terça-feira, 19 de janeiro de 2016
Empresários de ônibus atropelam na "estrada fluvial"
Do leitor Kenneth Fleming, advogado, sobre a postagem A grande e tardia sacada:
Caro Sidou, não apresente tantos "por quês" porque não terás respostas. Sem demérito aos nipônicos, mas apenas para aproveitar a oportunidade, até eles, há muitos anos passados, já tinham os olhos bem abertos quanto a esta óbvia questão do transporte aquático.
O que entristece é o dinheiro que vai pro ralo com projetos não implantados. Com os viadutos, anéis e passagens subterrâneas citados por você, o trânsito seria quase uma maravilha. Ficaria faltando só a educação a uma parte dos motoras. Aqueles que acham que o pisca-alerta é a varinha do Harry Potter e deixam seus veículos invisíveis na fila dupla.
Dando uma pista a um dos teus "por quês", há, no meio desta estrada fluvial (é fluvial?), uma excrescência chamada de "empresários de ônibus". Baratas não deixam barato. Nem gostam de limpeza e conforto. Ar-condicionado então, nem se fala.
Como é que só colocam uma lancha na linha? E se fura o pneu?
A resposta do jornalista Francisco Sidou:
Na verdade, caro Kenneth, os japas previram o transporte fluvial urbano. Lembro até de uma pergunta que fiz na coletiva: se o caminho das águas não seria a melhor solução para desafogar o tráfego urbano.
Então, um deles respondeu: sim, com certeza, mas precisa de um estudo de viabilidade econômica e de barcos com capacidade de no mínimo 200 passageiros para baratear os custos e possibilitar uma passagem a preço similar ao cobrado pelos ônibus convencionais.
É isso. Nada disso foi feito, nem planejado, passados mais de 30 anos e cerca de seis prefeitos municipais.
Daí...
Datena desiste da candidatura: Kkkkkkkkkkkkkkkkkk
Hehehe.
É
brincadeira!
Me
ajuda aí, ô, a entender essa parada.
Datena, esse monumento à moderação, ao
autocontrole e à tolerância, anuncia que desistiu de concorrer à Prefeitura de
São Paulo.
O anúncio dessa desistência já se apresenta como
fortíssimo candidato a melhor preente que os paulistanos receberão neste 20156,
que está apenas começando.
Mas o interessante, para não dizer
inacreditável, é a justificativa que Datena apresenta para desistir da disputa
pelo PP.
“Não posso permanecer em um partido que tomou
mais de R$ 300 milhões da Petrobras”.
Sabem aquele “Kkkkkkkkkkkkkkkkkk” que a gente
faz nas nossas comunicações pela WhatsApp?
Pois é.
Kkkkkkkkkkkkkkkkkk.
É de morrer de rir dessa justificativa.
Porque o PP de Datena e seus integrantes já eram
investigados pela Operação Lava Jato antes do apresentar se filiar ao partido.
É o caso de dizermos como diz Datena em seu
programa policial de todas as tardes, na Band, quando se depara com alguma
situação inusitada, esdrúxula, revoltante ou mesmo engraçada:
É
brincadeira!
Me
ajuda aí, ô!
Belém sedia o Conafisco em novembro
![]() |
Diretores do Sindifisco e Fenafisco no Hangar - Centro de Convenções |
Um grupo de diretores da Federação Nacional do Fisco (Fenafisco) veio a Belém
para realizar visitas técnicas em auditórios de hotéis, clubes e centro de
convenções, juntamente com a diretoria do Sindicato dos Servidores do Fisco
Estadual do Pará (Sindifisco-PA), visando à escolha de sede para o XVII Congresso
Nacional do Fisco Estadual e Distrital (Conafisco). A expectativa é que o
evento reúna na cidade, de 27 de novembro a 1º de dezembro deste ano, cerca de
1 mil congressistas que vão eleger o novo comando da Fenafisco e decidir sobre
as missões corporativas e políticas da entidade.
Chefiada pelo vice-presidente João Marcos de Souza e integrada pelo diretor-financeiro Liduíno Lopes de Brito e a gerente Heula Carvalho Tadano, a delegação da Fenafisco foi recepcionada pelo presidente do Sindifisco, Antônio Catete; vice-presidente Márcia Couto; diretor-administrativo, Raimundo Pegado; diretor-financeiro, Reinaldo Martins; diretora de Aposentados, Marisa Mendes e diretora de Comunicação, Karla Trindade.
Chefiada pelo vice-presidente João Marcos de Souza e integrada pelo diretor-financeiro Liduíno Lopes de Brito e a gerente Heula Carvalho Tadano, a delegação da Fenafisco foi recepcionada pelo presidente do Sindifisco, Antônio Catete; vice-presidente Márcia Couto; diretor-administrativo, Raimundo Pegado; diretor-financeiro, Reinaldo Martins; diretora de Aposentados, Marisa Mendes e diretora de Comunicação, Karla Trindade.
O grupo ampliado de emissários das duas
entidades do Fisco do país esteve nos principais auditórios e hotéis de Belém
para avaliar as possibilidades logísticas e de hotelaria para a realização do
Conafisco, que acontece de três em três anos em cidade brasileira previamente
escolhida pela Fenafisco para a eleição da diretoria. O congresso deverá
movimentar não apenas a rede hoteleira, como também os setores do comércio e
serviços, como o
turismo regional.
“Será uma honra para o Sindifisco sediar o maior evento do
Fisco brasileiro”, afirmou o presidente Antônio Catete. Segundo ele, a
preparação do congresso com 11 meses de antecedência permite pensar nos mínimos
detalhes para que o evento aconteça sem contratempos. Anfitrião, o sindicato
participará com recursos financeiros superiores aos dos demais sindicatos
estaduais do Fisco que compõem a federação nacional.
“É um esforço que valerá a pena, pois o Pará será o centro dos debates nacionais sobre as administrações tributárias do país. Temas de essencial relevância para as políticas públicas dos Estados brasileiros serão debatidos e propostos pelos auditores e fiscais de receitas para a federação”, observou o presidente do Sindifisco.
“É um esforço que valerá a pena, pois o Pará será o centro dos debates nacionais sobre as administrações tributárias do país. Temas de essencial relevância para as políticas públicas dos Estados brasileiros serão debatidos e propostos pelos auditores e fiscais de receitas para a federação”, observou o presidente do Sindifisco.
Fonte: Assessoria de Imprensa
Águas turvas no Golfo Pérsico
Nem bem se alivia de uma desavença entre vizinhos no Oriente Médio e outro conflito se faz presente. Agora, entre o Irã e a Arábia Saudita. Aquilo que parecia ser impossível acontecer acabou acontecendo, o sectarismo faz uma nova crise eclodir, trazendo desesperança no novo ano que se inicia. No alvorecer de 2016, a Arábia Saudita cortou relações diplomáticas com o Irã, e levou a maioria de seus países aliados do Golfo a fazer o mesmo. Esse recrudescimento foi motivado pelo ataque à embaixada saudita em Teerã, capital do Irã, e uma série de protestos em países xiitas. Mas o povo foi às ruas, uma expressão pública de sentidos eram uma resposta à execução do clérigo xiita Nimr Baqr al-Nimr pela Arábia Saudita, em 2 de janeiro.
O satírico xiita Al-Nimr gostava muito de alfinetar e não perdia tempo em verbalizar o sentimento da minoria xiita na Arábia Saudita, que se sente marginalizada, discriminada e foi crítico mordaz da família real saudita. A intransigência do conflito não é uma boa notícia para o Oriente Médio e para o mundo. No fim de 2015, depois de vários encontros diplomáticos, Arábia Saudita e Irã pareciam dispostos a dialogar após meio século de rivalidades entre os países, localizados em margens opostas do Golfo Pérsico. Mas os eventos de dias atrás, parece, enterraram as esperanças de uma distensão e sugerem uma temível deterioração nas relações dos dois países, ou seja, não dá, no momento, para apaziguar e levar em ritmo democrático.
Sabe-se que o conflito entre Irã e Arábia Saudita recrudesce e ameaça o Oriente Médio, que é um nó religioso, étnico, social, político e econômico que tira a tranquilidade do mundo, porque há tensão generalizada entre sunitas e xiitas, patrocinada por sauditas e iranianos, e que foge do controle. O cisma religioso é importante para que se entenda o cenário sectário do Oriente Médio hoje. A divisão entre islamismo xiita e sunita ocorreu em 632 a.C., após a morte do profeta Maomé, fundador da religião. A disputa surgiu do desacordo sobre quem deveria suceder a Maomé como califa do islã: os sunitas achavam que Abu Bakr, pai da mulher de Maomé, deveria liderar os muçulmanos por um consenso da comunidade muçulmana. Para os xiitas, o califa deveria ser Abi Talib, primo e cunhado de Maomé.
Na verdade, os iranianos seguem uma vertente radical do xiismo. Todos os ataques terroristas da história, sem exceções, foram motivados pela religião. Para nos ocidentais, sobretudo brasileiros, é difícil imaginar um dogma sem os princípios cristãos e/ou católicos. No Oriente Médio, onde o Islã não permite doutrinas católicas, a religião tem outro sentido: vida ou morte. Mas essa disputa religiosa é apenas o pano de fundo para a disputa geopolítica travada entre Irã e Arábia Saudita. O líder da revolução iraniana de 1979, o aiatolá Ruhollah Khomeini, pregava que o islã e a realeza hereditária eram incompatíveis. Ao longo dos anos, a República Islâmica estabeleceu uma política externa agressiva para fomentar levantes no Oriente Médio.
No entanto, a Arábia Saudita é o único país do mundo cujo nome vem da família que o governa. Os membros da família real saudita chegaram ao poder graças a Abdulaziz ibn al Saud, que em 1920 começou a unificação da Península Árabe depois do desmoronamento do Império Otomano. A dinastia foi erguida sobre uma forma especialmente rigorosa de islamismo criada no século XVIII. O Wahabismo se inspirava no salafismo, que prega a adoção de usos e costumes de Maomé e seus primeiros seguidores. Foi sob essa ideologia radical que Abdulaziz conseguiu a união tribal e fundou a Arábia Saudita.
Com a execução de Al-Nimr, a Casa de Saud aposta suas fichas na tensão sectária que tem sido o maior impulsionador de conflitos no Oriente Médio. Mesmo expressos em linhas religiosas, os conflitos não são sobre religião, são políticos. Apesar dos embates iniciais, sunitas e xiitas costumavam dialogar. Assim como na Guerra Fria, o capítulo final nessa saga só deverá ser escrito quando um dos lados capitular. Essas vertentes radicais parecem apresentar defeitos.
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SERGIO BARRA é médico e professor
sergiobarra9@gmail.com
segunda-feira, 18 de janeiro de 2016
Chico Buarque não deve apanhar - e nem bater - por suas ideias
A postagem que expôs um caso de bárbara intolerância, configurada na agressão de antipetistas enfurecidos - ou coxinhas, para os que preferirem - a Chico Buarque, esse ícone intocável que, parece, não pode ser jamais criticado e nem censurado em suas posturas contraditórias, essa postagem, portanto, ainda continua rendendo um bom debate aqui no Espaço Aberto.
Vejam o que diz um leitor:
O blog deveria ser o primeiro a não cair nessa relativização da liberdade de pensamento e expressão. O ataque feito ao cidadão Chico Buarque foi um ato de bárbara intolerância. Não foi uma reação à alguma conduta sua frente aos agressores ou um protesto por posturas que tenha tido no passado.
Não foi um ato de autodefesa dos meliantes, foi uma agressão pautada única e exclusivamente na intolerância frente às opiniões políticas do agredido. A tentativa de relativizar a agressão em razão do agredido ter em algum momento no passado ter cometido este ou aquele erro (e quem não os comete) faz a delícia dos agressores que agora vêm sua conduta, senão plenamente justificada, no mínimo bem explicada por uma suposta "culpa da vítima".
É assim o fascismo se instala sorrateiramente nos corações e mentes, justifica sua violência intrínseca e solapa os mais básicos valores da democracia.
P.S. Se Chico fosse a favor do impeachment e houvesse sido agredido por petistas, qual seria o comentário de Alexandre Garcia?
Olha, meu caro (ou minha cara, não sei).
Vamos tentar nos entender.
Mas, se não nos entendermos, que seja assim, porque discordar um do outro, nesse nível civilizado que você demonstra, é sempre saudável.
A questão, singelamente, é a seguinte.
Você está redonda e quadradamente enganado quando avalia que o Espaço Aberto estaria incorrendo numa certa, para usar suas próprias palavras, relativização da liberdade de pensamento e expressão.
Muito pelo contrário.
Muitíssimo mesmo.
Leia, ou melhor, releia abaixo, com atenção, os dois últimos parágrafos da postagem O artista admirável e sua imbecilidade ideológica:
Os ofensores de Chico Buarque são, também eles, uns imbecis, são uns intolerantes, são uns passionais que agem ridiculamente, intolerantemente e passionalmente porque pretendem não debater, mas impor suas convicções, nem que para isso seja necessário dar um tapa ou um soco no oponente, como estiveram a ponto de fazer com o compositor.
E querem saber mais?
Chico Buarque é um monumento à imbecilidade política, à intolerância e ao radicalismo porque ainda cultiva, parece, convicções como os que o levaram a fazer o que fez com Alexandre Garcia e Millôr.
Você viu?
Imbecis são uns, o antipetistas, e imbecil (ideologicamente) é outro, Chico Buarque.
Aqueles, os antipetistas, têm todo o direito de pugnar em defesa de seu antipetismo, mas não tinham e nem têm o direito de hostilizar, quase a um ponto de agredir, cidadão que defenda o PT. Discordar, sim. Caçá-lo, ou quase isso, à saída de um bar, não.
Aquele, Chico Buarque - como também Marieta Severo, Paulo Betti e qualquer outro -, não tinha jamais o direito de hostilizar, quase ao ponto de agredir, cidadão que supostamente, no exercício de sua profissão, estaria prejudicando Lula ao divulgar pesquisas que apontavam a vitória de Fernando Collor de Mello para presidente da República, como de fato ocorreu. Discordar de Alexandre Garcia, sim. Caçá-lo, ou quase isso, à entrada da emissora em que trabalha, não.
Você viu, leitor?
Isso revela, ao contrário do que você diz, o blog não está relativizando situações.
Está, sim, defendendo, que a liberdade de expressão vale para todo mundo, desde que as pessoas se portem civilizadamente e dentro da lei.
Ah, sim.
Mais uma coisa.
Você pergunta, no seu post scriptum: "Se Chico fosse a favor do impeachment e houvesse sido agredido por petistas, qual seria o comentário de Alexandre Garcia?".
O Espaço Aberto não tem procuração de Alexandre Garcia para responder por ele.
Mas, se pudesse responder, responderia assim: "Se Chico fosse a favor do impeachment e houvesse sido agredido por petistas, Alexandre Garcia diria que os petistas fizeram com Chico Buarque o que já fizeram com ele, no passado. Diria mais: que petistas praticaram um ato de bárbara intolerância".
É assim!
O Street River é o nosso Louvre Amazônico. Ou o nosso D'Orsay.
Você conhece o Street River?
Quem, como este repórter, participou da segunda edição do projeto, no último sábado, desfrutou de uma das experiências mais curiosas, extasiantes, revigorantes e mais, digamos assim, amazônicas.
Isso tudo na Ilha do Combu.
A 15 minutos de Belém.
De barco.
Sobre as águas da Guajará e logo depois navegando sobre a placidez do Igarapé do Combu, dentro da ilha.
É ali, exatamente ali, no igarapé, que o Combu se transforma numa galeria a céu aberto.
Transforma-se numa exposição de arte, cores e grafites.
Pronto.
Eis o #StreetRiver, um projeto do artista visual e grafiteiro Sebá Tapajós.
Filho do violonista santareno Sebastião Tapajós - que dispensa apresentações, né? -, Sebá chegou ao Rio de Janeiro ainda jovem, por conta da carreira musical de seu pai, e tomou contato com novas experiências e aprendizado artístico.
Do Rio, rodou por Salvador, São Paulo, Guarujá, Porto Alegre, Argentina, Lisboa e Madri e vários países.
Voltou a Belém e arrebentou: deu início, no ano passado, à primeira edição do Street River, que consiste em grafitar as casas de ribeirinhos da Ilha do Combu com um estilo abstrato.
Grafitadas as casas, o distinto público é convidado a pegar um barco, atravessar a Guajará - saindo de um porto da Bernardo Sayão, pertinho da Praça Princesa Isabel, na Condor -, chegar ao Combu, entrar no igarapé e percorrer uma galeria de arte a céu aberto, engastada - assim mesmo, engastada, embutida - na Floresta Amazônica, como se fosse uma pedra preciosa que você engasta numa joia.
E um detalhe: o passeio, a visita à galeria de arte do Combu foi "digrátis".
"Digratíssimo".
Isso tudo na Ilha do Combu.
A 15 minutos de Belém.
De barco.
Sobre as águas da Guajará e logo depois navegando sobre a placidez do Igarapé do Combu, dentro da ilha.
É ali, exatamente ali, no igarapé, que o Combu se transforma numa galeria a céu aberto.
Transforma-se numa exposição de arte, cores e grafites.
Pronto.
Eis o #StreetRiver, um projeto do artista visual e grafiteiro Sebá Tapajós.
Filho do violonista santareno Sebastião Tapajós - que dispensa apresentações, né? -, Sebá chegou ao Rio de Janeiro ainda jovem, por conta da carreira musical de seu pai, e tomou contato com novas experiências e aprendizado artístico.
Do Rio, rodou por Salvador, São Paulo, Guarujá, Porto Alegre, Argentina, Lisboa e Madri e vários países.
Voltou a Belém e arrebentou: deu início, no ano passado, à primeira edição do Street River, que consiste em grafitar as casas de ribeirinhos da Ilha do Combu com um estilo abstrato.
Grafitadas as casas, o distinto público é convidado a pegar um barco, atravessar a Guajará - saindo de um porto da Bernardo Sayão, pertinho da Praça Princesa Isabel, na Condor -, chegar ao Combu, entrar no igarapé e percorrer uma galeria de arte a céu aberto, engastada - assim mesmo, engastada, embutida - na Floresta Amazônica, como se fosse uma pedra preciosa que você engasta numa joia.
E um detalhe: o passeio, a visita à galeria de arte do Combu foi "digrátis".
"Digratíssimo".
Confiram nas fotos do blog.
Para esta edição do Street River, Sebá Tapajós convidou os grafiteiros Fael Primeiro (BA), Acidum Project (CE), Kajaman (RJ), Mundano (SP), Toys e Omik (DF).
E para os que participaram do Street River na manhã de sábado, foi-lhes oferecida como brinde a oportunidade de verem alguns desses artistas em pleno trabalho de grafitar, ao vivo e em cores (literalmente), as casas de ribeirinhos.
Vejam as fotos, todas elas feitas pelo blog.
O Street River é o nosso Louvre das Florestas.
Ou pode ser o nosso D'Orsay, recheado, pleno e farto do impressionismo amazônico, em boa parte oferecido pela própria natureza.
Para esta edição do Street River, Sebá Tapajós convidou os grafiteiros Fael Primeiro (BA), Acidum Project (CE), Kajaman (RJ), Mundano (SP), Toys e Omik (DF).
E para os que participaram do Street River na manhã de sábado, foi-lhes oferecida como brinde a oportunidade de verem alguns desses artistas em pleno trabalho de grafitar, ao vivo e em cores (literalmente), as casas de ribeirinhos.
Vejam as fotos, todas elas feitas pelo blog.
O Street River é o nosso Louvre das Florestas.
Ou pode ser o nosso D'Orsay, recheado, pleno e farto do impressionismo amazônico, em boa parte oferecido pela própria natureza.
Fica, no entanto, uma sugestão para as próximas edições.
Que o barco pare, por 10 minutos que seja, numa das casas que esteja sendo grafitada, para admirarmos melhor o trabalho e, eventualmente, conversar com o grafiteiro.
No mais, tudo perfeito.
Tintim!
Na Unama, parece que há mais cursos que candidatos
Que coisa mais interessante.
Há algum tempo - e nem são tempos tão remotos assim -, um dos maiores orgulhos, uma das maiores satisfações, uma das maiores estratégias de marketing das faculdades particulares de Belém consistia em divulgar o número de candidatos inscritos em seus vestibulares.
Pois leiam matéria no caderno Atualidades de O LIBERAL deste domingo.
Na reportagem sobre o vestibular da Unama, diz a matéria que há vagas em disputa para 53 cursos.
A faculdade não informou o número de candidatos.
Mesmo assim, ou por isso mesmo, está dando desconto de 30% para quem se matricular no Campus BR, que ainda corre o risco de continuar sendo um elefante branco.
Ao que tudo indica, a Unama oferece inscrições em seus vestibulares como feirante oferta produto na hora da xepa.
E parece que há mais cursos do que candidatos.
Parece!
Como nasceram os Cinemas 1, 2 e 3
Do jornalista, velho amigo e leitor do blog Agenor Garcia, sobre a postagem Belém nos tempos:
Já que a saudosa postagem não mereceu, ainda, um comentário, fiquei inspirado e ofereço ao meu amigo de redação a seguinte informação: um dia qualquer, vinha pela Primeiro de Março em direção a O LIBERAL da Gaspar Vianna, e passando pelo Banco Meridional, Alexandrino Moreira, bateu no vidro para me chamar a atenção. Queria falar comigo.
Voltei, entrei no banco e fomos conversar na sua sala. Ele, então, me perguntou se o Sá Leal se encontrava, àquela hora, na redação. Passava das 15 horas e eu garanti que o Leal costumava chegar um pouco mais tarde. Tudo bem, disse ele. Pouco depois, o Leal me chamou e perguntou se eu sabia o que o Alexandrino estava querendo.
- Disse que ele queria saber a que hora estarias na redação.
E então, Leal me pautou:
- Tu vais procurar o Alexandrino, ele vai anunciar a construção de uns cinemas no terreno onde funcionou um colégio, ali na São Pedro.
No outro dia, de manhã, estávamos lá no terreno: eu, Edwaldo Martins, Alberto Queiroz, Pedro Veriano, Alexandrino e outros da antiga associação de críticos de cinema de Belém, que não me lembro mais seus nomes.
Então, ele anunciou que iria construir ali três cinemas com lanchonetes nos fundos e teriam os prosaicos nomes de 1,2 e 3.
O LIBERAL deu a matéria, com fotos.
E, naquele dia, Alexandrino pediu o número de nossos registros profissionais da Fenja e nunca mais paguei ingresso naqueles cinemas.
Tenho saudades disso.
A grande e tardia sacada
Ao elogiar a iniciativa do prefeito Zenaldo Coutinho (e de sua secretária da Semob, doutora em "mobilidade urbana") em promover inauguração festiva de uma linha fluvial urbana Icoaraci/Belém de um barco só (vejam na foto de Adriano Magalhães, da Agência Belém), e ao salgado preço de R$ 10, renomado colunista "por dentro" dos fatos festeja o alcaide dizendo que ele descobriu um verdadeiro "Ovo de Colombo" . Como é que ninguém pensou nisso antes? - deveria também ter perguntado o ilustre jornalista.
Ovo de Colombo é uma expressão popular que significa que algo muito difícil de se realizar, embora pareça muito fácil depois de concretizado. É também uma metáfora usada para se afirmar que qualquer um poderia realizar o feito.
Na verdade, vimos pregando no deserto a ideia do transporte fluvial urbano, como melhor saída para o sufocante tráfego de Belém, há mais de 20 anos. Não reivindicamos qualquer título ou medalha, muito menos o epíteto de "pai da criança". Sempre defendemos ideias de melhorias para Belém , como uma espécie de cronista não oficial da cidade, apontando problemas, mas, também, indicando sugestões e ações prospectivas de gestão.
Na década de 80, como jovem repórter de "A Província do Pará", cobrimos uma coletiva com os então também jovens técnicos japoneses da Consultoria Internacional Jica , quando apresentaram seu Projeto de Desenvolvimento do Tráfego Urbano (PDTU) para Belém, após dois anos de pesquisas e estudos criteriosos, com aquele rigor e seriedade que são marcas características da cultura japonesa.
Com base em premissas técnicas, alertavam então que Belém poderia "travar " por volta do ano (então longínquo) de 2010, caso não fossem adotadas as medidas, obras e serviços listados em seu bem elaborado Plano.
Lembramos claramente que, dentre as obras programadas para desafogar os principais corredores de tráfego da cidade (os mesmos de hoje), constavam dois anéis viários, um no Complexo do Entroncamento e outro no Largo de São Brás, ambos com elevados que permitiam o fluxo contínuo do tráfego, sem sinais de três/quatro tempos, de nenhum tempo. Elevados nos principais cruzamentos da Av. Almirante Barroso - Lomas e Humaitá.
Na Bandeira Branca previa um túnel com duas pistas para facilitar o acesso à Ceasa dos veículos pesados e evitando novos sinais na Almirante Barroso. Outra recomendação: construção de Terminais de Integração , um em São Brás e outro na atual Praça "Waldemar Henrique". Também indicavam a adoção do metrô de superfície então já existente em várias cidades com mais de 1 milhão de habitantes.
Quantos gestores tivemos desde então? Seis ou sete? Nenhum deles procurou dar continuidade ao Plano da Jica, preferindo marcar sua "passagem" com alguma obra que pudesse chamar de sua.
O prolongamento da João Paulo II (outra obra planejada pelo PDTU dos japoneses) também ficou pela metade e não ajuda (ao contrário, até complica) em desafogar o gargalo infernal do Complexo do Caos, que virou o Entroncamento. A única obra positiva foi construída com verba federal pelo governo do Estado, que é a Nova Independência, facilitando o acesso à BR-316, sem passar pelo Entroncamento de cerca de 20 mil veículos, diariamente. As demais iniciativas como pretensas soluções para os problemas de mobilidade urbana, apenas os tem agravado, como intervenções do tipo de inversão de mão em algumas vias, cocadas baianas e tartarugas do asfalto , como balizadores do trânsito, entre outras ações típicas da improvisação e da falta de continuidade no planejamento e na gestão do tráfego da cidade.
Em Belém circulam hoje cerca de 500 mil veículos (na época do PDTU dos japoneses da Jica eram apenas 100 mil ) e a cada mês mais dois mil veículos são liberados para rodar praticamente pelas mesmas e já congestionadas ruas. As vias de uma cidade são como as veias do corpo humano: quando entopem provocam o colapso do organismo. Todos sabem, menos as "autoridades competentes", que a solução para os graves problemas de mobilidade urbana de Belém não virá com o sistema BRT, cuja execução atabalhoada só tem contribuído para ampliar os problemas enfrentados diariamente pela população. Além disso, já foram consumidos mais de R$-200 milhões e a obra continua emperrada, atrapalhando o tráfego ao invés de desafogá-lo.
A solução natural e menos onerosa sempre foi a criação de linhas fluviais urbanas interligando Belém a Mosqueiro/Icoaraci/Outeiro/Combu e ilhas, utilizando-se o enorme potencial das abundantes águas que rodeiam a cidade como vias naturais. Mas isso, os "coronéis do atraso" sempre teimaram em não admitir. Há dois meses foi aberta uma licitação para a primeira linha fluvial Icoaraci/Belém. Sabe-se apenas que os donos de ônibus não gostaram da ideia e fizeram chegar seu descontentamento a quem de direito. Então, a Semob informou apenas que a licitação foi considerada "deserta", por falta de interessados...
Agora, ao 'inaugurar" a linha fluvial de elite Icoaraci/Belém, ao preço de R$-10 a passagem, o prefeito, com assistência técnica de sua assessora doutora em mobilidade urbana, anuncia nova licitação, a ser aberta nesta segunda-feira, 18 de janeiro, para uma linha fluvial urbana com "preços populares"(sic) ...
Perguntar não ofende. Então:
1) - Por que só um dia depois dos festejos dos 400 anos de Belém ocorreu essa descoberta do "Ovo de Colombo" de que o transporte fluvial urbano seria uma "grande sacada" ?
2) - Por que não houve planejamento e estudos de viabilidade econômica a tempo de se inaugurar efetivamente o transporte fluvial urbano interligando Belém a Mosqueiro/Outeiro/Icoaraci/Belém como presente e como parte dos festejos comemorativos aos 400 anos de Belém ?
A improvisação e a falta de planejamento adequado podem acabar matando no nascedouro mais uma boa ideia, como é o caso da "saída" pelas águas para os problemas graves de mobilidade urbana de Belém. Passagem a R$-10 reais é para turista, não para s trabalhadores, estudantes, aposentados e donas de casa que usam transporte coletivo para se deslocar para o trabalho ou estudo em Belém. Transporte coletivo fluvial urbano requer no mínimo passagens com valores aproximados dos ônibus, algo em torno de três a quatro reais. E também que seja operado de modo contínuo, com saídas de 30 em 30 minutos, no máximo.
Como anunciado, apenas com um barco operando, a preços para turistas, o "Ovo de Colombo" pode acabar se transformando em "Ovo da Serpente", no sentido da frustração que pode gerar na população, após o "bombardeio" da propaganda e dos elogios da mídia camarada em trombetear a "grande sacada" tardiamente anunciada aos quatro ventos.
FRANCISCO SIDOU é jornalista
chicosidou@hotmail.com
sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
Lanchonete do Aeroporto de Belém duplica preço de produto
Olhem para a foto acima.
A imagem da esquerda, que mostra um cupom, foi mandada para o Espaço Aberto pelo leitor Sérgio Alves.
A imagem da direita foi embutida pelo próprio blog, apenas para efeitos de ilustração.
No cupom, reparem no preço da Coca-Cola: R$ 6,50.
Em média, uma latinha como essa está custando R$ 3 em outros pontos de venda de Belém. No máximo, custa R$ 3,50.
Sabem onde esse absurdo de se cobrar uma latinha de Coca a R$ 6,50?
Numa das lanchonetes do Aeroporto Internacional de Belém.
Ao que tudo indica, a lanchonete fica na ala do embarque de quem viaja para o exterior.
Mas só por isso é permitido que se pratique um assalto a mão desarmada?
Só por isso deve ser tolerável que se cobre os olhos da venta por um latinha de Coca-Cola?
Só por isso o consumidor deverá conformar-se em ser esfolado no bolso?
Nem a propósito, a Secretaria de Aviação da Presidência da República publicou em seu site, nesta quinta-feira, a atualização de uma notícia intitulada Lanche é vendido a preços populares em 14 aeroportos brasileiros.
Leiam esse trecho da notícia:
Quinze itens têm preço padronizado nos terminais de São Paulo/Congonhas (SP), Santos Dumont (RJ), Porto Alegre (RS), Curitiba e Londrina (PR), Joinville (SC), Cuiabá (MT), Salvador (BA), Fortaleza (CE), Recife (PE), Galeão (RJ), Manaus (AM), Belém (PA) e Maceió (AL), o último a inaugurar a lanchonete com preços diferenciados. Nesses aeroportos, uma campanha informativa divulga a marca “Lanche Popular”, que facilita a identificação e acesso às lanchonetes com banners explicativos e uma identidade visual padronizada para os estabelecimentos participantes.
Leiam mais:
Os valores cobrados pelos alimentos sob o selo “Lanche Popular” são determinados a partir de pesquisas de mercado em estabelecimentos similares, em cada localidade. Os preços podem ser reajustados anualmente, mediante a realização de nova pesquisa. É importante lembrar que os demais itens comercializados pelos estabelecimentos comerciais – com exceção dos 15 tabelados – são precificados livremente pelos comerciantes.
Viram?
Belém está entre os aeroportos dos tais lanches populares?
E viram mais?
Entre os preços tabelados nessas lanchonetes, está o refrigerante, com preço fixado em R$ 3. Olhem na imagem menor, pinçada da própria notícia publicada no site da Secretaria de Aviação da Presidência da República e que mostra a tabela de preços no Aeroporto de Curitiba.
Pois é.
Essa lanchonete que fica na ala de embarque internacional do Aeroporto de Belém não funciona, ao que tudo indica, como "Lanche Popular".
E só por isso pode praticar um preço abusivo?
Presas, elas estão livres. Livres, nós todos estamos presos.
Vejam aí.
A imagem foi capturada pelo Espaço Aberto de um vídeo que já ganhou mundo.
O vídeo pode ser visto no perfil do Belém Trânsito no Twitter (cliquem aqui).
Detentas do Centro de Recuperação Feminino (CRF), em Ananindeua, aparecem numa festinha.
A certa altura, uma dessas garotinhas, bebida na mão, diz que elas também curtem essas festinhas, e não apenas aqueles que estão em liberdade.
Ela tem razão.
Vocês sabem, por exemplo, a diferença entre um cidadão como Alcy Guimarães, assaltado duas vezes em poucas horas, e essas detentas que se exibem nas redes sociais fazendo farra dentro de uma cela?
É que um cidadão como Alcyr, livre, está refém da violência; as detentas, presas, estão livres.
Sabem, por exemplo, a diferença entre um cidadão que se vê assaltado em plena praça, enquanto caminhava num sábado de manhã, e essas detentas que se exibem nas redes sociais curtindo adoidadamente os prazeres da vida?
A diferença é que um cidadão assaltado na praça está refém do banditismo; as detentas, presas, estão livres.
Sabem a diferença entre milhares de moradores de Belém e esses beldades que agitam dentro de uma cela de presídio?
A diferença é que milhares de moradores de Belém estão enclausurados em suas próprias casas, estão presos atrás das grades que eles próprios ergueram; os bandidos, de seu lado, estão livres.
Dá para acreditar que isso não é ficção?
Dá.
Porque não é ficção.
É a mais pura realidade.
A imagem foi capturada pelo Espaço Aberto de um vídeo que já ganhou mundo.
O vídeo pode ser visto no perfil do Belém Trânsito no Twitter (cliquem aqui).
Detentas do Centro de Recuperação Feminino (CRF), em Ananindeua, aparecem numa festinha.
A certa altura, uma dessas garotinhas, bebida na mão, diz que elas também curtem essas festinhas, e não apenas aqueles que estão em liberdade.
Ela tem razão.
Vocês sabem, por exemplo, a diferença entre um cidadão como Alcy Guimarães, assaltado duas vezes em poucas horas, e essas detentas que se exibem nas redes sociais fazendo farra dentro de uma cela?
É que um cidadão como Alcyr, livre, está refém da violência; as detentas, presas, estão livres.
Sabem, por exemplo, a diferença entre um cidadão que se vê assaltado em plena praça, enquanto caminhava num sábado de manhã, e essas detentas que se exibem nas redes sociais curtindo adoidadamente os prazeres da vida?
A diferença é que um cidadão assaltado na praça está refém do banditismo; as detentas, presas, estão livres.
Sabem a diferença entre milhares de moradores de Belém e esses beldades que agitam dentro de uma cela de presídio?
A diferença é que milhares de moradores de Belém estão enclausurados em suas próprias casas, estão presos atrás das grades que eles próprios ergueram; os bandidos, de seu lado, estão livres.
Dá para acreditar que isso não é ficção?
Dá.
Porque não é ficção.
É a mais pura realidade.
O Centro Recreativo de Santarém: história, resgate e saudades
Maravilhoso!
Comovente!
Essencial para se entender um pouco da história de Santarém.
É assim esse documentário que chegou ao Espaço Aberto, através do WhatsApp, remetido pelo santareno e leitor do blog, o desembargador do TRT8 Vicente Malheiros da Fonseca.
O documentário - dos mais preciosos, ressalte-se mais uma vez - conta um pouquinho da história do Centro Recreativo, uma espécie de Assembleia Paraense de Santarém.
O clube teve seu período áureo. Mas também chegou ao declínio. E que declínio. Muitos o tinham por acabado. E, na prática, foi mesmo isso que aconteceu.
Mas eis que o Recreativo renasceu das cinzas. Ressurgiu. Foi resgatado para a vida. E emplacou seus 80 anos revitalizado, remoçado, returbinado, graças à insistência e persistência de um grupo de santarenos que teve a dimensão precisa sobre o significado histórico do clube para a cidade.
Assistam vocês - sobretudo os santarenos.
E matem as saudades.
Saudades que nunca terão fim, é claro.
Justiça Federal suspende licença de operação de Belo Monte
A Justiça Federal de Altamira determinou a suspensão da Licença de Operação da usina de Belo Monte até que a Norte Energia SA e o governo brasileiro cumpram a obrigação de reestruturar a Fundação Nacional do Índio (Funai) na região para atender os índios impactados pelo projeto. A condicionante já constava na licença prévia da usina, concedida em 2010, mas nunca foi cumprida. Em 2014, o Ministério Público Federal acionou a Justiça, que ordenou por meio de liminar o cumprimento da condicionante. Até hoje, com todos os impactos atingindo severamente os povos indígenas, a reestruturação não aconteceu.
A liminar inicial do processo é de janeiro de 2015. E ordenava a apresentação, em 60 dias, de um plano de reestruturação, que deveria incluir a construção de sede própria para a Funai e contratação de pessoal suficiente para atender as demandas geradas por Belo Monte no atendimento aos oito povos indígenas impactados pela usina. O governo e a Norte Energia não apresentaram o plano até hoje e o MPF comunicou à Justiça o descumprimento e solicitou medidas mais rigorosas.
Como resposta, a juíza Maria Carolina Valente do Carmo determinou “a suspensão dos efeitos da Licença de Operação da UHE Belo Monte até a satisfação da obrigação condicionante referente à reestruturação da Funai, de modo a garantir as condições necessárias ao acompanhamento da implementação das demais medidas e condicionantes relacionadas ao componente indígena”.
Em vez da reestruturação, o que ocorreu entre 2010, data da primeira licença de Belo Monte, até 2015, data da última licença, foi a desestruturação da Funai. Continua sem sede própria, em 2012 foram retirados todos os postos das aldeias e tem hoje 72% menos funcionários para atuar com os povos indígenas. O governo federal chegou a dizer à Justiça, em 2015, que o problema dos funcionários seria resolvido com a realização de um concurso público, mas até hoje não apresentou cronograma para isso. E a situação se agravou, com mais funcionários se afastando ao longo do ano. Em 2011 eram 60 servidores, hoje são apenas 23.
Em junho de 2015, a coordenação regional da Funai enviou correspondência para Brasília em que afirmou: “no âmbito da Funai de Altamira nunca enfrentamos um desafio de tamanha grandeza, onde funcionários abnegados se veem obrigados a aceitar o processo crescente de agregação de atribuições, o que vem resultando em um desgaste físico, emocional e laboral. Alertamos que, provavelmente, nos próximos 6 (seis) meses, se nada for feito no sentido de analisar, avaliar e deliberar sobre a questão em tela, corre-se o risco de um colapso e interrupção das atividades desta regional, situação que prejudicará as ações institucionais e as comunidades indígenas”.
A situação da Funai agrava os impactos que Belo Monte provoca sobre os povos indígenas, abandonados à própria sorte, lidando diretamente com diretores e prepostos da Norte Energia S.A, que passam a atuar como se fossem o Estado. “A reestruturação da Funai era medida indispensável para que as demais ações condicionantes fossem devidamente implementadas. O que ocorreu foi a desestruturação da FUNAI e o corrompimento das obrigações do licenciamento pela Norte Energia”, diz o MPF. Com isso o impacto de Belo Monte sobre os indígenas ultrapassou de modo ainda não mensurado os prognósticos dos Estudos de Impacto Ambiental.
A decisão que suspende a licença de Belo Monte é de 11 de janeiro. Depois que for notificado, o Ibama tem prazo de cinco dias para paralisar o enchimento do reservatório. Além da suspensão da licença, a juíza determinou multa de R$ 900 mil para União e Norte Energia, pelo descumprimento da ordem judicial.
Processo nº 2694-14.2014.4.01.3903
Íntegra da decisão
Fonte: Assessoria de Imprensa do MP no Pará
quinta-feira, 14 de janeiro de 2016
Cantor assaltado duas vezes no mesmo dia canta Belém
Poucas vezes este repórter assistiu a um depoimento tão pungente, tão terno, verdadeiro, sereno e, acreditem, poético de uma vítima da violência que nos assola.
Poucos vezes se viu um testemunho como o de Alcyr Guimarães.
Alcyr - médico, cantor e compositor dos mais festejados, dos mais representativos da música paraense - postou em seu perfil no Facebook um vídeo (veja aqui), do qual o Espaço Aberto capturou a imagem acima.
No dia 12, data em que Belém completou 400 anos, ele foi assaltado duas vezes em poucas horas. Duas vezes, gente.
A primeira, em São Brás, onde foi apanhado por três bandidos armados.
A segunda, no bairro do Acampamento, minutos após ter sido deixado pelo trio de assaltantes que rodou com Alcyr por algum tempo, no carro dele.
Depois dos dois assaltos, conforme narra o próprio Alcyr, ele foi sem nada - literalmente sem lenço, sem documento, sem violão, sem dinheiro, sem celular, sem nada - cantar Belém.
Foi cantar Belém no dia do aniversário da cidade.
"Como na música do Chico, acho que foi o meu canto mais bonito, porque vi o público com um carinho imenso comigo, como talvez eu nunca tivesse. E essa minha rouquidão é de tanto cantar. Eu desforrei alguma coisa ruim no canto. [...] Belém é sua gente. E essa gente precisa de segurança", diz Alcyr, chorando, ao final do vídeo.
Por que é assim?
Por que tem que ser assim?
Por que nós, que amamos Belém, não temos paz nesta cidade?
Por que em Belém estamos, cada vez mais, tendo medo - para não dizer pavor - uns dos outros?
Por que em Belém, com encantos que todos cantamos nestes 400 anos, uns se desviam dos outros, porque todos veem no outro um bandido em potencial, pronto para atacar?
Alcyr Guimarães deu esse depoimento sem raiva, sem ódio, sem rancor.
Suas lágrimas, percebe-se facilmente, são de tristeza e, quem sabe, de desesperança.
E olhem: só quem já foi assaltado. como este repórter, é que pode avaliar o grau de humilhação que enfrentamos quando bandidos nos subjugam - muitas vezes em lugares públicos, à vista de todo mundo, que nada fez porque tem medo de sofrer as consequências da reação do assaltante armado.
Pois é.
Enquanto vivermos assim, só nos resta dizer como Alcyr, ao final de sua mensagem: "Obrigado, meu Pai, pela minha vida. Obrigado, meus anjos protetores."
Belém nos tempos
Quem não se lembra deles?
São os cinemas 1, 2 e 3, na São Pedro, mais ou menos atrás do Shopping Pátio Belém.
Talvez tenham sido os três últimos cinemas de rua de Belém.
As fotos, de Marco Antônio Moreira, foram extraídas do Nostalgia Belém.
Envolvidos na invasão da Hidrelétrica de Tucuruí são condenados
![]() |
Roquevam Alves da Silva, um dos condenados, aparecem em primeiro plano em maio de 2007, juntamente com mais dois manifestantes, no centro de controle da Hidrelétrica de Tucuruí |
A Justiça Federal em Marabá, na região sul do
Pará, condenou nesta terça-feira (12) três integrantes de movimentos sociais
que participaram, em 2007, da ocupação da hidrelétrica de Tucuruí, a segunda
maior do País, responsável pelo fornecimento de energia para vários Estados. As
penas, somadas, vão a mais de 20 anos. Dois réus foram absolvidos por falta de
provas. Outros três denunciados não foram julgados, pois estão foragidos e
serão processados em outra ação penal. Ainda cabe recurso ao Tribunal Regional
Federal da 1ª Região, em
Brasília (DF ).
Na sentença (veja
aqui a íntegra), o juiz federal Marcelo Honorato, da 1ª Vara, condenou
o réu denunciado como líder dos manifestantes, Roquevam Alves da Silva, a 12
anos, 10 meses e 25 dias de reclusão em regime fechado, pelos crimes de
explosão, cárcere privado, atentado contra a segurança de serviço público
essencial (energia elétrica) e quadrilha armada.
Euvanice de Jesus Furtado, outra manifestante,
foi sentenciada a cumprir pena de cinco anos e seis meses de reclusão, em
regime semiaberto, pelos crimes de atentado contra a segurança de serviço
público essencial (energia elétrica) e quadrilha armada. A pena menor, de três
anos de reclusão, em regime aberto, foi imposta a Roger Balieiro Veiga, pelo
crime de quadrilha armada. Romildo Castro Gaia e Venos Taçara de Jesus Barrosa
da Igreja foram absolvidos.
Os três réus também foram condenados a ressarcir
os prejuízos da hidrelétrica, em decorrência da diminuição na geração de
energia, a fim de evitar colapso no sistema. O valor fixado na sentença foi de
cerca R$ 245 mil, a serem corrigidos e com juros de 1% ao mês, desde os dias dos
fatos, em 23 e 24 de maio de 2007, o que deve ultrapassar meio milhão de reais,
em valores aproximados de hoje.
A sentença prolatada pelo juiz federal Marcelo
Honorato traz toda a dinâmica dos fatos, como o emprego de coquetel molotov,
cárcere privado de funcionários da Eletrobras, tomada de comando operacional da
usina e o elevado perigo que foi gerado pela conduta dos manifestantes, que
colocaram em risco uma das maiores usinas hidrelétricas do mundo, com um lago
artificial de 2,8 mil quilômetros quadrados.
Na denúncia, o Ministério Público Federal narra
que integrantes do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Via Campesina,
Sintesp e Movimento dos Sem-Terra (MST) invadiram as instalações da
Hidrelétrica de Tucuruí, ocupando áreas estratégicas da usina, inclusive a
cabine do comando central. Para tanto, cerca de 500 manifestantes, ditando
palavras de ordem e utilizando-se de coquetéis molotov e outros instrumentos,
derrubaram o portão que dá acesso à usina, guardado por policiais militares.
Excessos
Na sentença, o magistrado observa que os fatos
ocorridos durante os dias de ocupação “em muito excederam as expressões
anteriores levadas a cabo pelos movimentos sociais em destaque, visto que,
desta vez, os manifestantes conseguiram atingir o COU (Comando Operacional da
Usina), colocando em risco todo o sistema elétrico nacional, além de terem
empregado, como estratégia delitiva, o arremesso de explosivos incendiários e o
encarceramento de funcionários da Eletronorte, no intuito de facilitar e assegurar
a ação criminosa principal: o atentado contra a segurança do serviço de
produção e transmissão de energia elétrica.”
Entre as provas juntadas aos autos encontram-se
imagens de emissora de televisão demonstrando o exato momento em que um
artefato explosivo é arremessado, em chamas, por um dos ocupantes da barragem.
“A ordem das imagens comprova que, logo após o arremesso da bomba incendiária,
os manifestantes conseguiram derrubar a grade que dava acesso à usina
hidrelétrica, o que deu azo à efetiva invasão e à concretude dos demais crimes
subseqüentes”.
Para o juiz Marcelo Honorato, “há que se afastar
qualquer alegação do valor social da conduta criminosa, tanto para justificar
as infrações ou mesmo para atenuá-las, pois grande parte das reivindicações
exigidas pelos manifestantes se demonstraram descabidas e alheias aos deveres
jurídicos das vítimas e da empresa coagida, assim como os bens jurídicos em
jogo (segurança do sistema elétrico, segurança da imensa barragem de Tucuruí,
incolumidade pública pelo emprego de explosivos e liberdade individual) se
mostraram absolutamente desproporcionais diante das aspirações pleiteadas,
ainda que fossem devidas ou mesmo possíveis de serem efetivadas".
Instituto Paulo Martins divulga vencedores de concurso
![]() |
Equipe do Instituto Paulo Martins e vencedores do concurso 400 anos de alimentação em Belém |
O Instituto Paulo Martins premiou na terça-feira
(12), na própria sede, os trabalhos selecionados no concurso “400 anos de
alimentação em Belém” promovido pela entidade com o objetivo de estimular a
pesquisa sobre a alimentação e ingredientes consumidos na capital ao longo de
sua história. O concurso faz parte das ações do Instituto voltadas para o
Festival Ver-o-Peso da Cozinha Paraense que, em 2016, irá homenagear os 400
anos da capital paraense. O edital foi lançado no dia 09 de setembro e as
inscrições encerraram em 09 de dezembro. O primeiro lugar recebeu a quantia de
R$ 3.000,00 (três mil reais) em dinheiro. Já o segundo e terceiro lugares
receberam a quantia de R$ 1.500,00 (hum mil reais) em dinheiro cada um.
Três profissionais integraram a banca de
avaliação dos trabalhos: a chef de cozinha Ilca do Carmo, proprietária do
restaurante Santa Chicória; o historiador e professor da Universidade Federal do Pará ,
Aldrin Moura de Figueiredo; e o jornalista especializado em gastronomia
Fernando Jares Martins.
Fonte: Assessoria de Imprensa
terça-feira, 12 de janeiro de 2016
400 anos: a música que melhor traduz Belém
Bom dia, Belém.
Bom dia, Belém de 400 anos.
Alguma vez o blog já disse - e se não disse, está dizendo agora - que "Bom Dia, Belém" deveria ser incorporado como um hino de amor, de poesia, de lirismo em homenagem a esta cidade.
Onde estavam Edy Proença e Adalcinda Camarão quando compuseram esses versos, hein, gente?
Eles só podiam estar levitando, numa espécie de êxtase transitório, de um torpor poético que os mantinha apartados de tudo que os pudesse tirar da concentração de traduzir Belém em versos, no entender do blog, insuperáveis quando se trata de cantar esta cidade que hoje completa 400 anos.
Belém, minha terra, meu rio, meu chão
Meu sol de janeiro a janeiro, a suar
Me beija, me abraça que eu
Quero matar a imensa saudade
Que quer me acabar
Sem Círio de Virgem, sem cheiro cheiroso
Sem a chuva das duas que não pode faltar
Murmuro saudades de noite abanando
Teu leque de estrelas
Belém do Pará!
Vocês querem mais?
Como não ficar enternecido como esses versos?
Como o Espaço Aberto poderia deixar de escolher esta como a música dos 400 anos de Belém?
Como?
E ainda mais cantada por Lucinnha Bastos?
Tintim!
400 anos: o evento que simboliza Belém
Que outro evento poderia melhor evocar Belém que não o Círio de Nazaré?
Que outro evento poderia estar mais diretamente associado a Belém como o Círio de Nazaré?
Que outro evento - gigantesco, monumental, fantástico -, que não o Círio de Nazaré, poderia transcender as crenças religiosas para expressar uma inalcançável multiplicidade de sentimentos capazes de fundir o profano com o sagrado - e vice-versa?
Não à toa, o Círio, lembrem-se, foi declarado Patrimônio Imaterial da Humanidade.
É possível não escolher o Círio de Nazaré como o evento que simboliza Belém em seus 400 anos?
400 anos: o logradouro que é a referência de Belém
É o Ver-o-Peso, claro.
Para os íntimos, Veropa.
Simplesmente assim.
Vir a Belém sem conhecer o Ver-o-Peso, ou sem passar rapidamente por ele, é como ir a Santarém, por exemplo, e não conhecer Alter do Chão.
É como ir a Paris e não conhecer o Louvre ou o D'Orsay.
É como um amante do futebol ir ao Rio e não conhecer o Maracanã.
Enfim, é como vir a Belém e não conhecer Belém.
Na foto acima, do Espaço Aberto, a Feira do Açaí e o Ver-o-Peso vistos do Forte do Presépio.
400 anos: a comida que tem o gosto de Belém
Que maniçoba que nada!
Que pato no tucupi que nada!
E muito menos tacacá.
Sim, a comida que, em 400 anos, depurou-se para ter o gosto de Belém é o açaí, sim senhor.
Com peixe frito ou não.
Ou até com leite Ninho (olhem só na foto abaixo), uma receita que o repórter aqui do blog ainda vai patentear (hehehe).
Maniçoba, pato no tucupi, tacacá e pratos do gênero são para certas ocasiões.
O açaí, ele sim, já foi a comida - a única do dia - para milhares de famílias em Belém.
Infelizmente, a condição de sustento diário vai se acabando por imposições econômicas, que de certa forma vai transformando o açaí um alimento inacessível para ser consumido todos os dias, por famílias de baixa renda, em decorrência do preço.
E tomar um açaí ouvindo Sabor Açaí, melhor ainda.
400 anos: Luiz Braga e a foto - a sua foto - que traduz Belém
O Espaço Aberto pediu ao amigo fotógrafo Luiz Braga, cuja excelência artística já ultrapassou, há muito, as divisas paraenses, para que ele enviasse um ou dois trabalhos, de seu grande acervo, que melhor representasse Belém.
Veio a foto acima, acompanhada da mensagem abaixo, enviada por e-mail:
Meu caro Paulo,
Acabei por escolher para o blog uma única foto, que é atemporal e muito simbólica.
Um ponto de convergência entre todos os que apreciam Belém.
Os que amam sentir o cheiro da chuva, que lembram da infância ao ver uma manga cair.
Os que abrem a porta do carro e esticam a mão para apanhá-la.
Mesmo com toda a insanidade e desmandos, ainda não acabaram com as mangueiras e com nossa chuva. Numa terra de tantas e dolorosas perdas, isso é muito!
Uma cidade sem história e sem respeito pela sua cultura é uma mula sem cabeça.
O melhor presente para Belém é ter respeito por ela.
Simples assim!
Sim, Luiz.
Simples assim, né?
Mas como é tão difícil por ser tão simples assim.
Por isso o desrespeito a Belém.
Infelizmente.
E só mais uma coisa: o blog não merecia receber e publicar uma foto tão emblemática e tão plasticamente linda como essa.
Mas Belém merece essa foto.
E como!
400 anos: o prefeito que transcende a história
Antônio Lemos.
O intendente.
O prefeito.
Simplesmente Antônio Lemos.
Talvez ainda precisemos ver Belém completar 800 anos para saudarmos um gestor, um administrador como Antônio Lemos.
Não se considere nem o chefe, o líder político, mas o gestor.
Um gestor que esteve à frente de seu tempo.
Muito à frente.
Talvez por isso tenha sido escorraçado - literalmente - pelas ruas da cidade que elegeu como sua, ele que era maranhense.
Talvez por isso o Pará, e particularmente Belém, ainda não tenham prestado a Antônio Lemos o tributo e o reconhecimento que ele verdadeiramente merece.
Antônio Lemos: talvez em oito séculos Belém não terá um prefeito como ele.
400 anos: o personagem, o maior ativista político de Belém
João Batista Gonçalves Campos.
Batista Campos.
Padre Batista Campos.
Cônego Batista Campos.
Religioso, jornalista e advogado.
Era barcarenense, mas foi em Belém que se
notabilizou como o mais destemido e temido ativista do cenário político desta
cidade em 400 anos.
Como ele, talvez só o jornalista Paulo Maranhão,
que passou vários anos enclausurado – para não dizer entrincheirado-, sem sair
do prédio da Folha do Norte, onde depois funcionou O LIBERAL ,
na rua Gaspar Viana, esquina com a Primeiro de Março.
A diferença, entre ambos, é que Batista Campos
foi a voz dos que aderiram à Cabanagem, a revolução popular protagonizada pelos
cabanos - os pobres, deserdados, espoliados e explorados - que invadiram Belém
em 7 de janeiro de 1835, apenas sete depois da morte do cônego, vítima de
infecção contraída numa acne.
Talvez seja forçar um pouco a barra dizer-se que
Batista Campos foi o ideólogo da Cabanagem, porque a revolta não teve propriamente um
programa, um ideário formal, definido, perfeitamente delineado. O povo, enfim, tomou
o poder,mas não soube o que fazer com ele. A elite antiportuguesa e a massa
miserável não tiveram um programa que as unificasse.
Mas Batista Campos, enquanto pôde, não se
intimidou diante de poderosos da Província, que, para reprimir opositores,
usavam as armas com a mesma naturalidade com que apunham vírgulas em suas
alocuções.
Por isso, Batista Campos foi ameaçado,
perseguido, censurado, mas sempre disse o que precisava ser dito contra os dignitários
poucos ou nada dignos que mandaram e desmandaram no Pará, durante o período da
regência provisória.
E quando foi preciso dizer, Batista Campos
disse-o com todas as letras, como na sua conhecida máxima, que virou dístico de
seu jornal, “O Paraense ”,
por muitos apontado como o primeiro jornal editado no Pará: “De circunlóquios
nada sei. O caso conto como o caso foi. Na minha frase de constante lei, o
patife é patife, o boi é boi.”
Batista Campos.
O personagem dos 400 anos de história de Belém.
400 anos: a crônica que melhor retrata Belém
Eneida de Moraes.
Ela é a cronista de Belém, em seus 400 anos.
E entre as crônicas, destaque-se "Muitas árvores", um das que integram Aruanda, o livro de Eneida que o blog guarda com todo o zelo e carinho.
O poster guarda um exemplar de Aruanda como se fosse joia rara - porque é mesmo uma joia rara.
Quem o presenteou foi a professora – hoje doutora com todos os títulos e méritos – Lucy Teixeira, lá pelo início dos anos 80.
O exemplar precisou ser xerocado. E está – viu, Lucy? – conservadíssimo até hoje (vejam abaixo, na foto do blog).
Está guardado como um troféu dos sentimentos mais nobres de Eneida por Belém.
A sua Belém, a Belém de todos nós.
A Belém dos quintais que já estão se acabando, sobretudo nas áreas mais centrais, sufocadas pela selva de pedra que cresce para cima. E sem parar.
A Belém das mangueiras e das carambolas.
A crônica é um primor.
De ternura e nostalgia.
Leiam abaixo:
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Eram de mármore branco as escadarias que subíamos e descíamos correndo, na casa-grande onde nascemos – o nosso mundo – cercado de jardins e, aos fundos, o imenso quintal. As escadas brancas nos levava para outro país, para a rua, aquela pacata rua chamada Benjamim Constant, em Belém do Pará, que para nós parecia apenas um trecho sem importância, diante de nosso mundo povoado de tanta gente, muita árvores.
Ao começo julgávamos que aquela rua fosse apenas o pequeno trecho da esquina da São Jerônimo à Dr. Morais. Com o decorrer dos dias fomos descobrindo novos fragmentos e outros, ainda outros, até que tomamos conta da realidade que nos pareceu comovedora: aquela rua que pensáramos nossa e pequenina era imensa, começava muito longe, muito, entre capina e acabava mais longe, no Reduto.
Uma rua enorme, larga, muito povoada. Ficamos tremendamente alegres com a descoberta. Então não éramos só nós e as nossas, nossos amigos e nossos jogos? Bem perto, um “cordão de pastorinhas” chamado “Filhas da Flora” ensaiava em maio para o junho festivo. (Meu irmão mais moço sonhava ser pastor um dia; mas isso foi muito mais tarde, e quando conseguiu o papel num pastoril especialmente criado para ele, fracassou inteiramente como ator. Tinha que dizer apenas dois versos; nunca o conseguiu.)
Uma rua tão cheia de gente com trechos pobres, outros muito mais pobres, pedaços mal calçados, outros sem calçamento. Uma rua enorme, muito povoada, e dentro dela, branco, elegante, solene mesmo, aquele palacete onde nascemos.
Satisfeitos em saber que a rua era um grande bem coletivo, começamos a trazer para o nosso quintal todos os garotos da redondeza. Foi instalado um futebol, havia uma hora em que minha mãe, penalizada de tanto esforço dos meninos, mandava servir laranjada ou leite gelado para os mais fraquinhos.
O quintal era o nosso feudo. Ao fundo aquela senhora vegetal tão gorda, tão grande que só ela marcava uma enorme sombra no quintal imenso: a mangueira, a velha mangueira, única árvore que, pela imponência e dignidade do porte, merecia nosso respeito. As outras – abieiros, cajueiros, goiabeiras e a caramboleira – todas as outras eram nossas irmãs e companheiras de travessuras, compartilhavam de nossas ingênuas descobertas.
A caramboleira; sobre ela instalamos um posto de observação muito eficaz. Com ela controlávamos a rua, atacávamos os inimigos, fiscalizávamos – sim, principalmente fiscalizávamos – uma vizinha, a Sinhazinha, preparando seus doces para vender. Quando os tabuleiros de sequilhos saíam do forno, Sinhazinha sabia que estávamos à espera. Gritava:
- Venham logo, meninos doidos.
- Onde estão esses meninos?
- Com certeza na caramboleira; ainda não é hora da Sinhazinha tirar os doces do forno.
Não posso precisar hoje quem promovia esse diálogo, mas posso asseverar que a voz mais doce e a mais cheia de cuidados era de minha mãe velando pelos nossos destinos, como um grande amor alado. Que outra coisa ela foi?
Da caramboleira atacávamos pessoas de nossa particular antipatia. Por exemplo: certo pintor da vizinhança, que não admitia gritos e que mandava à nossa chefe – minha mãe – bilhetes pedindo silêncio, muito silêncio, pois ele precisava pintar.
Era realmente um homem esquisito; sua casa ficava noutra rua, a grande distância da nossa, que ocupava quase todo o quarteirão. Jamais poderíamos compreender que nossos gritos fossem perturbar um pintor daqueles, cuja pintura desprezávamos. (Nesse ponto posso afirmar que, apesar da idade, estávamos senhores de uma crítica segura.)
As carambolas eram nossas armas, e só muito mais tarde aprendi que maduras são belas e muito agradáveis ao paladar; não conseguiam amadurecer em nossa infância, aquelas companheiras: eram indispensáveis às nossas guerras. A velha mangueira jamais nos acolheu em seus braços e hoje creio que ela fosse sombria, misteriosa, quase floresta escura. Era grande e velha, impunha respeito como se fosse nossa avó contando histórias.
O abieiro da esquerda não era de difícil ascensão; apenas dele não descortinávamos nenhuma paisagem digna de admiração. Na época das frutas, nós o frequentávamos com fidelidade; depois, dele não precisávamos para viver. Nenhuma outra árvore trazia em si aquela simpatia, aquele afeto, aquele companheirismo da caramboleira, baixa e gorda, cheia de galhos, pejada de frutos dando para a rua, e na rua, do outro lado, Sinhazinha e seus sequilhos.
Dálias, jasmineiros, a açuceneira que foi mais tarde a minha companheira, não nos interessavam. Eram habitantes do jardim, pretensiosas, sem idade, viviam enclausuradas em seus canteiros e em suas belezas, mereciam cuidados especiais, pareciam mais para ser olhadas do que amadas. Eram arbustos...
Se tive minha infância tanta gente, se tantos personagens compõem minha vida passada, se uns foram grandes e outros menores, tive quem contasse estórias em francês e outras me ensinassem lendas, não posso esquecer, entre esses personagens, os vegetais, árvores e arbustos, frutos e flores que viveram minha primeira infância. (A açuceneira serviu depois para meus sonhos de mocinha. Perfumava todos.)
É por isso que até hoje sou capaz de dizer bom dia a uma mangueira e tenho especial ternura pelos canteiros de qualquer parte do mundo.
As árvores estão acompanhando atentas minha velhice, sabem de minha meninice que está ficando cada vez mais distante, minha mocidade navegando ao longe.
Que será feito hoje da caramboleira? Teria sido cortada? Estará ainda viva? É agora uma matrona, e se ficou tão gorda quanto era no passado, pode hoje ser chamada digníssima senhora.As árvores que encontro no meu caminho sabem, com certeza, que suas irmãs foram minhas irmãs de travessuras. Sabem e é por isso que aceitam, comovidas, o meu amor.
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