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A Nova Doca com suas novas instalações ou ornamentos, o que sejam: o pasagismo é o essencial? (Fotos: Espaço Aberto) |
Uma imagem vale mais do que mil palavras.
É o que dizem.
Para ver com os meus próprios olhos, fui conferir, na manhã desta terça-feira (01), os primeiros 90 metros de comprimento por 20 metros de largura daquilo a que estão chamando de Nova Doca, uma via que, vocês sabem, tem extensão total de 1,2 quilômetros.
Essa inauguração em doses homeopáticas - segundo a voz oficial, cada novo trecho será liberado a cada 20 dias - talvez tenha sido um atalho para tentar amenizar a enorme e negativa repercussão da solução encontrada para o paisagismo na área.
A solução consiste nada mais, nada menos do que ornamentar (na minha linguagem despida de tecnicismos e plena de ignorância paisagística, é isto mesmo - ornamentar) vergalhões com árvores, num primeiro momento descritas pela comunicação do governo do Pará como "artificiais", logo depois como "naturais", fixando-os no dito parque linear da Doca.
A solução é tão exótica, considerando que o teatro de sua concretização é a cidade que todos gostamos de exaltar como a
Porta de Entrada da Amazônia (a região de maior bidervisidade do mundo), que ganhou até destaque em
O Globo de hoje (
vejam ao lado), que novamente dedica uma página inteirinha ao tema Belém-COP30, com viés não muito positivo, diga-se logo.
Paisagismo e funcionalidade
Chega a ser impressionante como o governo Helder Barbalho meteu-se nessa polêmica dos ornamentos da Nova Doca porque quis. E não havia necessidade para querer isso.
Observem as imagens acima, feitas com drone, algumas mostrando detalhes do trechincho inaugurado.
Na real, mas na real mesmo, ninguém, em sã consciência, haverá de acreditar que os ornamentos da Nova Doca vão ter outra função que não a puramente paisagística. Porque aquela coisa, aquela instalação, aquele negócio, aquela ornamentação - seja lá como chamem - que está afixada lá não fornece sombra nem para um pet das menores raças. É apenas para enfeitar mesmo.
Então, se é meramente paisagística, por que não preferiram outras alternativas que dispensassem vergalhões e excluíssem inspirações made in Singapura (vejam só, Singapura)?
Por que não preferir soluções mais condizentes com jardins, não os suspensos (como os babilônicos de Nabucodonosor e os do parque linear da Nova Doca), mas como aquele que cultivamos em nosso fundo de quintal ou nas sacadas dos prédios? Ficaria lindo, bem mais amazônico e nada singapurês. Simples assim.
Se a intenção é meramente paisagística, seria melhor fazer assim na Nova Doca, e não vender a ideia de que esse equipamento público terá, entre suas funcionalidades, a de ameninzar o calor, fornecer sombra na área ou coisa que o valha.
Aliás, bem ao pegado da Nova Doca, está o Porto Futuro, obra também do governo Helder. Eu, pessoalmente, acho gostoso aquele lugar. Mas só das 17h em diante. Antes disso, o local, com sol a pino, é infrequentável. É um inferno a céu aberto. Da mesma forma, o Portal do Amazônia. E da mesma forma, o Mangal, que hoje, aliás, está bem mais sombreado do que há alguns anos.
O certo é que sobre nenhum desses lugares, que são ótimos e já viraram cartões postais de Belém, travou-se essa polêmica de ornamentações com vergalhões ou materiais equivalentes.
Discussão lateral
Por isso, insiste-se: a questão do paisagismo na Nova Doca não apenas virou uma polêmica desnecessária por causa da comunicação atabalhoada do próprio governo Helder, como ainda reforçou minha certeza de que, a rigor, é uma discussão lateral, até certo ponto secundária, considerando-se o contexto.
Essencial, mesmo, é saber quais as funcionalidades dessa obra, que por ser uma obra de R$ 300 milhões, não pode e nem deve cingir-se à questão sobre se está feia ou se está bonita (que são conceitos estéticos muito subjetivos). Essencialíssimo é avaliar se a Nova Doca vai, concretamente, trazer melhorias em termos de bem-estar, sustentabilidade, mobilidade e questões do gênero.
Ontem à noite, Helder fez um comentário que chamou atenção. Segundo ele, as obras na Nova Doca permitirão uma regulação, digamos assim, do fluxo das águas no canal, resolvendo definitivamente o problema dos alagamentos, sobretudo nos períodos de marés de sizígia.
Aguardemos: se isso der certo, parte do investimento de R$ 300 milhões estará justificada. Se não der certo, tudo escoará água abaixo, inclusive a ornamentação fixada no fundo do canal, e que vai ser alagada completamente caso o espaço continue suscetível à subida das marés.
A conferir.