terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Maria Gadú - Tudo Diferente

“Políticos não dão a mínima para a opinião pública”


Por Jacqueline Patrocinio, do Comunique-se
A eleição dos peemedebistas Renan Calheiros (AL) e Henrique Alves (RN) para presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados, respectivamente, é manchete das editorias de política em todo o país. Para a colunista e repórter de política da CBN, Roseann Kennedy, a imprensa cumpriu seu papel de expor os fatos.
A jornalista, no entanto, lamenta o fato de o trabalho da mídia não ter tido reflexo nas eleições realizadas nos últimos dias pelo Congresso. “Infelizmente, não teve ressonância alguma durante as votações, porque os políticos não estão dando a mínima para a opinião pública. Ficou claro que eles levaram em consideração seus próprios interesses", diz Roseann.

Durante o perído pré-eleitoral, matérias sobre as suspeitas de irregularidades cometidas pela dupla foram publicadas em veículos de comunicação: Calheiros é alvo de denúncias da Procuradoria Geral da República por peculato e falsidade ideológica; Alves é investigada pelo Ministério Público Federal por repasses classificados como improbidade administrativa.

“Os jornalistas fizeram uma boa cobertura, sim. Percebi a preocupação de mostrar que os dois candidatos eram suspeitos de irregularidade e, na medida do possível, informar sobre o andamento dessas ações no judiciário para envolver os cidadãos nessa questão”, declara a comentarista que há anos cobre os bastidores da política diretamente de Brasília.
roseann
Roseann Kennedy acompanhou as eleições de Renan Calheiros e Henrique Alves (Imagem: Arquivo Pessoal)

Charge - Sinfrônio


Imaginem na Copa

Imagine na Copa.
É o que todos dizemos quando nos deparamos com o caos nos aeroportos, com a bagunça nos estádios, com a violência campeando nas ruas, com a tal mobilidade urbana imobilizando milhares, milhões de pessoas no trânsito que não anda, com as ruas entulhadas de carros.
Imagine na Copa.
É o que diz a propaganda oficial, veiculada à farta por aí, mostrando que tudo o que nós imaginamos não passaria de secação de brasileiros que estariam torcendo para tudo dar errado na Copa.
Pois é.
Vejam aí o Mineirão.
O primeiro jogo foi no último domingo.
Um horror.
A bagunça foi tamanha que a empresa Minas Arena, administradora do estádio, levou um gancho de R$ 1 milhão de multa.
Entre os problemas, a torcida ficou sem água e comida (observem na foto).
Apenas isso.
Imaginem na Copa, meus caros.

Charge - J. Bosco

Acesse o Lápis de Memória.

Hoje, Jatene "não quer muito" o PMDB na base aliada

Quem pensa que a decisão do PMDB de lançar candidatura própria à presidência da Assembleia Legislativa vai ficar na base do por isso mesmo ou naquela outra base, a do discurso de que eventuais divergência se esgotaram e se encerraram no âmbito do parlamento, quem pensa assim, portanto, está redondamente enganado.
Está muitíssimo enganado.
Dois tucanos que trafegam discreta, mas desembaraçadamente, nos bastidores do governo Jatene garantem ao Espaço Aberto que, fiel a seu estilo, o governador não vai sair por aí, retirando a torto e a direito os cargos que peemedebistas detêm em seu governo, como é o caso do próprio Martinho Carmona - derrotado por Márcio Miranda (DEM) na eleição para a presidência da Alepa -, que ainda manda na Paratur.
"Mas uma coisa é certa: o governo não fazer conta de conta que não aconteceu. Porque aconteceu", diz um dos privilegiados interlocutores de Jatene, naquela linguagem tucana que, traduzida para o português de Portugal, quer dizer mais ou menos o seguinte: o troco virá, no momento certo e nas doses e no alcance recomendados pela ocasião.
Aliás, um dos tucanos com quem o blog conversou reagiu de forma pouco induvidosa sobre declaração do líder da bancada do PMDB na Assembleia, deputado Parsifal Pontes.
Confrontado com uma espécie de advertência do novo presidente da Assembleia, Márcio Miranda, de que "o PMDB vai ter que responder se está ou não na base aliada", o líder peemedebista contrapõe o seguinte em seu blog, o Parsifal 5.4: "O governador Simão Jatene vai ter que responder se quer ou não o PMDB na base aliada".
- E então - provocou o poster ao tucano emplumado -, o Jatene quer ou não o PMDB na base aliada?
- Rapaz, eu diria que, hoje, não quer muito, não - respondeu o tucano.

Não gostaram? Vão para Miami com o Duciomar.



Rapazes - e moças também.
É uma coisa assustadora o caradurismo, a falta de qualquer escrúpulo, o olímpico desprezo que personagens da República demonstram quando postos diante de situações que, em regra, fariam o cidadão comum, um cidadão como nós, corar de vergonha.
Vejam esse gigante da ética, esse monumento à placidez de consciência, o senador Renan Calheiros, eleito presidente do Senado na última sexta-feira, muito embora tenha sido denunciado ao Supremo Tribunal Federal por três crimes - peculato, falsidade ideológica e uso de documento falso.
Pois é.
Vejam o doutor Renan.
Vejam-no em fotos como na aí de cima que estão por aí, nesse mundo virtual de dimensões inalcançáveis pela compreensão humana.

Renan, ontem, subiu a rampa do Congresso, cumprindo ritual observado no início dos trabalhos legislativos.
Manifestantes o chamaram de "safado", "sem vergonha" e "ladrão".
Faixas foram estendidas com os dizeres: "Fora Renan. Abaixo o Senado!" e "Até quando o poder Legislativo envergonhará o Brasil?"
E Renan?
Nem aí.
Impassível.
Sereno.
Dirão alguns que Renan era o retrato da quintessência do homem público experiente, que não se abala com quatro, cinco ou vinte gatos pingados que, movidos por suas paixões, dão vazão a ímpetos e compulsões desprezíveis, a juízos passionais intoleráveis.
Mas outros também poderão objetar que mais de 300 mil pessoas - 300 mil, meus caros - assinaram um abaixo-assinado expressando a mais forte e decidida repulsa à candidatura de Renan.
E o doutor com isso?
Nem tchum - como se diz.
Não está nem aí.
É, meus caros.
Se estão insatisfeitos, vão pra Pasárgada, que lá vocês serão amigos do rei.
Ou vão para Miami, conhecer o novo puxadinho de Duciomar Costa, conforme já noticiou O LIBERAL do último domingo.

Quem é vivo (e bote vivo) sempre aparece. Chegou o IPTU.

Do jornalista Carlos Mendes, por e-mail, para o Espaço Aberto:


Olha quem apareceu aqui em casa neste final de semana. Ele mesmo, como sempre infalível. Lépido e fagueiro, ostentando sua honrosa cara de pau. O meu, o seu, o nosso, IPTU. A secretária de Finanças, Suely Azevedo, a mesma que aparece na folha do Tribunal de Justiça em seu último mês como secretária de Administração e Finanças, recebendo R$ 131 mil líquidos, deve estar feliz.
Não por ter recebido tanta grana, mas por conseguir mandar o IPTU - que ela própria não pagou - para os lares de quase 400 mil moradores desta maltratada Santa Maria de Belém do Grão Pará.
Junto com o carnê de dona Suely veio uma mensagem do prefeito Zenaldo Coutinho, mostrando a importância do pagamento IPTU para que os recursos dele advindos produzam obras e serviços pela cidade.
Tudo muito bom, tudo muito bem. Mas, realmente, eu gostaria de dizer à secretária de Finanças que, ao contrário dela, eu pagarei o meu IPTU e certamente muita gente o fará.
Primeiro, porque somos cidadãos de bem. Eu disse bem, e não bens. Segundo, porque a prática da desobediência civil de não pagar o IPTU não teria nenhuma eficácia. Seríamos processados pela Procuradoria Fiscal e a justiça seria rápida no gatilho.
Quem dá o péssimo exemplo de não traduzir em serviços públicos o produto dos impostos que pagamos não somos nós. São os governantes. Além disso, não acreditamos em heróis isolados ou porraloucas de plantão que irão nos salvar das garras de gestores incompetentes.
O que é preciso dizer é que, se vamos pagar, devemos nos mobilizar, ir para as ruas, cobrar as obras e serviços que não vemos há décadas em Belém.
Cada centavo pago à prefeitura deve corresponder à nossa avidez de cobrança para que possamos ter uma cidade de todos e para todos.
Vamos pagar, sim. Mas, secretária Suely, pague também o seu IPTU. Seja a primeira a dar o exemplo que está devendo a todos os cidadãos desta cidade. Os que pagam e os que não pagam IPTU. Os que pagam para que continuem pagando. Os que não pagam, para que se sintam motivados a pagar.
Zenaldo, estamos de olho.

Arrozeiros de Roraima agora ocupam o Marajó

Por Dal Marcondes, da Agência Envolverde

Em 2009 terminou um longo e desgastante processo de desocupação de terras indígenas em Roraima, de onde plantadores de arroz foram retirados da reserva Raposa Terra do Sol. Aos poucos o assunto perdeu o interesse dos meios de comunicação e foi esfriando, até que uma nova luz vermelha se acendeu, desta vez no arquipélago do Marajó, onde já se instalou a maior parte dos produtores de arroz expulsos de Roraima, com uma proposta de ocupar 300 mil hectares com essa cultura.
Marajó é um dos territórios mais pobres do Brasil e, apesar de ser desde 1989, ano da Constituição do Estado do Pará, uma Área de Proteção Ambiental, nenhuma ação efetiva para a gestão dessa APA e para a regularização fundiária da região jamais foi implementada. Desde 2010 organizações da sociedade civil vem trabalhando para a estruturação de um plano para elevar a região à categoria de “Reserva da Biosfera” a ser reconhecida pela UNESCO. O processo está em andamento e é coordenado pela ONG Instituto Peabiru em um programa chamado “Viva Marajó”.
O pesquisador João Meirelles, diretor do Peabiru e autor de diversos livros sobre a Amazônia, alerta que a ocupação desordenada dessa região vai afetar a vida de milhares de quilombolas, ribeirinhos e moradores do Marajó, e aponta a inexistência de Estudos de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental (EIA-RIMA) para expansão da monocultura de arroz no Marajó. Ele explica que o Marajó é a única área do Pará que não possui o Zoneamento Ecológico Econômico e a elaboração de um Plano de Manejo da APA seria o primeiro passo para se discutir a implantação de grandes projetos econômicos na região.
O tema está sendo alvo de debates no âmbito da Federação da Pecuária e da Agricultura do Pará, do Conselho do Agronegócio do Pará e da Secretaria de Estado da Agricultura, que na última desta terça-feira, 29 de janeiro, reuniram-se em Belém para debater o potencial econômico da produção de arroz irrigado no Marajó. Mas ficou fora da pauta as questões ambientais, fundiárias, sociais e de arqueologia que envolvem a atividade.
Está se formando em torno desse tema o duro jogo maniqueísta de “quem é contra joga a favor da fome e da pobreza” e que preservar a biodiversidade e a cultura local significa “condenar a população à miséria”. Não se discute um aspectos relativamente simples, que é cumprir a legislação ambiental e fundiária em uma região onde apenas 25% dos pouco mais de dez milhões de hectares é legalizada com títulos de propriedade e destinações públicas.
O que grupos ambientalistas e lideranças sociais do própria região defendem é que se faça a regularização fundiária da região, junto com um Zoneamento Ecológico Econômico para que se definam as áreas passiveis para a exploração agrícola e pecuária, não apenas pelos produtores de arroz, mas para qualquer atividade de impacto na região.
Algumas das principais questões sociais e culturais levantadas ambientalistas e lideranças sociais são:
- Saúde humana – o uso de agrotóxicos em larga escala, especialmente aqueles lançados por aviões, constitui-se em forte ameaça à saúde de crianças e idosos;
- Agravamento de risco de doenças – a presença de grandes áreas inundadas, inclusive em períodos de seca, no entorno de núcleos urbanos poderá resultar em aumento de insetos transmissores de doenças tropicais (dengue e malária, principalmente), o que precisa ser monitorado;
- Exclusão da participação local – A comunidade local está totalmente excluída. Os moradores das comunidades do entorno das fazendas de arrozeiros são afetados diretamente pelos empreendimentos e ninguém os ouviu!
- Comunidades Quilombolas – qualquer empreendimento de grande porte precisa ouvir as comunidades quilombolas do entorno;
- Patrimônio arqueológico – por lei, qualquer intervenção de grande porte precisa ser precedida de estudo sobre a existência de patrimônio arqueológico. A região do Marajó é considerada como uma das que possui maior patrimônio de artefatos de cerâmica do Brasil.
É simples, cumpra-se a lei e haverá espaço para todos

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* Dal Marcondes é jornalista, diretor da Envolverde, passou por diversas redações da grande mídia paulista, como Agência Estado, Gazeta Mercantil, revistas IstoÉ e Exame. Desde 1998 dedica-se à cobertura de temas relacionados ao meio ambiente, educação, desenvolvimento sustentável e responsabilidade socioambiental empresarial.

A barreira da mente


Apesar de todos os avanços, a mente humana permanece bem guardada. Sigilosa. O mundo dos bytes é cada vez mais invasivo, porém a chave ainda está conosco. “O que você está pensando?” - perguntam redes sociais. E as nossas respostas mais objetivas podem estar muito longe do que paira em nossa cabeça. A barreira da nossa mente tem o segredo dos átomos não estudados. Nada termina em próton, nêutrom e elétron. Pensamento é a energia mais volátil. Estava aqui, e decolou na aterrissagem.
Não há filosofia, teoria ou crença capaz de invadir a mente. Podem existir lampejos de transcendência quando algo se descortina por alguma técnica ou revelação espiritual. Mas é gota no oceano. Orvalho sobre o abismo do mar. O mundo cabe na mente. Galáxias têm diminuto espaço. A eternidade esconde-se num cantinho do pensamento.
Pensamento não paga imposto, já dizia o lendário Ulpiano. Não há crime em pensar. Se um músculo não quebrar a barreira mental, isso não dará em nada. A estrada do delito começa no ato preparatório. Se duas mentes perversas externarem o pensamento, aí a coisa se complica. Saiu da boca, contaminou. Eis a sabedoria do Mestre. “Como?”, indagaria algum leitor, perplexo. “Quer dizer que um exterminador pode andar à solta nas ruas?” Exatamente assim. Até que ele dê alguma pista, não podemos fazer nada. Velha limitação. Não prendemos o pensamento. Não existe Alcatraz mental. Prendemos somente o corpo. A mente continuará viajando a mil.
Mas, imaginemos o lado bom. Não enjaulamos só delinquentes. Até santos estiveram algemados. Paulo, o apóstolo, viveu muito isto. E usou bem a liberdade. “A Palavra de Deus não está algemada” foi seu brado de liberdade a Timóteo. Estava em seu espírito. Graças à barreira mental, ninguém impediu que Paulo orasse e escrevesse suas cartas. Mandela pensou bastante no cárcere e, saindo, derrubou o Apartheid. Temos uma presidente do exílio. Dilma pôde pensar enquanto sofria, e hoje governa o País. Só a tortura extrema pode matar o pensamento. Porém, quando isto acontece, os muros da mente se fecham. Desabam de fora para dentro. A pessoa não pensará doravante. Mas seus pensamentos serão blindados de vez. Ninguém pisará esse terreno.
Essa barreira da mente é que permite nossa convivência. Se lêssemos pensamentos, o mundo seria um caos. Muita “educação” findaria. Palavras não seriam bastantes. Aliás, talvez deixássemos de falar e, com isso, até o pensamento poderia morrer. Relação de causa e efeito. Acho que o mundo viraria um campo de batalha. Seria difícil sairmos de casa. Nossos aborrecimentos subiriam a patamares doentios. Na verdade, nós seríamos o que exatamente somos, apenas estaríamos descortinados. Para sobrevivermos, precisaríamos de grande treinamento mental. Pensamentos e emoções seriam matéria de todos os graus. Adultérios. Mentiras. Ódios. Tanta coisa que acobertamos seria revelado a todos. Uma tragédia!
Por outro lado, conheceríamos algumas coisas interessantes. Conheceríamos mesmo a verdade. Por exemplo: o público saberia na hora o que o ministro religioso pensa durante a homilia. Acabaria o segredo dos discursos. Talvez até o Congresso acabasse. Horário eleitoral, nem se fala. Amigos verdadeiros seriam revelados. Muitos judas pulariam do barco. E correríamos para abraçar alguns que a gente discrimina. Todos os relacionamentos passariam por uma espécie de “recall”. Talvez poucos tivessem conserto, mas, enfim a gente saberia o que o nosso cônjuge pensa. As mulheres adorariam esta parte. Pobres homens!  Os pais saberiam o que os filhos pensam. Pobres meninos!
E os processos judiciais? Bem, iam ficar mais baratos, porém, não haveria mundo para prender tanta gente. Quem fosse pego pensando mal seria levado em cana. A mente dos policiais e dos juízes também estaria publicada. Não haveria julgamento tendencioso que a gente logo não soubesse. E aí? Como ficariam esses juízes? Presos também? Não sei. Difícil seria viver. A verdade se transformaria em problema sério. Mentirinhas perderiam a graça. “Não disse, para evitar uma briga” nunca mais seria dito. A briga começaria antes.
Se a barreira da mente fosse rompida, bem provável desmoronasse a internet. Leríamos a verdade na tela. No jornal. Nos livros. Saberíamos o pensamento de jogadores, técnicos e presidentes de clubes. Como disse, seríamos exatamente o que somos hoje, apenas estaríamos descobertos. Então, o que você acha? Pensa que eu posso estar certo? Sério mesmo? Olha!

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RUI RAIOL é escritor.
www.ruiraiol.com.br
O que ele disse

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Djavan - Se

A emoção útil e a charge infeliz


Por Sylvia Debossan Moretzsohn, no Observatório da Imprensa
“A vida muda rápido. A vida muda num instante. Você senta para jantar e a vida que você conhecia acaba de repente.”
É assim que a escritora americana Joan Didion abre O ano do pensamento mágico, livro no qual relata e reflete sobre suas emoções diante da morte súbita do marido, numa véspera de Ano Novo, logo depois de chegarem em casa, de volta de uma visita à filha única, recém-internada, e que morreria também algum tempo depois. Quando o livro foi lançado no Brasil, em 2006, a escritora deu entrevista ao Globo em que reiterava o seu aprendizado com aquela dupla perda: “Eu perdi a ideia de que é possível controlar as coisas”.
Nas horas imediatamente seguintes ao incêndio que vitimou centenas de jovens numa boate em Santa Maria (RS), choveram explicações para o que poderia ter evitado a tragédia: se a banda não tivesse utilizado efeitos pirotécnicos, se a casa tivesse revestimento acústico não inflamável, se os extintores funcionassem, se houvesse saídas de emergência, se os seguranças tivessem liberado logo a porta, se houvesse ali um bombeiro civil, se houvesse fiscalização adequada... sem contar outros conselhos tolos supostamente resultantes da lição daquela madrugada: os clientes devem verificar as condições de segurança dos locais que frequentam, como se isto fosse possível, e como se esta não fosse uma óbvia responsabilidade do Estado.
Do lado dos sobreviventes, a culpa típica de quem não entende como nem por que escapou: como conseguiram sair e tantos outros ficaram?, como não voltaram para salvar amigos, parentes, namorados?, o que poderiam – deveriam? – ter feito para livrá-los da morte? Do lado dos pais, a culpa de sempre: pois os filhos sempre estariam vivos, felizes e saudáveis caso ouvissem seus conselhos.
Se a lista de fatores que concorreram para a tragédia é correta e contribui para a apuração das responsabilidades – embora, a rigor, não haja fiscalização que impeça um comportamento inconsequente capaz de detonar uma catástrofe num ambiente fechado e lotado –, se evidentemente o que ocorreu não foi uma fatalidade – como pretendem os advogados dos donos da boate –, ainda assim a conclusão de Joan Didion poderia servir ao mesmo tempo de consolo e esclarecimento a quem viu a vida mudar num instante, assim de repente, imprevisivelmente: não é possível controlar as coisas.
A emoção mobilizadora
Mas para pensar assim é preciso já ter sofrido o desespero e a dor lancinante da perda, e ter sobrevivido a ela. Não só por isso, mas também por isso, a cobertura jornalística – especialmente a televisiva – de tragédias como essa não pode abrir mão de expor o sofrimento, e a questão sempre estará na definição do limite tênue entre o que é lícito ou não exibir: entre o que a dor pode informar e revelar e a sua exploração sensacionalista e desvirtuadora da capacidade de reflexão e mobilização. Entre o que nos comove e convoca a agir e o que simplesmente nos leva a chorar e a manifestar condolências.
Recorro aqui às indagações do repórter português Carlos Fino, que se tornou conhecido dos brasileiros quando trabalhava na RTP – Rádio e Televisão de Portugal – e cobriu a invasão americana ao Iraque, em 2003:
“Como é que se transmite o horror da guerra? Esta é uma de nossas contradições, não é? Brecht dizia:‘homem, olha bem nos olhos do outro homem e verás nele um irmão. As contradições que te consomem não são boas nem más, são a tua própria condição’. E assim vivemos, quer dizer, como é que damos o horror da guerra sem imediatamente sermos acusados de estarmos a comungar da sociedade do espetáculo e a explorar o sentimento alheio? Eu vou pôr a mão que eu vi decepada no mercado de Bagdá quando os americanos provocaram mais uma vítima colateral? Ponho a mão pra provocar desgosto e repulsa ou escondo essa imagem, não a edito, para não ferir os sentimentos das pessoas? Como é que se transmite isso? Eu não sei dar uma resposta precisa.”
Do mesmo jeito que não se pode cobrir uma guerra de maneira estritamente racional, apresentando-a na lógica do jogo de poder – “a continuação da política por outros meios”, na famosa definição de Clausewitz –, excluindo o sofrimento humano que esse jogo provoca, não é possível pensar na cobertura de uma tragédia como a de Santa Maria sem a exposição do drama vivido pelas pessoas.
Não se trata, é claro, da exibição da desgraça e da formulação de perguntas que provocam a voz embargada e o choro para o previsível close, ou do recurso de supressão do som ao fim dos telejornais que, de tão utilizado, já se tornou clichê – ainda mais se acompanhado da sucessão das fotos daqueles jovens sorridentes que já não existem mais. Trata-se de coisas como o depoimento da mãe de dois rapazes – um morto, outro em estado gravíssimo no hospital – ao programa Mais Você, de Ana Maria Braga,especialmenterevelador por pelo menos dois motivos: porque fala de uma mulher simples que gostava da apresentadora, colecionava suas receitas e pensava em um dia estar mesmo a conversar com ela, mas para falar de suas habilidades culinárias, e nunca naquela situação tão triste; e porque essa mulher simples usa esse espaço para esse grito de dor e revolta contra o absurdo que se abateu sobre ela e tantos outros, apresentando-se como uma porta-voz do sofrimento e do protesto coletivo.
Talvez esta seja uma forma de se explorar a única emoção útil, a da revolta, de acordo com o comentário de Luis Fernando Verissimo que encabeçava a página 3 do caderno “Metrópole” do Estado de S.Paulo de segunda-feira (28/1):
“Depois do choque, da incredulidade, da empatia emocionada com os que foram diretamente tocados pelas mais de 200 mortes da tragédia de Santa Maria, vem a revolta. Que no fim é a única emoção útil, a que tem – ou deveria ter – consequência. As outras são manifestações humanas de solidariedade. A revolta é dirigida a todas as causas evitáveis do horror. À imprudência, às falhas na fiscalização, à ganância. A revolta pede providências para que tragédias assim não se repitam. E pede responsabilização clara e exemplar dos culpados. Infelizmente, uma coisa que pouco se vê no Brasil.”
A charge fora de hora
Enquanto isso, no Globo o cartunista Chico Caruso publicava a sua charge de capa: a boate reduzida ao seu sentido etimológico original de “caixa”, uma arapuca gradeada como uma prisão lotada de pessoas desesperadas tentando inutilmente fugir dali, enquanto o fogo se alastra e a fumaça negra atravessa o teto. E a presidente Dilma, de blazer vermelho, levando as mãos à cabeça e gritando: “Santa Maria!”
Como de costume, o jornalista Ricardo Noblat reproduziu a charge no mesmo dia (28/1), em seu blog. No início da noite já colecionava mais de 200 comentários, quase todos furiosos, classificando-a de “lamentável”, “inoportuna”, “nojenta”, “lixo”, “imbecil”, “insensata”, “infeliz”, “aberração”, “oportunista”, “ridícula”, “desarrazoada”, “desproporcional”, obra de um “perfeito idiota”, e condenando o cartunista – e por extensão o colunista-blogueiro, pela divulgação – de fazer pouco da desgraça que comovia o país e de utilizar um momento de consternação para, mais uma vez, bater em Dilma e no PT.
Em resposta, Noblat repetiu algumas vezes este comentário:
“Os que criticam a charge do Chico Caruso perderam o bom senso, a se levar em conta a violência com que escrevem. O que a charge tem de chocante, de desrespeitosa com quem quer que seja? Dilma pôr as mãos na cabeça e dizer ‘Santa Maria’? Isso é um absurdo? Só enxerga nisso uma crítica à presidenta os fanáticos políticos de plantão. Aqueles que politizam tudo. Os que alugaram sua pena e sua mente a interesses partidários. Dilma não faz política quando grita ‘Virgem Maria’. Nem a charge sugere isso. Dilma revela seu desespero. Sua inconformidade. Que é nossa também. Ela não tem culpa alguma pelo que aconteceu. Foi solidária com todos os que sofrem. Esteve em Santa Maria. Sinceramente se comoveu com o que viu. O que tem mais na charge? A boate transformada numa prisão? As janelas gradeadas? As mãos crispadas dos que ali ficaram retidos clamando por ajuda? Mas não foi mesmo numa prisão em que a boate se transformou? Numa armadilha? Numa ratoeira? Perdão, mas vcs não sacaram nada, nadinha.”
Não há dúvida de que qualquer discurso comporta mais de uma interpretação, mas exatamente por isso o argumento de Noblat não se sustenta: porque a desqualificação de seus interlocutores ao final – “vcs não sacaram nada, nadinha” – supõe um sentido único e, a rigor, muito improvável, dada a sistemática postura do jornal contra o governo petista. E, também, por causa da identificação de toda contestação aos “fanáticos de plantão”, que “politizam tudo”.
Um chargista ocupa um espaço privilegiado para a crítica social e política bem – ou mal – humorada, para uma síntese que em geral nos faz rir de nós mesmos. Os comentadores indignados do blog do Noblat podem estar completamente enganados, mas é impossível desconsiderar os protestos contra a falta de sensibilidade nesse momento particularmente dramático da vida nacional.
***
[Sylvia Debossan Moretzsohn é jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora de Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico (Editora Revan, 2007)]

Charge - Dálcio


Ser ou não ser. O PMDB do Pará, afinal, é?

Olhem só, rapazes - e moças também.
Trair é coçar, como diz aquele filme, é só começar.
Na política, traição é como coceira há trocentos milhões de anos, desde que a política é política.
Mas há traições e traições.
Algumas são banais, não repercutem, são rapidamente esquecidas.
Outras, nem tanto.
Na eleição que confirmou o favoritismo do democrata Márcio Miranda, escolhido presidente da Assembleia Legislativa na última sexta-feira, com os votos de 26 das 41 excelências, houve traição, sim.
E houve traição no duro.
Aliás, houve duas traições, que os políticos, na sua linguagem arcana - quando usá-la lhes é conveniente -, chamam de defecções (uuuhhh!)
As defecções consumadas não foram, digamos assim, defecçõezonas.
Foram defecçõezinhas, eis que não fizeram, nas circunstâncias, muito diferença. Ou melhor, não fizeram diferença alguma.
Por quê? Porque a matemática permite essa conclusão.
Havia 24 apoios declarados nominalmente para Márcio Miranda.
Sobravam 17 votos.
Dos 17 votos, 8 eram do PMDB e oito do PT, integrantes de um bloco que apoiou a candidatura de Martinho Carmona. E mais um voto do deputado Edmilson Rodrigues, do PSOL.
Edmilson, como ele próprio adiantara ao Espaço Aberto, optou por apoiar o bloco PMDB-PT.
O PT, depois da eleição, divulgou até nota oficial dizendo que todos os membros da bancada, sem exceção, votaram em Carmona.
Quem traiu o bloco oposicionista, portanto?
Dois deputados do PMDB.
Até o PMDB sabe disso.
Porque se o Espaço Aberto sabe que parlamentar do PMDB dizia abertamente que "jamais votarei num candidato que não seja o do governador [Simão Jatene]", como não terá sabido o PMDB?
Pois bem.
As duas traições - ou defecções, no idioma político - não fizeram nenhuma diferença, porque, do contrário, Márcio Miranda ainda seria eleito com diferença de três votos (24 a 17).
Mas, politicamente, as duas traições não podem ser desprezadas, não podem o seu significado esvaziado.
Que o diga o novo presidente, Márcio Miranda.
Em entrevista a O LIBERAL de ontem, ele deixou muito claro: o PMDB, que resolveu formar uma candidatura de oposição à da base aliada, mesmo sendo a legenda integrante da bloco governista, precisará se definir, precisará superar aquele dilema hamletiano do ser ou não ser.
O PMDB, como bem sinalizou Miranda, precisará dizer agora, claramente, se é ou não é.
Se é ou não é governista.
E, acreditem, será muito bacana, muito divertido assistir a essa definição no curso deste ano.
Um ano que, vocês sabem, é pré-eleitoral, não é?

Servidor municipal há mais de 40 dias sem receber

Do professor público municipal Cássio Andrade, por e-mail, ao Espaço Aberto:

Bom senso e razoabilidade.
Reza o bom senso que não se meça o limite da paciência dos que sofrem. Os resultados quase sempre são catastróficos.
Desde que se iniciou a gestão de Zenaldo Coutinho, os servidores municipais, em especial os da educação, têm manifestado gestos de boa vontade ao prefeito diante do quadro de calamidade pública deixado pelo nefasto ex-prefeito. Esses agentes públicos amargaram cortes de horas-extras, tempos integrais e até do crédito-alimentação. As últimas notícias advindas dos corredores da gestão, entretanto, podem acender o pavio de pólvora da intolerância desses trabalhadores.
Notícias oficiosas, até agora não-desmentidas, indicam que o pagamento da Semec será realizado somente no último dia previsto para pagamentos, ou seja, 05.02, algo inédito, desde a gestão de Hélio Gueiros à frente do Executivo Municipal. Nem Duciomar Costa ousou tanto!
Poder-se-ia alegar que não há nada de irregular nessa medida, não obstante o fato de que o último pagamento dos servidores municipais ocorreu em 22.12.2012. Na ponta do lápis, até o momento, os servidores municipais estão há exatos 40 dias sem ver a cor de seus proventos. Caso se ratifique a notícia, os da Educação chegarão à marca histórica de 44 dias sem receber na Semec.
Faço um apelo aqui para que o prefeito reveja essa medida draconiana e desumana, pois muitos servidores operacionais que somente trabalham na Semec, além de sem comer, estão sem recursos para se manterem dignamente. Proponho aos trabalhadores da Educação, a despeito do silêncio solerte de nossos sindicatos, sabe-se lá por qual razão, um movimento legítimo de desobediência civil, e não compareçam às suas unidades escolares, enquanto não receberem seus salários.
É inadmissível que professores, em seus sagrados ofícios, sejam desrespeitados em suas dignidades. Blogueiros, jornalistas chapas quentes e redes sociais, ajudem esses servidores denunciando esse abuso.
Chegamos ao limite. Prefeito, bom senso, por favor!

Belém tem disso. Ora se tem.




Então é isso.
Belém - com o perdão do amigo aqui do Espaço Aberto, o craque Sérgio Bastos - tem disso.
Pois é.
Olhem aí as fotos acima.
Foram mandadas por Jorge Bastos, leitor do blog.
A cena ocorreu na quinta-feira passada.
Às 9h da matina.
Na Ó de Almeida com a Benjamin, no coração do Reduto - ou do Umarizal, sei lá -, área central de Belém.
Centralíssima.
O caminhão entalou no pedaço.
E, na tentativa de desentalar-se, acabou por dar uma pancada no carro que se encontrava estacionado no local.
Belém tem disso, ora bolas.
Belém tem dessas coisas impressionantes.
Tem desses desrespeitos, como diria Nelson Rodrigues, sesquipedais, enormes, clamorosos, escandalosos.
Desde meados de 2010 - já caminhamos para o terceiro ano, gente -, a Justiça proibiu o tráfego de caminhões com mais de 3,5 toneladas em Belém, no horário entre 6h e 21h, de segunda a sexta-feira.
Decisão nesse sentido foi até publicada no Diário Oficial do Estado, após decisão da 4ª Câmara Cível Isolada do Tribunal de Justiça do Estado (TJE).
E aí?
E aí que temos cenas como essa aí.
Que se repetem, vocês sabem, diariamente.
Putz!

Quanta semelhança!


“Anistia é o ato pelo qual o governo resolve perdoar generosamente todas as injustiças que ele mesmo cometeu” (Barão de Itararé)

Aproveitando a entressafra indigente de todo início de ano, comecei a ler o livro do jornalista Mário Magalhães “Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo”. Carlos Marighella (1911-69) foi um bravo militante comunista desde jovem, deputado federal constituinte e fundador do maior grupo armado de oposição aos anos de chumbo – a Ação Libertadora Nacional. O livro tem um ritmo convulso e de um realismo perturbador. Marighella foi um homem sofrido, com várias passagens pela prisão, resistência à tortura, operações de espionagem na Guerra Fria e assaltos a bancos, carros-fortes e trem pagador. Neto de escravos recusava a tutela do medo.
Cursou o primário e o ginásio no “Gymnásio da Bahia”, onde se destacou em Matemática e Português. Um fato que se tornou interessante, na “Escola Polytechnica da Bahia”, em 1931, compôs versos para responder uma prova de química e gostava de fazer poemas de amor. Esse mulato soteropolitano além de profícuo poeta era um homem irreverente e gozador. O interventor Juracy Magalhães era alvo de poemas e da militância do estudante Marighella. De tanto panfletar na escola acabou sendo excluído. Marighella jamais se formaria em engenheiro.
Marighella jamais abandonou as ideias de justiça social e de revolução. Na rivalidade ideológica da década de 1930, o ideário comunista se opunha ao do fascismo de Benito Mussolini na Itália e ao nazismo de Adolf Hitler na Alemanha. Comunismo e fascismo se batiam pela condição de opção mais poderosa à democracia liberal. Ióssif Stálin era “ídolo, guia, mestre, educador e pai”; depois sobreveio o desencanto. A controversa vida de Marighella é também uma história dos movimentos radicais e da esquerda no Brasil e no mundo. Foi proclamado inimigo número um pela ditadura, o guerrilheiro foi emboscado e morto pela polícia de São Paulo, na noite de 4 de novembro de 1969.
Dia desses, li em Carta Capital, Plural, um texto de Elias Thomé Saliba, em que descreve as peripécias de Fernando Apparício de Brinkerhoff Torelly, o Barão de Itararé. Teve vida dramática, perdas familiares precoces e prisões arbitrárias. Criou o semanário “A Manha” acompanhado de brasão heráldico que justificava sua genealogia com o título de Barão de Itararé, uma cidade paulista na divisa com o Paraná, onde a decisiva batalha para traçar os destinos do Brasil, e pela qual todos esperavam, nunca aconteceu. Tal evento justificaria mais um de seus inesquecíveis epigramas invertidos: “De onde menos se espera, daí é que não sai nada”.
Foi um humorista diferente dos outros, se engajou e se tornou humorista “do contra”. Em 1934, as primeiras reuniões que resultaram na criação da Aliança Nacional Libertadora, entidade a aglutinar comunistas, socialistas, católicos, liberais, tenentistas, aconteceram nas saletas da redação de “A Manha”. No início do Estado Novo, a atmosfera obscura era mais propícia à subserviência do que à irreverência da Imprensa. Foi sequestrado. Preso novamente em Dezembro de 1935, foi um dos jornalistas a ficar mais tempo na prisão.
As pessoas guardam na memória a comicidade da criatura sem a melancolia do criador. O humorista expressa o que ele gostaria de dizer, sem poder. A máscara do palhaço lhe cola como estigma. E eu aqui pensei nas semelhanças entre Marighella e o Barão de Itararé.

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SERGIO BARRA é médico e professor
sergiobarra9@gmail.com

O que ele disse


"Chega de Senado perdigueiro, do Senado sabujo. Somos senadores da República, não leva e trazes do poder Executivo.
]...]
"Eu, anunciado perdedor, vou denunciar os exageros do poder Executivo. Será que o vencedor poderá fazer a mesma promessa?"
Pedro Taques, senador (PDT-MT) - na foto -, único concorrente de Renan Calheiros, o peemedebista que, enfim, acabou eleito na última sexta-feira o novo presidente do Senado perdigueiro.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Zeca Baleiro - Telegrama

Municípios poderão formar brigadas voluntárias de incêndio


Da Agência Senado
Os municípios brasileiros poderão ser autorizados a constituir brigadas voluntárias de incêndio. A medida, que ganha importância no momento em que prefeituras de todo o país promovem a revisão das condições de segurança de locais de grande aglomeração de pessoas, como clubes noturnos, consta do Projeto de Lei da Câmara (PLC) 71/12, que aguarda a análise da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE) do Senado.
As brigadas voluntárias, de acordo com a proposta, exercerão atividades de defesa civil complementares às do Corpo de Bombeiros Militar do respectivo estado. O projeto proíbe a remuneração com recursos públicos dos seus integrantes. Por outro lado, faculta aos municípios firmar convênios com os estados e com a iniciativa privada, para garantir às brigadas os meios necessários ao seu funcionamento.
As normas gerais de requisitos técnicos de recursos humanos, organização, funcionamento e fiscalização das brigadas voluntárias de incêndio, ainda segundo o projeto, serão estabelecidas em lei estadual, enquanto a orientação técnica ficará a cargo do Corpo de Bombeiros.
Após ser analisado pela CRE, onde tem como relator o senador Inácio Arruda (PCdoB-CE), o projeto será encaminhado à Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ), para decisão terminativa.

Charge - Paixão


O terror em Belém

Belém está um terror.
O Sopas e Sabores, aquele restaurante aconchegante, que fica ali na Domingos Marreiros, entre Generalíssimo e Dom Romualdo (local aí embaixo), no Umarizal, foi assaltado ontem à noite.
Por volta das 22h30, quatro bandidos entraram no local.
Havia uns três ou quatro clientes, além dos funcionários do restaurante.
O bando fez uma limpeza geral.
Na saída, os assaltantes levaram como refém a moça que trabalha no caixa.
Quando ela entrou no carro, viu um homem que estava encapuzado.
Muito provavelmente, era o dono do carro que os bandidos roubaram, também ele feito refém.
Felizmente, as duas vítimas foram libertadas com vida.
Belém está um terror, não há dúvida.


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Na Estação das Docas, um viveiro de carapanãs

Olhem aqui, meus caros.
A Estação das Docas, um dos points preferidos e frequentados por dez entre dez turistas que vêm a Belém, virou, fora de brincadeira, um viveiro de carapanãs.
Leitor aqui do blog, que mora aqui mesmo, foi lá no último domingo.
Ele, a mulher, duas filhas, um genro e dois netos.
"Fomos [à Estação] apreciar o entardecer, tomar sorvete, valorizar as coisas boas de nossa cidade e para matar a saudade de uma das filhas e neta que passam férias em Belém", conta o leitor.
"Foi tudo maravilhoso. Mas poderia ser muito melhor se não fosse, logo depois do pôr do sol, um ataque de carapanãs que perturbou todo mundo e deixou as pernas da avó e dos netos, que são alérgicos, todas empoladas", acrescenta o leitor.
Ele questiona: "Será que os responsáveis ainda não viram, ou melhor, sentiram isso? De onde veem esses carapanãs se em frente só tem a Baía do Guajará? Por dedução lógica, só podem ser de focos na própria estação! E para os turistas, como é que fica? O que vão falar de nossa Bela Belém? E se os carapanãs são os da dengue?"


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Entre as leis e o bom senso

Olhem só.
Leis são leis.
Normas são normas.
Há leis e normas ruins, péssimas.
Mudem-nas, pois.
Esse diálogo entre a jornalista Fátima Bernardes e um bombeiro de Santa Maria, sobre a tragédia que matou mais de 230 pessoas em Santa Maria, é ilustrativo sobre os limites que se separam o bom-senso da, como se diz, letra fria da lei. Ou das normas.
Vejam aí.

Propina não dá em mangueira. Dá?

Olhem só.
Não há corrupto sem corruptor.
É fato.
Se alguém embolsou propina é porque a recebeu de alguém.
Ou alguém aí acha que propina dá em árvore, assim que nem manga?
Pois é.
Essa história envolvendo o subtenente Alexandre de Oliveira Melo, do Corpo de Bombeiros Militar do Pará, acusado de emitir falsos “habite-se” mediante propina de mais de R$ 50 mil, é muito estranha.
O subtenente depôs ontem, na Justiça Militar, e disse, por seu advogado, que está disposto a abrir o bocão, expelindo provas que envolveriam oficiais da Corporação.
Para que forneça as provas, no entanto, o subtenente quer a delação premiada, aquele instituto que garante ao réu uma redução de pena caso venha a ser condenado e, se for o caso, a inclusão num programa especial de proteção, desde que constatado que está sendo alvo de ameaças à sua integridade física.
Por que a estranheza?
Porque a Gafisa diz que não tem nada a ver com a parada, muito embora os tais "habite-se" falsos tenham sido emitidos em relação a empreendimentos da construtora.
Em nota, a Gafisa diz que todos os seus empreendimentos em Belém "são desenvolvidos em absoluta conformidade com os órgãos competentes e que as eventuais exigências das autoridades foram cumpridas, com aprovação formal, por meio de vistorias, realizadas no próprio local dos empreendimentos, e alvarás competentes”.
Mas olhem só: os documentos forjados teriam sido emitidos para cinco empreendimentos só da Gafisa. Por quê?
O subtenente, vejam só, admite ter prestado uma "consultoria técnica" à construtora, pela qual recebeu R$ 200 mil.
A tal "consultoria" englobava quantos empreendimentos? Cinco.
Então, é assim.
É possível que estejamos, todos nós, diante de um monstruoso esquema de corrupção.
Mas é possível também que estejamos, todos nós, diante de um monstruoso esquema de consultoria, em que militares, contrariando regramentos internos da instituição, embolsam fábulas de dinheiro provenientes dos cofres de empresas cujos empreendimentos são passíveis de fiscalização por bombeiros-consultores.
Pode isso?
Como diria o Galvão e suas galvanices: pode isso, Arnaldo?
Afinal de contas, o esquema que o Ministério Público Militar investigar é mesmo um esquema de corrupção ou tudo ficará ao sabor de, digamos assim, vieses e alternâncias vernaculares que apenas encobrem a verdade.
Tomara que as investigações andem rápido.
Para que se possa separar o joio do trigo.
Para que se possa separar corrupção de consultorias.
Para que sejam submetidos ao crivo da legalidade habite-se falsos e habite-se autênticos.

Edmilson também pode ser candidato na Assembleia

O deputado Edmilson Rodrigues (PSOL) não descarta a possibilidade de apoiar a chapa de oposição PMDB-PT, encabeçada pelo deputado peemedebista Martinho Carmona, que hoje de manhã disputa a presidência da Assembleia Legislativa do Estado com o democrata Márcio Miranda, que tem o apoio da base aliada.
Edmilson disse ao Espaço Aberto, ontem à noite, que também avalia uma outra alternativa: a de lançar-se candidato à presidência da Casa. "Eu seria uma espécie de candidato de mim mesmo, mas também poderia, nesse caso, ter o voto de algum insatisfeito, uma vez que a eleição é secreta", disse o deputado.
A definição do parlamentar psolista ocorrerá somente momentos antes do registro de inscrição das chapas, a partir das 9h, logo depois que for aberta a sessão em que será feita a escolha do novo presidente da Assembleia.
Entre os parlamentares da base governistas, até ontem à noite a expectativa era a de que Márcio Miranda será eleito com os votos de, pelo menos, 24 parlamentares, aqueles mesmos que estiveram, há cerca de duas semanas, na casa do deputado Eliel Faustino, num jantar de que participaram, inclusive, o governador Simão Jatene e o prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho.

Norte Energia descumpre outra vez acordo com índios

O Ministério Público Federal pediu à Justiça Federal que execute com urgência o acordo extrajudicial assinado pela Norte Energia S.A com os índios que ocuparam os canteiros de obras de Belo Monte. Eles reivindicavam que a empresa cumprisse as condições socioambientais da licença da usina e aceitaram sair dos canteiros depois que a empresa assinou acordo, em 17 de outubro de 2012, durante audiência de conciliação ordenada pela Justiça.
A Norte Energia ganhou tempo para tomar uma série de medidas que já estavam atrasadas. Até dezembro de 2012, a Norte Energia deveria ter entregado sete unidades de proteção territorial nas áreas indígenas. Até novembro de 2012 deveria ter iniciado o programa de atividades produtivas, para gerar renda para as comunidades e recebido as lideranças indígenas em visitas aos canteiros de obras. Todos os prazos acabaram mais uma vez e pontos essenciais do acordo foram descumpridos.
O MPF pede que a Justiça em Altamira execute o acordo, o que significa obrigar a empresa a cumprir imediatamente o que foi acordado sob pena de multa. Os procuradores da República Thais Santi, Meliza Barbosa e Ubiratan Cazetta pediram que a empresa seja multada em R$ 2 milhões para cada dia de atraso no cumprimento das cláusulas do acordo. O descumprimento foi comunicado pelos próprios índios.
Por causa da obra de Belo Monte, as comunidades indígenas encontram-se sem alternativa de sobrevivência e ameaçadas por conflitos fundiários e crimes ambientais. Como os responsáveis pelo empreendimento não cumprem as condições da licença ambiental nem os acordos feitos com os índios, novos conflitos são iminentes.
“A atitude da empresa de descumprir o acordo firmado com os indígenas é um incentivo a novos conflitos e, certamente, dificultará qualquer nova negociação, o que poderá redundar em novo pedido tendente a legitimar o uso de violência contra indígenas, ribeirinhos e todos quanto pretendam protestar contra o descumprimento dos prazos e obrigações, em hipótese que, não gerida satisfatoriamente, poderá redundar em um conflito generalizado, tal é a insatisfação dos atingidos pela hidrelétrica”, dizem os procuradores que acompanham o caso.
“Não é demais recordar que o acordo que se executa nestes autos está sendo descumprido, mesmo após constatado que os indígenas efetivamente cumpriram a parte que lhes havia sido imposta, com a desocupação do canteiro, em mais um voto de confiança a uma empresa que, notoriamente, vem descumprindo suas obrigações de mitigação dos impactos da obra de Belo Monte”, diz o pedido do MPF.
O pedido de execução do acordo entre a Norte Energia e os índios deverá ser julgado pela Vara Federal de Altamira.
Processo nº 96-24.2013.4.01.3903
Acompanhamento processual
Íntegra do pedido do MPF

Entre a emoção e o escárnio


Por Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa
É parte das crenças nas redações que o jornalista, por viver imerso nos fatos e em contato quase permanente com os dramas da sociedade, acaba por desenvolver uma espécie de capa impermeável emocional. Essa seria uma qualidade exigida, por exemplo, para os repórteres de televisão e rádio, os âncoras dos telejornais e os entrevistadores em geral.
Apresentador do Jornal Nacional, da Rede Globo,William Bonner costuma ser lembrado por ter sido capaz de noticiar a execução de seu colega Arcanjo Lopes do Nascimento, o Tim Lopes, em 2002, com o rosto praticamente impassível, sem demonstrar seus sentimentos. Mas também é citado por não ter podido conter as lágrimas ao anunciar outra morte, no ano seguinte, a do seu patrão Roberto Marinho.
Essa característica atribuída a jornalistas tem sido também a origem de muitos equívocos na interpretação dos sentimentos alheios. Eventualmente, correm até apostas nas redações sobre quanto tempo determinado acontecimento vai levar até começar a produzir anedotas entre jornalistas.
Um jornal importante, como o gaúcho Zero Hora, pode passar de manifestações explícitas de luto, como a colocação de faixa pretas em suas páginas, até o extremo oposto, o de admitir conteúdo de puro escárnio às vítimas. Correm na internet manifestações de protesto contra a charge publicada na terça-feira (29/1), pelo principal jornal da região Sul do país, sob o título “Uma nova vida” (ver aqui).
A obra, assinada pelo veterano chargista Marco Aurélio, retrata uma longa fila de estudantes mortos, postados diante de um prédio identificado como “USP – Universidade de São Pedro”. Da porta, o próprio São Pedro recebe e direciona os jovens conforme a especialidade – arquitetos, sala 5 com Niemeyer; gente da pedagogia, com Gilberto Freyre; medicina, sala 7 com Zerbini” – e assim por diante. É uma referência direta aos mortos na boate Kiss, de Santa Maria (RS), que o mais reles pasquim de quinta categoria teria pejo de exibir.
Após as primeiras críticas de leitores, o desenho desapareceu da versão online do jornal e o blog “Os diaristas”, que costumava publicar os trabalhos de chargistas e caricaturistas do grupo Zero Hora, foi tirado do ar. Mas fica a pergunta: o que é que o jornal gaúcho pretendia ao publicar esse monumento ao mau gosto?
O jornalista, um fingidor
Na verdade, os jornalistas, como o inverso do poema, apenas fingem não sentir a dor que deveras sentem. Por essa razão, entre outras, espera-se deles que dominem o vernáculo e as demais linguagens da comunicação, de modo a poderem se aproximar dos fatos com alguma objetividade, sem pieguice mas também sem frieza.
Em episódios de risco de má interpretação, a medida mais salutar é eliminar as fontes de possíveis equívocos. No caso da tragédia de Santa Maria, o mais correto seria dispensar os chargistas de terem que caminhar na corda bamba. Mesmo porque uma seção de humor é a última coisa que o leitor gostaria de ver num jornal em uma ocasião como essa.
Na quinta-feira (31/1), os jornais de circulação nacional começam a deixar para trás os relatos emocionados de sobreviventes e parentes das vítimas fatais e investem na apuração das causas da tragédia. Além disso, instigam as autoridades a tomar uma posição mais clara quanto à necessidade da prevenção de riscos nas casas noturnas em outras cidades.
A Folha de S.Paulo volta a tratar do assunto em manchete, noticiando que a prefeitura da capital paulista promete fazer uma avaliação das boates da cidade em noventa dias. O Estado de S.Paulo informa, na primeira página, que o dono da boate Kiss instalou a espuma de plástico que gerou a fumaça tóxica sem consultar os bombeiros nem a prefeitura de Santa Maria; e também registra as medidas preventivas tomadas em São Paulo. O Globo alerta que há no Rio de Janeiro 49 espaços culturais sem alvará e também anuncia um mutirão de vistorias.
Os familiares das vítimas finalmente podem se retirar para o luto privado, com menos risco de virem a ser convocados a expor suas penas diante das câmeras. O foco agora é a caça aos responsáveis, e, claramente, a imprensa escolheu entre os dois proprietários da casa noturna de Santa Maria aquele que vai levar a carga mais pesada.
Ao mesmo tempo, as luzes começam a se afastar do prefeito e do comandante local do Corpo de Bombeiros. Mas, até a quinta-feira, ninguém havia divulgado o nome que assina o laudo que liberou aquela ratoeira.

O que ele disse


"Quem fala em nome do Brasil, da nação, é o parlamento. Não é ministro do Supremo Tribunal Federal - afirmou o petista, que também atacou integrantes do PSDB, como Aécio Neves e José Serra."
[...]
"Eu optei por lutar, apesar do linchamento e da violência da imprensa. Sabia que era um julgamento do governo Lula, do PT e do nosso projeto."
[...]
"Esses encontros não são uma afronta ao Supremo. É um serviço pela democracia. Não vou baixar a cabeça. Não vou me intimidar."
José Dirceu, ex-ministro condenado pelo Supremo no processo do mensalão, durante o ato "Pela Anulação do Julgamento do Mensalão" que ocorreu na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no Rio,