dia. Então os grandes doutores estão nas fazendas de inseminação artificial- e não são os veterinários, mas os touros e cavalos. Uma contradição evidente: repetindo uma mentira, supostamente em nome dos "direitos da mulher", e incapaz de sustentá-la (a escola de Goebbels chegou aqui!) Silber delira agora com o próprio machismo. Faniquito, sapateado, baba no canto da boca, nada disso vai esconder o fato de que é uma mentira suja e assassina, totalitária, a história das tais duzentas mil mortes anuais de mulheres por aborto, no Brasil. Sequer o Ministro da Saúde admite tais números. A saúde pública tem questões prementes que não recebem a mínima atenção dessa militância raivosa. O pior é saber que "pesquisadores" usam verba oficial para dar ares acadêmicos às suas ideologias, ajudando a disseminar mentiras em benefício de grupelhos políticos. Tempo ruins, estes.