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quinta-feira, 14 de maio de 2015

Complicações amorosas

Por ANA DINIZ, jornalista, em seu blog Na rede:

Acabo de ler uma recente decisão proferida no Superior Tribunal de Justiça distinguindo a categoria “namoro qualificado” daquela denominada “união estável”. É parte, creio, da profunda transformação que a família, enquanto unidade social, está passando, o que envolve, também, diversas categorias de relacionamento a dois.

Recentemente soube de um par, gay, por sinal, com um relacionamento de tapas e beijos de dez ou doze anos. Um deles adoeceu gravemente -  não era de Aids, diga-se – e mandou o parceiro ir atrás de alguma pensão, herança, qualquer coisa que o deixasse menos inseguro na pobreza deles. O parceiro ouviu do advogado que não haveria nada para ele, a menos que casasse: dadas as características do relacionamento, com cada qual levando a sua vida, eles seria considerados apenas ficantes. Ficantes de dez anos, mas ficantes: os tapas interrompendo os beijos não permitiriam sequer que fossem considerados namorados. E até o casamento poderia ser contestado: a gravidade do estado de saúde do parceiro poderia lançar suspeitas sobre a liberdade de sua vontade.

O ficante antecipa o namorado; pelo menos é isso que eu encontro num “Guia para transformar ficante em namorado”, cheio de dicas: como introduzir o ficante paulatinamente na sua vida, e como se introduzir na vida dele; não se falsificar, porque os homens não gostam de comprar gato por lebre; manter-se calma, controlando a ansiedade – e por aí afora. E antes da ficação tem a curtição – nome novo para o antigo flerte, aquele arrastar de asa para a figura querida, cheio de encontros deliberadamente casuais e de olhares lânguidos.

Ficantes fazem sexo, mas vão e vêm, cada qual seguindo a sua vida. E depois temos os namorados. Na definição do STJ, namorados são os que fazem planos.

Namorados podem ser simples, andar juntos o bastante para fazer a célebre pergunta: no seu apartamento ou no meu? – isso, se tiverem apartamento; caso contrário, rola motel, mesmo. E podem ser qualificados, caso em que podem até viver juntos, morar na mesma casa, dormir na mesma cama. Namorados qualificados, para o STJ, mantém um espaço próprio, independente do parceiro, e pensam no futuro, até o planejam. Mas não efetivam a unidade familiar: não estão juntos para o que der e vier, mas só para o que der; o vier é outra conversa, depende de como venha. Pode acontecer de ficarem nessa durante muito tempo, até a vida toda. Namorados, mesmo qualificados, não têm direitos sobre os bens do parceiro: este é o preço da liberdade individual mantida.

A próxima categoria é a do companheiro ou convivente: duas pessoas moram juntas e compartilham tudo. Não interessa sexo – nem quanto ao gênero de cada uma delas, nem mesmo se o fazem. O sexo, antes condição fundamental para a constituição da família, passou a ser secundário. Interessa é se cuidam um do outro, se têm conta conjunta, se decidem juntos o uso do dinheiro, a gerência da unidade familiar: é a união estável. O convivente (esta palavra horrível substitui a beleza de “amante”, que é como o povo chama quem mora junto sem casar) já é quase casado.  Mas, para se transformar em cônjuge (outra palavra horrível) ou esposo (como chama o povo, com mais beleza e bom senso), é preciso passar o papel, fazer o contrato, dizer sim para o juiz.

E é aqui que a jurupoca pia: depois deste longo percurso entre o trinado do sabiá procurando a companheira e o papel passado diante do juiz, às vezes vem um cansaço danado. O contrato de casamento, que remove a precariedade da relação, muitas vezes acaba gerando um sentimento de propriedade: minha mulher, meu marido. Vai daí que, como o que já se tem raramente parece suficiente, a tentação de pular a cerca vem com a idade e com o tempo de convivência. De vez em quando, o Romeu vira Casanova.

Nossa época transformou o singelo amor entre duas pessoas num labirinto em que nem sempre o apaixonado consegue se localizar. E eu nem falei aqui dos relacionamentos ditos abertos, da troca entre casais e dos triângulos que podem se transformar em quadriláteros ou polígonos amorosos. Ou da má fé, que cria atalhos e transforma o certo no incerto. E nem das sequências temporais desses novos relacionamentos.

Um dia destes assisti a este diálogo:

Ele: Quem é essa pessoa?
A mulher: Ela é filha do meu ex-marido.
Ele: Sua enteada?
A mulher: Bem...
Ele: Ela morava com você?
A mulher: N...não, nunca morou comigo.
Ele: Então não é sua enteada.

Captaram?

terça-feira, 5 de maio de 2015

Democracia


Por ANA DINIZ, jornalista, em seu blog Na rede|

Desculpe-me o leitor a ausência, mas adoeci. E tudo o que escrevi nas últimas duas semanas refletiu isso – crônicas rabugentas, impublicáveis. Foi gripe, claro: o Ministério da Saúde ainda não conseguiu entender que o Brasil é plural, e manda vacinas para cá sempre depois do surto viral que bota meia Belém mergulhada em tosses e espirros.

Claro também que eu não vou tomar essa vacina, que é da gripe passada. E como eu, muitas pessoas, embora depois as autoridades achem que é mera resistência à vacina...

De certa forma, têm razão: paraenses têm uma longa tradição de resistência civil. A maioria de nós sabe que discutir com os iluminados é dar murro em ponta de faca. Então não se discute – simplesmente, não se faz. O calor úmido também favorece a inércia. E quem quiser tirar a pedra do caminho, que sue.

Mas hoje eu quero escrever sobre algumas novidades que estão chegando por aqui, embora com o atraso de sempre. No primeiro caso, quatro meses de atraso: Tony Blair publicou o seu artigo no NY Times em novembro. Is democracy dead?, pergunta ele titulando algumas laudas instigantes. No artigo, ele alinha constatações que levam a uma tendência mundial por governos autoritários, para arriscar uma explicação: há que ter eficiência, resultados objetivos das políticas instituídas ou as pessoas vão buscar outros meios para consegui-los.

O segundo caso é mais recente. Exasperada, uma deputada do PT acertou na mosca ao caracterizar o apoio a Eduardo Cunha de “bancada BBB”: Bíblia, boi e bala. O ponto comum desse BBB é justamente o autoritarismo, a força. Por Bíblia, aí, entenda-se não O Livro, mas a cartilha que saiu dele para formar um eleitorado de cabresto, cumpridor de ordens, fechado em dogmas e comportamentos padronizados. O boi representa o mundo rural do grande negócio. E a bala, todo mundo sabe o que é que é.

“É tempo de debater como melhorar a democracia, como modernizá-la”, escreve Blair, para comentar que não basta um governo correto: a decepção das pessoas se funda na falta de mudança em suas vidas. “O simples direito de voto não é suficiente”, acrescenta. “O sistema precisa gerar resultados para o povo”.

Ora, se os brasileiros elegeram uma poderosa bancada BBB, isto parece sinalizar que estão procurando o autoritarismo. É verdade que há sempre uma margem de fraude nas eleições brasileiras, e, também, que a circunstância eleitoral é localizada demais para apontar caminhos seguros. Mesmo assim, há muitos indícios de uma tendência pelo que Blair caracteriza como “a tomada de decisão eficaz por meio da liderança forte”: o descrédito do Congresso, a banalização da violência, o desrespeito continuado a toda e qualquer autoridade, o uso de fardas nos parlamentos, os protestos por qualquer motivo interditando ruas e rodovias, prejudicando milhares de pessoas, a recusa do cumprimento de ordens judiciais...

 E há, sobretudo, a corrupção disseminada e descontrolada. A soltura precoce dos condenados. Fichas sujas em cargos ministeriais.

Estaremos nós procurando um novo salvador da pátria ou simplesmente matando a democracia?

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Dia a dia

Por ANA DINIZ, jornalista, em seu blog Na rede:

A síndrome de Heróstrato
O termo foi criado por Albert Borowitz, da Universidade norte-americana de Kent, como subtítulo de seu livro Terrorism for self-glorification. Heróstrato foi o grego que queimou o templo de Diana, em Éfeso, cerca de 2.500 anos atrás, para que o mundo se lembrasse dele pela destruição que provocou.

Parece que esse piloto que derrubou o avião alemão era portador dessa síndrome, que reúne, numa só visão doentia, política e sofrimento pessoal.

Dilma e seus ministros
A presidente colocou um petista clássico no Ministério da Educação, mesmo tendo que engolir críticas duras que ele lhe fizera duas semanas antes. Talvez com isso consiga reaglutinar um setor tradicional do petismo, ultimamente muito combalido. Talvez que sua “pátria educadora” consiga uma nova imagem. Mas vai ser difícil, principalmente porque, para substituir o ministro da comunicação social (escrever a verdade num governo de mentirosos é pecado mortal) um sociólogo pós graduado em engenharia de produção, cuja maior qualificação para o cargo é ter sido tesoureiro da campanha. Janine e Edinho já começam devendo...

Já o ministro do Planejamento, ao discutir reajustes salariais pedidos por funcionários, disse-lhes que “a sociedade clama pela redução da folha de pagamentos”. Seria melhor se dissesse a verdade, que o dinheiro existente tem outras prioridades.

Inflação chegando
Desaparecem as moedas divisionárias. Dia destes um comerciante me deu um desconto de três reais numa compra de vinte, apenas para ficar com troco miúdo. Também descobri que uma rede de supermercados dá 5 pães carecas para quem trocar 50 reais em moedas. O desaparecimento das moedas é o sinal mais claro de sua perda de valor. Outro sinal me vem do correio eletrônico: dos 20 a 30 e-mails promocionais diários, passei a receber quatro ou cinco. O terceiro está no supermercado: a batata ultrapassa os 5 reais por quilo e o pão, 10.

Será que essa política econômica baseada no consumo espera que os preços revertam por simples pressão de mercado?

A dívida da federação
A redução da dívida dos Estados e Municípios com o governo federal é o confronto da vez. É, mano: farinha pouca, meu pirão primeiro.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Um olhar à direita


Por ANA DINIZ, jornalista, em seu blog Na rede

Supreendeu-me ver, entre os muitos e variados vídeos e fotografias das manifestações do dia 15 de março, um estandarte azul. Estandartes são símbolos antigos; quem o usa, é tradicionalista e ultraconservador. Ou seja, é de extrema direita.

Na mesma manifestação, em outro local, foi preso um grupo autodenominado de “carecas do subúrbio” (na imagem). Neonazistas... negros?! Este episódio me surpreendeu mais ainda. Menos pelo paradoxo (Perdoa-os, pai, eles não sabem o que fazem!), afinal, o nazismo é eugênico, e porque não pode ser negro?, que pelo subúrbio, pela presença em redutos reivindicados pela esquerda.

Ora, a extrema direita parecia ter sumido do cenário político brasileiro. Mesmo assim, eu não deveria estar surpresa, porque nos últimos anos tem havido indícios claros, cada vez mais frequentes, de um ressurgimento: algumas prisões de “carecas”, depois de atos violentos; os atentados contra mendigos, índios, meninos de rua; conteúdos cada vez mais ousados em blogues; disseminação de terrorismo virtual. E, nas últimas eleições, a votação recebida pela assim chamada “bancada da bala” apresentou um poder de fogo razoável. Aliás, segundo os analistas, o resultado da eleição parlamentar apontou um rumo de centro-direita para o país.

Mas uma coisa é a direita moderada, liberal, dos ACM e dos Mainardi, e outra coisa é o fundamentalismo extremista que caracteriza essa direita ultraconservadora. Ela é sempre violenta, intolerante, incapaz de diálogo. Guerra é uma palavra que anda sempre presente em suas conversas. Se pudesse, teria escravos... e às vezes tem, que o diga a Polícia Federal que, volta e meia, liberta pessoas reduzidas a condição semelhante à do escravo.

O fato de sentir-se segura o bastante para mostrar a cara, apresentar de público estandartes e desafios, reivindicar claramente um golpe de estado, demonstra que não está sendo tão repulsiva assim para muita gente. Está conseguindo seduzir.

Qual é a sedução da ultradireita?

A solução pela força. A ordem unida, um-dois, um-dois. A criação de uma zona de conforto, sem inquietações, porque sem críticas. A abdicação das decisões e, portanto, uma falsa ideia de inocência. A supervalorização do “nós” em relação a todos os outros “eles”.

A extrema direita sempre se fortalece quando há fraqueza institucional. Sempre.

Ela recrudesce os discursos quando há instabilidade. Ela oferece o lenitivo da violência: elimine a oposição e a crítica e você terá paz.

Ela se baseia no discurso da superioridade e do egoísmo: não queremos imigrantes por aqui; não queremos concorrência; não queremos contradições. Não balance o barco.

Ela é mortal. Ela mata o que atrapalha e, muitas vezes, quem não pode se defender.

Mas ela não pode ser ignorada. Também não pode ser superdimensionada (ela era minoria, bem minoria, nas manifestações). Tem que ter voz, para que seja forçada a agir às claras. Tem que ser medida e acompanhada.

Para contê-la nos limites que lhe proporciona a democracia é preciso não alimentá-la. E, infelizmente, depois do que aconteceu no dia 15, Brasília está lhe dando filés.

Primeiro, a presidente vai à tevê com uma atitude mais ou menos assim: Eu sou humilde. Estou dizendo que sou humilde. Vai encarar?

Ela relembra sua luta contra a ditadura e presta homenagem aos que morreram. Ela pode chorá-los, mas não os respeita: se respeitasse, não permitiria que ladrões se apropriassem do país reconstruído. Se respeitasse, demitiria os fichas sujas de seu ministério, antes de pedir ao Congresso que vote uma lei para isso; afastaria de seu convívio pessoas suspeitas. Se respeitasse, não permitiria as ameaças sobre a Petrobrás, nem mentiria na campanha. Se respeitasse, não teria um projeto de poder, mas um projeto de Brasil. Porque era este o projeto daqueles que morreram.

Segundo, o Congresso Nacional propõe um remendo político que chama de reforma. E põe mais dinheiro nos partidos, triplica o fundo partidário num ano em que é preciso reduzir, não aumentar, o gasto público. Pôs nos partidos o que foi cortado nos investimentos indispensáveis. Quer fazer uma maquiagem num sistema eleitoral ruim, posto sob suspeita nas últimas três eleições. Quer fazer prédios anexos quando faltam estradas. Nenhuma discussão sobre o fundamental: as prefeituras completamente falidas, situação de que nem São Paulo escapa.

Terceiro, o Supremo Tribunal Federal começa um jogo de cena no petrolão. Acende o forno para a pizza. O país inteiro suspeita de Teori Zavaski, mas não interessa: é esse mesmo que vai por a mão na massa.

O cidadão olha para Brasília e não vê saída alguma; ele baixa os olhos para a rua onde está e enxerga o assaltante parado na esquina, só esperando ele passar. Sua exasperação é exatamente o que a extrema direita quer.

Então não há porque se espantar se negros, beneficiados com a política de cotas (que eu, aliás, apoio integralmente) se apresentam como neonazistas. Eles não são uns coitadinhos. Eles, como qualquer outro cidadão, querem respeito e respostas.

Que ninguém se espante, também, se esta crise se tornar mais aguda, com cada vez mais frequentes apelos a um governo de força. Mas é preciso resistir a essa sedução. É preciso ver os gulags que estão por detrás, os efeitos da censura pelo tempo afora. É preciso ter sempre consciência que, para quem ouviu o canto da sereia vem a morte cruel pelo afogamento.

E é preciso cobrar dos três poderes mais vergonha na cara.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Que moral, hem!


Por ANA DINIZ, jornalistas, em seu blog Na rede

O deputado Edmilson Rodrigues vai ser processado por quebra de decoro parlamentar porque ousou, ousou! – chamar de moleque o eminente peemedebista... como é mesmo o nome dele? Esqueci, que delito horrível! – no aceso de uma discussão. Edmilson, um nortista, está sendo acusado de “preconceito contra nordestinos”.

E o eminente peemedebista Renan Calheiros, presidente do Senado, está sendo acusado de corrupção da grossa, mas, para o PMDB, não há, aí, quebra de decoro. Nem sequer desconforto!

“Mexa-se, mexa-se!”, cantou uma vez o menestrel Juca Chaves. “Mas nunca tão depressa! Quem tem pressa come cru!”.

Parece que o PMDB não ouviu essa cantiga, ou se ouviu, esqueceu. Apresentou-se em rede nacional não como governista, não como aliado do governo, como seria o correto, mas como o próprio governo. Alinhou ministros e promessas, arrotou grandezas morais e uma competência feita de escolhas e bem poucas realizações. Precipitou-se, o PMDB: embora tenha abocanhado uma bela fatia da administração federal, ele não manda nela. Suas escolhas estão subordinadas à presidente que, apesar de ter ganho uma eleição de forma mentirosa, e por pequena margem, é legítima.

Já tivemos presidentes do PMDB. Dois presidentes-viúvos, que assumiram porque a cabeça do casal foi decapitada. Quer ter, agora, um terceiro presidente-viúvo, porque só assim, meio que na sombra, é que chega lá. Mas de José Sarney lembramos a inflação estratosférica que nos conduziu para o Collor, com Itamar na vice. Collor decapitado, passamos para outro governo do PMDB. Itamar não acreditava no plano real (pelo menos é o que consta do livro da Míriam Leitão, que Itamar nunca contestou), permitiu seu lançamento porque não tinha alternativa. Depois se opôs radicalmente ao seu sucessor, Fernando Henrique, o ministro do real.

Em todos estes anos de democracia plena, vários partidos apresentaram projetos consistentes: PSDB, PT, PPS, PCdoB, Dem, PDT. São projetos divergentes entre si, baseados em ideologias diversas, até contrárias, e utopias diferentes. Mas são partidos que têm perfil, sabe-se o que esperar deles. Quanto ao PMDB, como o partido deixou claro no programa em que se apresentou como governo, faz escolhas: ora, quem escolhe, escolhe o já feito, não cria nem constrói nada de novo. Limita-se ao que está ao alcance da mão. Ideias, propostas, e, como vemos agora, dutos de dinheiro clandestino.

Pensando bem, talvez isso seja uma ideologia, a ideologia do líquido que toma forma do recipiente que o contém. Se for assim, é uma ideologia que se evapora quando sob o aquecimento das tensões. E, mesmo contando com a força do vapor, basta instalar uma válvula, de preço, aliás, bem variável, para ser controlada.

E talvez explique porque não se exija decoro de um senador publicamente acusado de praticar diversos crimes contra o erário público (e mais um, contra a inteligência e a boa-fé dos brasileiros), mas se queira enquadrar o deputado do pequeno PSOL porque talvez tenha se excedido no discurso. Digo – talvez – porque é bem possível que o deputado Edmilson Rodrigues tenha simplesmente falado a verdade. E o deputado X (não há jeito de eu me lembrar do nome dele!) seja mesmo um moleque.

É, talvez o padrão ético do PMDB explique essa contradição. E, sinceramente, não sei se um presidente do PMDB será melhor que uma presidente do PT.

A lista de Janot e a decisão de divulgá-la, tomada por Teori Zavaski (quem quiser que acredite que o Planalto não agiu nessas decisões) demonstram que Dilma está longe de entregar os pontos. Se ela conseguir afastar Renan ou Cunha da presidência de uma das casas do Congresso, enfraquecerá o PMDB o suficiente para retomar a governabilidade ameaçada. Mesmo com as manifestações de rua e a incômoda verborragia do ex-presidente Lula (que até agora não se conformou de ser apenas um ex). Mesmo com o terrorismo virtual instalado pela extrema direita e por um sem número de cidadãos assustados ou que se divertem espalhando medo (só para dar uma ideia do que está acontecendo nas redes sociais, dia destes recebi dois áudios ressuscitados de 1963!). Mesmo com uma recessão em andamento.

Só que ela tem que ser rápida: falta uma semana para o 15 de março e existe, graças a Lula, risco real de confrontação nas ruas.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

A flor da Guiné



Por ANA DINIZ, jornalista, em seu blog Na rede

Desde o dia em que saiu o resultado do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro que ando matutando sobre a Guiné Equatorial. Que bela flor viu lá o colibri carioca?

Tão bela e tão perfumada que eclipsou qualquer preocupação, todos os desgastes e todas as dificuldades para representar na avenida um país com 400.000 habitantes (dado oficial da Embaixada da Guiné no Brasil, mas há quem diga que são mais, e outros, que são menos), duramente marcado pela colonização, estigmatizado pelas violações constantes de direitos humanos, com 77% da população abaixo da linha da pobreza e descoberto por um navegador português chamado Fernando Pó.

É, Fernando Pó.

Bem, a Petrobrás está lá. Ela adquiriu, em janeiro de 2006, 50% de participação num contrato de partilha de produção de petróleo (bloco L, na bacia do rio Muni) operado pela Chevron, que perfurou dois poços que deram em nada e, no ano seguinte, abandonou o bloco e o país. A Petrobrás continua tentando, talvez acreditando que “é preciso mais que cinco poços secos para condenar uma bacia.” Em 2009 o NY Times dizia que poucos países simbolizam tão bem a corrupção e o nepotismo do óleo como a Guiné Equatorial e que as petroleiras que trabalham ali estavam preocupadas com a imagem do país.

Bingo? Não sei, ouso pensar, mas não ouso opinar sobre isso.

Mas esse contrato que a Petrobrás assinou parece um pouco com a história de Pasadena, não? O ano é o mesmo e a Petrobrás comprou mico nos dois casos: na Guiné, comprou em janeiro uma participação de exploração de um bloco que ia ser perfurado no mesmo ano; no ano seguinte, fica com um poço seco... Toyin Akinosho, analista do Africa Oil+Gas Report, jornal mensal dedicado à indústria do petróleo, comenta que a decisão de ficar, tomada pela Petrobrás, talvez se deva ao fato de que os dirigentes de estatais não têm a mesma responsabilidade que têm os das empresas privadas perante os acionistas...

E de repente a Beija Flor repete Fernando Pó e descobre a Guiné Equatorial. E ganha o campeonato. E com certeza será convidada a se apresentar lá: bateria, mulatas, dirigentes da escola e da Liga das Escolas de Samba. E voltará dizendo que o povo da Guiné se entusiasmou tanto que todos pensam numa continuação por lá.

E Neguinho da Beija Flor dá entrevista dizendo que é a contravenção que financia o carnaval carioca.

E o governo da Guiné diz que foram as empresas, no papel de animadores culturais, que financiaram a escola. Empresas ansiosas para melhorar a imagem do país. Mas empresas que podem reunir alguns milhões de reais numa vaquinha assim, informal, para financiar uma agremiação cultural cuja importância se restringe ao Brasil, e uma vez por ano? E a responsabilidade com os acionistas? Bem, se o acionista principal for uma viúva rica, é só seduzir a viúva, não?

Ainda tentando descobrir a flor que encantou o colibri carioca, leio, por meio do Trip Advisor, relato de viagens feitas a esse país. Num deles, o viajante escreve: “Museus? Bem, a Air France tem voos diários” para acrescentar que só a natureza, que ele qualifica de magnífica, é que oferece o que ver.

Eu imagino o Pó navegando para descobrir a ilha de Bioko. Visualizando alegorias e fantasias, com árvores de renda franzida e mulheres seminuas. Fissurado depois da longa viagem por novos cheiros, que o façam esquecer o que vem do interior das caravelas. Atraído pelo brilho da riqueza negra.

O que o Brasil está fazendo com os africanos? Meu Deus!

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Brasil profundo

Por ANA DINIZ, jornalista, em seu blog Na rede

O Congresso é a cara do Brasil. É ele que espelha, física e moralmente, o Brasil profundo, do litoral, do sertão e das cidades. Especialistas políticos caracterizaram o Congresso que iniciou suas sessões ontem como de centro-direita, com o avanço de das bancadas religiosas e da chamada bancada da bala.
E esse Brasil mostrou a sua cara, ontem, ao eleger Eduardo Cunha.
Infelizmente, não é a cara que eu gostaria de ver.
A cara que vejo hoje é enrugada por práticas corruptas, hidratada pelos panos quentes postos sobre os escândalos, maquiada pelo marketing irresponsável, enfeitada com ouro de tolo e com o olhar esquivo dos trapaceiros.
Ontem, o Brasil estendeu um tapete para tentar esconder o lixo.
Mas o Congresso se esqueceu que o lixo fede. A podridão se impõe para muito além do ponto onde ocorre. E quando o lixo é muito, e é antigo, faz escorrer chorume. O chorume contamina tudo o que toca, terra e água. E também tapetes.
Na semana passada um título de jornal ilustrou essa contaminação: dizia que o desvio na Petrobrás sustentaria o programa bolsa-família por uma década. A leitura subliminar dessa manchete é a seguinte: esse dinheiro que está no bolso deles devia estar no meu. O chorume toca, aqui, o inconsciente coletivo.
Cunha não fará oposição – aliás, ele declarou isso sem subterfúgios – e sim, lado a lado com Renan Calheiros e Michel Temer, a acomodação dos fichas sujas, sejam eles de que partido forem. Esse foi o pano de fundo que garantiu sua eleição. O site “Congresso em Foco” informa que essa é a bancada mais numerosa do Congresso. Em 2012, era composta por 191 deputados ou senadores. Nas últimas eleições saíram 34 deputados e entraram 40 com processos, em sua maioria por corrupção. Esse contingente de deputados representa 18% da Câmara. Entre eles está o próprio Eduardo Cunha. E entre eles não estão (ainda) os envolvidos nos desmandos da Petrobrás.
No entanto, precisamos ter esperança. Num artigo publicado neste domingo passado, Fernando Henrique coloca as suas no Judiciário. Em outro artigo, despedindo-se da política partidária, José Sarney apela para a pressão suprapartidária, a fim de evitar males maiores para o Maranhão. Lula, em vídeo circulante na internet, grita pela mobilização do PT. Os três ex-presidentes, de posições tão diferentes entre si, manifestam simultaneamente extrema preocupação com o momento nacional.
Mas, para os parlamentares eleitores de Eduardo Cunha, que reivindicam aumento das mordomias e das respectivas remunerações, a preocupação parece ser somente a que mobiliza hoje o Brasil profundo: que fantasias usarão daqui a duas semanas, no Carnaval.
Porque as fantasias de palhaço já têm donos: somos nós.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

O mundo dos ciborgues


Por ANA DINIZ, jornalista, em seu blog Na rede

Eric Schimidt, diretor executivo do Google, previu na semana passada que a internet, na forma como a conhecemos hoje, vai dar lugar a redes interativas tão integradas aos objetos de uso comum que as pessoas vão deixar de percebê-la. Ou seja: você manda, a geladeira obedece. Pode ser a cadeira, também, ou sua própria roupa. Você poderá ter o mundo na palma da mão, literalmente: projeções holográficas disponibilizam em seu corpo o planeta, ou as pessoas do planeta.

Mas você não poderá agarrar o tempo que flui pelos vãos dos dedos e responder assim à pergunta do poeta Cassiano Ricardo. E este é o dilema, o problema, o xis da questão: integrado num sistema superveloz, é impossível refletir. O Homo Zapiens não pensa, apenas reage.

Esse termo, Homo Zapiens, foi universalizado, a partir de 1999, por meio de um romance do escritor russo Victor Pelevin (que talvez o tenha criado), como informa a Wikipedia. De lá para cá, vários estudos acadêmicos foram publicados em torno dessa nova condição humana, que consiste na hiperinformação e na supervelocidade.

Se não há tempo para pensar ou refletir antes da resposta, se ela deve ser dada em segundos – como fazem os atletas ou os comandos militares de elite – ela será, necessariamente, um reflexo. Ela estará integrada ao corpo da pessoa, resultado de treinamentos exaustivos, no caso dos atletas e dos comandos, mas, no caso das redes informatizadas, decorrente do próprio uso continuado.

Tenho claro que a maioria das pessoas não gosta de pensar, de tomar decisões por seu arbítrio, prefere um manual – seja para comer, seja para rezar, seja para estar em sociedade, seja para prestar exames de vestibular (a quantidade de zeros na redação é um indicador claro disso). Não será problema reduzir-se a um ciborgue, que são aqueles seres da mitologia moderna, metade pessoa, metade máquina. Mas esta condição tem seu preço.

A primeira conta é a total impossibilidade do isolamento. A segunda é o risco de todo manual: o erro que, no caso, conduzirá a desastres. A terceira é o aumento brutal dos controles sobre as pessoas: se você é parte de um sistema, está integrado nele, você não pode escapar de suas regras, por mais contestador que seja. E a quarta é a antevisão de Huxley: a inteligência, indispensável para o desenvolvimento humano, em ilhas, desdobrando os controles, corrigindo o manual, para que todos sejam drogados felizes.

Estamos muito longe disso? Talvez, mas há muito tempo já as pessoas se vestem da mesma maneira, mergulhadas num anonimato angustiante, e, progressivamente, penduram-se cada vez mais nas redes. Cada vez menos fazem coisas com as próprias mãos ou pensam pelas próprias cabeças. Um dia destes atendi o telefone e era uma ligação de telemarketing. Diferente do usual, uma voz eletrônica me disse: Esta/ ligação/ é para / o senhor / Marcos. / Se você/ é a pessoa indicada / tecle 1. /Se você / conhece a pessoa indicada/ tecle 2... e assim por diante. Desliguei o telefone, naturalmente, com uma sensação de raiva e choque. Raiva pelo menosprezo demonstrado pelo uso da voz eletrônica; choque porque não imaginava que, nesta remota província do império brasileiro já se pudesse ser objeto de uma intervenção dessas. Depois pensei que o mundo globalizado não aceita mais a condição de “remota província”, porque a geografia virtual é diferente da física. E que estamos nos tornando ciborgues e nem percebemos isso.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

O atentado e os corvos

Por ANA DINIZ, em seu blog Na rede

Cria corvos e eles te arrancarão os olhos
(Provérbio espanhol)

Há um punhado de obras de arte que detesto. Nem por isso lhes nego a condição de arte ou a liberdade de seus autores em produzi-las. Nego-me eu a ler, ver, assistir, comentar. Há milhares de pessoas que, como eu, também não gostam e há milhares que pensam de forma diferente. Mas liberdade é isso: poder escolher.

Raramente aprecio uma sátira. Para mim, ela está perto demais da grosseria. Também, pela mesma razão, não gosto do “Zorra Total”. Então, desligo a tevê, fecho a revista, desconecto o assunto. O humor nu – nos sentidos literal e figurado – não é a praia para onde eu vou.

A sátira frequentemente transborda do terreno do humor para entrar no da ofensa pura e simples. Esse limite é cinzento: o que eu considero limite não é o mesmo que o outro considera. O deboche muitas vezes beira a crueldade. Discutir a intenção do autor é bobagem: o dano causado geralmente é irremediável para o atingido.

Mesmo assim, ser ofendido não gera um direito de vida ou morte sobre o ofensor. Não depois que se estabeleceram princípios mundiais de convivência e direitos humanos.

E aqui chegamos ao cerne da questão: o que fazer quando um grupo humano decide não aceitar esses princípios e, pior, tenta estabelecer o seu ponto de vista sobre todos os demais?

Em termos de arte, chamamos isso de censura. Em termos políticos, de extremismo. Em termos sociais, de radicalismo. Sabemos como combater a censura, o extremismo, o radicalismo: pactuamos os limites na forma de leis que todos devem respeitar. E discutimos esses limites o tempo todo, para alterá-los por meio de novos pactos. Usamos para isso ferramentas legais: o processo contra o autor de algo que nos ofende gera decisões que muitas vezes fixam novos limites para o que se pode tolerar.

Mas, em termos religiosos, não há pactos: há dogmas. Dogmas não se discutem: acredita-se neles ou não. Em clima de liberdade, um dogma não deve se sobrepor a outro, e se um cidadão decide acreditar neste, e não naquele, ou simplesmente não acreditar em nenhum, o religioso pode tentar convertê-lo e, se não o conseguir, rezar pela sua alma. Não pode coagi-lo e, muito menos, matá-lo. E esse é o problema do fundamentalismo religioso, que matou Jesus Cristo porque negou a divindade de César, que dizimara, antes de Cristo, os zoroastristas e, depois dele, continua matando até hoje. O fundamentalismo é mortal. E é tentador: o nome de Deus é um formidável instrumento de poder. Alguns milhões de mártires, de todas as religiões, atestam até onde pode ir um crente desafiado.

Hoje, um grupo humano está retomando o fundamentalismo extremo.

O atentado de Paris é café pequeno perto do que esse grupo está fazendo na Nigéria, na Somália, no Iraque e na Síria, nestes dois últimos países sob a fachada de Estado Islâmico. O massacre sobre muçulmanos xiitas, assírios, cristãos armênios e yazidis (estes estão sendo exterminados) já conta milhares e milhares de mortos. Centenas de milhares de mulheres de todas as idades estão sendo transformadas em servas ou, pior, coisas: não dispõem nem de seu corpo, nem de seu espírito.

E nós? Nós, olhamos horrorizados, assinamos petições, passamos a conta para as potências senhoras da guerra e nos sentimos a salvo. Mas – estamos realmente a salvo?

Dos jihadistas, provavelmente sim. Mas estamos nos esquecendo de olhar em torno e ver aqueles que, de paletó e gravata, constroem os ninhos dos corvos que nos arrancarão os olhos. Porque o fundamentalismo não nasce da noite para o dia, nem de uma iluminação profética. Ele se alimenta da intolerância cotidiana, do dia a dia da ofensa, da falta de limites, fermenta no ódio e na ambição. E toma forma nas pessoas que usam o nome de Deus para canalizar a intolerância contra os demais, demonizando os adversários – e o demônio deve ser combatido, não é mesmo? E seus servos eliminados ou reduzidos à sujeição total.

Tem-se falado em segunda guerra fria e coisa e tal. Mas a História não anda em círculos, ela traça espirais ascendentes ou descendentes, cujas curvas são semelhantes entre si, mas nunca iguais. O drama do século XX foi o antagonismo entre diferentes ideologias; o do século XXI será o religioso, se permitirmos que os corvos se criem.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

O pacto necessário

Por ANA DINIZ, jornalista, em seu blog Na rede


Os governos e a Justiça estarão cumprindo os papéis que se espera deles: se punirem exemplarmente os corruptos e os corruptores. (Discurso de posse da presidente Dilma Rousseff, 2015).

Temperamental e desbocado como era, D. Pedro I por certo daria um soco na mesa, acompanhado de meia dúzia de palavrões, ao ouvir esta frase, mais de 180 anos depois de ter falado do trono, para a Assembleia Geral Legislativa, abrindo a sessão de 1827:

O governo necessita que esta Assembleia o autorize, da forma como achar conveniente, para que possa estorvar a marcha dos dilapidadores da Fazenda Pública, aos que não desempenharem bem os seus empregos e aqueles que quiserem perturbar a ordem estabelecida por todos nós jurada; já demitindo-os, já dando-lhes castigos correcionais. (Falla do Throno, abertura de 1827 – Biblioteca do Senado. Atualizei a ortografia).

Nesse discurso, um dos mais longos que fez, D. Pedro I ressaltou à Assembleia a urgência da matéria: “um sistema de finanças bem organizado deverá ser o vosso particular cuidado nesta sessão, pois o atual, como vereis do relatório do ministro da Fazenda, não só é mau, mas é péssimo, e dá lugar a toda qualidade de dilapidações. Um sistema de finanças, torno a dizer, que ponha cobro, não digo a todos, mas à maior parte dos extravios, que existem, e que as leis dão lugar a que existam e por isso o governo, por mais que trabalhe, não pode evitar.”

Bem, ele não conseguiu, assim, de primeira. Convocou mais duas sessões legislativas ordinárias e duas extraordinárias, repisando a urgência e a necessidade de arrumar as finanças públicas; não conseguiu nada. Finalmente, em 1830, deu o soco na mesa: convocou uma sessão extraordinária com pauta específica para discussão e foi assim que o Brasil teve sua primeira lei do orçamento.

Mas foi somente com D. Pedro II, em 1847, que o imperador pôde anunciar orgulhosamente que as receitas e as despesas estavam equilibradas, graças a “judiciosas medidas”, e que brevemente começaria a reduzir a dívida interna. As judiciosas medidas começavam pela vida austera do imperador que disse uma vez: “Também entendo que despesa inútil é furto a Nação”.

Quase dois séculos se passaram desde Pedro I e novamente o chefe de Estado coloca no futuro a punição dos corruptos e corruptores. A burocracia multiplicou-se, as leis, também. A monarquia constitucional deu lugar à República, que alternou períodos ditatoriais e eleitorais – e a corrupção continua lá, plantada, florescente, imbatível, no dizer da presidente, envolvendo “todas as esferas de governo e todos os núcleos de poder, tanto no ambiente público como no ambiente privado.”

Como em todos os ambientes sociais existem núcleos de poder – poder familiar, poder comunitário – de matizes e gradações diversas, vejo no discurso da presidente uma generalidade inaceitável: somos cleptocratas, somos corruptos, todos!

Eu não aceito essa generalidade porque não é isso o que eu vejo todos os dias. Eu vejo todos os dias uma multidão que tenta viver honestamente, que trabalha duro e que paga suas contas. E que é furtado na prestação de serviços de telefonia, eletricidade, transporte público; nos juros excessivos, tarifas bancárias não explicadas, produtos enganosos; tem seu tempo furtado nas imensas filas de cadastramento (a última do ano foi na Caixa, para inscrição em programa oficial) ou nas filas de espera para qualquer serviço público. Eu vejo uma multidão que tenta manter seu nome limpo de dívidas e que está exasperada porque finalmente consegue ver para que bolsos está fluindo toda essa ladroagem.

Não, presidente, não é de pacto que precisamos, é de rompimento: do rompimento de seu governo com a corrupção que grassa à sua sombra. Não tente justificar isso jogando a responsabilidade para a sociedade, para o povo, para nós. Comece a senhora a luta: deixe de lotear ministérios alegando uma falsa governabilidade. Só isso já bastaria para que a senhora pudesse anunciar, como D. Pedro II o fez aos vinte anos de idade, o equilíbrio das receitas e despesas. Só isso já faria o país acreditar que sim, é possível ultrapassar de vez a cultura dos extravios que vem de tão longe.

É a senhora quem precisa fazer um pacto com a res publica. Rompa com a corrupção, presidente, e descobrirá que os brasileiros preferem ser honestos.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Em favor da utopia

Por ANA DINIZ, jornalista, em seu blog Na rede



Entre o Natal e o Ano Novo, o tempo é de utopia, mais que de festas.

Porque estas duas invenções humanas celebram o nascimento e o renascimento, ou seja, a esperança. E não há esperança sem utopia.

Conservadores usam a palavra utopia como um pejorativo com que qualificam o que consideram impossível e até ingênuo ou ridículo. Mas, frequentemente, têm que se render ao que achavam ser utópico: ao movimento pacifista, por exemplo, à participação das mulheres na política, à eletricidade... e muitas outras coisas que gente aparentemente sonhadora, mas na verdade de muita fé, ousou construir.

A maior utopia, a da sociedade perfeita, onde todos vivam em paz e harmonia, é buscada por todos: mesmo quem não acredita nisso tem um pouquinho de esperança. E é esta esperança que faz com que todos façam votos de paz neste período, mesmo se, no momento seguinte, insultem ou agridam. Um dia, talvez...

É impossível chegar à concretização da utopia, porque haverá sempre uma ambição a mais, um defeito a corrigir e, sobretudo, o fato de que a utopia de cada um é diferente da dos demais. Há pontos comuns, é verdade. Buscar estes pontos em favor da paz traz o sonhado para mais perto da realidade.

Minha utopia, neste momento, é limitada, mas tão difícil como qualquer outra: um 2015 melhor do que foi 2014. Sonho com isso porque não vejo que vá acontecer; mas a dificuldade já é ruim em si mesma, não precisa ser aumentada com terrores antecipatórios. Diante dos preços sendo reajustados toda semana; do sumiço das moedas divisionárias, do troco; do estouro iminente da bolha imobiliária com quebradeiras previsíveis; da possibilidade de perdermos nossa maior estatal; da violência extrema em que mergulhamos; dos nossos times de futebol em decadência – prefiro sonhar, sim, que de alguma maneira a inflação será domada, a bolha imobiliária será emurchecida suavemente, a Petrobrás resistirá, a violência diminuirá e nossos times encontrarão novos caminhos.

Haverá meios, por certo, que podem trazer minha utopia para mais perto da realidade, inclusive ações que eu mesma posso realizar, e, assim, agirei guiada por ela, o que me fará encontrar alguma felicidade no ano que se anuncia ruim.

E é isto o que desejo para todos: não desistam da utopia, guiem-se por ela e gozem os relâmpagos da felicidade possível na dura travessia do ano de 2015.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Somos cleptocratas?



Por ANA DINIZ, jornalista, em seu blog Na rede

Uma pergunta martelando na cabeça – porque o povo elege determinadas pessoas mesmo sabendo que são corruptas – levou a outras perguntas, estas feitas diretamente a eleitores que me declararam seu voto nessas pessoas. As respostas tinham poucas variações: para alguns, o voto era de gratidão por diversos tipos de ajuda recebidos (furar uma fila no sistema de saúde, telhas para a casa ou bolsa de estudos para o filho) e, para muitos outros, o voto se justificava pela expectativa dessa ajuda. Uma resposta, entretanto, sintetizou tudo:

- Todos eles roubam. Esse daí, pelo menos, dá um pedacinho pra gente.

O que está claramente definido nesta frase é que o problema principal para esses eleitores não é o furto da coisa pública, mas estar fora da partilha desse furto. Secundariamente, a avaliação de que todos roubam é apresentada como uma premissa, uma verdade inquestionável: quem não se aproveita dos cofres públicos é tido como tolo e otário. Finalmente, a consideração de que o voto é um bem de valor econômico definido na expressão “pedacinho”: é um valor pequeno, flutuante, mas que pode ser perfeitamente negociado a fio de bigode, isto é, na base da palavra dada.

Este raciocínio é o mesmo que preside a planilha apreendida na Queiroz Galvão, instrumento mais sofisticado, mas que igualmente transforma a atividade política em bem de valor econômico. O “ProfPart”, que é a disponibilidade de recursos, dentro da margem de lucro admitida para a contratação de obra pública, para a doação a ser feita na próxima campanha eleitoral para partido ou político, é o mesmo pedacinho, aqui transformado em pedação matematicamente calculado, negociado a fio de bigode.

Entre o eleitor e a grande empreiteira está um enorme espectro de governos municipais e estaduais, pequenas e médias empresas, servidores públicos de muitos níveis. Neles pode ser encontrada com frequência “a cota do deputado (ou do vereador)”, na contratação de obras; o “está sobrando aqui, vou levar pra casa”, no material de escritório; o “use a merenda escolar na confraternização”; o “vou asfaltar primeiro a minha rua, afinal sou autoridade”; ou “o partido exige esta outra Secretaria; essa oferecida é irrelevante, não tem dinheiro”; “os deputados estão insatisfeitos, isso aí não dá para empregar os cabos eleitorais” – e assim por diante.

Parece-me claro que não é possível dissociar a atividade política da atividade econômica, embora as Universidades façam isso sem nenhum questionamento (por exemplo, ninguém trata de sindicalismo nos cursos de economia e nem de macroeconomia nos cursos de direito constitucional). Mas o Brasil não enfrenta o problema: prefere o caixa 2. Punhados de leis ditas rigorosas, mas fora da realidade, são burladas diariamente, gerando uma cultura que nos leva a conviver com a corrupção de forma natural.

Convivemos com dois preços: o “com recibo”, que inclui o pagamento dos impostos, para toda a atividade profissional liberal; o “com nota fiscal” e o “sem nota fiscal”, no comércio em todos os níveis, da padaria da esquina à loja de luxo. A pesada tributação brasileira responde por uma parte desse espírito sonegador, que é apenas um aspecto do caixa 2. Sim, porque é preciso um pouco de habilidade para movimentar recursos sonegados. Eles são tão produtos de roubo como quaisquer outros – o celular tomado no assalto ou os centavos a mais cobrados pela operadora de telefonia. Mas essa tributação exagerada não responde sozinha pela situação: a ela se alia a impunidade. A Justiça brasileira é tão ruim que pune a vítima antes de punir o réu. O país inteiro está vendo a diferença que faz um juiz – primeiro, Barbosa, e, agora, Moro – quando ele resolve agir. Mas a infinidade de tempo usada nos julgamentos anula boa parte do esforço e a existência de pesos e medidas diferentes, conforme o réu, torna o Judiciário inconfiável. Os réus do mensalão já estão fora da cadeia enquanto ainda penam, entre grades do Brasil inteiro, milhares de presos sem julgamento. E, entre eles, quantos inocentes haverá? Dinheiro (nem que seja para comprar a dedicação de um advogado) e prestígio político (para pressões, naturalmente), fazem diferença, sim, no Judiciário. E, quando isto acontece, está feita a terceira perna de sustentação da cleptocracia, o governo baseado no furto.

Geralmente as cleptocracias funcionam na contramão da democracia: com poucas exceções, tiranos e ditadores se apropriam da coisa pública com naturalidade e reprimem duramente quaisquer discordantes. Mas parece que se está gerando no Brasil uma outra forma de cleptocracia, a democleptocracia, em que há um pedacinho, ou pedação, para cada um no caixa 2, com valor de mercado sem o rigor matemático da Queiroz Galvão, mas perfeitamente definido. Em vez de repressão, corrupção miúda – é menos traumático e sai mais barato.

O Índice de Percepção da Corrupção da Transparência Internacional no colocou, em 2013, numa grande zona vermelha de corrupção, no lugar 72 entre 177. Realmente é difícil perceber corrupção numa cleptocracia em que o povo participa.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Para que serve a campanha eleitoral?


Por ANA DINIZ, jornalista, em seu blog Na rede

Não, eu não vou comentar o que todo mundo já sabe: que a presidente Dilma está fazendo tudo o que na campanha disse que não faria. Mas vou partir daí, desse fato, para, conjugando-o com outro – a natureza das despesas de 4,92 bilhões de reais gastos nas campanhas eleitorais das eleições de 2014 – abordar a pergunta que está no título desta crônica.

Na utopia brasileira, em grande parte expressa em ordenamentos legais dissociados da realidade, a campanha deveria servir para discutir as propostas dos candidatos. Deveria também ser um instrumento de visibilidade dos candidatos, de forma a proteger as candidaturas de partidos minoritários e levar ao cidadão o máximo possível de informação para que faça sua escolha livremente. No caso de candidatos ao Executivo, deveria espelhar o programa de governo dos candidatos que, apresentado à Justiça Eleitoral, baliza a proposta do candidato.

No entanto, a realidade é outra. Os programas de governo depositados na Justiça não servem para nada – talvez como razão de impugnação de candidatura se, por acaso, houver propostas contra as cláusulas pétreas da Constituição, como divisão do país, por exemplo. No mais, são peças literárias, desconhecidas até da equipe mais próxima do candidato. E não obrigam a nada.

Os conteúdos da campanha giram em torno do que Miguel Wiñazki chama de “notícia desejada”, ou seja, diz-se o que o eleitor quer ouvir, pouco importa seja real ou não. Os recursos cinematográficos permitem a criação de um mundo de ilusões, onde o que é feio é trabalhado para ficar horrível e o bonito, lindo. Nesse mundo ilusório, em que o horário eleitoral se assemelha à novela das seis, com trama superficial e mudanças abruptas do rumo da história, o tempo a ser usado se torna crucial, e, aí, a distribuição de tempo na tevê (ferramenta criada, aliás, para proteger as candidaturas de partidos minoritários) provoca o primeiro movimento para as coalisões majoritárias: não é o ajuste temático que reúne os partidos nesta ou naquela chapa, mas o agregado de tempo na tevê. Então, considera-se natural que um partido como o Democratas, que defende muitas bandeiras que o PT repudia, se junte a este numa coalizão eleitoral. É nessas coalizões que começa a verdadeira campanha eleitoral que, ao contrário do que quer a lei, passa bem longe do programa apresentado. Na realidade, na organização do tempo de tevê monta-se um time. Esse time vai disputar um campeonato, cujo troféu é o governo e sua base legislativa. E daí em diante, joga-se – para a torcida, que, sem ela, não há renda no campo de futebol nem votos na urna.

Quem ganha, leva. Se trapaceia, ou se, como aconteceu com Vanderlei Lima nas Olimpíadas, um fato estranho impediu alguém de ganhar, não interessa.

Mas, entre a composição do tempo da tevê e o final do campeonato há um bocado de dinheiro fluindo dos bolsos de uns para os bolsos de outros.  Esse dinheiro vem dos impostos, por via do chamado Fundo Partidário; e de particulares, quer sejam empresas, quer pessoas físicas. Os R$4,92 bilhões que circularam este ano, foram parar aonde?

Diz reportagem do portal UOL, da “Folha de São Paulo”:

A disputa eleitoral que teve a maior quantia de gastos foi ao cargo de deputado estadual (1,2 bilhão), da qual participaram 17 mil candidatos. Na sequência, as que tiveram mais despesas foram para os cargos de governador (R$ 1,1 bilhão) e de deputado federal (R$ 1 bilhão). Os gastos em publicidade representaram metade do total investido pelos candidatos na disputa eleitoral deste ano, seguidos por despesas com pagamento de pessoal e com custos de transporte.

O que são os “gastos em publicidade”? Na campanha padrão, cujo espelho está nas prestações de contas feitas à Justiça Eleitoral, são as despesas com produção de materiais impressos (cartazes, santinhos, banners, panfletos, jornais), peças para eventos (bottons, crachás, camisas, coletes, bandeiras) e, sobretudo, para a criação de marketing e a produção de programas de tevê (se o candidato tem uma produtora, ele vai ficar com a parte de leão do dinheiro da campanha; não sai no prejuízo, em nenhum caso). Essas unidades empresariais (agências de publicidade, marketing e relações públicas e as produtoras de tevê) é que dispuseram dos quase R$2,5 bilhões usados este ano para os gastos em publicidade, retendo consigo uma fatia que, segundo a tabela da Associação Brasileira de Agências de Publicidade varia de 10 mil reais (para verbas publicitárias empresariais de até 2,5 milhões) a 70 mil reais (para verbas superiores a 25 milhões) mas que, numa campanha, é acertada levando em conta a quantidade de candidaturas a ser atendida, o que deixa essa tabela como mera referência. Ou seja: se a agência vai atender uma legenda partidária com 60 candidatos a cargos proporcionais e dois a cargos majoritários, ela pode cobrar 200 mil reais (60 mil correspondentes às verbas publicitárias considerando cada candidato proporcional e 70 mil para cada candidato majoritário). O custo das produtoras varia. Segundo a Cinemátika, empresa especializada na produção de vídeos institucionais, um bom vídeo institucional custa de 15 mil a 40 mil reais. Como a produção de vídeos de campanha envolve atores, filmagens externas, uso de material cinematográfico e deslocamentos, vamos usar o máximo valor para uma estimativa, embora, com certeza, sejam mais caros que isso. Entre primeiro e segundo turnos, a campanha foi de 19 de agosto a 24 de outubro, com um intervalo de dois dias, ou seja, 75 dias. A 40 mil reais por dia, são 3 milhões de reais só para um candidato majoritário, só para uma produtora de tevê.

Bem, então temos a primeira resposta para a pergunta do título: a campanha serve para engordar as contas (ou fortalecer o setor, como preferirem) das agências de publicidade, gráficas e produtoras de tevê. De si mesmo, pagar as contas do mundo da mídia é justo e necessário. O problema está no que esse mundo da mídia está oferecendo.

Porque sem os vídeos a campanha seria quase inexistente, de tão chata. O Brasil já fez essa experiência, no tempo da ditadura, quando a campanha foi tão censurada que se limitava a um listão: foto, nome e número do candidato. As audiências das tevês da Câmara, do Senado e da própria TV Cultura mostram que o público não está interessado em debates, profundos ou não, sobre o seu destino ou sobre as questões nacionais, regionais ou locais. Até porque não entende a maior parte dessas questões - o jornalismo existe justo para decodificar linguagens e conceitos e torná-los acessíveis ao cidadão comum. Nos debates proporcionados pelas redes de tevê o jornalismo é engessado pelos marqueteiros nas reuniões prévias (tempo igual, temas) transformando tudo numa encenação casada com a ilusão produzida nos vídeos. O jornalismo impresso está, da mesma forma, cerceado, algumas vezes por si mesmo, outras pelo entendimento judicial sobre os crimes de opinião (escrever que um grileiro é grileiro pode condenar um jornalista, que o diga o Lúcio Flávio Pinto).

Então, o que sobra? Motivação, diriam os marqueteiros. A campanha serve para motivar o eleitor.

Sinceramente, é muito dinheiro para tão pouca coisa. Afinal, na forma como está, a campanha eleitoral não serve nem para que se identifique quem é candidato a deputado. Quem quiser esta informação que consulte as listas da Justiça Eleitoral. A campanha não compromete o candidato, não informa quem são os candidatos, não se ancora na realidade e se limita a dizer o que o eleitor quer ouvir, o que pode ser resumido numa única frase: meu time é melhor que o teu.

Ainda sinceramente, acho que quem defende que o Tesouro Nacional pague as campanhas eleitorais não sabe do que está falando ou está falando de má fé. Eu, pelo menos, não quero que minha cota de impostos vá financiar um mercado de ilusões eleitorais. Também não resolve proibir as empresas de contribuir para a campanha – o que é normal em todas as democracias – porque será inócuo. Elas o farão de forma indireta; há milhares de meios de fazer isso.

Para que as campanhas eleitorais sirvam para algo mais que gerar um mundo de ilusão destinado a um campeonato, o caminho é outro. Passa pela mudança na distribuição do tempo na tevê, na liberação do jornalismo das peias em que está hoje, na substituição da exigência de um programa de governo pela identificação de princípios e diretrizes programáticos obrigatórios, cujo descumprimento possibilitasse a responsabilização do candidato. E passa pela liberação da propaganda de rua. Por acaso, o povo também tem o direito de se manifestar.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

A tarefa mais importante


Por ANA DINIZ, jornalista, em seu blog Na rede

Alexandre Grothendieck (na foto) morreu há dois dias. Ele era um cientista – daquela linhagem muito especial de cientistas que não se limitam à sua disciplina, mas alcançam a filosofia por uma via própria, longe da formatação universitária. Um dos mais importantes matemáticos do século XX, que redescobriu sozinho a relação entre a circunferência e seu diâmetro aos 11 anos, num campo de concentração nazista, queria que o esquecessem – mas, como? É dele o trecho que transcrevo a seguir, em tradução livre. Foi escrito para uma conferência em Paris, em junho de 1970, sob o título “A responsabilidade do cientista (savant, no original) no mundo de hoje”. E transcrevo porque se aplica ao Brasil de hoje e porque acredito que essa responsabilidade, se é principalmente dos acadêmicos, é também de todos e cada um neste momento brasileiro:

Questiona-se por todo o mundo os diversos perigos que ameaçam esta ou aquela comunidade humana, grande ou pequena. No ocidente capitalista é o espantalho do “perigo comunista” que ameaçaria a liberdade da pessoa e os valores de uma certa cultura burguesa (...). Às vezes acentua-se o “perigo asiático” (já um dos motivos recorrentes do hitlerismo antes da guerra) ou o “perigo amarelo” que ameaçaria a herança cultural do ocidente. (...) Nos países comunistas invoca-se o “perigo imperialista” que ameaçaria as conquistas do proletariado. Outros “perigos”, por serem mais localizados, não deixam de turvar menos a consciência de uma fração não negligenciável da humanidade, e servem de motivação ou pretextos para muitas injustiças e crueldades: o “perigo negro” na África do Sul ou no sul dos Estados Unidos, o “perigo sionista” nos países árabes ou o “perigo árabe” em Israel, para citar alguns.

O observador desse novelo de “perigos” complementares, aparentemente bem específicos e mutuamente contraditórios, não pode deixar de ser atingido por sua extraordinária semelhança de fundo, e a identidade deveria dizer-lhe: em cada caso é sentida e denunciada como “perigo” a existência ou expansão (efetiva ou imaginada) de um grupo humano percebido como diferente do grupo de origem, seja esta distinção de ordem religiosa, linguística, étnica (“racial”) ou econômica, ou política (i. e. concernente à organização da sociedade).

(...)

Pode-se chamar, por oposição à tendência “atávica” que acabamos de descrever, a tendência “racional” ou “ética” nas relações entre os grupos. Na sua forma mais evoluída, ela resulta no conceito de solidariedade essencial entre os seres humanos, quaisquer que sejam os grupos a que pertençam, conceito que pode ser encontrado já em antigos pensadores, anteriores à nossa era (p. ex. Lao Tse, Buda, e outros). O aparecimento dessa tendência “racional”, preliminar indispensável à formação de sociedades civilizadas, deve sem dúvida ser vista (juntamente com a linguagem) como a conquista mais importante do espírito humano – conquista que está longe de ser completa, como acabamos de ver. Deveria ser possível, numa abordagem dessas, ver a história da humanidade como a história da luta até agora incerta entre essas duas tendências opostas nas relações entre os grupos humanos.

(...)

Por esta razão, a tarefa mais importante e a mais nobre que se coloca para os homens é a liquidação deste reflexo ancestral, e a plena realização da solidariedade inelutável que liga entre si todos os homens, quaisquer que sejam os grupos humanos aos quais pertençam.

*****
Para saber mais sobre o pensamento (ou, quem sabe!, a matemática) de Grothendieck, procurar por Grothendieck circle na internet. Lá estão depositados seus principais escritos, entre os quais a conferência de onde foram retirados os trechos transcritos.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

De reforma e chacina

Por ANA DINIZ, jornalista, em seu blog Na rede

No final do segundo turno das eleições a Folha de S.Paulo publicou um mapa relacionando votos e renda média municipal. De si mesmo, esta relação não significa nada. Mas trouxe para discussão o grau de dependência das populações para com as transferências diretas da União (previdência social, bolsas e auxílios) e revelou, pela primeira vez de forma fácil, a brutal pobreza das populações da Região Norte. Só para se ter uma ideia, a renda média municipal em Belém é pouco superior à menor renda média municipal no Rio Grande do Sul e menos da metade da renda média municipal de Porto Alegre.

Depois, muito se falou sobre país dividido. Sobre voto atrelado. Sobre população pobre e população rica. Sobre nordestinos e sulistas. Sobre preconceito. Mas, cuidadosamente, políticos e jornalistas evitaram a questão principal: o modelo de arrecadação e distribuição tributária. Este modelo, implantado na ditadura, despeja nos cofres da União 70% das receitas e nas costas dos estados e municípios 70% das despesas constitucionalmente obrigatórias.

Essa repartição de receitas está na base da incapacidade das prefeituras em resolver problemas, é o poço de onde os Estados tentam, em vão, sair, responde pela brutal pobreza das populações das regiões não industrializadas, torna o Norte cada vez mais periférico do Brasil. Os municípios cada vez mais dependentes da boa ou má vontade do governante de plantão. As populações penduradas na corda bamba da previdência e dos auxílios federais.

Na outra ponta, o excesso de dinheiro na União cria distorções terríveis. Eu penso nisso quando constato que Itaipu paga 22 mil reais por mês para cada membro do seu Conselho de Administração, que se reúne uma vez por semestre – e nós, nortistas, acabamos de receber um tarifaço na energia. Quanto à corrupção, nem é preciso comentar. Os bilhões desviados tornam incongruentes as denúncias formalizadas contra gestores municipais que merendaram alguns milhares de reais...

Agora se estabelece uma perfunctória discussão sobre reforma política. Escreve-se sobre plebiscito e referendo, como se isto fosse fundamental. Mas sem uma reforma tributária verdadeira qualquer reforma política será um simples remendo em pano velho: mais buracos no tecido.

Buracos como os de bala que se alojaram nas vítimas da noite de terror vivida em Belém. Eu não compreendo porque o que está evidente – Belém está mergulhada na guerra suja do tráfico de drogas – não é dito. Talvez porque não haja solução possível, a curto prazo, para resolver o problema, será?

A defasagem entre o tráfico (que usa endereços ocultos na rede Tor, na internet, para a venda de drogas, redes sociais e black-blocks para espalhar o pânico), e o aparato policial, retido no tempo em que as rondas motorizadas eram o máximo de eficiência possível, é tão brutal como a nossa pobreza. E essa brutalidade transforma em banalidade o assassinato a sangue frio.

A mentalidade formada na ditadura recomendaria “o controle das redes”. Mas o que resolve é a inteligência no uso delas. Usar a inteligência demanda mais do que coletes à prova de balas e pistolas: envolve acesso a tecnologias e, sobretudo, mudança de métodos e práticas, a qual não acontece milagrosamente nem por acaso. É fruto de um esforço complexo em que a renda média da população tem papel importante: é preciso ter esperança no futuro para dar valor à vida, arriscá-la menos. Sair da máxima pobreza com um só salto, mesmo que se corra o risco de levar um tiro mortal nesse salto, é tentação forte demais para quem não tem perspectivas, mas tem coragem.

Devolver a renda dos estados e municípios, usurpada na ditadura, é também devolver essa esperança e permitir a inteligência.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Me esqueça!


Por ANA DINIZ, jornalista, em seu blog Na rede

Circula no Judiciário uma boa quantidade de processos movidos por pessoas que querem tirar dos
sites de busca informações sobre si. Geralmente deslizes, devida ou indevidamente gravados; ataques pessoais; críticas e até calúnias. Alguns têm obtido medidas favoráveis. Mas elas são puro paliativo.
Porque as pessoas não esquecem. Esquecer é morrer: a humanidade é o que é porque tem memória, aprende e transmite, mantém um processo contínuo de acumulação de experiência que lhe permite a sobrevivência e a vida cada vez mais longa.
Na Roma dos imperadores havia uma disposição chamada damnatio memoriae, a condenação da lembrança, aplicada a todos os que eram considerados supercriminosos. Depois de sua morte, geralmente por execução, apagava-se tudo o que se referia a eles: raspavam-se moedas, quebravam-se estátuas, repintavam-se os quadros, riscava-se o nome dos documentos, fossem estes de papiro, de pedra ou de bronze. Mas controlar a memória é impossível: a imperatriz Messalina, sobre quem foi aplicada a condenação, é ainda, dois mil anos após sua morte em 47, o símbolo da sexualidade descontrolada. Três bustos feitos em pedaços e recompostos por diligentes arqueólogos restauram seu rosto, com razoável grau de certeza. O esquecimento póstumo talvez fosse até benéfico para ela e imagino que, se essa adolescente mãe de dois filhos tivesse vivido mais duas décadas, tentaria apagar o seu passado. Se vivesse hoje, tentaria tirar da internet no mínimo a encenação de casamento que foi a causa próxima de sua morte.
Trago este assunto hoje porque volta à discussão e às pautas de noticiário mais uma tentativa de controle dos conteúdos da internet, uma nova roupagem para a antiquíssima luta entre a liberdade de expressão e a censura, ou, como querem os mais moderados, entre o dizer e seus limites. Não adianta. A China fez isso e gradativamente está perdendo a batalha.
O boato, que circulava ao pé do ouvido, hoje trafega em alta velocidade pelo WhatsApp. Continua sendo um boato, com as consequências de qualquer boato, que podem ser resumidas em dois ditados: “onde tem fumaça tem fogo” e “em tempo de guerra boato é fato”. Claro que a fumaça pode ser de gelo seco, não de fogo; e que a maioria dos boatos não se torna fato, sequer cria fatos novos. Mas em tempo de guerra, com a censura atuando a pleno, boato é fato, mesmo: quando ninguém sabe com certeza do que está acontecendo, é melhor se prevenir...
Há pessoas que, despreocupadas como o foi Messalina, revelam-se completamente para os usuários dos canais de comunicação. Nudez de corpo e nudez de alma. Muitas delas estão na justiça, agora, tentando conseguir para si o esquecimento que os imperadores romanos impunham aos que consideravam de exemplo danoso ao império. Melhor fariam se fossem contidos em seus atos e dizeres. O Estado não é instância adequada para proteger imprudentes: basta um pezinho para ele, e ele ocupa o corpo inteiro, ou seja, um simples precedente é suficiente para instaurar censura. E a censura é o mal maior.
Quanto à calúnia, existem medidas legais contra ela desde que sistemas jurídicos foram instituídos. Mas na raiz da calúnia está a maledicência e esta nada nem ninguém seguram: acredito que os hominídeos já grunhiam condenações entre si e processos do que hoje se chama “desconstrução de imagem”, eufemismo para a maledicência objetivamente aplicada, que desdobra falhas alheias até o ponto do insuportável, induzindo a calúnia, podem ser encontrados na Bíblia, entre outras memórias humanas.
O curioso disso tudo é que a maioria das pessoas é esquecida sumariamente duas gerações após sua morte. Pedir para ser esquecido antes de morrer apenas antecipa o que fatalmente acontecerá – e dos atos e dizeres praticados restará apenas o que a humanidade julgar necessário para seu aprendizado.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

De parafuso em parafuso

Por ANA DINIZ, jornalista, em seu blog Na rede

Não pude escrever nas duas últimas semanas. Tive que enfrentar um maremoto de problemas.
Retorno agora, saindo das voltas do parafuso pessoal para constatar que as campanhas eleitorais para o segundo turno também estão em parafuso.
Assisto entrevistas surreais: perguntas sem respostas e afirmações sem perguntas. Retórica sem conteúdo. Puro palavrório.
Bate-boca sem debate. Fuxico. Um parafuso no rumo do lodaçal formado por pedaços de inquéritos, confissões duvidosas, confusões deliberadas. Rejeição contra rejeição: Kafka, o transgressor, gostaria disto. Ou talvez constatasse que tudo o que imaginou e escreveu é pouco diante da fertilidade brasileira, que transforma pau em pedra e esvazia palavras com uma inimitável arte.
Bem, pelo menos há menor quantidade de promessas impossíveis de cumprir, abundantes nas eleições passadas. Mas só porque o tempo de tevê é limitado.
Mesmo assim, os candidatos deveriam aprender com os romeiros de Belém e de Aparecida a arte de barganhar com os santos por meio de promessas. Os romeiros não prometem o que não podem cumprir. Quitam-se de maneira fácil: manhã de caminhada com uma casinha na cabeça, dias de caminhada na romaria a pé pelas estradas, períodos de esforço e sofrimento para agradecer e pedir. Não devem, não temem. Sobretudo, não mentem para os santificados, coisa banal nas campanhas eleitorais.
Este parafuso eleitoral não parece um voo. Parece mais uma broca, como as da Petrobrás. Às vezes, a broca encontra petróleo. Às vezes, gás. E, às vezes, apenas lama e água salgada. Pelo buraco aberto pela broca jorrará o que a terra guardou. O que será que o Brasil guardou? Até agora, o que vem saindo da perfuração, quer na tevê, quer nas redes sociais, assemelha-se a uma catarse coletiva: o Brasil profundo despeja tudo o que estava travado na garganta, dando voltas na cabeça, envenenando o cotidiano.  No fundo do poço talvez haja uma boa surpresa. Ou talvez mais lama.
Tenho esperança de que a experiência eleitoral deste ano seja aproveitada para alguma mudança que melhore o sistema. Uma pequenina esperança, apenas. O conjunto de políticos eleito para o Congresso nacional não ajuda em nada esta esperança. Em sua maioria são pragmáticos senhores que não costumam refletir. Uma representação correta do Brasil de hoje, em que leitores são raros e espiadores, milhões; em que as escolas produzem, para cada pesquisador, milhares de analfabetos funcionais.
Pode ser que esses pragmáticos senhores consigam identificar boas surpresas quando o parafuso eleitoral acabar. Pode ser que, depois que a broca despejou o lado negro do coração do Brasil, seja a vez da riqueza aflorar.
Se os romeiros acreditam nas graças e milagres, porque eu não acreditaria também?

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Buraco negro

Por ANA DINIZ, jornalista, em seu blog Na rede

Talvez não haja retrato maior da ineficácia das leis ou da impunidade brasileiras do que o panorama deste processo eleitoral em que mais de duas centenas de candidatos, tanto para cargos executivos como para cargos legislativos, respondem a processos por corrupção e crimes conexos, muitos já condenados por juiz singular.
Já não é só Maluf quem, com a cara de pau que ostentou durante toda a sua vida, encara desdenhosamente processos e instâncias judiciais para, a cada eleição, postar-se como coringa em São Paulo, puxar milhares de votos para as urnas e, de aliança em aliança, de composição em composição, manter-se no topo do que Lula chamou de zelite, palavra que repito aqui para distinguir esse povo da verdadeira elite brasileira.
O site “Congresso em foco” trabalhou sobre os dados dos registros de candidaturas e encontrou 253 candidaturas indeferidas pelos Tribunais Regionais Eleitorais (no Pará são 20). A maioria desses candidatos continua em campanha, exatamente como Maluf, enquanto espera pelo julgamento no Tribunal Superior Eleitoral. É verdade que eles são apenas 1% dos cerca de 25 mil candidatos registrados. Mas é verdade também que os partidos os registraram porque são puxadores de votos: seus votos engrossarão as legendas e não apenas no cargo para que concorrem, mas para o restante da chapa. Se a candidatura for indeferida e o registro cassado, os votos individuais para esse candidato serão anulados – mas os restantes valem. Beneficia-se o partido e os demais candidatos que compõem a chapa.
O que revolta é saber-se que, exceto o Partido Comunista Brasileiro e o Partido da Causa Operária, que não registraram fichas sujas, todos os demais partidos contam com esses duvidosos puxadores de votos. E que eles puxam votos porque a Justiça Eleitoral é lenta demais, indiferente às consequências de sua morosidade, que incluem afastamento de prefeitos no meio do mandato porque somente dois anos depois é que a impugnação ao registro teve julgamento definitivo. O registro de candidato duvidoso tornou-se um recurso de campanha eleitoral válido – e isto contamina a democracia.
Pode-se dizer que predomina, no caso, o princípio constitucional de que um acusado é inocente até prova em contrário. O problema é que a aplicação desse dispositivo é seletiva, não vale para todas as pessoas: os presídios estão cheios de presos temporários, que cumprem pena antes do julgamento. Mas para a zelite, ele vale. Para o partido que usufrui da fraude, ele vale.
O outro aspecto dessa perversão eleitoral é o fato de serem essas pessoas puxadoras de votos. Milhares de pessoas votam em Maluf a cada eleição, centenas de milhares votarão nos fichas sujas. Eu não acredito na inocência do eleitor contemporâneo, mesmo que ele vote numa seção lá onde Judas perdeu as botas. Ele sabe em quem está votando e vota. Essa massa demonstra claramente que não se importa com a corrupção ou, então, que não confia no Poder Judiciário. Em qualquer das alternativas, aponta para um buraco negro - cuja força gravitacional, como se sabe, absorve tudo o que está em torno - no espaço democrático.
Parece pequeno, esse buraco, considerando-se a relação entre o número de candidatos e o total de fichas sujas. Mas o verdadeiro tamanho dele só se poderá saber no volume de votos que mereceram. E a questão que se coloca é se queremos ou teremos que continuar tolerando essa distorção perversa.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

A alma brasileira

Por ANA DINIZ, jornalista, em seu blog Na rede

Eu quero falar sobre o Brasil bom, para minorar o desgosto deste Brasil da corrupção, do desmando e das palavras vazias de uma campanha eleitoral cheia de baixarias e misérias. Porque é este Brasil bom que nos aponta o caminho, que nos informa que não vivemos apenas de vergonhas.
Sim, eu tenho vergonha desse lamaçal que estendem diante de nós, tentando nos arrastar para dentro dele, nos convencer que é assim mesmo a nossa vida.
Olhem e ouçam esta maravilhosa e espontânea ação de um grupo de brasileiros nas praias de Angra, no Rio de Janeiro, ao se depararem com o sofrimento de cerca de 30 golfinhos encalhados:



Olhem e ouçam, na metade final do vídeo, esta maravilhosamente rápida ação de um grupo de brasileiros em Curitiba, apagando com extintores de carros o incêndio num avião que acabara de cair, socorrendo as vítimas e impedindo um mal maior:


Finalmente, olhem e ouçam esta maravilha de síntese de duas clássicas canções de despedida, compostas em regiões completamente diferentes e transformadas numa pátria musical única pela genialidade de Yamandu Costa e Dominguinhos.



Este Brasil é real e verdadeiro. Não tem retoques nem maquiagem, nem palavras de caso pensado, nem silêncios cúmplices. Não tem dedo de marqueteiro. Não se importa com as diferenças – antes, valoriza. Não se importa se a religião manda salvar ou não os animais – faz o que manda sua compaixão. Não pergunta quem está ou de quem é o avião, não espera a autoridade chegar – vai, e salva.
Hoje, quando o fundamentalismo, religioso ou político, ameaça dividir o país em bandos, é bom lembrar que existe uma alma brasileira que se expressa nos atos das pessoas, não nos discursos. E que ela é digna e bela.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

As distorções das mídias

Por ANA DINIZ, jornalista, em seu blog Na rede

Entre o eleitor e o candidato existe uma tela onipresente. E, se o meio é também uma mensagem, é preciso saber qual a mensagem dessa tela.
Ela é plural: grande, no cinema; média, na televisão; pequena, nos computadores e assemelhados; micro, nos comunicadores portáteis.
Ela não conduz à realidade, mas ao reality-show: isso que ela mostra, não nos atinge. Geralmente, nos distrai por um momento – e vamos para o próximo. É um meio superficial, gôndola de supermercado, sai um produto, entra outro. Aqui e ali se recolhe uma informação útil. E, como o nosso cérebro não é infinito, memorizamos essa informação e apagamos o resto.
No cinema, a tela é unidirecional. Ela passa um recado, mas só aquele, e vai direto para a impressão emocional. Filmes com temas políticos são sempre de propaganda (como “A rainha” e “O discurso do rei”, feitos para compensar o efeito Lady Di sobre a família real inglesa) e apelam diretamente para o subliminar. Graças a Deus, são difíceis de fazer e quase sempre chatos de ver.
Na televisão, a tela onipresente é também fracionária: ela se divide em segundos. Assim, há que falar em segundos. Se o tema é complexo, terá que ser simplificado. O resultado é uma vala comum de chavões, porque não há como explicar em segundos nenhuma política pública. A distorção do meio é cruel, reduz a insulto o que deveria ser crítica. Enéas se apresentou ao país em 30 segundos com um bordão de teatro que lhe rendeu votos mas nenhuma densidade política. É politicamente inexpressivo.
Nos computadores e nas telas dos portáteis ligados à internet, onde a leitura é obrigatória, há mais espaço para conteúdos e também menos pressa: você sempre pode guardar para ler depois. Mas aqui é o brilho da tela que cria outro tipo de distorção. Um quadro de Van Gogh na tela do computador emociona muito mais do que o quadro real: este não tem brilho nem transparência. A mistura desordenada com os anúncios (que saltam em cima do que você está lendo) nivela por baixo qualquer assunto, o transforma num produto a ser consumido. Além disso, o texto deve ser também sintético: ler com luz na cara cansa. O leitor desiste logo.
Finalmente, a telinha do portátil que recebe e transmite mensagens e clipes. Aí só dá para algumas palavras, para a discussão curta e grosseira. Ou seja, xingamentos, que também são parte de toda campanha eleitoral que se preze. Mas que só permitem um juízo de valor: avaliar a capacidade do candidato na pronta resposta e o grau de civilidade que tem.
O meio que transmite a mensagem cria distorções enormes, pois: o eleitor tem somente uma imagem do candidato; não tem a possibilidade de contribuir com seu esforço para a vitória de A ou B; não consegue saber a diferença entre uns e outros, exceto quando a proposta é radical. O resultado é o que estamos vendo: uma campanha vazia, produto direto da sua concentração nas mídias audiovisuais.
As mídias audiovisurais deveriam ser apenas uma parte da campanha; mas, com as restrições draconianas impostas por um falso moralismo – afinal de contas, ninguém vota contra seus próprios interesses imediatos e posso contar muitos causos que comprovam isso – o debate político virou, mesmo, um show ensaiado. Conseguiram acabar com a festa das ruas. O candidato emergente – aquele que fazia uma coleta entre amigos para pagar meia dúzia de camisas ou imprimir seus santinhos, financiar o som da festa do santo, contratar a van para levar seus eleitores à urna – dançou. Tem que barganhar com os caciques um tempinho para se apresentar na tevê – e esperar que seu carisma, se o tiver, faça o resto.
Que pena!