quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O que ele disse


"Esse senhor foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal, pelos 11 ministros do STF. Eu não tenho costume de dialogar com réu. Eu não falo com réu", disse Barbosa, ao chegar a Londres. "Não faz parte dos meus hábitos, nem dos meus métodos de trabalho ficar de conversinha com réu."
[...]
"Eu tenho algo a dizer: eu acho que a imprensa brasileira presta um grande desserviço ao país ao abrir suas páginas nobres a pessoas condenadas por corrupção. Pessoas condenadas por corrupção devem ficar no ostracismo. Faz parte da pena."
Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal Federal, respondendo às críticas do deputado João Paulo Cunha (PT-SP), publicada na Folha, de que tem feito "pirotecnia" em relação a seu mandado de prisão no esquema do mensalão.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Um olhar pela lente


Borboletas em dupla.
A foto é de Emir Bemerguy Filho.

Decisões sobre rolezinhos beneficiam shoppings de Cuiabá e Niteró


Os chamados "rolezinhos" continuam dando trabalho para a Justiça. Na semana passada, a 2ª câmara Cível do TJ/MT proibiu os integrantes do Bonde do Rolezinho de praticar qualquer ato desordeiro nas dependências do Pantanal Shopping, em Cuiabá. No RJ, a juíza da 10ª vara Cível de Niterói, Daniela Ferrão Rodrigues Alves, também impediu que os participantes do "2° Rolezinho do Plaza: Acabou o amor, o teu shopping vai virar favela" tumultuassem o Plaza Shopping.
A desembargadora Clarice Claudino da Silva, relatora em substituição do processo do Pantanal Shopping, disse na decisão que o direito à livre manifestação e o direito à livre locomoção de uns não podem atingir o direito de propriedade e o direito ao livre exercício da profissão de outros. "Os direitos e as garantias não podem servir de subterfúgio para a prática de atos de vandalismo em espaços privados, colocando em risco a incolumidade dos frequentadores do local e da propriedade particular", destacou.
Segundo ela, não se trata de impedir o direito de manifestação, mas sim de impor limites e penalidades que inibam a ação daqueles que extrapolarem as suas garantias individuais. "Nota-se que grupos de pessoas, valendo-se do direito de manifestar seus pensamentos e ideologias, já promoveram aglomeração com finalidades outras, transformando o momento que deveria ser de lazer e alegria, em ato de depredação, vandalismo e subtração de bens, em franca violação ao direito de propriedade", acrescentou.
No mesmo sentido, a juíza Daniela, julgadora do processo do Plaza Shopping, afirmou que "não se pretende impedir o direito de manifestação, mas apenas que este seja exercido dentro dos limites constitucionais e em conjunto com os demais direitos, também constitucionais, envolvidos".
Para a magistrada, "a admitir-se tal manifesto estar-se-ia colocando em risco a integridade física de eventuais consumidores que possam estar no local, ante a possibilidade da presença de famílias que, no desfrute do seu lazer, se façam acompanhar de suas crianças e idosos, como se verifica nos shoppings em finais de semana".
Em ambos os casos a multa em caso de descumprimento da decisão foi fixada em R$ 10 mil por manifestante identificado.
  • Processo Pantanal Shopping: 5271/2014
Veja a íntegra da decisão.

Charge - Jarbas


Charge para o Diário de Pernambuco.

A pergunta do dia

 

Isso representa quantos votos a menos nas eleições de outubro?

Na tela - As Irmãs


De Rembrandt (1606-1669).

PT de olho em Helenilson Pontes

Petistas, por aqui e por aí, vão ficar atentos a todos os movimentos do governador em exercício, Helenilson Pontes.
Consideram que Helenilson, filiado ao PSD, o partido de Gilberto Kassab que é aliado do Palácio do Planalto, fará todos os proselitismos possíveis e imagináveis junto ao governo federal e, por extensão, aos petistas paraenses, no que poderia ser o início da construção de uma ponte nem tão longa demais para atrair o PT para eventuais - ainda que implausíveis - planos de aliar-se aos tucanos para o pleito de outubro vindouro.
Qual a intenção primeira de Helenilson, na leitura dos petistas?
A intenção é óbvia: fazer com que o partido pense duas vezes antes de firmar uma aliança com o PMDB, que garantiria uma chapa formada pelo peemedebista Helder Barbalho para o governo do Estado e pelo petista Paulo Rocha para o Senado.
Sim, os petistas - até mesmo os que não engolem a aliança PMDB-PT no Pará - concordam que é iminente uma aliança entre as duas agremiações, mas acham que não custa nada ficar de olho em Helenilson.
Tipo assim como uma marcação cerrada.
Ou marcação em cima, como se diz no futebol.

Com cartolas assim, o fundo do poço estará sempre à vista

Estão vendo só por onde anda a capacidade de gestão dos cartolas paraenses?
Estão vendo a que alturas desandam as estratégias dos cartolas de Remo e Paysandu para faturar na bilheteria, que ainda é a fonte mais preciosa - para não dizer a única - de arrecadação dos clubes paraenses?
No Re-Pa de domingo último, foram vendidos exatos 16.854 ingressos. O Remo teve direito a 63% da renda líquida, no valor de R$ 323.683,43, equivalente à comercialização de 10.006 bilhetes.
O Paysandu faturou 37%, o equivalente a R$ 179.483,42 pela venda de 6.848 ingressos. A renda total do clássico foi de exatos R$ 686.40,00, segundo dados registrados no borderô oficial.
O que isso quer dizer? Que não há lógica para que, num jogo reunindo as duas maiores torcidas do Pará, o primeiro do ano, com atrações que incluíram Eduardo Ramos, o camisa 33 do Leão, jogando pela primeira vez contra seu ex-clube, não há a menor lógica, portanto, que apenas 10 mil remistas tenham comparecido ao Mangueirão.
Mas a lógica surge à luz do sol quando sobressai o fato de que os ingressos das arquibancadas foram majorados em 100% - isso mesmo, 100% - em relação ao primeiro clássico disputado no ano passado.
E aí, meus caros, ficamos naquela de que uma coisa é a paixão de remistas e bicolores por seus respectivos clubes; outra coisa, completamente diferente, é a disponibilidade financeira de que dispõem para pagar R$ 40 por uma arquibancada.
Os cartolas haverão de aprender com esse erro e baixar os ingressos para os próximos clássicos?
Hehehe.
Acreditem vocês que sim.
Se vocês quiserem acreditar, é claro.

Incra terá até 4 anos para regularizar terras de quilombolas

A Justiça Federal estabeleceu, em liminar concedida nesta segunda-feira (27), o prazo de dois a quatro anos para que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) conclua a regularização de terras onde vivem 14 comunidades quilombolas (remanescentes de escravos) nos municípios de Salvaterra, Cachoeira do Arari e Curralinho, na região do Marajó (PA). Ainda cabe recurso ao Tribunal Região Federal da 1ª Região, em Brasília (DF).
Na decisão (veja aqui a íntegra), o juiz federal substituto da 5ª Vara, José Flávio Fonseca de Oliveira, considerou que o prazo de dois anos, requerido pelo Ministério Público Federal na ação civil pública que ajuizou, deverá ser obedecido pelo Incra apenas em dois dos 14 processos de regularização que já se encontram em fase mais adiantada, como aqueles que apresentam Relatório Técnico de Identificação e de Delimitação (RTID). Em relação aos outros casos, o magistrado considerou que quatro anos é “prazo suficiente para a tramitação das demais fases dos processos administrativos”.
Na ação proposta perante a 5ª Vara, o Ministério Público informou que existem 1.286 processos no Incra para a regularização fundiária de terras ocupadas por remanescentes de escravos, mas até agora teriam sido concluídos apenas 2,41% desses processos, o equivalente a 31 títulos de propriedade emitidos. Em relação aos 14 processos que envolvem quilombolas de Salvaterra, Cachoeira do Arari e Curralinho, o MPF sustentou que estão parados há pelo menos dez anos. A ausência de regularização fundiária das terras, acrescentou o Ministério Público, tem incentivado a atração de novos investidos à região, colocando-os sempre em vantagem nos litígios com os povos tradicionais da região.
O Incra considerou que os procedimentos para a regularização das terras são complexos, daí não se caracterizar a existência de demora excessiva, conforme alegado pelo MFP. Disse ainda que não haveria possibilidade de cumprir todos os procedimento no prazo de 24 meses e relatou que os 14 processos que deram causa à ação ajuizada pelo Ministério Público estão em fases diferenciadas, encontrando-se com a tramitação paralisada apenas os que aguardam parecer da Fundação Cultural Palmares. Informou ainda que está priorizando os processos relativos à regularização das terras quilombolas da Ilha do Marajó e disse que não pode ser responsabilizado por certos atos do procedimento, porque a desapropriação é ato privativo da Presidência da República.
“Injustificável” - Mesmo diante dos argumentos do Incra, o juiz federal José Flávio de Oliveira classificou de “injustificável” o atraso na tramitação dos processos de regularização. Dos 14 processos listados pelo MPF, ressaltou o magistrado, apenas um foi autuado em 2004, cinco foram autuados em 2005, um em 2006 e sete no ano 2007. Fica comprovado, afirma a decisão, “que o caminhar desses processos é nitidamente muito vagaroso, o que demonstra violação ao princípio da duração razoável do processo , garantia constitucional de aplicação a todos os ramos dos Poderes da República, não se desincumbido o réu (Incra) de demonstrar que o atraso não decorre de suas precárias estruturas de trabalho, o que também não seria justificativa, vez que, com a presença da União no polo ativo, também há responsabilidade por esse atraso, se se admitisse que é por falta de recursos públicos ou ausência de força de trabalho, que não é o caso.”
Ao constatar o que chamou de “flagrante atraso na delimitação das propriedades dos remanescentes das comunidades de quilombos”, o juiz federal da 5ª Vara se disse convencido que isso caracteriza “descaso das autoridades envolvidas e violação dos direitos humanos dessas populações, que são remanescentes de sistema de direito que permitia a escravidão e, atualmente, são excluídos sistematicamente de acesso aos bens mais primários, inclusive o acesso à terra, merecendo a atuação pronta e rápida dos poderes públicos.”
José Flávio de Oliveira entendeu, porém, que não será preciso aplicar multa diária de R$ 1 mil ao Incra, em caso de descumprimento da liminar. “Quanto à aplicação da multa diária, não se afigura necessária, nem há justificativa para tanto, porque a mora (demora) já existente não descumpriu nenhuma decisão judicial, embora seja violadora de outros comandos jurídicos”, fundamentou o magistrado.

MPF lança Campanha de Combate ao Trabalho Escravo

Nos últimos anos, o Ministério Público Federal tem intensificado os esforços para garantir maior eficiência na punição do trabalho escravo. De 2010 para cá, houve um aumento de mais de 800% nos procedimentos extrajudiciais instaurados. Houve, ainda, um crescimento quase dobrado do número de ações penais autuadas. Ambos relativos ao crime tipificado no artigo 149 do Código Penal, que é a redução da pessoa a condição análoga à de escravo. Esses e outros dados da atuação do MPF serão apresentados no Ato Público Contra a Escravidão Contemporânea, que será realizado nesta terça-feira, 28 de janeiro, a partir das 14h, na Procuradoria Geral da República, em Brasília. Na oportunidade, também será lançada a Campanha pelo Combate ao Trabalho Escravo.
O ato é promovido pela 2ª Câmara de Coordenação e Revisão do MPF, com a participação da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC) e a presença de diversas organizações da sociedade civil e órgãos públicos ligados ao combate ao trabalho escravo no Brasil. No MPF, a 2ª Câmara coordena a atuação no combate ao trabalho escravo e a punição dos crimes que conduzem a qualquer prática de escravidão contemporânea. E é com a perspectiva de prosseguir em sua diretriz, que prevê "o Direito Penal como instrumento de garantia e de proteção de direitos humanos", que será lançada a campanha para o enfrentamento desse crime. Em parceria, a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão atua na indução de políticas públicas de combate ao trabalho escravo, marcando a união de esforços institucionais em torno da efetivação de um dos princípios norteadores da República Federativa, que é a dignidade da pessoa humana.

A campanha
Veiculada em todo Brasil, a campanha terá cartazes, banners, spots de rádio e TV, cartilhas e roteiro de atuação, além de um hotsite em torno do tema escravidão contemporânea. O tema foi definido com os membros do Grupo de Trabalho Escravidão Contemporânea, da 2ª Câmara do MPF, responsável pela definição da política criminal de combate as formas de escravidão praticadas nos dias atuais.
As peças publicitárias foram idealizadas para que o cidadão que se encontra em condições análogas à de escravo identifique a prática do crime pelo empregador e, também, para que pessoas ao redor dele possam fazer o mesmo. A escravidão contemporânea é tipificada pelos crimes de redução a condição análoga à de escravo (artigo 149 do Código Penal), frustração de direitos trabalhistas (artigo 203 do Código Penal) e aliciamento de trabalhadores (artigo 207 do Código Penal). Os trabalhadores aliciados são submetidos a condições degradantes, - alojamentos precários, sem condições de higiene e alimentação adequada -, submetidos a jornadas de trabalho exaustivas. Em muitos casos, são obrigados a contrair dívidas com o aliciador, que nunca se pagam. Documentos pessoais e de trabalho são apreendidos e não é realizado o recolhimento dos direitos trabalhistas.
As fotos utilizadas na campanha foram cedidas pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) e pela ONG Repórter Brasil. A Comissão Pastoral da Terra é parceira na campanha.

Dia Nacional do Combate ao Trabalho Escravo
O dia 28 de janeiro foi escolhido como o Dia Nacional do Combate ao Trabalho Escravo para homenagear três auditores fiscais e um motorista do Ministério do Trabalho assassinados em 2004, na zona rural de Unaí (MG). O caso ficou conhecido como a "Chacina de Unaí". Erastóstenes de Almeida Gonçalves, João Batista Soares Lage, Nelson José da Silva e Ailton Pereira de Oliveira formavam um grupo que vistoriava condições de trabalho e moradia de colhedores de feijão. O município mineiro é o maior produtor do grão no país.

Serviço:
Ato Público contra a Escravidão Contemporânea
Data: 28/01/2014
Local: Memorial do MPF - Procuradoria Geral da República - Brasília/DF
Horário: 14h

Fonte: Ministério Público Federal

A gangue do rolê

Por ANA DINIZ, jornalista, em seu blog Na rede

Na tarde quente dois grupos de jovens se defrontaram. Um, era constituído, em sua grande maioria, por mulheres, com idades entre 18 e 24 anos. O segundo, com maioria de rapazes, com aproximadamente a mesma idade. O primeiro grupo era de vendedoras do shopping, apavoradas, encolhidas no fundo das lojas, cujas lágrimas fizeram os gerentes e donos de lojas, também assustados, fecharem as portas. O segundo era a gangue do rolê.
Mais tarde, ouvi na televisão um porta-voz da gangue dizer que os jovens precisam de mais espaço de lazer.
Pensei nas jovens vendedoras que constroem aos poucos suas vidas dignas. Uma tarde sem vendas por causa dos espaços de lazer lhes trouxe, por certo, redução na remuneração, porque quase sempre recebem comissão pelas vendas: um real aqui, outro ali, duramente conquistados no atendimento aos clientes. Pagam a contribuição sindical obrigatória, mas ninguém arranja creches para as que são mães e elas nem sonham em exigir espaços de lazer. Quando muito, banheiros e um refeitório decentes.
Quase em seguida um jovem taxista, na casa dos vinte e poucos anos, me contava que, na fila onde ele tentou, mas não conseguiu, comprar ingresso para o Remo x Paissandu, um outro grupo de jovens comentava que, se não conseguissem ingresso, “a gente faz um bonde e rouba dos cambistas”. Uns 20 tentaram furar a fila, de uma vez. Eles se autodenominam torcida organizada.
Jovens de periferia abandonados? Mas as vendedoras dos shoppings também moram em periferias, também cantam “Show das Poderosas”! As arquibancadas dos estádios se enchem de jovens trabalhadores de periferia, que economizaram todos os reais para o ingresso trabalhando em serviços pesados, como bater massa na construção civil ou carregar isopores na praia!
Os jovens ocupados, homens e mulheres, são a esmagadora maioria: 77% do total, segundo o IBGE. Essa maioria nunca lembrada vive aterrorizada pelos outros 23%. É roubada, agredida, ameaçada. Não pode ter um celular melhorzinho e, às vezes, nem mesmo um celular qualquer. Sair para o trabalho, para o curso, diurno ou noturno é se tornar alvo. As mulheres guardam o dinheiro na calcinha – pois um dia destes uma delas teve que arriar o jeans e tirar o dinheiro do salário que havia acabado de receber. Na rua. Ela é auxiliar de limpeza e trabalha num hospital de Belém. Mora na periferia, também, e chorou pela perda, pela agressão e pela humilhação.
E eu fico pensando nos tais espaços de lazer. Para que, se os jovens ocupados não podem usá-los sem riscos e, muitas vezes, muito perigo? As pistas de skate, as academias públicas, as praças – ai do casal que for namorar na praça! – são virtualmente interditadas pelas gangues, do rolê ou da torcida. Os jovens ocupados vão para os shoppings onde ainda existe espaço com menos riscos para eles. Se as gangues tomarem também os shoppings os espaços serão só delas.
Há muita coisa errada no sistema criminal brasileiro. (Sobre o assunto, recomendo um artigo de Lenio Streck na página do Conjur (http://www.conjur.com.br/2014-jan-23/). Mas não é possível continuarmos a fazer programas e programas para estes 23% da população jovem esquecendo a maioria decente e construtiva: programas que lhes facilitem o estudo e o trabalho, que premiem de fato o esforço (e não com um mísero notebook para o jovem inventor que ganhou um concurso nacional com uma contribuição extremamente importante para a gestão da água), que os ajudem a construir uma vida melhor.
Lembrar das vendedoras aterrorizadas no shopping, e não só na hora do rolê, é o caminho certo para criar novos heróis para a juventude: o prêmio da conquista não deve vir da violência de um assalto, mas do esforço da paz, pela inteligência e pelo trabalho. Porque se não premiarmos os bons, estaremos premiando os maus.

O que ele disse


“Precisamos de ternura. O mundo da mídia tem de ser preocupar com a humanidade”, disse ele. “O mundo digital pode ser um ambiente rico em humanidade, uma rede não só de fios, mas de pessoas”.
Papa Francisco, dizendo que o mundo digital em alta velocidade das redes sociais, quase sempre superficial, precisa de uma injeção de calma.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Um olhar pela lente

Paris vista da Torre Eiffel.
As fotos, do Espaço Aberto, estão no Flickr.



Revista e jornalista terão que indenizar jogador

Um jogador do time de aspirantes do Corinthians receberá R$ 50 mil da Editora Abril e do jornalista Andre Rizek Lopes por matéria inverídica publicada que associava o atleta ao tráfico de drogas. A decisão é da 1ª câmara de Direito Privado do TJ/SP.
O autor da ação conta que os dirigentes e técnicos dos clubes se recusavam a trabalhar com ele devido à notícia falsa e, em função disso, perdeu a oportunidade de fechar dois contratos com times de futebol onde atuaria como jogador profissional. Segundo o atleta, a matéria atingiu não só sua reputação, imagem e honra, mas também sua atividade lucrativa.
A Editora Abril e o jornalista, por sua vez, alegaram que a matéria apenas narrou os fatos sem tecer nenhum juízo de valor. Afirmam que o texto da reportagem demonstra a preocupação que se tem com a formação técnica e pessoal dos atletas de base, que iniciam suas carreiras profissionais aos 12 ou 13 anos, sendo a maioria proveniente de família simples e, que muitas vezes ficam sozinhos e longe de sua cidade natal, razão pela qual se tornam vítimas fáceis do tráfico de drogas.
Em 1ª instância, o juiz entendeu que "as deletérias consequências à honra da parte ofendida são evidentes, pois fica ele maculado no seu convívio pessoal e familiar como possível envolvido na prática de ilícito de natureza grave".
O entendimento foi confirmado pela 1ª câmara de Direito Privado. O desembargador Elliot Akel, relator do processo, concordou que a matéria imputou erroneamente o crime de tráfico de drogas ao jogador, ocasionando humilhação e constrangimento.

Veja a íntegra da decisão.

Charge - Paixão


Charge para a Gazeta do Povo (PR).

"Mas que porra é essa?" Nada. É apenas um rolezinho.


"Mas que porra é essa"? - pergunta um jovem, 18 anos aparentes, ao chegar a um grupo de quatro ou cinco amigos que já estavam reunidos bem ao sopé, digamos assim, da escada rolante que leva à Praça da Alimentação do Shopping Boulevard, na avenida Visconde de Souza Franco, a Doca.
À pergunta do jovem, os circunstantes, seus amigos, tiveram reações que foram do riso àquele meneio de cabeça, para um lado e para outro, típico de quem, se deparando com alguma situação ridícula, risível, inacreditavelmente desconectada do bom senso, perde a capacidade de falar, mas não perde a capacidade de se expressar.
"Mas que porra é essa"? era a expressão, entre assustada e divertida, de um jovem que, como os demais presentes ao Shopping Boulevard, na tarde de sábado, parecia não acreditar no que estava vendo.
Neste sábado à tarde, os frequentadores do Shopping Boulevard - brancos, negros, amarelos, pardos, rosados, altos, baixos, pobres, ricos, remediados, homossexuais, heterossexuais, bissexuais, remistas e bicolores - pareciam não acreditar que estavam vendo e ouvindo.
Estavam vendo o que se dizia ser um rolezinho à paraense, um rolezinho ao tucupi, um rolezinho convocado pelas redes sociais, um rolezinho que teve, até o final da manhã deste sábado, 950 confirmações. Novecentas e cinquenta, sem tirar nem pôr. Mas apareceram 50 - ou 60, com muito boa vontade - na contagem vis-à-vis, cara a cara, olhos nos olhos, uma contagem que todos os que estivemos no shopping pudemos fazer e que você poderá ver nas fotos abaixo e nas imagens como as do vídeo acima, colhidas pelo Espaço Aberto.
Estavam ouvindo, todos os frequentadores do shopping, palavras de ordem, chavões, lugares-comuns, frases feitas. Ouviam-se aqueles discursos - enfadonhos, repetitivos, marcados por refrões treinados por militantes das boas causas, sobretudo das politicamente corretas.





A militância-rolé. Ou o rolé de militantes.
Ouviam-se discursos no tom e estilo assembleísta-militante, em que uma pessoa, como se fosse um speaker, vai soltando frases curtas, diretas e contundentes, enquanto os demais militantes, ao seu redor, vão repetindo exatamente a mesma coisa. A mesmíssima coisa.
Ouviam-se palavras de ordem tipo assim: O rolezinho é meu e de você / a juventude pobre tem direito ao lazer. Ou assim: Da Copa, da Copa eu abro mão / Eu quero é mais dinheiro pra saúde e educação.
Ouviam-se discursos assim, puxados pelo speaker e repetidos com efusão crescente pelos 50 militantes-rolezeiros entretidos num momento, digamos assim, de militância extremada em favor de causas politicamente corretas e edificantes.
"Nós queremos mostrar", bradava o speaker, nós queremos mostrar, repetiam os militantes-rolezeiros, "que os governantes deste país" (que os governantes deste país) /precisam construir (precisam construir / mais espaços de lazer (mais espaços de lazer) / para a juventude pobre deste país (para a juventude pobre deste país)". Punhos fechados, braços erguidos.
"Tem que fazer [rolezinho] todos os dias e todos os sábados", discursou uma speaker. Tem que fazer [rolezinho] todos os dias e todos os sábados, reforçaram os manifestantes. "E mostrar pra sociedade / Que aqui não tem bandido / Que aqui não tem nenhum desordeiro / Mas aquele jovem / que está querendo mudar a sociedade / Que está querendo mostrar / Que tem que ter mais espaço para o rolezinho / e menos preconceito / e menos repressão". Vejam aí num dos trechos do vídeo que está acima.
Uma outra militante, ela também uma speaker, passou a discursar: "Nós exigimos respeito aos LGBTs", e os militantes rolezeiros repetindo: Nós exigimos respeito aos LGBTs.

Rolezinho mesmo? Ou o quê?
Rolezinho ou militância extremada em favor de causas politicamente corretas e edificantes?
Rolezinho, daquele bem maneiro, ou um momento palanquista de militantes com discursos afiados para protestar até contra as descompensações raciais e os estigmas preconceituosos correntes em outros planetas?
Rolezinho, daquele genuíno, em que galeras da paz se reúnem naturalmente em qualquer lugar para namorar, ficar, fofocar, rever os amigos e pôr os papos em dia, ou um momento em que militantes profissionais, com palavras de ordem à flor da língua, empreendiam uma cruzada sabe-se lá contra ou a favor do quê?
Ninguém sabia ao certo, afinal de contas, do que se tratava aquilo. Imaginava-se que era o rolezinho convocado pela Facebok e que teve 950 confirmações, mas apenas 50 presenças.
Mas as expressões dos circunstantes, centenas deles, presentes à Praça da Alimentação do shopping e expostos a um cenário em que militantes em favor de causas politicamente corretas e edificantes entoavam seus refrões em tom e estilo assembleísta, as expressões dos circunstantes, portanto, indicavam que a maioria, senão todos, perguntava-se intimamente aquilo que o jovem se permitiu verberar com todas as letras, sem vírgulas pelo meio, sem rodeios, diretamente:
"Mas que porra é essa"?
As expressões dos circunstantes, centenas deles, presentes à Praça da Alimentação, indicavam reações que foram do riso àquele meneio de cabeça, para um lado e para outro, típico de quem, se deparando com alguma situação ridícula, risível, inacreditavelmente desconectada do bom senso, perde a capacidade de falar, mas não perde a capacidade de se expressar.

Centros de consumos distinguem dinheiro de rico e de pobre?
Sim, porque como já se disse aqui, em postagem anterior, os rolezinhos de São Paulo e Rio, que deram origem ao rolezinho de militantes de Belém, nada têm a ver uns com o outro, e o outro com aqueles.
No Rio e São Paulo, vimos jovens não-militantes entrando em shoppings todos juntos, às centenas, correndo, gritando, berrando e deixando todo mundo à beira do pânico. Idosos e crianças, inclusive - pobre e ricos, ricos e pobres.
Em Belém, vimos 50 militantes profissionais, organizadamente, entoando palavras de ordem, chavões e lugares-comuns, discursando em favor de jovens pobres sem espaços para o lazer, de LGBTs, de quilombolas e quejandos.
Alguém aí acredita que comerciantes, que lojistas, estejam eles no bairro de Batista Campos, de Nazaré ou das periferias de Belém, façam diferença entre dinheiro de pobre e de rico, dinheiro de negros e brancos, de homossexuais e heterossexuais, de remistas e bicolores que entra em seus caixas?
Alguém aí, em são consciência, acha que comerciantes, que lojistas não gostariam de ver suas lojas, estejam elas em shoppings ou não, nos bairros nobres ou nas periferias, entupidas de consumidores, sejam pobres ou ricos, negros ou brancos, homossexuais ou heterossexuais, remistas e bicolores?
Bem-vindo os rolés, meus caros.
Bem-vindos os rolés, rolezinhos e rolezões, ou rolão, como diria o jornalista Elio Gaspari.
Bem- vindos, jovens e vovôs, pobres e ricos, negros, brancos, pardos, amarelos, heterossexuais e LGBTs, remistas e bicolores, bem-vindos todos a esses espaços do consumo.
Mas que venham sem espantar, né?
Que venham sem arrupiar?
Porque rolezinhos do estilo desses que forçaram comerciantes a fechar suas lojas, como os do Rio e São Paulo, podem ser de negros, brancos, homos, heteros, negros ou ricos, mas não se recomendam. Verdadeiramente não se recomendam, porque mais se parecem com turbas que se movimentam em espaço público - ainda que privado - apenas com o propósito de assustar, de chamar a atenção e, se aparecer uma oportunidade, de agredir.
E simples assim.
Parece até que não.
Mas é.

LEIA MAIS SOBRE O ASSUNTO NO ESPAÇO ABERTO:

O rolezinho, o politicamente correto e a imbecilidade
Quem assume as consequências do rolezinho?
Somos todos rolezinho é a manifestação da vez no país
Movimentos em shoppings caem até 25% em dias de rolezinho
Shopping com segurança reforçada neste sábado
Rolezinho de 50 pessoas tem UNE, quilombolas e Conlutas

Rolezinho ganha proporções de caráter reivindicatório

Do jornalista Edir Gaya, sobre a postagem Rolezinho de 50 pessoas tem UNE, quilombolas e Conlutas:

Veja você, meu querido, que o que começou como um encontro de fãs de meninos e meninas que vivem o seu momento de celebridades na internet, no sudeste do País, começa a tomar proporções nacionais de caráter reivindicatório justo pela falta de sensibilidade dos que movem a máquina econômica e política do País para pensar e agir de forma a incluir este público em seus planejamentos.
Assim como a repressão impiedosa do governo paulista às manifestações pelo Passe Livre, em junho do ano passado, resultou nos episódios que se seguiram depois no Rio, em SP, Minas e em vários outros pontos do País, quando a juventude foi às ruas solidarizar-se e repudiar a violência, os rolezinhos estão aí para deixar claro que os brasileiros que vivem na base da pirâmide social rechaçam a discriminação e a repressão policial e não aceitam mais ser tratados como cidadãos de segunda classe.
O problema está criado e essa forma tacanha de tratar o fenômeno, dando a ele um caráter policialesco, só vai contribuir para agravá-lo. É como um rastilho de pólvora.

82% dos paulistanos são contra 'rolezinho', diz Datafolha


Se os "rolezinhos" forem mesmo um movimento de protesto contra o apartheid social, como querem alguns setores progressistas, a pesquisa Datafolha sobre o fenômeno do verão vem confirmar que a população da cidade é bem conservadora: 82% dos paulistanos se dizem contra os encontros de jovens da periferia em shopping centers.
A condenação da atividade é geral, sob qualquer recorte que se faça da pesquisa com 799 moradores da capital maiores de 16 anos.
A média dos que apoiam as reuniões é de meros 11% e aumenta muito pouco -considerada a margem de erro da pesquisa, de quatro pontos percentuais, para baixo ou para cima- mesmo entre aqueles dos quais seria de esperar certa aprovação.
Moradores da zona leste, o maior bolsão de exclusão social da cidade? Apenas 8% de aprovação, a menor de todas. Jovens? Só 18% dos que têm até 24 anos se declaram favoráveis aos "rolezinhos".
Além deles, os maiores contingentes de apoio -ainda assim, uma franca minoria- se encontram entre os mais ricos (16% entre os que ganham mais de dez salários mínimos mensais) e mais escolarizados (14% dos que têm nível universitário).
A hipótese mais provável para essa aprovação ligeiramente superior entre os de maior renda e maior escolaridade é que haja entre eles um número maior de pessoas "de esquerda". Ou seja, mais propensas a adotar a explicação de que os "rolezinhos" são uma reação organizada de jovens contra a exclusão social e a discriminação racial.
Editoria de Arte/Folhapress
PRAIA TRANQUILA
O Datafolha atesta o lugar-comum de que os centros de compras são a praia dos paulistanos: 73% vão ao shopping pelo menos uma vez por mês (e 25%, toda semana). E quem vai à praia quer tudo menos algo que se pareça, mesmo de maneira remota, com um arrastão.
As atitudes que mais incomodam os paulistanos nesse ambiente são as correrias (70%), gritarias (54%) e aglomerações (46%). Sua tradução preferida para o verbo "zoar", muito usado nas convocações de "rolezinhos" pelas redes sociais, é "provocar tumulto" -verdadeiro objetivo das reuniões para 77% dos ouvidos pelo Datafolha.
O propósito declarado dos adeptos dos "rolezinhos" -"apenas se divertir"- convence não mais que 18% dos paulistanos. Tamanha desconfiança é o que deve estar por trás da constatação de que 83% dos entrevistados que têm filhos menores de 25 anos não concordariam com sua participação num desses encontros.
SEM VIÉS RACIAL
Nada nessas opiniões dos paulistanos, por certo, exclui a possibilidade de que na raiz dos "rolezinhos" esteja uma certa irrelevância social de legiões de jovens de periferia, muitos dos quais não estudam nem trabalham. É plausível, dada essa condição, que queiram apenas "causar", chamar a atenção -como não deixam dúvida suas roupas e suas músicas.
O que o Datafolha revela é que, na população, as interpretações mais benignas do fenômeno, por assim dizer sociológicas, parecem contar com pouca simpatia. De outra maneira, como explicar que tantos defendam a pura repressão das reuniões?
Para 80% dos entrevistados, os lojistas agem corretamente ao buscar a Justiça para proibir os encontros. Outros 73% consideram que a Polícia Militar deve ser acionada para impedi-los. E 72% acham que não há preconceito de cor na reação dos shoppings, em aberta contradição com a ministra da Igualdade Racial, Luiza Bairros (PT), para a qual há "discriminação racial explícita".
O grupo que avalia haver, sim, preconceito racial na atitude dos lojistas não ultrapassa um quarto dos entrevistados (exatos 25%). Como seria de esperar, entre os que se declaram da cor preta é maior o número dos que identificam reação preconceituosa, mas ainda assim menos de um terço do total (32%). E entre os que se autoclassificam como pardos, supostamente também mais visados, só 23% têm essa opinião.
De todo modo, a repulsa à discriminação é geral: 73% afirmam que os shoppings não têm o direito de escolher quem pode e não pode entrar neles. A não ser, é claro, que a galera da periferia apareça fazendo confusão.

Que tal um rolezinho contra essas lojas burguesas? Vamos?


Olhem só.
Esse folheto aí em cima foi distribuído no último sábado à tarde, na entrada do Shopping Boulevard, por ocasião do rolezinho que reuniu apenas 50 pessoas, das 950 que haviam confirmado presença na manifestação.
É assinado por militantes da Anel (Assembleia Nacional dos Estudantes - Livre), Movimento Nacional Quilombo Raça e Classe e pela CSP Conlutas (Central Sindical e Popular). Cliquem na imagem para ler melhor.
Vejamos alguns trechos abaixo. Os que estão em vermelho são aqueles que expressos no folheto. Os que estão em azul são comentários do Espaço Aberto.

Os rolezinhos iniciaram (sic) como um encontro de jovens da periferia nos shoppings das cidades para se conhecerem, conversarem, beijarem etc.
Pois é. Os rolezinhos não são de hoje. Não se iniciaram há dez dias. Nem há 20. Iniciaram-se há bastante tempo. Em Belém, inclusive. E quando é que alguém tomou conhecimento da expulsão de jovens da periferia dos shoppings de bacanas? Quando? Nunca, ao que se se sabe. Até que os rolezinhos se transformaram em ajuntamentos, em turbas invadido um espaço público - mas de natureza privada - gritando, berrando e disseminando o pânico entre os frequentadores. Aí a coisa mudou de figura, né? Mudou completamente. E tinha que mudar mesmo. Porque há rolezinhos e rolezinhos.

E quando esses encontros tomaram uma dimensão gigantesca, reunindo mais de 5.000 pessoas, o que vimos foi um show de truculência por parte da PM paulistana, a qual utilizou-se dos seus métodos mais violentos para dispersar a multidão.
Olhem, puliças são truculentas mesmo. É fato. Mas há um outro fato: não se admite 5 mil pessoas (é um exagero dos companheiros, é um grande exagero, mas vá lá que tenham sido 5 mil) entrando num local privado - privado, repita-se, particular, muito embora o espaço seja para o público -, gritando, correndo, berrando e criando pânico entre todo mundo, não se admite, portanto, que isso ocorra sem que se anteponham forças para conter esses divertidos rolezeiros, não é? Meus caros, se cinco, apenas cinco, riquinhos, filhinhos de papai fizessem a mesma coisa, a segurança de qualquer shopping precisaria agir para contê-los, não acham? Vocês imaginem, então, 5 mil (é um exagero, repita-se, não houve nenhum rolezinho com 5 mil pessoas até agora). A puliça - truculenta, é certo - deveria ficar parada? Que tal um parente - de preferência criança ou idoso - de um dos companheiros da Anel, da Conlutas e do Movimento Nacional Quilombola Raça e Classe posto diante de 5 mil jovens correndo por dentro de um shopping? Eles, os companheiros, gostariam seus parentes idoso e crianças aos riscos que essa conduta inadequada ofereceria?

É importante ficar claro que nenhum roubo ou depredação foi verificado, como ressaltou a própria nota do shopping.
Qual é o shopping a que se refere a nota? São todos os shoppings? É um shopping só? Se é, qua terá sido? Porque olhem aqui, meus caros: Polícia registra furtos e depredação em rolezinho de Itaquera. Constatem vocês mesmos. Cliquem no link e leiam vocês mesmos. Há rolezinhos e rolezinhos, não é? E tem mais: as condutas inadequadas não se resumem a furtos e depredações, não. Se nos espaços públicos uma pessoa se conduz de forma a restringir ou a criar constrangimentos aos demais, não se admite que continuem com essa conduta. É o caso de quem invade shoppings, em turbas. Lembram-se do caso do professor que entrou num cinema do Shopping Boulevard usando um cinto de balas? Lembram-se? Pois é. Lembrem-se daquele bafafá e confirmem que condutas inadequadas não se resumem a furtos e depredações.

Por que isso? Porque, para a burguesia brasileira, os shoppings foram construídos para manter a juventude pobre do lado de fora.
Hehehe. Esse é o trecho mais divertido do panfleto. Sem brincadeira que é. Por quê? Porque olhem a postagem acima, que tem como título "82% dos paulistanos são contra rolezinho, diz pesquisa Datafolha". Leiam lá: "Moradores da zona leste, o maior bolsão de exclusão social da cidade? Apenas 8% de aprovação, a menor de todas. Jovens? Só 18% dos que têm até 24 anos se declaram favoráveis aos 'rolezinhos'". Se os shoppings fossem mesmo centros de consumo cativos da burguesia, os rolezinhos não teriam ampla aceitação entre moradores de bolsões de exclusão, como a zona leste paulistana? Mais: passa pela cabeça de alguém que seja razoável a tese de que um lojista - burguês ou pequeno-burguês - faça a distinção entre dinheiro de pobre ou rico, de negro, branco ou quilombola, de homossexual ou de heterossexual? Sem brincadeira, vocês acham essa tese minimamente razoável? Um jovem pobre, que com sacrifício obteve R$ 200 para comprar um tênis numa loja qualquer do Shopping Boulevard Belém, vocês acham que ele, ao chegar à loja, a atendente vai pedir-lhe uma espécie de comprovante de renda ou um atestado de pobreza antes de vender o sapato? Ou vai, mais do que depressa, pegar o sapato, entregar ao consumidor e pôr o dinheiro no caixa, sem querer saber se o comprador é pobre, rico, negro, branco, remista ou bicolor? O que vocês acham? Desculpem aí, mas essa tese de que jovens pobres não são bem-vindos a centros de consumo é de uma imbecilidade atroz. Imbecilidade das mais brabas. Sem brincadeira. E com todo o respeito aos companheiros.

Estamos assistindo a uma demonstração inquestionável, não somente de racismo e preconceito, mas de segregação e apartheid social na medida em que o Estado passa a cumprir o papel de elemento discricionário e aparato de repressão.
Hehehe. Menos, companheiros. Menos. Esse é outro trecho bacana. Muitíssimo bacana. Inspirador, até. O poster lembrou-se que há pouco mais de um mês, em dezembro passado, estava dando um rolezinho - a dois - pelo Shopping Boulevard, à procura de presentes de Natal para pessoas queridas. E passou pela frente das vitrines da H.Stern. De olho nas vitrines, viu coisas como um HS ID White Flying com segundo fuso horário e 11 diamantes no mostrador. Preço: R$ 2.490,00. Sentindo-se vítima de segregação, racismo, preconceito e apartheid social, o poster nem entrou. E foi em frente, à procura de presentinhos menos, digamos assim, hsternizados. Mas sabem de uma coisa? Com esse rolezinho de sábado, o poster acha que começará a convocar, pelos Faces da vida, um protesto contra essa discriminação, esse preconceito, esse apartheid social, essa fúria burguesa de lojas como a HStern. Todos estão convidados de antemão. Qualquer dia, a gente marca um rolezinho contra essas lojas que vendem seus badulaques acima de faixas financeiras acima do razoável. Vamos lá? Putz! Hehehe. Falem sério, meus caros. Falem sério!

Elementos de uma tragédia anunciada

A história é nociva por si só, mas também expõe a face nebulosa das masmorras da intolerância. Os problemas brasileiros também são os mesmos há muitos anos. O sistema carcerário no Brasil está falido faz muito tempo. Junte-se a isso a violência policial que assusta, massacra, usa requintes de crueldade e de quebra, se envolve com a criminalidade. Recentemente, no entanto, o brasileiro foi tomado pelo otimismo. A solução de partes dos problemas nacionais, parecia, ao menos, encaminhada.
            Mas a violência continuava a existir e os índices de criminalidade baixavam nas grandes capitais. Contudo, quando se pensava que tudo estava sob controle, o início de 2014 marcou o fim da onda de otimismo. Cenas chocantes em presídios no Estado do Maranhão – e, como mostrou a mídia, também em outros Estados do Nordeste – mostram quanto estamos distantes de resolver um dos maiores problemas deste país: o da segurança pública.
            Com a superlotação de presos, as transferências para prisões federais podem fortalecer as facções criminosas. O exemplo são as transferências de presos do Maranhão para penitenciárias da União que se tornou uma panaceia ao longo das últimas semanas. Segundo especialistas, eles retornam mais organizados, sobretudo após o contato com líderes de facções criminosas. O Primeiro Comando do Maranhão, o PCM, por exemplo, é nitidamente inspirado no Primeiro Comando da Capital, o PCC, que em São Paulo criou um esquema de arrecadação e organização empresarial do tráfico, tendo os presídios como base territorial de seus líderes.
            Esse cenário de barbárie parece nos remeter às masmorras medievais onde se praticavam atos de violências no estilo de conflitos tribais. Em 2013, 62 presos morreram no complexo de Pedrinhas. Esse complexo, epicentro da crise, possui mais de 2,2 mil presos para cerca de 1,7 mil vagas. São comuns apreensões de centenas de armas improvisadas numa única revista pelas celas de uma unidade, inclusive armas de fogo. Os estiletes são improvisados com ferro extraídos de grades e até de lajes e paredes. Nos superlotados presídios, o crime organizado impera.
            O Maranhão ostenta alguns dos piores indicadores sociais do país. Na terra do clã Sarney, em meio à crise no sistema penitenciário, o governo de Roseana Sarney montava um edital de R$ 1,1 milhão para a compra de lagostas, camarões, foie gras, caviar e outras iguarias para o Palácio dos Leões, sede do governo, enquanto o poder no sistema prisional era disputado por duas facções: PCM e Bonde dos 40. O PCM é o mais antigo do Maranhão e é formado basicamente por detentos do interior do estado. O Bonde dos 40 é composto, em sua maioria, de jovens das regiões periféricas de São Luís e são conhecidos pelo comportamento mais impulsivo e violento.
O PCM é bem estruturado, foi fundado em 8 de novembro de 2003 e segue as mesmas diretrizes do PCC. Detalhe importante, assim como no caso dos paulistas, as normas ditadas pelo PCM preveem, além do pagamento mensal às lideranças, punição com morte caso o preso vá contra os fundamentos estipulados pelo estatuto. Para abandonar a facção, só virando evangélico, largando o crime ou após a morte. Essas informações são confirmadas pelo presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB do Maranhão, Luis Antonio Pedrosa.
O PCC, grupo liderado por Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola espalhou sua “organização empresarial” e possuía 2.398 representantes em 22 estados da federação. No Maranhão, documento apreendido pelo MP mostra que o PCC, ainda em 2012, contava com 44 membros. A falta de atenção ao sistema prisional e a ineficiência das autoridades era tanta que, segundo os promotores, foi criado um departamento dentro da facção apenas para cuidar do tráfico nas prisões, denominado de “Sintonia Geral do Sistema”. Pois é, essas masmorras reúnem vários elementos de uma tragédia anunciada.
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Sergio Barra é médico e professor

O que ele disse


“Sinceramente não sei (porque é o preferido). Sempre comentei da mesma forma. Não busco a publicidade fácil ou a manchete sensacionalista, mas acho que você pode apresentar sua ideia e seu pensamento, e cabe ao telespectador ver se ele concorda ou discorda. Nunca tive a pretensão de ser o dono da verdade. Respeito todos, mas quero fugir do sensacionalismo, porque ele dá um publicidade momentânea, mas que a longo prazo é negativo.”
Claudio Carsughi, da Sportv, italiano, 82 anos, um gentleman, eleito o melhor comentarista esportivo do país numa enquete do UOL.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Rolezinho de 50 pessoas tem UNE, quilombolas e Conlutas





Manifestantes do dito rolezinho concentrados à entrada do Shopping Boulevard, na tarde deste sábado.
Dos 950 que confirmaram presença, comparecem cerca de 50, no máximo 60. Todos militantes de entidades e
movimentos sociais, como um da União Nacional dos Estudantes (UNE). As fotos são do Espaço Aberto.
O rolezinho convocado pelo Facebook endereçou 10.400 convites. Foram confirmadas 950 presenças, mas apenas 50 pessoas, no máximo 60, compareceram na tarde deste sábado, a partir das 16h30, ao Shopping Boulevard, na avenida Visconde de Souza Franco, a Doca, no bairro do Reduto, em Belém.

O rolezinho, o politicamente correto e a imbecilidade
Quem assume as consequências do rolezinho?
Somos todos rolezinho é a manifestação da vez no país
Movimentos em shoppings caem até 25% em dias de rolezinho
Shopping com segurança reforçada neste sábado

Não houve incidentes. Em vez de adolescentes na faixa dos 13 aos 17 anos, como os que predominam nos rolezinhos que têm ocorrido em outros cidades do país, sobretudo São Paulo e Rio, os participantes do que se chamou de rolezinho em Belém tinham na faixa dos 20 a 30 anos, alguns deles universitários e a maioria pertencente a entidades e movimentos sociais, como a Anel (Assembleia Nacional de Estudantes - Livre), o Movimento Nacional Quilombo Raça e Classe, a CSP (Central Sindical e Popular)-Conlutas e a União Nacional dos Estudantes (UNE).
"O que os grandes meios de comunicação estão tentando fazer é, como sempre, criminalizar a juventude por ser pobre e negra, tentando justificar a repressão da polícia e colocar a população contra os jovens, por algo que não aconteceu [em rolezinhos em outras cidades]: a ocorrência de crimes", diz um panfleto assinado por essas entidades e distribuído a quem entrava ou saía do Boulevard.
Com um megafone e munido de cartazes, os manifestantes do intitulado rolezinho se concentraram inicialmente bem na entrada do shopping e discusaram contra o que consideram preconceito em relação a jovens negros e pobres. Aproveitaram ainda para criticar os que associam os rolezinhos a um ajuntamento de delinquentes que pretenderiam causar tumultos, roubar, furtar e destruir o patrimônio privado.
Terminada a concentração na porta do shopping, os manifestantes entraram nas dependências do Boulevard para dar o rolezinho, gritando palavras de ordem enquanto percorriam todos os andares. Temendo tumultos, dezenas de lojas fecharam suas portas, reabertas logo que se encerrou a manifestação, por volta das 18h.
Na Praça da Alimentação, nova parada e novas palavras de ordem. "O rolezinho é meu e de você / a juventude pobre tem direito ao lazer", gritavam os manifestantes. "Da Copa, da Copa eu abro mão / Eu quero é mais dinheiro / Pra saúde e educação" foi outra palavra de ordem entoada pelos participantes dos protestos. "Nós queremos mostrar que os governantes deste país precisam construir mais espaços de lazer para a juventude pobre da periferia", exigiu outro manifestante.


Polícia chegou ao shopping no início da tarde. Depois, o contingente aumentou. (fotos do Espaço Aberto)
Segurança reforçada
O aparato de segurança reuniu cerca de 30 PMs da Rotam, que se postaram em frente ao shopping. Mas havia dezenas de policiais militares no seu entorno, tanto na Doca como nas travessas Aristides Lobo e Ó de Almeida, que ladeiam o Boulevard, e na travessa Benjamin Constant, que passa por trás.
Dentro do Boulevard, a segurança foi reforçada. Em cada corredor havia pelo menos três seguranças postados - um no meio e dois nas extremidades das alas onde ficam as lojas em todos os andares. Mas dezenas de outros seguranças passaram a tarde inteira se movimentando, munidos de walk-talkies para monitorar as movimentações que ocorriam em outras áreas.
Como medida de precaução, um carro home care da Unimed ficou estacionado desde as 14h, em frente ao Boulevard, para dar atendimento em caso de eventuais de tumultos que pudessem provocar lesões em pessoas presentes ao shopping. Um carro da Prosegur também permaneceu nas imediações. A empresa, que atua na área de segurança, destacou vários de seus homens para reforçar a segurança do Iguatemi durante todo o dia de hoje.
O repórter do Espaço Aberto chegou ao shopping por volta das 14h30 e, sem identificar-se como jornalista, pôde ouvir comentários de seguranças e empregados de loja e observar os momentos que antecederam o início da manifestações.
O setor de inteligência da Polícia Militar e a própria segurança do shopping esperavam dispunham de informações de que o rolezinho reuniria, de forma predominante, adolescentes na faixa dos 15 aos 16 anos, daí a presença de vários membros do Conselho Tutelar e de funcionários do Tribunal de Justiça do Estado que atuam no atendimento a crianças e adolescentes.


Temendo tumultos, várias lojas fecharam as portas, reabertas após a manifestação (fotos do Espaço Aberto)