sexta-feira, 1 de maio de 2026

Moraes e Alcolumbre podem até ser conspiradores, mas não são burros

Alcolumbre e Moraes: conspiração contra Lula em jantares com a presença de lulistas?

Jornalismo bom é o jornalismo que especula, meus caros.

Especulações jornalísticas não são um pecado. Muito pelo contrário, muitas vezes são até necessárias para contextualizar fatos.

Mas é preciso que uma especulação, quando publicada, deixe evidente para o leitor que ali está uma análise, uma interpretação, e não propriamente uma notícia, que, segundo as lições que nós, jornalistas, aprendemos, deve primar pela objetividade.

Depois da derrota histórica sofrida pelo governo Lula, com a rejetição, pelo Senado, do nome de Jorge Messias para o Supremo, pipocam por aí matérias dando como certo que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, conspirou contra o governo em tabelinha com ninguém menos que o ministro do STF Alexandre de Moraes.

Apontam-se, como se fossem indicios - e índicio é elemento de especulação, e não de notícia, né? -, dois fatos.

O primeiro, um jantar no dia 23 de abril, na residência oficial do presidente do Senado, entre Alcolumbre e Moraes.

O segundo, outro jantar, ocorrido na terça (28), véspera da rejeição do nome de Messias. Desta vez, Moraes é que teria recebido, em sua casa, Alcolumbre e outros convidados.

Os dois jantares são fatos - ambos incontestáveis.

Mas, no primeiro, o do dia 23, também esteve presente o ministro do Supremo Cristiano Zanin, indicado por Lula.

Quer dizer, então, que nesse jantar com a presença de três pessoas, apenas duas, Alcolumbre e Moraes, teriam discutido a conspirata justamente ao lado de Zanin, lulista leal com assento no Supremo?

Tenham paciência!

O outro jantar, o do dia 28, segundo informa Mônica Bergamo, na Folha desta sexta (01),  contou com as presenças de várias pessoas e já havia sido marcado antecipadamente por Moraes para homenagear um amigo procurador. E Zanin, novamente, encontrava-se entre os presentes.

Quer dizer, então, que a conspirata foi atualizada, digamos assim, durante um jantar com a presença de lulistas, inclusive Zanin, mas apenas Moraes era o conspirador, em sintonia com Alcolumbre?

Tenham paciência!

Olhem, não duvido que Moraes e Alcolumbre - principalmente e sobretudo este - possam ter conspirado para a rejeição do nome de Messias. Mas teriam conjuminado as articulações nesses dois jantares?

Contem outra.

Conspiradores que não são burros conversam em piscinas, sem celular nos bolsos. Ou conversam no recôndito dos porões.

E Moraes e Alcolumbre podem até ser conspiradores, mas não são burros.

Se o fosssem, um não estaria no Supremo e outro, na presidência do Senado.

Em duas fotos, Alcolumbe é o retrato da podridão aspirada como se fosse seiva de alfazema


Sem brincadeira, uma foto é uma foto.

Quando a sensibilidade e o timing jornalístico do fotógrafo aliam-se à leitura correta do editor, temos o que pode ser visto nas duas fotos que temos aí.

Fiz questão de manter as legendas e os créditos.

Ambas traduzem um mesmíssimo momento, captado no exato segundo - ou segundos - pelos fótógrafos presentes no cenário do fato jornalístico.

A foto do alto está na primeira página de O Globo desta sexta (01), com um corte mais horizontal.

A de cima, igualmente, está numa primeira da página, mas da Folha de hoje, com um corte um pouco mais vertical.

As duas são o que há de melhor para expressar a conjuntura política que exibiu, nesta quinta (30/04), um Congresso escandalosamente desavergonhado, ao derrubar veto presidencial e, em consequência, aprovar alterações nas penas dos golpistas, fascistas e bolsonaristas que participaram do 8 de Janeiro, favorecendo-os despudoradamente sob a justificativa de que as punições que receberam teriam sido desproporcionais aos atos infames e criminosamente hediondos que praticaram.

Nas fotos, David Alcolumbre, presidente do Senado, parece mergulhar no colo de Flávio Bolsonaro, relaxando-se, aliviando-se, extasiando-se e aspirando - haurindo, diram os poestastros românticos -, como se fosse uma seiva de alfazema, os odores pútridos da extrema-direita e do Centrão, ambos mancomunados para livrar não a Débora do Batom et Caterva - ou Débora do Batom & Corja -, mas Jair Bolsonaro, um excremento humano que cumpre pena de prisão, justamente, por ter comandando a tentativa de golpe.

Se vocês prestarem bem atenção, na foto da Folha Alcolumbre parece estar com o olho direito um pouco, um pouquinho mais fechado em relação ao momento captado na foto de O Globo.

Não é demais imaginarmos que, se o aconchego demorasse poucos segundos a mais, o presidente do Senado dormiria, anestesiado pelas podridões malcheirosas exaladas por uma casa que, dizemos todos nós, é a casa da democracia.

É?