Nunca se vira coisa idêntica: uma manifestação política conjunta e articulada de atletas contra ignóbeis atos racistas.
Pois o que aconteceu nesta terça (08), em Paris, foi o equivalente ao que aconteceu na NBA.
Paris Saint-Germain e Istanbul Basaksehir disputavam partida válida pela Champions League quando resolveram abandonar o gramado, aos 14 minutos do primeiro tempo, em protesto contra o que consideraram um ato racista: o auxiliar-técnico do time turco, o camaronês Pierre Webó, acusou o 4º árbitro, Sebastian Coltescu, de tê-lo ofendido com uso de termo racista.
O atacante Demba Ba foi quem liderou o movimento. As câmeras flagraram a reclamação dele com o quarto árbitro. "Você nunca diz 'aquele cara branco'. Então por que quando você fala com um cara negro, você tem que dizer 'aquele cara negro'?", disse.
Revoltados, os atletas da equipe turca conversaram por longo período com o árbitro Ovidiu Hategan e, em seguida, abandonaram o gramado no Parque dos Príncipes. O time do PSG se juntou aos protestos durante todo o tempo e também abandonou o gramado. Depois de muita discussão, o jogo acabou adiado para esta quarta-feira.
A partida foi remarcada para esta quarta (09), com novo quarteto de arbitragem.
É um bálsamo vermos jogadores de futebol posicionando-se firmemente contra essas condutas racistas.
Nestes tempos tão estranhos - eu diria mesmo tão estranhamente cruéis - em que vivemos, os eventos mais inacreditáveis já se tornaram banais. E nos fazem reagir com banalidade.
O Supremo, vejam só, acaba de decidir que os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, David Alcolumbre, não podem mais se reeleger, porque a Constituição, no parágrafo 4ª do artigo 57, veda expressamente a reeleição.
Desde ontem, segunda-feira (07), redes sociais e aqueles a quem chamamos de veículos da grande Imprensa estão entupidos, quase congestionados de comentários, artigos, tratados e exegeses saudando a decisão do STF como um marco, uma efeméride digna de se fazer registrar como uma das mais notáveis do mundo jurídico em todos os tempos.
Com todo o respeito, gente, mas o pronunciamento do Supremo, em realidade, é verdadeiramente assustador, tenebroso, horroroso, horrível. Porque foi por 6 votos a 5.
O Supremo, ao debruçar-se sobre uma questão tão evidente - qual seja, a de que o dispositivo da Constituição não enseja qualquer debate, eis que limpidamente claro e cristalino -, ainda exibiu cinco votos contrários.
Esse episódio é como se o STF decidisse, por apenas um voto de diferença, que dois mais dois são quatro.
Ou que decidisse, por apenas um voto de diferença, que a Terra é redonda.
Ou que a água, por sua própria natureza, é líquida.
Ou que no Brasil a gente fala português, e não sânscrito.
Seus ministros consumiram, literalmente, centenas de laudas para defender suas teses.
Entenderam?
O Supremo andou no limite do limite da excrescência, que seria admitir a reeleição, dentro da mesma legislatura, dos presidentes das duas casas do Congresso.
Isso é assustador, repito.
Mas estamos festejando como se fosse uma decisão banal.
Nas redes sociais, viralizam manifestações de bolsonaristas fanáticos, entre eles muitos, mas muitos mesmo, com mais de 60 anos.
Dizem os fanáticos, em português de Portugal, que nunca, jamais, em tempo algum, aceitarão tomar a "vacina do Doria".
No caso dos fanáticos que têm mais de 60 anos e estão proclamando alucinadamente essa idiotice, estou pedindo a cada um que me ceda o lugar na fila.
Porque aceito qualquer vacina.
Absolutamente qualquer uma.
Meu parâmetro de aceitação é um só: que a vacina tenha sido aprovada conforme os padrões da OMS.
Se for assim, aceito a "vacina do Doria", a vacina do fulano, a vacina do sicrano e a do beltrano.
Aceito, tenham certeza, até a "vacina do Bolsonaro".
Nesse caso, porém, só aceito tomar a "vacina do Bolsonaro" se eu tiver uma certeza: a de que Bolsonaro não chegou nem perto do frasco. Porque, se tiver simplesmente se aproximado, a vacina estará contaminada por uma ação externa do próprio Covid-19.
Uma doença que, aliás, pode ser letal e para a qual já existe uma vacina há muito tempo: a verdade.
E a verdade, você sabe, é facilmente distinguível da fake news.
Assista a esse documentário.
É obrigatório assisti-lo.
É obrigatório sobretudo para jornalistas, que às vezes são levados a cair em momentos de profunda desesperança, quando constatam que as próprias fontes de poder abrem suas comportas para que de lá emanem, malcheirosos e às vezes letais, o embuste, o logro, a mentira, a manipulação ideológica e o fanatismo.
Tudo isso embrulhado num pacote só, para ser vendido, a preço de banana, a fanáticos que se ocupam, com disciplina de robôs, a propagar tudo o que não presta como se fosse a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade.
Convenhamos: cenas de cangaço, neste Pará continental, inseguro e com a população submetida a um clima de violência assustador, não é muita novidade.
O que é novidade é vermos, como vimos na madrugada desta quarta-feria (02), o modus cangaço de fazer assaltos sendo praticado, em sua plenitude, em Cametá, uma das maiores cidades, senão a maior, da região do Baixo Tocantins.
Apenas neste ano, segundo dados fornecidos pela polícia, o estado registrou mais dois outros assaltos semelhantes ao ocorrido em Cametá: um em Ipixuna do Pará, em 30 de janeiro, outro em São Domingos do Capim, em 3 de abril. Segundo a Secretaria de Segurança Pública, "praticamente todos os envolvidos" foram presos. Mas de 2017 a 2020, vejam só, nada menos do que 51 assaltos desse foram registrados no Pará.
É simplesmente estarrecedor. Em Cametá, a quadrilha com pelo menos 10 criminosos assaltou uma agência do Banco do Brasil. Usando moradores da cidade como escudo humano, os bandidos atacaram o 32º Batalhão da Polícia Militar do Pará. Um dos reféns morreu. O bando usou armas de alto calibre e explosivos. Consumado o assalto, os bandidos fugiram de carro e, depois, em barcos.
Vejam, no vídeo, cenas aterrorizantes.
O que significam especificamente essas cenas de cangaço?
Significam que, diferentemente dos que agiram em cidades menores, como Ipixuna e São Domingos do Capim, os cangaceiros-bandidos, ou bandidos-cangaceiros, que agiram em Cametá demonstraram um grau de audácia muito, mas muito maior que em ocorrências anteriores.
O fato de um quartel de uma cidade de médio porte no Pará, como Cametá, ter sido alvo da sanha de uma quadrilha bem armada representa um ataque a todo o aparato de segurança disponível para prevenir ou mesmo reprimir situações do gênero.
Ver uma quadrilha que acaba de aterrorizar uma cidade escapar da cena do crime em carros e barcos, como está sendo dito, é algo apavorante porque demonstra o altíssimo grau de planejamento que permeou a ação criminosa e tornou-a exitosa (para os bandidos, é claro). Porque, independemtente dos valores eventualmente roubados do banco), eles conseguiram empreender fuga. Sãos e salvos, deixando para trás uma cidade traumatizada.
Os desafios para o governo do estado se resumem nisto: elucidar o cangaço ocorrido em Cametá, prendendo os membros da quadrilha, e detalhar com maior transparência que elementos poderão ser oferecidos à população sobre quais ações preventivas estão sendo adotadas, sobretudo na área da Inteligência, para evitar que registros do gênero se repitam em outros municípios paraenses. Inclusive os maiores que Cametá.
Sempre achei que falar de forma objetiva, claríssima e sucinta é, sem dúvida, uma arte.
Assistindo a esse vídeo do prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil, eu eu me convenço de que é mesmo uma arte.
Se todos falassem tão objetivamente, tão claramente e tão sucintamente como o prefeito mineiro, os palhaços já teriam se recolhido à própria insignificância, à própria irrelevância e ao próprio déficit de racionalidade e inteligência que os domina.
Ah, sim: os palhaços de que aqui se trata e aos quais, certamente, o prefeito se dirige não são os encantadores palhaços que conhecemos, os palhaços genuínos, aqueles que ainda hoje evocam as nossas melhoras lembranças, sobretudo de infância, quando íamos aos circos e nos encantávamos com eles protagonizando seus shows maravilhosos nos picadeiros.
Não.
Esse palhaços são, verdadeiramente, artistas que merecem a nossa admiração e o nosso carinho.
Os palhaços a que Kalil se refere são indivíduos caricatos, ridículos, destituídos de qualquer senso de inteligência, cruéis, insensíveis e fanáticos.
É justamente a esses palhaços que devemos negar picadeiro.
Porque, se não tiver picadeiro, não teremos esse tipo de palhaço, como disse Kalil.
A reportagem abaixo, publicada pela revista Piauí, foi sugerida ao Espaço Aberto por um de seus leitores assíduos, o fotógrafo Luiz Braga, que dispensa apresentações.
Assinada por João Moreira Salles, é a primeira de uma série sobre a Amazônia que a revista publicará ao longo dos próximos quatro meses, resultado de dois anos de pesquisa e cinco meses de apuraçao na Região Norte.
Um grau de latitude separa Belém da linha do Equador. De dia, o sol fustiga a cabeça, os ombros, o rosto, os postes, as casas, os prédios, as calçadas, os carros, os ônibus. O sol fustiga tudo.
Numa manhã de dezembro de 2019, no bairro Castanheira, um segurança da Igreja Universal do Reino de Deus olhava os carros passarem pela via expressa. No alto da escadaria que leva ao templo, em meio às buzinas, à fumaça e à feiura, lá estava o homem em seu posto, sem nenhuma sombra a protegê-lo. Eram oito da manhã, fazia 36ºC e ele vestia camisa, gravata e terno pretos, com todos os botões do paletó fechados.
Temos visto isso, esse empréstimo disparatado de protocolos criados para outras culturas e outros climas. A incongruência da cena, contudo, não é apenas um verbete a mais no rol das nossas imitações malfeitas. Aquilo é impraticável. O segurança de terno preto debaixo do sol equatorial é viável por muito pouco tempo. Se permanecer ali toda a manhã, desmaia; se não for acudido, morre. O que significa duas coisas: que a paisagem natural já não é capaz de protegê-lo e que a paisagem que a substituiu, construída à custa de muito trabalho, não é aliada da vida.
Em 1848, dois naturalistas ingleses, Henry Walter Bates e Alfred Russel Wallace, desembarcaram em Belém. No livro que Bates publicaria sobre os seus onze anos na região, Um Naturalista no Rio Amazonas – considerado por Darwin a melhor obra de história natural até então surgida na Inglaterra –, ele anota: “Na manhã do dia 28 de maio chegamos ao nosso destino. O aspecto da cidade ao amanhecer era extremamente aprazível.” Pela primeira vez tinha os trópicos diante de si, mas, para surpresa do leitor contemporâneo, Bates não reclama do calor, pelo contrário: “O clima nunca se mostra seco demais, pois jamais decorrem três semanas consecutivas sem algumas pancadas de chuva.” Ele elogia o viço das folhagens e a atmosfera amena da cidade, qualidades que atribui “ao frescor e à sombra proporcionada por sua exuberante vegetação”.
Bates e Wallace logo deram com borboletas. Amarelas, azuis, multicolores, “em quantidades nunca vistas por nós”. Era impossível percorrer os caminhos à beira-rio sem que bandos delas levantassem voo, num espetáculo tão espantoso que Bates achou necessário informar: “O leitor terá uma ideia da diversidade das borboletas se eu disser que podem ser encontradas cerca de setecentas espécies delas numa caminhada de uma hora nos arredores da cidade, ao passo que nas Ilhas Britânicas o número total conhecido não excede 66, e em toda a Europa, não vai além de 321.”
Oitenta anos depois, o escritor Mário de Andrade também esteve na cidade. Em 20 de maio de 1927, ele escreveu em seu diário de viagem: “O calor aqui está fantástico porém o paraense me falou que embora faça mesmo bastante calor no Pará o dia de hoje está excepcional.” O jeito era entrar no banho “de cinco em cinco minutos”. Apesar do calorão que lhe batia na cabeça “que nem um remo”, Mário gostou da cidade e foi se entusiasmando à medida que andava pelas ruas e provava as comidas. Ficou até “lustroso de felicidade”.
A Belém de Mário é muito mais urbana que a de Bates. Ali pouco se fala de flora e ainda menos de fauna, salvo a aprisionada no zoológico do Museu Goeldi. Mário admite ter mais prazer em admirar a natureza do que em descrevê-la, o que ajuda a compreender o sabor essencialmente citadino de suas anotações. Mas é possível que essa sua Belém não seja fruto apenas da sensibilidade de um modernista mais à vontade no concreto das cidades. Em parte, a explicação para que essa cidade tenha se descolado de seu meio natural pode ser encontrada não no diário do escritor paulista, mas nas observações do viajante inglês de meados do século XIX que o precedeu.
Onze anos depois de chegar a Belém e a poucos dias de retornar à Inglaterra, Henry Bates escreveu: “Ao andar pelas matas das redondezas – minhas velhas conhecidas –, notei que tinham sofrido muitas mudanças […] O espesso tapete de plantas rasteiras, arbustos e trepadeiras que em outros tempos – quando os arredores da cidade ainda não tinham sido mutilados pelo machado e a enxada […] – havia sido quase todo arrancado […] As majestosas árvores da floresta tinham sido cortadas, e os restos de seus troncos semicarbonizados projetavam-se do meio das cinzas, das poças de lama e dos montes de galhos partidos.” Desolado, Bates concluiu: “Os naturalistas, a partir de agora, terão de ir muito mais longe da cidade para encontrar o soberbo cenário da selva virgem, que ficava tão perto em 1848; precisarão também trabalhar muito mais arduamente para reunir as grandes coleções que o sr. Wallace e eu conseguimos obter nos arredores do Pará.”
Em Viagens, a polonesa Olga Tokarczuk, Prêmio Nobel de Literatura em 2018, define as “coisas importantes” como “aquelas que são únicas e sobre as quais paira uma terrível ameaça de destruição”. Um artigo sobre a Amazônia bem poderia começar assim.
sol que hoje nasce em Belém bate numa cidade que se separou de sua paisagem. De manhã cedo, a vista do alto de um prédio é de fogo sobre concreto e ferro. Por trás das ondas de calor que o asfalto refrata, surge a silhueta incerta dos espigões, centenas deles, espalhados por toda parte sem ordenamento urbanístico aparente. A cena é cinza, e nela os trópicos foram eliminados. Calhou de a cidade estar ali, poderia estar em outro lugar. A impressão é de que Belém já não sabe onde está.
“Uma cidade com cara de nada”, na expressão do fotógrafo Luiz Braga, que vem documentando sua terra natal há décadas. No plano temático, seu trabalho não se espalha, antes se adensa, para conhecer cada vez mais uma coisa só. Ele retorna, retorna e retorna aos mesmos lugares, como que seguindo a recomendação do explorador norte-americano John Burroughs: se quiser aprender algo novo, refaça o caminho que fez ontem. No passado, Braga fotografou a vida nos bairros ribeirinhos, com seus bares coloridos e paredes em que artistas populares pintavam a floresta. A cidade empurrou várias dessas comunidades para as periferias e muitas sucumbiram ao processo de degradação que marca a vida urbana brasileira. “Voltei a esses lugares e eles estavam bege.” Sumiram as cenas da mata.
A menos que o mar vire sertão e o sertão vire mar - o que não é nada impossível, nestes tempos tenebrosamente difíceis e imprevisíveis em que vivemos -, a professora Izabela Jatene, que exerceu o cargo de titular da Secretaria Extraordinária de Estado de Integração de Políticas Sociais no último governo de seu pai, Simão Jatene, está com um pé fora do PSDB, partido que tem no ex-governador um dos maiores líderes e fundadores no Pará.
As evidências ganharam mais força recentemente, quando Izabela, que é antrópologa e doutora em Ciências Sociais pela PUC-RJ, postou em seu próprio perfil no Instagram uma imagem em que ela e mais 20 professores e professoras de Ciências Sociais da UFPA declaram apoio público ao candidato Edmilson Rodrigues (PSOL), eleito neste domingo (30) para exercer um terceiro mandato de prefeito de Belém.
Izabela, segundo afirmam ao Espaço Aberto fontes seguras, já redigiu a carta em que, formalmente, pede o seu desligamento do PSDB.
A insatisfação, para não dizer revolta, da ex-secretária com o partido agravou-se a um ponto praticamente sem volta em 1º de setembro deste ano, quando quatro deputados tucanos com assento na Assembleia Legislativa - Ana Cunha, Cilene Couto, Luth Rebelo e Victor Dias (na foto) - foram apontados como tendo votado favoravelmente à rejeição às contas de Jatene.
A sessão foi marcada por um acontecimento sem precedentes na história política do Pará: a presença pessoal do próprio ex-governador para defender, da tribuna do Legislativo, a legalidade de suas contas. Mas nem isso foi suficiente para evitar que o plenário as rejeitasse por supostas irregularidades.
Além de apontados publicamente como favoráveis à rejeição das contas, os quatro tucanos ainda exibiram, ostensivamente, outra conduta reveladora de desprezo à figura do ex-governador: nem sequer o cumprimentaram durante todo o tempo em que ele esteve no plenário, ao contrário até mesmo de adversários históricos, que não se dispensaram do dever de civilidade e cortesia, dirigindo-se à Mesa Diretora para cumprimentar Jatene.
Edmilson: mobilização da militância virtual e discurso para descontruir imagem de que é um galo de briga podem explicar sua vitória para governar Belém pela terceira vez
Analistas de resultados eleitorais - os tecnicamente abalizados ou mesmo os especialistas em achismos - não conseguirão jamais, em tempo algum, libertar-do subjetivismo para apontar por que motivo fulano ganhou uma eleição ou por que razões sicrano não se saiu bem nas urnas.
Às vezes, as análises poderão até basear-se em números - como os de pesquisas segmentadas, por exemplo. Mas mesmo, assim os juízos serão meio precários porque, repita-se, impregnados do incontornável subjetivismo.
Por isso é que análises não são nem corretas, nem erradas. Em última análise, análises não passam de um exercício intelectual para tentarmos comprender os fatos que possivelmente - possivelmente, repito - concorreram para a vitória ou para a derrota deste ou daquele candidato.
Analisemos oito fatores que possivelmente concorreram para a vitória de um e, consequentemente, a derrota de outro.
1. Edmilson soube, sobretudo na reta final da campanha, insistir bastante em sua experiência como gestor de Belém por oito ano como um atributo básico que o credenciaria para um novo mandato. Com isso, reforçou a ideia de que não valeria a pena os eleitores exporem-se a riscos elegendo alguém como Eguchi, que nunca administrou nem um boteco de esquina (e olhem que boteco dá trabalho à beça para administrar, viu, gente? Às vezes, dá mais trabalho de administrar do que um País inteirinho).
2. Eguchi, como lembrou esta manhã mensagem de um leitor do Espaço Aberto,que priva das relações do candidato do Patriota -, "pagou pela própria língua": falou demais sobre temas que não domina.
3. Ao apresentar propostas mirabolantes - como tamponar canais e construir um prédio de 20 andares no centro de Belém -, o candidato do Patriota atraiu a rejeição de eleitores mais conservadores, que ainda esperavam ouvir dele explicações mais convincentes, em vez de abordagens marcadas por um empirismo muitas vezes tosco, sem consistência alguma, caricato e ridículo.
4. Boa parte do eleitorado de centro enfastiou-se com o discurso monótono, monocórdio e monotemático de Eguchi, de combater a corrupção. Porque a corrupção é, sim, um mal. Um tremendo mal. Mas não é o único dos males a corroer a eficácia com que deve se conduzir a administração de uma metrópole como Belém.
5. Em vez de agregar apoios de boa parte do eleitorado mais conservador, Eguchi espantou-o quando polarizou seu discurso sobretudo nos últimos dias da campanha, apresentando-se como uma espécie de Bolsonaro ao Tucupi, invocando de forma equivocada, e com aparência de fanatismo, certos valores morais e religiosos como indispensáveis para um gestor sair-se bem como prefeito de uma cidade.
6. Edmilson, muito embora demonstrando falta de frieza e racionalidade diante das estocadas do adversário, acusando-o de atos de corrupção quando governou Belém de 1997 a 2004, conseguiu compensar essa fragilidade fazendo colar em Eguchi a pecha de propagador contumaz de fake news, de um mentiroso compulsivo capaz de fazer qualquer coisa para ganhar a eleição.
7. Edmilson, e por extensão os partidos de esquerda que apoiaram sua candidatura, soube mobilizar sua militância - a profissional ou orgânica, digamos assim, e a militância voluntária - para atuar intensamente nas redes sociais, neutralizando assim a força que a campanha adversária vinha fazendo nesse ambiente desde o primeiro turno.
8. Ainda que sem transmitir tanto convencimento, Edmilson chegou à fase final da campanha caprichando de forma bem mais enfática no discurso para desconstruir a imagem que dele sempre fizeram os adversários: a de um galo de briga (como mencionou José Priante em sua campanha), a de um político irascível, rancoroso, raivoso, radical e intolerante politicamente. Nesse sentido, se não chegou a transmitir a certeza de que já é um Edmilson Paz e Amor, no mínimo indicou que poderá vir a sê-lo.
Esses, reitere-se, são fatores que, na análise do Espaço Aberto, podem ter concorrido para o resultado final destas eleições. E como são fatores subjetivos, você, certamente, terá oito discordâncias. Ou seriam 800?
Discorde, pois.
ATUALIZAÇÃO ÀS 17H:
Como se disse na postagem, às oito razões expostas pelo blog, você, certamente, terá outras oito - ou 800.
Há pouco, leitor assíduo do Espaço Aberto mandou mais três, a seguir:
1- Eguchi fez aquela fala desastrosa de que quem recebe auxílio é vagabundo. Se não disse ou foi montagem, então o marketing do candidato do Patriota deveria ter reagido imediatamente para desfazer essa versão.
2- Juntou-se a políticos no segundo turno , como os vereadores Fabrício e Mauro Freitas , além da Mary, vice do Thiago, todos com o DNA do prefeito Zenaldo Coutinho. E deixou que o Edmilson carimbasse o apoio do prefeito a ele, Eguchi, ainda reafirmando que aceitava apoio de quem quer que fosse .
3- Não atacou o Edmilson no ponto mais fraco: o PT, partido de Edilson Moura, vice na chapa do candidato psolista.
Com 100% das urnas apuradas, Edmilson está com 390.723 votos contra 364.095 atribuídos ao Delegado Federal Eguchi, do Patriota. Em percentuais, o candidato do PSOL obtém 51,76% dos votos válidos contra 48,24% do adversário.
O resultado das urnas, apontando uma diferença de 3,52 pontos percentuais entre os dois candidatos, está muito aquém do apontado por duas pesquisas divulgadas neste sábado (28).
O levantamento do Ibope apontava Edmilson na frente por 16 pontos percentuais - oscilando de 12 a 20 pontos, se considerada a margem de erro de quatro pontos percentuais para mais ou para menos. Praticamente a mesma projeção foi apontada pela aferição do Instituto Acertar.
A pesquisa que acertou o resultado foi a do Instituto Doxa, que apontou um empate técnico entre os dois candidatos, com pequena diferença para Eguchi. Considerada, então, a margem de erro, o levantamento previu corretamente que a vitória de Edmilson por um pouco mais de três pontos de diferença.
Em movimento reverso em relação ao da véspera do primeiro turno, quando disparou, ultrapassou José Priante (MDB) e chegou em segundo lugar, Delegado Federal Eguchi (Patriota) perdeu fôlego e está, em média, 16 pontos atrás de Edmilson Rodrigues (PSOL) em duas pesquisa divulgadas neste sábado (28) sobre a disputa pela Prefeitura de Belém, que será decidida neste domingo (29).
Na pesquisa do Ibope, contratada pela TV Liberal, Edmilson Rodrigues tem 58% das intenções de voto, seis pontos percentuais a mais em relação ao último levantamento. Eguchi, que na aferição anterior aparecia com 48%, num empate técnico com o psolista, caiu para 42%.
A margem de erro na pesquisa, registrada sob o número PA 05866/2020, é de quatro pontos percentuais para mais ou para menos e foi feita no período de 26 a 28 de novembro, entre 602 eleitores.
Em outra pesquisa, feita pelo Instituto Acertar, Edmilson aparece com 58,3% dos votos válidos, enquanto Eguchi (Patriota) está com 41,7%. A margem de erro é de 3,5% para mais ou para menos.
Contratada pelo jornal Diário do Pará, a pesquisa foi registrada sob o número PA-09015/2020 e ouviu 820 pessoas no período de 25 a 27 de novembro.
Em decisão liminar, proferida no final da noite de ontem, a juíza Mônica Maciel Soares Fonseca proibiu a empresa Eco Consultoria Empresarial Ltda. - Ecodatta de divulgar o resultado de pesquisa registrada sob o nº 09301/2020, que aponta o candidato do Patriota, Delegado Federal Eguchi, à frente de Edmilson Rodrigues (PSOL) na disputa pela Prefeitura de Belém. Em caso de desobediência, a magistrada estipulou multa de R$ 50 mil.
A decisão decorreu de representação formulada pelo candidato a vereador Marco Antonio Barros, alegando que o levantamento apresenta indícios de ser fraudulento.
"Em pesquisa ao site do TSE - Sistema de Pesquisas Eleitorais, verifica-se haver ainformação somente de que os recursos foram próprios, com nota fiscal no valor de R$ 8.000,00, sem, no entanto, indicar a procedência da disponibilidade financeira, o que contrariao citado artigo da Resolução do TSE e no art. 33, inciso II, da Lei Eleitoral", fundamenta a juíza.
A advogada e ex-presidente da OAB-PA Avelina Hesketh divulgou, nesta quinta-feira (26), uma nota em que desmente informações sobre o envolvimento de seu nome no que ela classifica de "campanha para desacreditar" o candidato do PSOL a prefeito de Belém, Edmilson Rodrigues.
Na nota, a advogada diz que deu parecer concluindo pela legalidade na aquisição de livros didáticos durante o governo de Edmilson e acrescenta que o então prefeito "sempre agiu de forma republicana, prestigiando a Ordem dos Advogados do Brasil, as prerrogativas dos advogados e advogadas e o Estado Democrático de Direito".
O prefeito de Altamira , Domingos Juvenil, foi solto por volta das 20h desta quinta-feira (26), após ter sido preso um dia antes durante a Operação "Prenúncio", deflagrada pelo Ministério Público do Pará no âmbito de investigações sobre supostas fraudes em processos licitatórios que teriam lesado os cofres do município em R$ 10 milhões.
Juvenil, um dos maiores quadros do MDB no estado, já tendo disputado, inclusive, o governo do estado no ano de 2010, foi preso porque policiais e promotores que participaram da operação encontraram na casa dele uma arma com posse legal não comprovada.
Mas o que impresiona foi o montante de dinheiro em espécie que Juvenil guardava em casa: R$ 726 mil. A soma, verdadeiramente espantosa para os padrões paraenses em casos de supostas condutas de improbidade - e ainda mais se tratando de um prefeito de município -, é a maior já encontrada nos últimos anos na residência de um investigado.
Dinheiro pelos Correios - Uma reportagem da TV Record de Altamira, disponível no canal da própria emissora no YouTube (veja acima), mostra em detalhes a ação policial no interior da casa de Juvenil, com destaque para o volume de cédulas encontradas. E informa, com base em dados fornecidos pelos investigadores, que o prefeito recebia dinheiro até em caixa, "que aparentemente foi entregue pelos Correios", confome diz o repórter.
Segundo apurou pelo MPPA, há 20 anos a empresa Arapujá Ltda., aparentemente, só presta serviços para a municipalidade, sempre nos mandatos de Domingos Juvenil, de tal forma que a história da empresa confunde-se com o próprio histórico de mandatos do atual prefeito à frente do executivo.
A investigação não encontrou registros ART de prestação de obras ou serviços pela empresa a nenhum outro tomador. A Arapujá também nunca juntou aos certames licitatórios analisados, recheados de flagrantes ilicitudes, nenhum atestado de capacitação assinado por outra pessoa, física ou jurídica, senão a própria Prefeitura de Altamira.
O núcleo contábil do Ministério Público do Estado constatou, mediante a análise de sistemas e dos documentos enviados pela Prefeitura Municipal, que já houve, em valores atualizados, o pagamento de R$11.019.115,83 para a empresa Arapujá nos últimos seis anos, sendo que, há provas de que nem um centavo foi repassado de forma lítica.
“Trata-se de grandioso desvio de verbas públicas praticado, como já demonstrado, há cerca de 20 anos. Contudo, a investigação não conseguiu, pelo decurso do tempo, alcançar datas tão remotas, de modo que este valor é apenas o referente às quatro licitações investigadas, retroativas ao ano de 2014”, explica na ação civil o promotor de Justiça Danile Bona.
O requerimento de liminar pelo MPPA para deferimento de indisponibilidade dos bens visa garantir o ressarcimento dos prejuízos causados aos cofres públicos, decorrentes das licitações fraudulentas e dos contratos administrativos nulos daí decorrentes, no valor de R$ 33.057.347,40.
Mostra Doutor Eguchi, candidato do Patriota aspirante a prefeito de Belém, sendo alvo de protestos de feirantes do Ver-o-Peso, quando fazia campanha por lá.
Eguchi no Veropa é mais ou menos como um astronauta no Palácio de Buckingham.
O Ver-o-Pará um mundo estranho a Eguchi, porque frequentado por trabalhadores.
O Palácio de Buckingham é um mundo estranho para astronautas. Mesmo os que já pisaram, literalmente, no solo lunar.
A passagem de Eguchi pelo Veropa me trouxe à mente um dos episódios de The Crown, a série magistral, disponível na Netflix, que traça um panorama da história da Inglaterra nas últimas cinco décadas do reinado de Elizabeth II.
Um dos episódios mostra o Príncipe Philip vivendo uma crise existencial, que o levou a acreditar que a capacidade humana de realizar feitos fantásticos, magnifícos, fenomenais expressava-se não com amparo também em qualidades espirituais e morais, mas em ações. Puramente ações.
Philip ficou encantado, para não dizer hipnotizado, com a jornada dos americanos Armstrong, Collins e Aldrin, que estiveram na Lua, em 1969, na Missão Apollo 11.
Quando os três visitaram o Palácio de Buckingham, pouco depois de retornarem da aventura espacial, Philip exigiu uma audiência privada dele com os três.
O príncipe esperava-se que fosse ouvir dos astronautas narrações grandiloquentes, fantásticas, heroicas, dignas das aventuras mais fascinantes, sobre a experiência que tiveram no espaço.
E pediu para falarem das "perspectivas", para descreverem as observações que fizeram do "nosso lugar", como disse Philip, referindo-se à Terra.
Em The Crown, astronautas no palácio: foi apenas o refrigerador de água
"Bam, bam, bam, bam" - Eis que Armstrong narra singelamente sua experiência.
- Bem, depois de terminar a caminhada [na Lua], voltei para o módulo e sabia que tínhamos poucas horas para descansar antes de decolarmos de novo. Então abaixei a cabeça, fechei os olhos, mas só ouvi um barulho; bam, bam, bam, bam.
- O quê? De fora do módulo? - pergunta o príncipe, olhos arregalados, à espera de uma revelação fenomenal.
- Era o refrigerador de água. Fazia esse barulho; bam, bam, bam - completa Armstrong.
Phillip, totalmente desconcertado, dá uma risadinha, frustrado com aquela experiência tão sem graça, tão pequena, tão banal, tão destituída de qualquer traço de heroísmo.
E aí?
E aí que, terminada a audiência, Armstrong, Collins e Aldrin saíram em disparada para fazer fotos no Palácio, perfeitos tietes, animados, encantados e hipnotizados com toda a opulência, a riqueza e a majestade expressas na residência da família real britânica.
O Palácio de Buckingham era, aquele assim, um mundo totalmente estranho para os astronautas. Mais mágico, mais encantador, mais deslumbrante do que a Lua, que eles haviam acabado de visitar em carne e osso.
A mesma coisa o Ver-o-Peso para o candidato do Patriota.
Eguchi, com Rita e Flexa: o Ver-o-Peso é um mundo que lhe é estranho
Eguchi e o trabalhador - Antes do primeiro turno, quando foi entrevistado pelos repórteres Rita Soares e Evandro Flexa, o delegado sentenciou, do alto de sua extrema sensibilidade e de suas elevadas laborações mentais, sobre como sua cartilha ensina acerca da divisão do trabalho.
- Eu estou vendo aí o senhor falar só de patrão. Fecomércio, Fiepa... - provocou Rita.
-... Que são geradores de riqueza e de empregos - emenda Eguchi, triunfante.
E ainda continou, impávido no seu colossal raciocínio: "Quem vai transformar Belém não é o trabalhador, é o empresário. O trabalhador vai entrar com o serviço ou o emprego dele. Mas o patrão é que vai gerar riqueza.
- Há divergências. Pode ser o trabalhador que gera riqueza - Rita ainda divergiu.
Mas não teve jeito. A formulação, a tese, a concepção, a elucubração - sabe-se lá o que foi aquilo - de Eguchi já estava consumada.
E daí ele foi ao Veropa.
Aquilo ali, para Eguchi, deve ser o microcosmo do negacionismo econômico.
O Ver-o-Peso, um ambiente essencialmente de trabalhadores, muitos batalhando bravamente, diariamente e honradamente para manter o seu sustento e de suas famílias, o Veropa, enfim, é um nicho menor, é um teatro de coadjuvantes, é um centro que não gera riqueza.
Porque riqueza, para Eguchi, deve ser apenas a riqueza de bilionários, e não a riqueza vista como a aferição de renda que o trabalho gera em todos os segmentos sociais, favorecendo tanto os que, como Eguchi, têm um salário muito bom, compatível com suas funções de policial federal, como favorecendo também os feirantes, que dão um murro danado para conquistar o mínimo que lhes permita viver com pouco, mas dignamente.
O Ver-o-Peso, nesse contexto, é um mundo desconhecido para Eguchi, porque povoado de trabalhadores. Talvez o delegado tenha ido à feira para submeter suas teses a uma experimentação prática. Mas deu no que deu.
E Eguchi deve ter ido embora do pedaço confirmando que o seu mundo é o dos empresários.
Para Eguchi, o mundo deslumbrante, encantador, quase hipnótico é o mundo de empresário gerando riqueza, e não de trabalhador, que também gera riqueza, ora. Mas não a riqueza no sentido como a entende o delegado.
O Ver-o-Peso é um mundo estranho para o Delegado Federal Eguchi.
Da mesma forma como o Palácio de Buckingham foi um mundo estranhíssimo, ainda que fantástico, para Armstrong, Collins e Aldrin.
Choca, sobretudo, os que gostam de ver um artista engajado nos temas políticos de seu tempo, abordando-os de peito aberto, consciência límpida e língua afiada.
A morte de Maradona choca, portanto, todo mundo.
Inclusive os que abjetam futebol, ao ponto de, literalmente, não fazerem sequer questão de saber a cor da bola.
Maradona foi o gênio da bola que era capaz de negar até mesmo suas concepções mais íntimas apenas pelo desejo de polemizar, de dizer o que se achava no direito de dizer - claramente, objetivamente, sem meias palavras.
Maradona foi o artista que, na sua dimensão humana, consternou o mundo em sua luta - atroz, atropelada e inconstante, mas heroica - para superar o horror do vício da dependência química.
Por tudo isso, não há dúvida: as pessoas sempre vão amar Maradona.
O candidato a prefeito de Belém pelo Patriota, Delegado Federal Eguchi, tem insistido nesta campanha, um minuto sim, outro minuto também, que seu governo, caso ele seja eleito, será o mais transparente, o mais moralmente cristalino, o mais incorruptível, como nunca, jamais, em tempo algum existiu na face da Terra - inclusive da Terra plana, não esqueçam.
Como já se disse aqui no Espaço Aberto, quando ouvimos Eguchi falar, temos a impressão de que ele dorme, tem pesadelos com corruptos tentando algemá-lo e, ao acordar, antes mesmo de espreguiçar-se, salta da cama gritando: "Pega o ladrãããããoooooo!". E sai correndo pela casa à procura de corruptos para algemá-los.
Mas o conceito de Eguchi sobre corrupção, parece, é estanque: ele considera corrupto apenas quem mete as mãos cofres públicos adentro, para de lá roubarem o que for possível roubar.
Engana-se o candidato do Patriota: corrupto, num conceito mais largo, é aquele que corrompe. Corromper a verdade, portanto, é corrupção. E dependendo das intenções com que isso for feito, é corrupção da grossa, como se diz.
Eguchi, o mesmo que já prometeu tamponar os canais de Belém e construir um edifício de 20 andares na área onde funcionou a extinta Palmeira, no centro da cidade, acaba de corromper a verdade mais uma vez, ou de estuprá-la por completo, ao falar de seus planos de governo.
Ônibus em Fortaleza - Em entrevista nesta segunda-feira (23) a Marcelo Marques, editor do Portal Bacana News, Eguchi disse que a tarifa de ônibus em Fortaleza é de R$ 0,36. Tentem ouvir, na imagem acima, a partir dos 10 minutos de entrevista. O áudio, infelizmente, está muito baixo, mas, se você puser um fone de ouvido e aumentar o volume do seu computador ao máximo, poderá ouvir perfeitamente.
Marcelo faz um questionamento a Eguchi sobre as razões que teriam os eleitores de Belém para acreditar que a promessa dele, de climatizar os ônibus, será realmente cumprida. O candidato começa a responder que todos podem acreditar nisso porque ele é delegado federal, foi representante do Brasil na Interpol e sua palavra vale mais do que qualquer documento assinado, como se esses fossem requisitos para acreditarmos que ele, uma vez eleito, fará a terra virar mar e o mar virar terra.
"Em Fortaleza, você acabou de citar Fortaleza, você sabe quanto é uma passagem de ônibus em Fortaleza? Trinta e seis centavos. Lá tem ar-condicionado, lá tem pontos de ônibus de primeira qualidade, lá os ônibus são novos", diz o candidato.
De onde Eguchi arrancou essa informação? Onde a viu? Onde leu? Ele já andou de ônibus em Fortaleza? Se andou, pagou a própria passagem ou pagaram pra ele?
O Espaço Aberto foi checar, há pouco, no site da Prefeitura de Fortaleza. Clique aqui. Quando clicar, você vai ver a imagem que aparece ao lado, indicando claramente as tarifas de ônibus na capital cearense. Ainteira, no início deste ano, passou de R$ 3,40 para R$ 3,60 e a tarifa estudantil, de R$ 1,50 para R$ 1,60.
Como se pode ver, existem as tarifas de R$ 0,50 (inteira) e R$ 0,25 (estudantil). Mas essas são as tarifas da Linha Central. O que é a Linha Central? É uma linha que circula pelas principais vias de comércio. Pela janela, durante o caminho, é possível observar a Catedral, o Passeio Público a Praça da Estação, o Parque da Criança, entre outros atrativos turísticos de Fortaleza.
Se a menção de Eguchi foi à tarifa da Linha Central, talvez o candidato, quando fez isso, não estivesse totalmente antenado, depois de passar uma noite insone, caçando milhares de ladrões em seus pesadelos. Porque não há sentido em comparar a circulação de ônibus que fazem o trajeto normal com o de um ônibus que se limita a rodar em poucas ruas de uma cidade.
Fake news - Essa não é a primeira vez que o candidato do Patriota propaga inverdades durante esta campanha. Tomara que seja a última, mas seguramente não é a primeira. Na semana passada, a juíza eleitoral da 1ª Zona, Suayden Fernandes Silva Sampaio, notificou o Facebook a excluir, em 24 horas, postagem com imagens e mensagens ofensivas ao candidato à prefeitura de Belém, Edmilson Rodrigues (PSOL), promovidas no perfil “delegadofederaleguchioficial” e configuradas como “calúnia eleitoral”.
Na decisão, a magistrada ressalta que o perfil do candidato promove postagens que “extrapolam dos limites da liberdade de expressão e da manifestação do pensamento e, de fato, caracterizam ofensa à imagem, à honra e à dignidade do candidato. Daí a necessidade da intervenção da Justiça Eleitoral para coibir e fazer cessar tais abusos e ofensas”.
Eguchi vai se retratar de mais uma inverdade que ele propaga? Vai adotar conduta assertiva, para desfazer a corrupção da verdade, que ele promove? Vai explicar direito o que foi mesmo que quis dizer? Vai dizer que, nas suas contas, R$ 0,36 é a mesma coisa que R$ 3,60?
Sob encomenda da TV Liberal, a pesquisa, registrada na Justiça Eleitoral sob o número PA‐08277/2020, aponta Edmilson com 45% das intenções de votos e Eguchi, com 43%. O índice de votos em branco/nulos soma 8%. E 4% disseram que não sabem ainda em quem vão votar ou votarão nulo.
Como a margem de erro é de quatro pontos percentuais para mais ou menos, temos Edmilson na faixa de 41% a 49% e Eguchi, podendo variar de 39% a 47%. Portanto, ambos encontram-se tecnicamente empatadados, seis dias depois das eleições do último domingo.
Realizada no período de 18 a 20 de novembro, a pesquisa ouviu 602 eleitores. O Ibope informa que o nível de confiança utilizado é de 95%. Isso quer dizer que há uma probabilidade de 95% de os resultados retratarem o atual momento eleitoral, considerando a margem de erro.
Eguchi agrega mais - Se comparamos os números da pesquisa do Ibope com o resultado da pesquisa das urnas, no último domingo, chega-se à conclusão de que o candidato do Patriota está agregando muito mais votos do que seu adversário.
No primeiro turno, Edmilson Rodrigues ficou em primeiro, com 34,22% dos votos válidos, enquanto Eguchi, o segundo, obteve 23,06%. Os dois somaram, portanto, 57,28%. Os restantes 42,72% pulverizaram-se entre os outros 10 candidatos que disputaram a Prefeitura de Belém.
Do total de 42,72%, cerca de 20% foram carreados para Eguchi (que tem agora 43% pelo Ibope) e apenas 11% para Edmilson, que aparece com 45%, apenas dois pontos percentuais acima do adversário, conforme apontado na aferição do Ibope. Considerados, portanto, os votos de 42,72% que não votaram nem em Edmilson, nem em Eguchi no primeiro turno, o candidato do Patriota está agregando praticamente o dobro de preferências em relação ao psolista.
Mas as previsões é de que, seja lá quem for o primeiro posicionado até o próximo domingo, as eleições em segundo turno em Belém devem ser uma das mais disputadas dos últimos anos.
O juiz Raimundo Santana, da 5ª Vara da Fazenda e Tutelas Coletivas da Capital, proferiu decisão liminar determinando o bloqueio de bens de uma empresa e cinco pessoas acusadas de cometer crimes ambientais.
Os réus são a Tecniflora Ltda. ME, Eduardo Yasuji Martins Eguchi, Michele Frias Eguchi, Edelcio Malcher Dias, Evangelista Oliveira da Silva e Eduardo Costa Coelho, alvos de ação civil pública ajuizada pelo estado do Pará.
A afirmação de Edmilson, no entando, foi equivocada, porque Eduardo Eguchi não chegou a ser preso, mas era mencionado nas investigações policiais que estavam sendo feitas. O próprio candidato do PSOL retratou-se dessa afirmação, com um pedido de desculpas (veja ao lado).
Agora, a Justiça, concretamente, emitiu uma decisão liminar, assinada pelo juiz Raimundo Santana no dia 11 de novembro, bloqueando bens dos réus, entre eles o do irmão do candidato do Patriota. O processo continuará a ser instruído normalmente, não sendo possível estimar-se, no momento, quando será proferida a sentença absolvendo ou condenando os réus.
Fraudes -Na ação (Processo nº 0846917-52.2020.8.14.0301, distribuído no dia 31 de agosto deste ano), o estado do Pará alega que foi concedida para a empresa ré Autorização para Exploração Florestal (AUTEF nº 2281/2012) de uma Unidade de Produção Anual Único (UPA Única/POA Unificado) de 5.164,7565ha, com volume total demadeiras em tora de 151.943,4766 m³.
No entanto, diz o autor da ação, depois da fiscalização do órgão ambiental, no ano de 2013, teriam constatadas no empreendimento “inúmeras irregularidades técnicas na execução do plano de manejo, dentre as quais, a mais grave foi a comercialização de 151.819,3389m³ (99,91% do total autorizado) dos créditosflorestais sem que houvesse extração que coincidisse com o valor comercializado. Ou seja, houve a pura venda de créditos florestais para terceiros, método conhecido para 'esquentar' madeira ilegal, talvez a maior fraude deste tipo cometida no Estado do Pará".
"Há, de fato, a demonstração prévia de que houve infrações de natureza administrativa e (talvez até penal), cuja repercussão também poderá ser aferida nocampo civil. Afinal, o desmatamento realizado irregularmente constitui ilícito flagrante àordem jurídica, especialmente quando é sucedido por vários relatórios de fiscalização e procedimento administrativo. Aliás, mesmo depois de instaurado o procedimento, peloórgão ambiental, os responsáveis pelo empreendimento não apresentaram qualquer recurso administrativo, denotando o seu desinteresse em esclarecer e/ou refutar asimputações", escreve o magistrado na decisão liminar.
Ambos os candidatos, que aspiram a governar Belém a partir de 1º de janeiro de 2021, foram decepcionantes.
Eguchi mostrou-se vago, supérfluo, superficial e, muitas vezes, indefinível em relação a que pretende fazer, caso eleito.
Além disso, reafirmou sua propensão a virar um monotemático folclórico. Ele só fala em combater corrupção. Estamos a ponto de alguém perguntar a Eguchi para que time ele torce, e o candidato responder que vai combater a corrupção. Nada a ver uma coisa com a outra.
Vendo Eguchi falar, temos a impressão de que ele dorme, tem pesadelos com corruptos tentando algemá-lo e, ao acordar, antes mesmo de espreguiçar-se, salta da cama gritando: "Pega o ladrãããããoooooo!". E sai correndo pela casa à procura de corruptos para algemar.
Já Edmilson, pela experiência que tem, e indepedentemente dos méritos ou deméritos dos oitos anos em que já administrou Belém, perdeu as estribeiras, descontrolou-se visivelmente diante das provocações de Eguchi.
Edmilson, como político de longa trajetória, sabia que as provocações sobre o fato de ter sido ele condenado em primeira instância - num processo que no momento está em grau de recurso - seriam levantadas. Isso era tão certo como dois e dois são quatro.
Sabedor da provocação inevitável, deveria reagir da forma mais racional possível. Como? Respondendo conforme o padrão previsto na cartilha: que o processo continua e que, ao final, "provarei minha inocência". É o que todos dizem. Porque isso é o indicado a dizer em ocasiões como a de um debate.
Mas não.
O candidato do PSOL, visível e ostensivamente, descontrolou-se e, no afã de responder a uma provocação com outra provocação, acabou fazendo, no calor da hora, uma afirmação descabida: a de que um irmão de Eguchi teria sido preso por suposto envolvimento em crimes ambientais.
Com isso, não apenas propagou uma inverdade como tornou banais as qualificações que insistiu em colar no adversário durante o debate: o de ser Eguchi um propagador contumaz de fake news.
Essa afirmação foi tão descabida que o candidato do PSOL viu-se na obrigação de desmentir-se e pedir desculpas ao adversário (veja imagem ao lado), uma atitude, sem dúvida alguma, digna, mas insuficiente para evitar que os adversários ignorem o pedido de desculpas e prefiram dar prevalência à afirmação inverídica.
Com sua experiência de administrador, Edmilson, no tempo livre de que dispôs para questionar Eguchi, poderia desmontar, destroçar completamente propostas inacreditáveis do candidato do Patriota, como a de tamponar canais de Belém e construir um edifício de 20 andares no lugar onde funcionou o prédio da Palmeira, no centro da cidade. Mas desperdiçou a oportunidade de fazê-lo.
Espera-se mais, muito mais, dos dois candidatos nos próximos debates. Se é que haverá próximos debates.
Mas, escolados que somos, não esperemos tanto como esperamos do debate de ontem.
Convém que conformemos nossas expectativas ao que Edmilson e Eguchi demonstraram ontem.